LEILA SEABRA

Sócia Correspondende 1129
Petrópolis - RJ - Brasil
1 - Metatexto - Discurso da crítica
2 - O sobrevivente
3 - Comendadores Jantando
4 - Lição sobre a água
5 - Ismália
6 - Poemas Metalinguísticos
7 - Cantarilho
8 - Reflexões sobre criação e consumo
4 - Lição sobre a água
Este líquido é água.
Quando pura
é inodora, insípida e incolor,.
Reduzida a vapor,
sob tensão e a alta temperatura.
move os êmbolos das máquinas, que, por isso,
se denominam máquinas de vapor.
É um bom dissolvente.
Embora com exceções mas de um modo geral,
dissolve tudo bem, ácidos, bases e sais.
Congela a zero graus centesimais
e ferve a 100, quando a pressão normal.
Foi nesse líquido que numa noite cálida de Verão,
sob um luar gomoso e branco de camélia,
apareceu a boiar o cadáver de Ofélia
com um nenúfar na mão.
.
Esse poema pertence a Antônio Gedeão, pseudônimo de Rômulo Vasco da Gama de Carvalho, que nasceu em 1906 e faleceu em 1997, em Lisboa, Portugal.
Formado em Ciências Físico-Químicas e Letras, na Universidade do Porto, foi professor grande parte de sua vida, tendo publicado seu primeiro livro aos cinqüenta anos.
O título “Lição sobre a água” prepara-nos para uma aula de ciências. De fato, nas duas primeiras estrofes tomamos conhecimento das propriedades físicas da água e também de sua utilidade: “Quando pura é inodora, insípida e incolor.”
“ move os êmbolos das máquina “
“dissolve tudo bem, ácidos, bases e sais”.
“ Congela a zero graus centesimais
e ferve a 100, quando a pressão
O discurso é denotativo, referencial e o poeta se assemelha a um professor informan
do sobre as propriedades e funções de uma substância da natureza.
Porém, na terceira estrofe há uma mudança de tom e a presença de vários recursos poéticos. A função da linguagem não é mais didática. O uso do pretérito perfeito dá um tom de veracidade ao que se declara .Vamos observar alguns signos presentes na estrofe:”noite cálida de Verão”. O adjetivo “cálida” significa quente, ardente, apaixonado. Verão, com letra maiúscula é estação do ano, traz em si a idéia de quente, de calor, e conota alegria, vida. Isolados, esses signos não possuem carga emocional, mas juntos demonstram sensualidade, febre de amor, o fogo da paixão. “Luar branco de camélia”, assim associados, intensificam a idéia de brancura, alvura e nos remetem à leveza, à pureza e à alegria dos casais que trocam juras de amor numa noite enluarada. “Gomoso” é um derivado de goma ( seiva translúcida e viscosa de alguns vegetais ) que nesse contexto pode significar o que prende, o que arrebata. O que encontramos nos dois primeiros versos da terceira estrofe é um clima de romance, de juras de amor, que, por associação, lembra-nos vida. “Apareceu a boiar o cadáver de Ofélia” . Este verso, logo a seguir, surpreende-nos porque introduz uma idéia de morte. Há uma ruptura com o clima de alegria presente nos dois versos anteriores e uma intensificação do trágico que está contido na idéia de morte. O autor sugere a decomposição da carne. A água não é mais inodora, pois não está mais em estado de pureza. Ofélia lembra-nos outra Ofélia, a personagem criada por Shakespeare que, enlouquecida de dor, morre afogada ao descobrir seu pai morto por Hamlet, o homem amado. A evocação desse nome dá ao texto a dimensão da tragédia: o poema se transforma em um espaço cênico onde fazemos o percurso estranho, paradoxal e absurdo da existência. Vejamos o último verso “ com um nenúfar na mão”. Nenúfar ( planta ninfeácea da família de grandes ervas aquáticas, floríferas ) traz de volta o clima de harmonia, beleza, um ambiente povoado de ninfas ( divindades fabulosas dos rios, bosques e montes ). Logo, a imagem“cadáver com um nenúfar na mão” forma uma antítese de morte e vida, decomposição e juventude, mal cheiro e perfume.
O fenômeno poético é o único que apresenta contradições sem que elas sejam contra-senso, mas para criar uma abertura para o ilimitado, permitindo várias leituras.
Revendo todo o poema, podemos dizer que as duas primeiras estrofes dizem mais do que aparentam. A disposição dos versos, a presença de rimas, a ocorrência de idéias contrárias “congela a zero graus e ferve a 100”, demonstram que o autor dá à água uma dimensão mítica. Em química, ela é um solvente universal “dissolve tudo bem, ácidos, bases e sais”, mas também funde elementos, mantendo cada um suas propriedades ( cadáver de Ofélia com um nenúfar na mão).
Nos poemas de Antônio Gedeão há uma simbiose perfeita entre Ciência e Poesia, entre a vida e o sonho, entre o real, a lucidez e a esperança. No poema “Lição sobre a água” a ciência e a poesia se integram para demonstrar o questionamento dos contrários: o sentido denotativo da água ( fonte de vida ) e o conotativo ( fonte de morte ). Assim, chega-se ao plano do mito: a água encerra em si a contradição, que é uma característica da natureza humana.
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