El contenido de esta página requiere una versión más reciente de Adobe Flash Player.

Obtener Adobe Flash Player

 
PENSANDO O TEXTO

LEILA SEABRA

Sócia Correspondende 1129
Petrópolis - RJ - Brasil

1 - Metatexto - Discurso da crítica
2 - O sobrevivente
3 - Comendadores Jantando
4 - Lição sobre a água
5 - Ismália
6 - Poemas Metalinguísticos
7 - Cantarilho
8 - Reflexões sobre criação e consumo
9 - Fernando Sabino e o "Encontro Marcado".
10 - Nota Social
11 - Pobre Velha Música - Fernando Pessoa

NOTA SOCIAL

Carlos Drummond de Andrade

O poeta chega na estação.
O poeta desembarca.
O poeta toma um auto.
O poeta vai para o hotel.
E enquanto ele faz isso
como qualquer homem da terra,
uma ovação o persegue
feito vaia.

Bandeirolas
abrem alas.
Bandas de música. Foguetes.
Discursos. Povo de chapéu de palha.
Máquinas fotográficas assestadas.
Automóveis imóveis.
Bravos ...
O poeta está melancólico.

Numa árvore do passeio público
(melhoramento da atual administração)
árvore gorda, prisioneira
de anúncios coloridos,
árvore banal, árvore que ninguém vê
canta uma cigarra.
Canta uma cigarra que ninguém ouve
Um hino que ninguém aplaude.
Canta, no sol danado.

O poeta entra no elevador
O poeta sobe
O poeta fecha-se no quarto.

O poeta está melancólico.

O poema "Nota Social" está presente em ALGUMA POESIA, livro inaugural de Drummond , publicado em 1930.
O título refere-se a um tipo de coluna social, que começava a ganhar espaço nos jornais da época, segmento onde Drummond atuava como redator.
O poema, numa linguagem referencial, registra um acontecimento, que é a chegada do poeta em uma cidadezinha do interior durante uma comemoração pública.
O gênero do poema é predominantemente narrativo, característica não muito comum na expressão lírica. Todos os versos da 1ª estrofe são formados por orações coordenadas e revelam ações que valem por si só, são finalizadas pelo ponto final, afastam qualquer subjetividade. Os versos 7 e 8 inferem um questionamento: a ovação é destinada a ele, o poeta, ou é ele que não consegue se desvencilhar dela que nem sabe de sua existência.
A segunda estrofe passa do narrativo para o descritivo e demonstra elementos que caracterizam uma comemoração interiorana. As ações desaparecem e surge uma acelerada descrição que evidencia uma discordância entre o poeta e o ambiente. Na festa cabe a alegria, mas o poeta está melancólico. Ele não cabe nesse mundo que fez a opção de comemorar. A antítese entre a festividade versus a intimidade melancólica do EU do poeta faz-nos pensar se a sociedade moderna precisa da figura do poeta.
O ponto alto do poema está nas duas metáforas presentes na terceira estrofe: "árvore gorda" e "árvore banal". A árvore gorda cheia "de anúncios coloridos" reflete o consumo e a árvore banal, onde uma cigarra (poeta) canta "um hino que ninguém aplaude", reflete o esvaziamento da subjetividade. Ela "canta, no sol danado" sugere a morte da cigarra, do poeta, portanto. Evidencia-se a morte da subjetividade pela afirmação do mundo dos objetos num processo de reificação.
A quarta estrofe apresenta também orações coordenadas, mas essas orações destoam das que abrem o poema, pois não contêm ponto final. O ponto final só aparece no verso " O poeta fecha-se no quarto" porque quer acentuar a única alternativa que resta ao poeta: seu isolamento devido a sua fragilidade.
A morte da cigarra não é explícita, mas sugere a morte do mundo propício à existência da poesia e consequentemente do poeta.
"Nota Social" é uma notificação à sociedade sobre um dos aspectos da vida moderna: o progressivo esvaziamento da subjetividade, em função da massificação crescente, principalmente nos grandes centros. Onde poderá se esconder o ser que se recusa a viver numa realidade que banaliza a palavra e valoriza o consumo, a mercadoria?
Sob esse quadro, desenha-se o perfil do isolamento trágico desse ser que, perdendo sua importância, invibializa o sentido da própria existência.
Num contexto de excitação ao qual a sociedade moderna se entrega ele não encontra o seu espaço , daí a "melancolia" como o estado final do ser e seu isolamento.