Entrevista Dr. Jorge Ferreira Machado

O senhor sempre professou a medicina?
Sim. Com 20 anos me formei pela Faculdade de Medicina da Bahia e exerci a profissão até meus 90 anos.
Qual a área que o senhor mais atuou?
Inicialmente trabalhei em clínica geral.Com o passar do tempo procurei me dedicar às doenças do aparelho digestivo, notadamente à clínica das doenças do estomago e duodeno e às doenças da patologia hepato-biliar.
O senhor é a favor do aborto?
Não. Sempre preferi usar o tempo da consulta em aconselhamento com os pacientes que procuravam o aborto como uma solução, mostrando a elas o lado perigoso ao qual elas iriam deixar-se entregar, convencendo-as a dar continuidade à gravidez..Do ponto de vista puramente médico, o aborto é absurdamente condenável.Vai contra os princípios da própria profissão.
Neste ponto, a igreja católica segue uma prática conservadora capaz de enfrentar a responsabilidade de um tratamento eficaz a ponto de levar a bom termo a decisão da paciente.
Sabemos que o senhor é extremamente religioso.Como o senhor vê a nossa Igreja Católica hoje?
A Igreja Católica continua irretocável desde quando fundada por Jesus Cristo e que teve a continuidade por Maria e seus apóstolos, desempenhando a missão de, como mãe, acolher a todos, independentemente de como ela se dirige. E como mestra tem o dever de direcionar a seus fieis os ensinamentos que possam corresponder ao magistério da igreja
Além da Medicina que outras atividades o senhor exerceu ao longo de sua vida?
Além da Medicina, integro o Quadro da Academia Petropolitana de Letras como membro titular da cadeira 24 que é patronímica do romancista e poeta Bernardo Guimarães. Nesta Academia exerci o cargo de presidente nos anos de 1972/73.
Sou membro emérito do Instituto Histórico de Petrópolis.
Durante 25 anos fui professor no Curso de Fisioterapia na Universidade Católica de Petrópolis, na cadeira de Patologia dos Órgãos e Sistemas.
Durante 6 anos me dediquei ao Curso de Teologia para Leigos, no Instituto Teológico Franciscano.
O senhor aprecia a poesia? Já fez algum trabalho neste sentido?
Sim. Tenho 3 poesias publicadas no livro “Retratos do Tempo” coordenado por Sérgio Cabral.
Poderia nos mostrar algum poema de sua autoria?
Sendo médico, transcrevo meu poema:
A VOCAÇÃO DO MÉDICO
Sublime vocação a de ser médico!...
Feliz daquele que ouviu o misterioso apelo!
A voz, só por ele audível,
A falar-lhe ai íntimo:
Ouve, prepara-te... e segue o teu caminho...
A tua missão é curar.
Não será sempre tranqüila a tua vida.
Terás momentos felizes.
Sentirás muitas vezes alegrias
Por vezes teu esforço recompensado.
Venceste a batalha! Teu doente foi curado!
A tua presença, para ele é motivo de felicidade.
Haverá, todavia, momentos de tristeza...
Perdes-te, neste caso, a batalha!
Baldado foi o teu esforço!
Deste a este, entretanto, o mesmo que ao outro:
Amor, carinho, devotamento,
Deste-lhe todo seu saber,
Porque não dizer... a tua vida!
Quantas noites insones, pensando no
Que fora feito, no que devias ou
Poderias ainda fazer!
És homem...és limitado!
Eis que aquela voz volta a ressoar
Em seu íntimo a fazer lembrada
O anterior apelo:
Ouve...segue o teu caminho...
A tua missão é curar!...
E o médico, abatido pela dor da batalha
Perdida,
Revê tantas outras fisionomias alegres,
A ele reconhecidas
Sente-se novamente feliz.
Readquire o ânimo. Volta-lhe a coragem!
E olhando para o doente,
Como se ao próprio Cristo visse,
Sente feliz em prover com amor o seu novo enfermo,
A quem agora vai se dedicar,
Prosseguindo no caminho que foi chamado.
Entrevista prof. Paulo Machado C. Silva
1 - Fale um pouco sobre a trajetória do senhor. na educação.
Minha formação cultural foi feita em um seminário na cidade de Santa Catarina onde cursei Filosofia e o primeiro ano de Teologia.O Cardeal Câmara, Reitor do Seminário, foi meu grande incentivador para a literatura .Isto foi de 1930 a 1938.Na parte da tarde líamos diversos livros e o gosto pela literatura foi adquirido ali.
2 - O senhor é advogado e professor.Qual a sua verdadeira vocação?A vida jurídica ou o magistério?
A minha vocação é o magistério eu me preparei para isto. As grandes alegrias que tive no trabalho foi na participação e triunfo dos alunos. Lecionei na PUC no Rio e na UCP em Petrópolis. Fui procurado por alguns alunos para dar um curso de Direito Romano o que me deixou muito feliz.
3 - E na literatura.Como é a poesia em sua vida?
Eu gostava de ler Alexandre Herculano, Castro Alves, e tantos outros mas não conseguia fazer uma poesia.Toda palestra ou conferência sobre poetas eu comparecia.Custei muito a entender a poesia moderna e perceber a poesia que está atrás daquela forma.
Eu já escrevi coisas botando poesia na prosa.
4 - E sua atuação na vida pública?O que esta experiência deixou de positivo?
Desde garoto me interessava pela política e pelas pessoas mas não me envolvia. Meu irmão Daniel me levou ao PDC e me fizeram candidato a vereador na última hora.Não esperava grandes resultados mas fui eleito.Fui vice presidente da Câmara e no período da Revolução fui presidente da Câmara de 1965 a 1966. Fui também candidato a Prefeito mas perdi.Depois disso saí da política.Fui chamado para trabalhar nesta assessoria política onde estou até hoje.
5 - O senhor. também é um historiador.Quer nos falar sobre isso? Pretende publicar todo este conhecimento num livro?
Quando presidente da Câmara tentei escrever sua história através das atas junto com o professor Lacombe.Este projeto, porém, foi cancelado. Mais tarde junto com o Museu fizemos as atas do Império. Quero agora fazer o mesmo trabalho com a República, mas estou aguardando ajuda. Ainda não consegui realizar este sonho.Eu ainda não escrevi um livro mas sim artigos para publicações.Estou preparando um arquivo sobre a história da Ordem Terceira no Brasil e no mundo a partir do ano de 1950.
7 - Como o senhor. vê a vida cultural de nossa cidade?
Desde o tempo do Batalhão eu procurei acompanhar a vida cultural de nossa cidade Eu tinha volumes da comissão do Centenário onde havia estudos sobre a história da cidade. Eu sou o mais antigo do Instituto Histórico e fui presidente por 3 períodos.Participei de um congresso histórico aqui na cidade e em meu mandato realizei um seminário e um simpósio.Quando foi criado o conselho de cultura do Estado eu fui vice presidente deste conselho e nesta ocasião criou-se aqui na Comarca um Conselho de Cultura.
Hoje a vida cultural circula em torno de dois pontos o Silogeu e o Museu Imperial. Com todas as promoções que fazem a cidade deveria ser mais interessada e apoiar mais estas atividades culturais.
8 - Ter saudades é viver de novo.Do que o senhor. tem saudades?
Há coisas que recordo com alegria.Exemplo o período do terceiro ano ginasial foi um ano fantástico.Tirei 10 na prova final de português.Outros momentos eu recordo com alegria Se viver de novo, queria passar tudo que passei porque tudo foi forma de crescer e desenvolver.
9 - O que é uma pessoa feliz.O senhor.se julga uma pessoa feliz?
Eu me sinto feliz.As vezes me preocupo e penso: Será que estou fazendo o que devo fazer?Isto me dá uma tranqüilidade na alma e na consciência.A minha felicidade é de tranquilidade,
10 - De sua experiência que mensagem o sr. deixaria para os poetas?
Desejo para os poetas que continuem ativos.Poesia é uma sublimação da conversação.A poesia não se limita ao chão ela faz a mesma coisa com sentido de elevação, pelo bonito e pelo que agrada.
” O dia que a poesia acabar o mundo acaba.”
(abril de 2008)
Entrevistadora : Julia Gouvêa Schaefer |