SONETO ANTIGO
Tanto, tanto de amor me eu tenho dado,
hei-me em tantas fogueiras consumido,
que fora de esperar no peito ardido
nada me houvera de ilusão sobrado.
Porém quanto mais sonhos hei nutrido
deste manancial inesgotado,
mas o tenho, no peito, avolumado:
que mais forte é amor, se dividido.
E se o destino tenho marinheiro,
volúvel me não chamem, ou perjuro:
que do amor sou apenas passageiro.
em porto inda o mais doce, não aturo,
e no mesmo travor do derradeiro
já prelibando estou o amor futuro.
DE NOVO O AMOR
De novo o amor e suas esquivanças,
na ardente-ocídua luz do fim do dia.
De novo o amor, trazendo a esta invernia
um fogo todo feito de esperanças.
Retorna amor! Com raio que alumia
o poço desolado das lembranças.
Como o astro solitário das mudanças,
exibe a ardente, e oculta a face fria...
qual o pássaro Fênix, renovado,
de minhas próprias cinzas me alço, leve.
Ah! Mortal já não sou! Extinto é o fado!
E a asa cansada ao vôo inda se atreve,
se de uns olhos o incêndio derramado
ateia um sol no coração da neve!
VANITAS
Eu quis beber, na taça da alvorada,
o néctar da Ciência e da Ventura.
E até hoje esta angústia me tortura:
eu quis ser quase tudo... e não sou nada!
Eu vi, nas formas nuas da natura,
tais como as curvas da mulher amada,
(eu, que as estrelas fui pedir pousada,
neste anseio de amor, que me amargura!)
eu vi todas as luzes do infinito,
e ---- num êxtase místico profundo-----
tentar possuí-las foi o meu delito.
Senhor! Meu Deus! Aplaca esta ansiedade,
E dá-me a paz dos simples deste mundo,
----- felizes na pobreza e na humildade.
OCEANO
No humano coração um oceano existe
que é síntese fugaz de todos os oceanos.
Às vezes a rugir, no esto dos desenganos,
outras vezes cantando à flor do sonho o viste.
Quando a felicidade acena, em sombra, ao triste
com o distante luzir dos astros desumanos,
ele, sem pressentir da fatal queda os danos,
ao côncavo do céu responde ondas em riste.
Mas quando a angústia o aperta entre os malignos dedos,
e os vendavais da vida o atiram nos escolhos,
e ele grita de horror na ponta dos penedos,
o homem, das ilusões, por únicos espólios,
guarda os beijos de amor que sangram mortos, quedos...
e a água do coração lhe escorre pelos olhos.
SAUDADE
Que nostalgia nos chorosos, lentos
carros de boi monótonos da aldeia!
Que tristonha beleza nos rebentos
do meu sertão, à luz da lua cheia!
Recordo agora os rostos poeirentos
dos tropeiros da vila quieta e feia...
E o coração, revendo esses momentos,
de longínqua saudade se incendeia.
Repentino clamor de cavalgadas
na síncope noturna das estradas
vem devolver-me extintas emoções.
E no cheiro da terra e da ramagem
pressinto o rouco pássaro selvagem
que cantava nas minhas solidões...
CÂNCER
A sala é familiar. Afora um gato
e eu mesmo, não há aqui vivalma. Apenas,
sobre um móvel poento, intemerato
cronometra um relógio as minhas penas.
Retratos espalhados, livros... e a alma
coagulada talvez. Talvez exangue.
O relógio exacerba a dura calma.
Das feridas do tempo mana um sangue...
Não é ódio, nem a infelicidade,
nem o sonho desfeito, ou a frieza,
ou o silêncio partido, ou a saudade.
Nem mesmo o tédio (falta-lhe a realeza).
Nada! O que flui e, ópio, me domina
é apenas o câncer da rotina. |
À MARGEM DO TEMPO
As eras que passaram têm o encanto
de uma atmosfera azul de fantasia,
que aumenta os breves surtos de alegria
e apaga as rugas que fizeram o pranto.
Por isso, quando os portos do passado
demandamos, na etérea nau da mente,
sentimo-nos levados, de repente,
a imprevisto e fantástico eldorado.
O tempo inda por vir também descerra
U]uma encantada e deslumbrante aurora...
E apenas isto o exílio sobre a Terra
mais suportável torna, e menos duro:
a transfiguração feliz de outrora
e a esperança bendita do futuro.
ASCENSÃO
Nossas crenças? ----- um tanto remendadas;
nossos sonhos?------ algo desiludidos,
dirão talvez filósofos descridos,
se não disserem coisas mais pesadas.
Mas, vencidos embora, e malferidos,
creiamos e sonhemos. As estradas
da fé têm algo mais do que emboscadas,
e o amor também tem paramos floridos.
Mergulhados no mar da experiência,
vagamos de olhos cegos ao Perfeito.
Mas ascender é nossa contingência.
Aprenderemos a voar com o vento,
um pássaro implícito no peito,
na libertada nau do pensamento.
SOLIDÃO
Eu sonhei que minha alma era uma estrela,
minha vida um cubículo sem portas.
E tudo o que dormia nesta cela
tinha o sono sem fim das coisas mortas.
Olhei a Terra: e tudo à face dela
pareceu-me visão de idéias tortas.
E nem, sequer, brilhava uma outra estrela
no letargo sem fim das coisas mortas.
Por que brilhar sozinho neste mundo,
tentando iluminar, inutilmente,
a treva, o caos, o báratro sem fundo?!
Eis o rumo fatal da minha sorte:
arder, pobre e sozinho, lentamente,
buscando iluminar a própria morte!
LOUCURA
Quando a noite sem luz como um morcego, desce
despenhando no bosque o manto carrancudo,
o espírito noturno infiltra-se por tudo,
e a quietude da mata estranha-se e estremece.
Dos ermos o luar, cadavérico e mudo,
sobre Natura, em prata, os seus cabelos tece.
Mas, súbito, a soidão agita-se, enlouquece,
ante um surdo clamor, da treva no veludo:
a alma da noite, em vão, nos braços do arvoredo
rasga-se e clama e chora e raiva e se lamenta,
soluçando, a tremer, de fraguedo em fraguedo.
Também na solidão de meu ser, no recesso
do espírito, um clamor de vozes me atormenta.
E meu estranho amor uiva como um possesso!
MULTICREPUSCULAR
Tarde. Um manto espectral acinzenta a cidade.
Mas, ao passo que a noite o surdo império implanta,
de minha alma uma orquestra em luzes se levanta...
para breve morrer nas sombras da verdade.
E é tão mais funda a treva, e a minha angústia é tanta,
na queda, que de um sol o coração me invade
lenitiva invenção ----e, imerso em claridade,
alado semideus, ruflando as asas, canta!
É a canção do sol-pôr, o desmaiar da tarde
novamente a tombar sobre a minha aflição...
E, à estranha vibração das derradeiras notas,
um crepúsculo vem de paragens ignotas,
doce, belo e imortal como uma extrema-unção,
cair-me na pupila, onde um sol já não arde.
IMPERFEIÇÃO
Esta ânsia de luz, que me consome,
é um oceano que estua no meu peito.
Eu sinto a angústia atroz, quando me deito,
dos que tem fome e frio e sede e fome.
Imagino a virtude sem defeito,
o amor sem mancha, o instinto que se dome.
E no meu ideal gravo o meu nome:
pouco me falta para ser perfeito...
procuro, então, em torno a áurea Justiça,
o Direito sem mácula e sem treva,
e em tudo, entanto, a iniqüidade viça.
E, nos meus sonhos, vejo de repente,
O Pensamento enorme,que se eleva,
e arde, e fulgura... e tomba novamente! |