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Pensando o Texto

Leila Seabra

1 - Metatexto - Discurso da crítica
2 - O sobrevivente
3 - Comendadores Jantando
4 - Lição sobre a água
5 - Ismália
6 - Poemas Metalinguísticos:
7 - Cantarilho

8 - Reflexões sobre criação e consumo

6 - Poemas Metalinguísticos

 SABOR DE LARANJA

                                       Fernando Augusto Magno

“Meu verso nasce duro como pedra
Às vezes áspero e pontudo.
Preciso cortar. Esculpir. Bater forte. Ajeitar-lhe um jeito.
Tem vez é fácil de trabalhar.
Outros há, dura tempo.
Bem que gostaria de escrevê-los como quem chupa laranja:
Sentindo o caldo a escorrer-me macio dentro da boca”.

Encontramos o poema “Sabor de laranja” no livro O DIA DO CANTO IMAGINADO. Segundo Carmen Felicetti, a poesia de Magno é madura, firme, musical e moderna, que encontra em nós todas suas ressonâncias.
O poema acima apresenta um discurso metalinguístico. Através de comparações “duro como pedra”, “como quem chupa laranja” e sinestesias “duro, áspero , pontudo, macio” o poeta questiona seu fazer poético. As antíteses “Tem vez é fácil de trabalhar. Outros há, dura tempo” revelam a eterna dialética entre o ideal e o real, entre o ser e o não-ser da poesia.

POESIA I

                Gustavo Wider

“A poesia é cíclica
imprevista a inspiração
às vezes nos vem a preencher vazios
outras, por acúmulo à emoção.

(eu vi uma esperança esmagada no chão)

Às vezes nos assoma intempestiva
e plena
em outras, desgruda-se das palavras
foge, escoa-se entre rimas
e tanto se esquiva
que nem vale a pena...

(e a esperança morreu esmagada no chão)”

POESIA II

                 Gustavo Wider

“A poesia mora nas palavras
assim como o reflexo no cristal
iluminado
multifacetado,
há sempre um ângulo em que o cristal
emite uma luz unidirecional,
assim como, das palavras, a poesia.

A poesia mora nas palavras
Assim como uma sombra existe, imanente
Imersa na escuridão
Depende só de percepção”.

Poesia I e Poesia II abrem o livro PORTAS ABERTAS de Gustavo Wider, poeta petropolitano cujos poemas ” são, em sua quase totalidade, modernos, de forma livre por onde sua inspiração flui leve e solta”.
No primeiro poema, Gustavo declara que a poesia é cíclica, que às vezes é “ plena e em outras foge, esquiva-se “. Essa ambigüidade revelada pelo autor demonstra que a poesia depende da modalidade de ser do homem. Em sua interioridade, o homem é poesia e a expressão poética pode se manifestar ou não, depende do momento e da inspiração para traduzir as sensibilidades e paixões.
No segundo poema, Gustavo enfatiza que a poesia mora nas palavras assim como o reflexo no cristal e poeta é aquele que é capaz de explorar o poético nos signos lingüísticos e através deles criar imagens múltiplas.
A poesia não existe por si só, ela existe através de um diálogo com o outro. Ela é um código, cujo deciframento depende da leitura que se faz. Ler é uma maneira de reescrever o texto, apreendê-lo, percebê-lo, já que a poesia é um espaço aberto, habitado pelo silêncio e pelo nada e, como sabemos, o nada é surpreendentemente ativo:”Depende só de percepção”.

 

EXERGO

                Murilo Mendes (1971)

“Lacerado   pelas    palavras-bacantes
Visíveis    tácteis   audíveis
Orfeu
Impede  mesmo  assim  sua  diáspora
Mantendo-lhes  o  nervo & a ságoma
Orfeu   Orftu  Orfele
Orfnós  Orfvós  Orfeles”.

Para uma compreensão do texto é necessário apreender Orfeu como poeta e como mito. No primeiro verso encontramos o poeta em sua luta com as palavras, o que é intensificado pelo adjetivo “lacerado”. No segundo verso as palavras estão personificadas, elas são ”visíveis, táteis, audíveis”.
Orfeu, dilacerado pelas tentações, demonstra que as visões do mito não acabariam, pelo contrário, permaneceriam . Isto nos é demonstrado no quinto verso “mantendo-lhes o nervo ( a tensão poética) & a ságoma ( palavra italiana que significa no poema silhueta, perfil ).
ORF = POESIA= ENTRETEXTO (poeticidade).
ORF-eu, ORF-tu, ORF-ele, ORF-nós, ORF-vós  infere uma idéia de atemporalização, de infinito. É com ORF-eles que se consegue  finalmente a totalidade .
Nesse poema encontramos a auto-afirmação épico-existencial de um Murilo Mendes, fundamente sintonizado com o seu tempo, isto é, de um Murilo que se funde com todos os homens do “Eu-coletivo” que vive em ORFEU. Um poeta que, apesar de dilacerado pela luta que mantém com as palavras, não se deixa atingir pela diáspora: permanece uno e íntegro como o exige a poesia.

 

ANTES DO NOME

                               Adélia Prado

“Não me importa a palavra, esta corriqueira.
Quero é o esplêndido caos de onde emerge a sintaxe,
os sítios escuros onde nasce o “de”, o “aliás”,
o “o”, o “porém” e o “que”, esta incompreensível
muleta que me apóia.
Quem entender a linguagem entende Deus
cujo Filho é Verbo. Morre quem entender.
A palavra é disfarce de uma coisa mais grave, surda-muda,
foi inventada para ser calada.
Em momentos de graça, infreqüentíssimos,
se poderá apanhá-la: um peixe vivo com a mão.
Puro susto e terror”.

O poema pertence ao livro BAGAGEM e apresenta uma distribuição irregular de versos brancos e livres, o que o insere dentro da estética modernista.
A alusão à sintaxe, no segundo verso, está associada às inter-relações entre as palavras que compõem o texto e suas diferentes  funções.
O poema demonstra a eterna luta dos poetas com a palavra, que assume vários significados dentro do texto. Adélia não quer a palavra corriqueira, mas a surda-muda, a que foi inventada para ser calada. Na poesia não cabe o vulgar, mas a angústia do não-ser que é o nada e, como sabemos, o nada é o percurso para o ser.
Adélia chama à atenção para a carga significativa de cada palavra dentro do verso, ao mesmo tempo em que declara a dificuldade de expressar o que se sente e quando se consegue é “puro espanto e terror”.
Vimos como a língua é ainda um grande mistério, seja na sua organização, seja na forma como nos apropriamos dela. Esse mistério fascinou Fernando Augusto Magno, Gustavo Wider, Murilo Mendes, Adélia Prado e tantos outros poetas, como Manoel de Barros e Carlos Drumond de Andrade:

“Agora só espero a despalavra: a palavra nascida
para o canto- desde os pássaros.
A palavra sem pronúncia, ágrafa.
Quero o som que ainda não deu liga.
Quero o som gotejante das violas de cocho.
A palavra que tenha um aroma cego.
Até antes do murmúrio.
Que fosse nem um risco de voz.
Que só mostrasse a cintilância dos escuros.
A palavra incapaz de ocupar o lugar de uma
imagem.
O antesmente verbal: a despalavra mesmo”.

                    (BARROS, Manoel de. Retrato do artista quando coisa)

 

“Penetra surdamente no reino das palavras.
Lá estão os poemas que esperam ser escritos
Ei-los sós e mudos, em estado de dicionário.
Chega mais perto e contempla as palavras.
Cada uma
Tem mil faces secretas sob a face neutra
e te pergunta, sem interesse pela resposta,
pobre ou terrível, que lhe deres.
Trouxeste a chave”?

                               (Carlos Drumond de Andrade)

Conforme vimos, os poemas acima se identificam quanto à temática abordada, a despeito das óbvias e inevitáveis diferenças que os distinguem entre si.
Todos indagam sobre o ser da literatura, sobre a obra em si mesma, sobre o desejo de sentir e perceber o mundo sem a mediação da linguagem verbal, embora sejamos seres constituídos de linguagem.

Os poemas apresentam um discurso sobre outro discurso(metalinguagem) e é nesse questionamento que reside a sua poeticidade.

 

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