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Joanyr de Oliveira
foi um grande trabalhador literário. Além dos livros no gênero
que o consagrou, a poesia, publicou contos e um romance, escreveu
crônicas para o rádio, manteve colunas de literatura em
jornais, dirigiu revistas, foi sócio fundador da Associação
Nacional de Escritores (ANE), que presidiu, até recentemente.
Faleceu na manhã do dia 5 de dezembro de 2009, no Hospital Santa Helena em Brasília
ANDERSON BRAGA HORTA - Especial para o
Jornal Opção
Joanyr de Oliveira nos deixou na manhã
do dia 5 deste dezembro. Foi sepultado no dia seguinte, exatamente
quando completaria 76 anos. Acompanhei sua trajetória desde
os inícios de Brasília, quando aqui, recém-chegados, nos encontramos.
Da curva luminosa de sua passagem fui testemunha privilegiada.
Quando cheguei a Brasília — e isso vai completar meio século
em julho de 2010 —, vindo de Minas, de Goiás e do Rio de Janeiro,
cheguei só. A cidade, incipiente e vazia, de terras vermelhas
revolvidas e edifícios a brotar do chão como do nada, via-se
do alto como uma chaga ou uma rosa no cerrado. Mais chaga do
que rosa, nesse então...
Se a amizade é uma das coisas que dignificam o homem, naqueles
primórdios brasilienses era de certo modo uma necessidade
vital. Uma das primeiras e mais sólidas amizades que fiz aqui
— e tenho a alegria de dizer que muitos amigos
fui encontrando ou reencontrando nestas plagas, ao
longo destes muitos anos — foi Joanyr
de Oliveira. Aproximavam-nos alguns pontos em comum. Éramos ambos
mineiros, eu de Carangola, na Zona da
Mata, ele do Vale do Rio Doce, da cidade de Aimorés, onde minha
família residiu por algum tempo, nos idos de 1947. Tínhamos
pouco mais ou menos a mesma idade. Eu funcionário da Câmara
dos Deputados, em cujo serviço ele também logo ingressaria.
Ele casado já, e pai de filhos, eu nas antevésperas de constituir
família. Ele com um livrinho publicado em 1957 — “Minha Lira”,
por ele mesmo reputado imaturo —, eu iniciando um bater de
asas em antologias, uma das quais organizada
pelo infatigável Walmir Ayala. Claro
que, de todas as nossas afinidades, a Poesia era a mais notável;
mas eu afirmo que amizades duradouras e profundas requerem
mais do que essa ou qualquer outra comunidade de cultos: elas
pedem por base uma similitude de disposições de espírito
antes modais que denominativas.
Joanyr foi um grande trabalhador literário.
Além dos livros no gênero que o consagrou, publicou contos e
um romance, escreveu crônicas para o rádio, manteve colunas
de literatura em mais de um jornal, dirigiu revistas, foi sócio
fundador da Associação Nacional de Escritores (ANE), que
presidiu, até recentemente, com espírito de luta, ajudou a
criar academias; e pode-se dizer que alcançou uma posição
ímpar como antologista de poesia. Em 1962 lançou,
pela Editora Dom Bosco, “Poetas de Brasília”, no dizer de José
Roberto de Almeida Pinto “a primeira manifestação coletiva
ligada à poesia de Brasília”, e no de Napoleão Valadares,
“a primeira obra literária editada na nova Capital”. Em
1971 viria a “Antologia dos Poetas de Brasília”, pela Coordenada
Editora. Em 1982, em vez de se limitar aos poetas locais, produziu
uma antologia temática: “Brasília na Poesia Brasileira”
(Editora Cátedra, com apoio do Instituto Nacional do Livro,
de saudosa memória), saudada entusiasticamente por
Drummond, Moacir C. Lopes, João Manuel Simões, Alphonsus de
Guimaraens Filho, Murilo Rubião, José Santiago Naud, Danilo Gomes, Xênia Antunes, Antônio
Roberval Miketen, Domingos Carvalho
da Silva. De 1998 é “Poesia de Brasília” (Sette
Letras), e o coro de elogios se acresce das vozes de Ivan Junqueira,
Wilson Martins, Lêdo Ivo, Nelly Novaes
Coelho, Eduardo Dalter (da Argentina),
José Mendonça Teles, Fernando Py,
Adriano Nogueira, Guido Bilharinho, Caio Porfírio Carneiro,
Massaud Moisés, Branca Bakaj, Cyro Pimentel, Aníbal Albuquerque,
Francisco Carvalho, Wilson Pereira, Manoel Hygino dos Santos, Jason Tércio, José
Mindlin. Mencione-se ainda a organização de “Horas Vagas:
Coletânea 2”, edição do Comitê de
Imprensa do Senado Federal (1981), e de uma “Antologia da Nova
Poesia Evangélica” (1978). Embora não fosse, em rigor, uma antologia, quero lembrar aqui o primeiro
livro em que apareço, na capa, como autor, em parceria com Joanyr, mais Izidoro
Soler Guelman e
Elza Caravana: “O Horizonte e as Setas”, contos, de 1967.
O antologista deixou pelo menos esboçada
uma seleção de poetas de 1933, e preparada uma de “Poetas
dos Anos 30”,
ambas ideadas por Fernando Mendes Vianna, pouco antes de
morrer, a segunda com edição prevista para 2010, ano do cinquentenário de Brasília. Lamentavelmente,
parece que se frustraram suas tentativas de apoio financeiro...
Cabe um apelo, e o fazemos enfaticamente, à Secretaria de
Cultura do Distrito Federal, por meio do Fundo da Arte e da
Cultura (FAC) ou de qualquer outro instrumento que venha a parecer
mais adequado, para que não se cale essa nota de qualidade
nas comemorações do cinquentenário.
O poeta esteve longe de ser um acomodado. Tendo-se iniciado
no jornalismo em Vitória, fundou e dirigiu periódicos de
natureza religiosa no Rio, em São Paulo, em Goiânia e outras
cidades de Goiás. Sua ligação com este Estado não se limita
aos planos literário e religioso,
mas estende-se à política: foi subchefe do gabinete civil,
suplente de deputado estadual e o candidato à Constituinte
mais votado na coligação PDT-PJ, não tendo sido eleito por
questões de legenda. Deixou as terras cariocas pelo Planalto
Central para exercer o cargo de revisor do Departamento de
Imprensa Nacional. Na Universidade de Brasília iniciou o
curso de Filosofia Pura, vindo, entretanto, a se diplomar
em Direito pela Universidade do Distrito Federal. Pastor
evangélico, tinha a palavra fluente
e inflamada. Logo nos seus primeiros anos brasilienses tentou
o comércio; nos últimos, dedicou parte de sua energia a uma
pequena indústria; malogrou-se em ambos...
A essas e outras atividades devotou boa parte de sua grande
capacidade de trabalho, nelas realizou com garra e competência
sua missão de servir. Em verdade, porém, Joanyr
era fundamentalmente poeta. Uma vocação para a poesia como
poucas tenho visto. Muitos de nossos melhores críticos escreveram
vigorosa e positivamente sobre seu fazer poético. Um dos
que o viram mais intimamente e melhor o identificaram foi
talvez Oswaldino Marques, que, prefaciando
a antologia “Casulos do Silêncio” (Rio, 1988), sentenciava:
“Joanyr de Oliveira pensa imageticamente”,
desse modo lhe sublinhando a sintaxe nitidamente diferenciada
da sintaxe da prosa.
Se tentássemos esgotar o extenso rol dos que analisaram e
louvaram sua poesia e sua prosa, talvez este artigo não bastasse.
Claro que não o farei. Mas pode ser de utilidade lembrar — e
me proponho fazê-lo, ainda que desordenadamente — algumas
obras de referência que o contemplam. É, por exemplo, verbete
no “Dicionário Literário Brasileiro”, de Raimundo de Meneses;
na “Grande Enciclopédia Delta Larousse”; na “Enciclopédia
de Literatura Brasileira”, dirigida por Afrânio Coutinho
e J. Galante de Souza; no “Dicionário de Escritores de Brasília”,
de Napoleão Valadares; no “Dicionário de Poetas Contemporâneos”,
de Francisco Igreja; no “Dicionário Biobibliográfico de
Goiás”, de Mário Ribeiro Martins; no “International
Who´s Who in Poetry”, editado em Cambridge, Inglaterra;
no “Dicionário de Música Evangélica”, de Rolando de Nassau
(Roberto Torres Hollanda).
Ele também figura em “O Áspero Ofício”, de Almeida Fischer;
“Escritores Brasileiros ao Vivo”, de Danilo Gomes; “Meninos,
Eu Li!”, de Alan Viggiano; “Poesia de
Brasília: Duas Tendências”, de J. R. de
Almeida Pinto; “O Cristal e a Chama”, de Maria da Glória Barbosa;
“Depoimento Literário” e “Literatura na Criação de Brasília”,
de Ézio Pires; “A Literatura Brasiliense”, de Wilson Pereira;
“Testemunhos de Crítica”, de José Augusto Guerra; “Prismas,
Literatura e Outros Temas”, de Ronaldo Cagiano;
“Diálogos Sobre a Poesia Brasileira”, de Temístocles Linhares;
“Antologia Comentada de Literatura Brasileira”, de Magaly Trindade Gonçalves, Zélia Thomaz de
Aquino e Zina C. Bellodi;
e (não posso omitir-me) “Sob o Signo da Poesia — Literatura
em Brasília”, deste articulista. Joanyr
mereceu estudo de Fritz Teixeira de Sales na revista “Encontros
com a Civilização Brasileira” e de Adércio Simões Franco no
“Suplemento Literário do Minas Gerais”;
e mais haveria a respigar, se tempo houvera.
Joanyr sofria de diabetes, mal insidioso
a que não dava o devido respeito; em consequência
dele, perdeu uma das vistas e ficou com a outra fortemente
comprometida. Não se deixou abater, e prosseguiu sua luta.
Com o passar dos anos, porém, o mal ia-lhe
minando o organismo. Ultimamente podia-se-lhe
notar alguma alteração de humor, alguma mudança de gênio.
Em fevereiro deste ano, compôs um poema decididamente
amargo, intitulado “Despedida”: “Novos
amigos, não quero. / Nem primos, nem descendentes. / Amizade
requer provas / na longa extensão dos dias. / Quanto aos netos
de meus netos, / sequer ouvirão de mim. // Quero empedrar-me
onde estou, / enraizar-me aqui mesmo. / Como alcançarei o
cerne / de outras terras, de outras gentes, / se um relógio fatigado
/ em minhas córneas põe fim? // Novos compêndios, pra quê? /
Alfarrábios, muito menos. / Virgens metáforas se perdem, /
no crepúsculo definham. / Amigos, filhos, cenários, / adeus,
para nunca mais.” Amigavelmente interpelado por Ronaldo Cagiano, confessou-lhe que sentia aproximar-se
o fim de sua jornada.
Deixou-nos o poeta, ao cabo de uma temporada de dois meses de
hospital. Legou-nos, contudo, a magia de um verbo encantatório, de um lirismo telúrico e
cósmico, de suave misticismo e, contudo, de violenta denúncia
das misérias do homem. Esse legado se manifesta num punhado
de livros, todos de elevada feitura poética, publicados
entre 1976 e 2004, no Rio, em Brasília e nos Estados Unidos, onde
morou por algum tempo: “Cantares”, “O Grito Submerso”, “Casulos
do Silêncio”, “Soberanas Mitologias” e “A Cidade do Medo”,
“Luta A(r)mada”,
“Flagrantes Líricos”, “Pluricanto —
Trinta Anos de Poesia”, “Canção ao Filho do Homem”, “Tempo de
Ceifar”, “50 Poemas Escolhidos pelo Autor”, “Antologia Pessoal”.
O reconhecimento desse labor de eleição está nos inúmeros
pronunciamentos da crítica mais qualificada, nas diversas
premiações, na inclusão em conceituadas antologias — no
Brasil e no exterior.
Estou certo de que permanecerá em nossa memória cultural —
se bem reconheça que uma espécie de obtusa amnésia ronda os
meios que deveriam mantê-la viva. Brasília, especialmente,
lhe deve isso. Foi um dos maiores cantores da cidade, e seguramente
quem mais contribuiu para difundir a poesia que nela e em
torno dela se tem praticado.
Mas também acredito que agora pouco lhe importem
a glória e outras circunstâncias. Libertou-se. Como diz num
poema — “Pássaro Etéreo” — dedicado a outro poeta extraordinário,
José Santiago Naud,
Desobrigado enfim
de ossos, cartilagens,
entranhas, epiderme
(abominável fardo),
no triunfal enlace
além do pensamento,
o homem, pássaro etéreo,
abarca os universos
e solene se insere
no sagrado infinito.
Assim seja.
ANDERSON BRAGA HORTA é escritor e tradutor.
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