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Anderson Braga Horta


DOZE SONETOS ESCOLHIDOS DE ANDERSON BRAGA HORTA
Do livro Soneto Antigo, Thesaurus Editora-agosto-2009

SONETO ANTIGO

Tanto, tanto de amor me eu tenho dado,
hei-me em tantas fogueiras consumido,
que fora de esperar no peito ardido
nada me houvera de ilusão sobrado.

Porém quanto mais sonhos hei nutrido
deste manancial inesgotado,
mas o tenho, no peito, avolumado:
que mais forte é amor, se dividido.

E se o destino tenho marinheiro,
volúvel me não chamem, ou perjuro:
que do amor sou apenas passageiro.

em porto inda o mais doce, não aturo,
e no mesmo travor do derradeiro
já prelibando estou o amor futuro.

DE NOVO O AMOR

De novo o amor e suas esquivanças,
na ardente-ocídua luz do fim do dia.
De novo o amor, trazendo a esta invernia
um fogo todo feito de esperanças.

Retorna amor! Com raio que alumia
o poço desolado das lembranças.
Como o astro solitário das mudanças,
exibe a ardente, e oculta a face fria...

qual o pássaro Fênix, renovado,
de minhas próprias cinzas me alço, leve.
Ah! Mortal já não sou! Extinto é o fado!

E a asa cansada ao vôo inda se atreve,
se de uns olhos o incêndio derramado
ateia um sol no coração da neve!

VANITAS

Eu quis beber, na taça da alvorada,
o néctar da Ciência e da Ventura.
E até hoje esta angústia me tortura:
eu quis ser quase tudo... e não sou nada!

Eu vi, nas formas nuas da natura,
tais como as curvas da mulher amada,
(eu, que as estrelas fui pedir pousada,
neste anseio de amor, que me amargura!)

eu vi todas as luzes do infinito,
e ---- num êxtase místico profundo-----
tentar possuí-las foi o meu delito.

Senhor! Meu Deus! Aplaca esta ansiedade,
E dá-me a paz dos simples deste mundo,
----- felizes na pobreza e na humildade.

OCEANO

No humano coração um oceano existe
que é síntese fugaz de todos os oceanos.
Às vezes a rugir, no esto dos desenganos,
outras vezes cantando à flor do sonho o viste.

Quando a felicidade acena, em sombra, ao triste
com o distante luzir dos astros desumanos,
ele, sem pressentir da fatal queda os danos,
ao côncavo do céu responde ondas em riste.

Mas quando a angústia o aperta entre os malignos dedos,
e os vendavais da vida o atiram nos escolhos,
e ele grita de horror na ponta dos penedos,

o homem, das ilusões, por únicos espólios,
guarda os beijos de amor que sangram mortos, quedos...
e a água do coração lhe escorre pelos olhos.

SAUDADE

Que nostalgia nos chorosos, lentos
carros de boi monótonos da aldeia!
Que tristonha beleza nos rebentos
do meu sertão, à luz da lua cheia!

Recordo agora os rostos poeirentos
dos tropeiros da vila quieta e feia...
E o coração, revendo esses momentos,
de longínqua saudade se incendeia.

Repentino clamor de cavalgadas
na síncope noturna das estradas
vem devolver-me extintas emoções.

E no cheiro da terra e da ramagem
pressinto o rouco pássaro selvagem
que cantava nas minhas solidões...

CÂNCER

A sala é familiar. Afora um gato
e eu mesmo, não há aqui vivalma. Apenas,
sobre um móvel poento, intemerato
cronometra um relógio as minhas penas.

Retratos espalhados, livros... e a alma
coagulada talvez. Talvez exangue.
O relógio exacerba a dura calma.
Das feridas do tempo mana um sangue...

Não é ódio, nem a infelicidade,
nem o sonho desfeito, ou a frieza,
ou o silêncio partido, ou a saudade.

Nem mesmo o tédio (falta-lhe a realeza).
Nada! O que flui e, ópio, me domina
é apenas o câncer da rotina.

À MARGEM DO TEMPO

As eras que passaram têm o encanto
de uma atmosfera azul de fantasia,
que aumenta os breves surtos de alegria
e apaga as rugas que fizeram o pranto.

Por isso, quando os portos do passado
demandamos, na etérea nau da mente,
sentimo-nos levados, de repente,
a imprevisto e fantástico eldorado.

O tempo inda por vir também descerra
U]uma encantada e deslumbrante aurora...
E apenas isto o exílio sobre a Terra

mais suportável torna, e menos duro:
a transfiguração feliz de outrora
e a esperança bendita do futuro.

ASCENSÃO

Nossas crenças? ----- um tanto remendadas;
nossos sonhos?------ algo desiludidos,
dirão talvez filósofos descridos,
se não disserem coisas mais pesadas.

Mas, vencidos embora, e malferidos,
creiamos e sonhemos. As estradas
da fé têm algo mais do que emboscadas,
e o amor também tem paramos floridos.

Mergulhados no mar da experiência,
vagamos de olhos cegos ao Perfeito.
Mas ascender é nossa contingência.

Aprenderemos a voar com o vento,
um pássaro implícito no peito,
na libertada nau do pensamento.

SOLIDÃO

Eu sonhei que minha alma era uma estrela,
minha vida um cubículo sem portas.
E tudo o que dormia nesta cela
tinha o sono sem fim das coisas mortas.

Olhei a Terra: e tudo à face dela
pareceu-me visão de idéias tortas.
E nem, sequer, brilhava uma outra estrela
no letargo sem fim das coisas mortas.

Por que brilhar sozinho neste mundo,
tentando iluminar, inutilmente,
a treva, o caos, o báratro sem fundo?!

Eis o rumo fatal da minha sorte:
arder, pobre e sozinho, lentamente,
buscando iluminar a própria morte!

LOUCURA

Quando a noite sem luz como um morcego, desce
despenhando no bosque o manto carrancudo,
o espírito noturno infiltra-se por tudo,
e a quietude da mata estranha-se e estremece.

Dos ermos o luar, cadavérico e mudo,
sobre Natura, em prata, os seus cabelos tece.
Mas, súbito, a soidão agita-se, enlouquece,
ante um surdo clamor, da treva no veludo:

a alma da noite, em vão, nos braços do arvoredo
rasga-se e clama e chora e raiva e se lamenta,
soluçando, a tremer, de fraguedo em fraguedo.

Também na solidão de meu ser, no recesso
do espírito, um clamor de vozes me atormenta.
E meu estranho amor uiva como um possesso!

MULTICREPUSCULAR

Tarde. Um manto espectral acinzenta a cidade.
Mas, ao passo que a noite o surdo império implanta,
de minha alma uma orquestra em luzes se levanta...
para breve morrer nas sombras da verdade.

E é tão mais funda a treva, e a minha angústia é tanta,
na queda, que de um sol o coração me invade
lenitiva invenção ----e, imerso em claridade,
alado semideus, ruflando as asas, canta!

É a canção do sol-pôr, o desmaiar da tarde
novamente a tombar sobre a minha aflição...
E, à estranha vibração das derradeiras notas,

um crepúsculo vem de paragens ignotas,
doce, belo e imortal como uma extrema-unção,
cair-me na pupila, onde um sol já não arde.

IMPERFEIÇÃO

Esta ânsia de luz, que me consome,
é um oceano que estua no meu peito.
Eu sinto a angústia atroz, quando me deito,
dos que tem fome e frio e sede e fome.

Imagino a virtude sem defeito,
o amor sem mancha, o instinto que se dome.
E no meu ideal gravo o meu nome:
pouco me falta para ser perfeito...

procuro, então, em torno a áurea Justiça,
o Direito sem mácula e sem treva,
e em tudo, entanto, a iniqüidade viça.

E, nos meus sonhos, vejo de repente,
O Pensamento enorme,que se eleva,
e arde, e fulgura... e tomba novamente!

Crítica e o Sonetista

De Fernando Py

Esta seção hoje principia registrando três livros do poeta mineiro Anderson Braga Horta: Dos sonetos na corda de sol (Jaboatão, PE: Editora Guararapes-EGM, 199), Quarteto arcaico (Jaboatão, PE: Guararapes-EGM, 200) e Fragmentos da paixão (S. Paulo: Massao Ohno, 2000). Em todos eles temos a já consabida mestria do poeta no acabamento formal dos versos e dos poemas, o que fica evidente nos sonetos do primeiro dos livros citados. Os sonetos de Anderson, sem nenhum favor, são peças de extremo rigor na forma e neles o poeta se dá o requinte de versejar de maneira um tanto arcaica, como no soneto inicial, propriamente chamado “Soneto antigo”. Porém Anderson não se limita, como excelente poeta que é, a versejar dentro de uma forma fixa, muito embora domine amplamente a técnica do soneto. Nas quatro partes de o Quarteto arcaico, vemo-lo perfeitamente à vontade no manejo de todo tipo de verso, não só os bem metrificados e rimados, mas também os de caráter mais livre, em que a métrica é eventual – ou até não existe – e o poeta nãos e prende à contagem de sílabas, bastando-lhe seguir o ritmo do próprio ouvido.
Já em Fragmentos da paixão, reunião geral da obra poética de Anderson, temos em um volume todos os seus livros anteriores aos editados pela Guararapes, desde a estréia com Altiplano e outros poemas (1917) até O pássaro no aquário (1990), além dos inéditos Poemas escritos com raiva e Auto das trevas. Na estréia, Anderson Braga Horta já mostrava sua madureza e a habilidade no trato das formas fixas, o que é demonstrado nos “Quatro sonetos em lá”, todos ingleses, isto é, com três quartetos e um dístico final rimado. O segundo livro, Marvário (1976), denota claramente uma evolução. Mas essa evolução se dá sobretudo na ampliação da temática, que chega inclusive ao contexto social, como vemos nos poemas finais do livro, principalmente “Celacanto”, (p. 54), mas por igual oferece a gratuidade das “Canções”, onde o poeta exibe seu talento nos versos medidos.

(De “O poeta Anderson”, Tribuna de Petrópolis, 18.2.1)

De Gerson Valle

Para Anderson Braga Horta, “O culto aos valores tradicionais não é incompatível com a modernidade”. E esta me parece uma afirmativa essencial na apreciação de sua obra. Ele participa de achados das várias correntes do século XX,mas nunca com a exclusividade ou o fechamento de uma escola ou corrente. Aparecem-lhe até resquícios de concretismos em algumas colocações “desenhadas” de frases ou palavras, sem ser, entretanto, nem de longe, concreto ou seguidor estrito de outras correntes que lhe passaram ao largo ao longo das experiências literárias. As marcas deixadas pelos poetas brasileiros do passado, que conhece melhor que a maior parte dos professores de nossa Literatura, não desaparecem nunca. E com razão! Pobre da cultura que perde sua tradição! Os sonetos bem acabados – e como ele permeia a forma com grande conhecimento de causa!, o que é cada vez mais raro hoje em dia – são constantes, ao lado de poemas de versos livres e uso de metáforas, que recendem a surrealismo.

(De “A Poesia de Anderson Braga Horta” – Poiésis, nº 132, mar-7.)