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Pensando o Texto

Leila Seabra

1 - Metatexto - Discurso da crítica
2 - O sobrevivente
3 - Comendadores Jantando
4 - Lição sobre a água
5 - Ismália
6 - Poemas Metalinguísticos:
7 - Cantarilho

8 - Reflexões sobre criação e consumo

5 - ISMÁLIA                   

Quando Ismália enlouqueceu,
Pôs-se na torre a sonhar
Viu uma lua no céu,
Viu outra lua no mar.

No sonho em que se perdeu,
Banhou-se toda em luar...
Queria subir ao céu.
Queria descer ao mar...

E, no desvario seu.
Na torre pôs-se a cantar...
Estava perto do céu.
Estava longe do mar.

E como um anjo pendeu
As asas para voar...
Queria a lua do céu,
Queria a lua do mar...

As asas que Deus lhe deu
Ruflaram de par em par...
Sua alma subiu ao céu,
Seu corpo desceu ao mar...

ISMÁLIA é um poema de Alphonsus de Guimaraens, pseudônimo literário de Afonso Henriques da Costa Guimarães, um dos principais representantes da poesia simbolista
no Brasil. A temática de Alphonsus é constante: seus poemas falam da morte da mulher amada, que se converte em ideal a ser alcançado pelo aprimoramento espiritual. A essa concepção platônica de amor se somam dois outros temas: a devoção religiosa de fundo católico e a morte.
Influenciados pela psicologia de Freud e pelas filosofias espiritualistas da época, as quais devassavam o inconsciente e o subconsciente do homem, os novos poetas simbolistas procuravam a realidade conforme a intuição individual. Era a alma das coisas que o poeta devia transfigurar em arte e isso só poderia acontecer através de uma linguagem simbólica, configurada pela emoção e não pelo conhecimento real e objetivo da coisa. Colocando-se no extremo oposto ao do realista, que só acreditava no conhecimento direto e objetivo da realidade, o simbolista vem expressar uma nova concepção do Homem e do Universo.
Vamos, portanto, pensar o poema dentro da estética simbolista.
Alphonsus de Guimaraens apresenta em suas poesias motivos e formas típicas da lírica medieval. Em ISMÁLIA, podemos observar que ele utiliza redondilhas maiores e rimas cruzadas e ricas.
A musicalidade é suave e agradável, integrando-se perfeitamente à simplicidade da linguagem.
Podemos interpretar a figura de Ismália como o símbolo do forte desejo humano de conhecer a totalidade do Universo. Através das antíteses que representam os desejos contraditórios dela é que se desenvolve uma realidade espiritual e uma realidade concreta. Ela tanto quer a lua do céu como a lua do mar, isto é, deseja alcançar o plano ideal (céu) e sua projeção na nossa realidade mais imediata (mar). Para alcançar esse plano ideal é preciso uma abertura, uma passagem de um mundo para outro, é preciso libertar-se das limitações da realidade, diferenciar-se das pessoas comuns. A loucura é que oferece a Ismália uma percepção privilegiada, pois é com” a loucura que o rotineiro se rompe e uma regeneração cósmica se dá, uma regeneração do homem com o mundo. É uma fenda, o real se abre e revela-se o oculto. (Foucault)”. Eis aqui uma ambigüidade: a regeneração do mundo está na loucura, que pode levá-lo, simetricamente, à destruição e a destruição é a possibilidade de um recomeço.
A história desse sonho de regeneração, objeto de estudo e indagação dos alquimistas, é um tema apreciado e abordado pelos simbolistas: o estar seguro da destruição final, mas tranqüilo quanto à nova regeneração, seguro do eterno recomeçar das coisas.
O último verso “seu corpo desceu ao mar...” conduz-nos ao primitivo, pois a água com sua amorfia é o indiferenciado, é o CAOS primordial. A imersão do corpo de Ismália na água é o retorno ao pré-formal, onde um novo ser poderá surgir.

Vimos nesse poema que Alphonsus de Guimarães consegue, através de Ismália, realizar o desejo simbolista da transcendência espiritual. Através de sua morte, que equivale a uma forma de ascese “sua alma subiu ao céu”, ela ultrapassa a realidade concreta, integrando-se ao COSMO.

 

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