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RAUL DE LEONI

1895 – 30 de outubro, nasce em Petrópolis, Estado do Rio, Raul de Leoni Ramos, terceiro filho do magistrado Carolino de Leoni Ramos e de D. Augusta Villaboim Ramos.

1903 – Cursa o primário e, a seguir, o secundário, no Colégio Abílio, em Niterói.
1910 – 11 de setembro: faz a Primeira Comunhão aos quinze anos, na Capela do Colégio São Vicente, dos padres Premonstratenses, em Petrópolis, onde se encontra internado.

1912- Matricula-se da Faculdade Livre de Direito do Distrito Federal, colando grau de bacharel em Ciências Jurídicas e Sociais, quatro anos mais tarde.

1913 – 9 de abril: parte para a Europa, indo visitar a Inglaterra, França, Itália, Espanha e Portugal. Impressiona-se com Florença, única cidade nominalmente decantada em seu livro.

1914 – De volta ao Rio de Janeiro, inicia colaboração literária nas revistas Fon-Fon e Para-Todos, colaborando mais tarde em O Jornal (1919), no Jornal do Comércio e no Jornal do Brasil.

1918 – 13 de março: é nomeado, por Nilo Peçanha, Ministro das Relações Exteriores no governo Wenceslau Brás, para ao cargo de Secretário da Legação do Brasil em Cuba, não chegando a assumir, regressando da Bahia.

1919 – Após declinar da sua nomeação para cargo idêntico, em nova Legação junto ao Vaticano, aceita ir para Montevidéu, onde permanece por três meses, para logo definitivamente abrir mão da Diplomacia. É eleito Deputado à Assembléia Fluminense. Publica seu primeiro livro de poemas: Ode a um poeta morto, dedicado à memória de Olavo Bilac.

1920 – 8 de setembro: contrata casamento com Ruth Soares de Gouvêa. Ruth morava na rua Floriano Peixoto, 93, Petrópolis.

1921 – 6 de abril: casa-se com Ruth, sendo celebrante Frei Luiz Reinke, OFM. Passa a morar na rua das Paineiras, 19, em Botafogo, Rio de Janeiro.

1922 – Publica Luz mediterrânea, e começa a colaborar no jornal O Dia.

1923 – Adoece do pulmão, abandonando o convívio de parentes e amigos, indo para Corrêas, e a seguir, Itaipava, licenciando-se do cargo de inspetor na companhia de seguros em que trabalhava.

1926 – 21 de novembro: morre, na Vila Serena, em Itaipava, Petrópolis, hoje condomínio Alexandre Mayworm, vitimado por fimatose (invasão de ambos os pulmões). O sepultamento ocorreu às 11 horas, sendo a missa de corpo-presente realizada pelo Frei Luiz Reinke OFM, grande amigo da família, e por quem Raul chamava nas suas crises mais sérias.

“Existe em Raul de Leoni um curioso procedimento técnico-estilístico a aproxima-lo, e não por acaso, da poesia de Augusto dos Anjos... foi neoparnasiano de fortes acentos simbolistas, não fugiu a influência de sua própria geração. Raul de Leoni legou-nos uma obra pequena, mas significativa e singular, que certamente ainda há de ser muito lida e estudada enquanto houver interesse pela grande e genuína poesia do nosso tempo”.
Fernando Py (Poeta, crítico literário e tradutor)

POEMAS
A HORA CINZENTA ARGILA

Desce um longo poente de elegia
Sobre as mansas paisagens resignadas;
Uma humaníssima melancolia
Embalsama as distancias desoladas...

Longe, num sino antigo, a Ave-Maria
Abençoa a alma ingênua das estradas;
Andam surdinas de anjos e de fadas,
Na penumbra nostálgica, macia...

Espiritualidades comoventes
Sobem da terra triste, em reticência
Pela tarde sonâmbula, imprecisa...

Os sentidos se esfumam, a alma é essência
E entre fugas de sombras transcendentes,
O pensamento se volatiliza...

Nascemos um para o outro, dessa argila
De que são feitas as criaturas raras;
Tens legendas pagãs na carnes claras
E eu tenho a alma dos faunos na pupila...

Às belezas heróicas te comparas
E em mim a luz olímpica cintila,
Gritam em nós todas as nobres taras
Daquela Grécia esplêndida e tranqüila...

É tanta a glória que nos encaminha
Em nosso amor de seleção, profundo,
Que (ouço de longe o oráculo de Elêusis),

Se um dia eu fosse teu e fosses minha,
O nosso amor conceberia um mundo,
E do teu ventre nasceriam deuses...

DECADÊNCIA TRANSUBSTANCIAÇÃO

Afinal, é o costume de viver
Que nos faz ir vivendo para a frente.
Nenhuma outra intenção, mas, simplesmente
O hábito melancólico de ser...

Vai-se vivendo... é o vício de viver...
E se esse vício dá qualquer prazer à gente.
Como todo prazer vicioso é triste e doente,
Porque o Vício é a doença do Prazer...

Vai-se vivendo... vive-se demais,
E um dia chega em que tudo que somos
É apenas a saudade do que fomos...

Vai-se vivendo... e muitas vezes nem sentimos
Que somos sombras, que já não somos mais nada
Do que os sobrevivente de nós mesmos!...

Esta chance em que existo há de tornar-se um dia,
Em húmus germinal, em seiva fecundante,
Decompondo-se em Pó, há de ser a energia
De vidas que sobre ela hão de viver adiante...

Será fonte, Princípio, a tábida apatia
De um movimento novo intérmino e constante,
Sua ruína será a feraz embriogenia
De outros tipos de Vida, instante para instante.

Há de um horto florir por sobre o seu passado.
Borboletas iriais e anêmonas olentes,
Vidas da minha Morte, eu mesmo transformado...

E, assim, irei buscando a Perfeição perdida,
Vivendo na Emoção de seres diferentes
Que a Morte é a transição da Vida para a Vida...

DESCONFIANDO “ ALMAS DESOLADORAMENTE FRIAS...”

Tu pensas como eu penso, vês se eu vejo,
Atento tu me escutas quando falo;
Bem antes que te exponha o meu desejo
Já pronto estás correndo a executá-lo.

Achas em tudo um venturoso ensejo
De servir-me a verdade num gracejo.
Serias, se eu quisesse, o meu cavalo...

Mas não penses que estólido eu te creia
Como um Patroclo abnegado, não
De todos os excessos de receia...

O certo é que, em rancor, por dentro estalas;
Odeias-me quem eu sei, mas, histrião,
Beijas-me as mãos por não poder cortá-las...

Almas desoladoramente frias
De uma aridez tristíssima de areia,
Nelas não vingam essas suaves poesias
Que a alma das cousas, ao passar, semeia...

Desesperadamente estéreis e sombras
Onde passas (triste aura que as rodeia!)
Deixam uma atmosfera amarga, cheia
De desencantos e melancolias...

Nessa árida rudeza de rochedo,
Mesmo fazendo o bem, sua mão é pesada,
Sua própria virtude mete medo...

Como são tristes essas vidas sem amor,
Essas sombras que nunca amaram nada,
Essas almas que nunca deram flor...