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MEMÓRIA ACADÊMICA
ROGER FERAUDY (1923-2006)

ROGER FERAUDY (1923-2006)
Sylvio Adalberto

11-Abr-2006 às 08:38

Escritor e poeta, Roger Feraudy era Acadêmico Titular da cadeira 17 da APPRL, nasceu no Rio de Janeiro, falecendo em Petrópolis no último dia 22/3. Figura de expressão na literatura, fixou residência na cidade há mais de 30 anos. Carioca de nascimento, em 1961 escolheu Petrópolis para viver, onde fez e deixou inúmeros amigos e onde faleceu dia 22 de março de 2006, aos oitenta e dois anos. Odontólogo aposentado, ficou mais conhecido por sua produção na área artística e literária.
Escritor versátil, com mais de uma dezena de obras publicadas, prosa e poesia, algumas em sucessivas edições, ficou bastante conhecido pelos títulos Serões do Pai Velho e Umbanda, essa Desconhecida, {Editora do Conhecimento}, que se tornaram clássicos da Umbanda Esotérica. Sempre transitou com facilidade por temas esotéricos diversos, como a origem do homem, Religião e Cosmos, Editora Tesaurus, Brasília; os seres elementais Cyrne-História de uma Fada. A Mãe do Mundo, A divina Mediadora, Um Anjo está nas Ruas, sobre extraterrestres, Baratzil, A terra das estrelas, {nossa herança atlante e extraterrestre), A Flor de Lys, {Saint Germain e os bastidores da revolução francesa}, O Jardineiro, uma fábula moderna), Haiawatha, o mestre da raça vermelha, que versa sobre a cultura dos peles vermelhas. Todas da Editora do Conhecimento, Limeira, SP. Em poesia deixou Lira Serrana, Velhas Memórias e Momentos. Sensitivo de apurada percepção, pôde captar no campo extrafisico os registros com que compôs o romance ancestral A Terra das Araras Vermelhas, 3ª edição, Ed do Conhecimento.Com uma diversificada atuação na área musical, foi cantor profissional na década de 40. Nos anos 50/60, com o pseudônimo de Pedro Rogério, compôs música popular, e teve mais de 50 canções gravadas pelos maiores intérpretes da época, como Elizeth Cardoso {Velhas Memórias}, Ângela Maria, Nora Ney, Dircinha Batista, Ivon Cury, Anísio Silva. Composições suas foram incluídas em filmes nacionais, como Desilusão, com Anísio Silva, Delicadeza e a Cara do Pai, com Ivon Cury. Criou em parceria diversos shows apresentados no Rio e em vários estados, Pai Tomé de Luanda, Naexetá, revistas musicadas, Mágica Maestro, Nagô Naê, e shows de bolso Os Gregos não eram Assim, Quem não Chora não Mama, Yes, nós temos bananas. Fez a peça infantil musicada, de grande sucesso de público, Alice e o Coelho Pimpão. Integrou o Samba Trio com Lombardi Filho e José Negrão, fez intensa turnê pela Europa e África portuguesa.Nos anos oitenta, participou com poetas petropolitanos da confraria Arte e Amizade, da qual foi co-fundador.
Era membro titular da Academia Petropolitana de Poesia Raul de Leoni. Foi um adorável ranzinza. Brigamos e discordamos tanto sobre os temas poesia e vida além da morte, que para acabar com nossas brigas, fizemos um pacto: jamais falaríamos desse assunto, nossa amizade estava acima disso tudo. Era um cara tão fantástico, que fomos amigos por mais de vinte anos, amigos do chope, do vinho, das piadas picantes, dos autores instigantes, que ele adorava, de mulheres bonitas, que admirava, e nunca mais tocamos no assunto espiritismo e poesia. Deixou na minha mente uma frase, que não era sua, mas gostava de repetir. No final dos nossos longos papos, dizia sempre: Meu amigo, só tenho certeza de uma coisa, a vida não tem nenhuma finalidade. Se tivesse, você não acha que alguém já teria descoberto? Recomendo a leitura de seus livros. São todos mensagens de paz e de bem viver.
Sylvio Adalberto é membro da Academia Petropolitana de Letras e da Academia Petropolitana de Poesia Raul de Leoni
[Texto publicado na versão impressa de Poiésis - Literatura, Pensamento & Arte, nº 121, abril de 2006, pág. 15]

Um Soneto de Roger Feraudy:

Quantas vezes nós mesmos não fizemos
o que fez aquele homem certo dia,
é fácil acreditar que sempre temos
real certeza – quanta hipocrisia!

Direito de julgar, reconhecemos,
parte integrante faz da vilania
dos homens que se julgam reis supremos,
no topo de orgulhosa hierarquia.

Mas quantas injustiças fiz pensando
estar fazendo o que melhor havia,
na displicência, quando estava errando.

Por comodismo não revi meus atos
e ausente, indiferente prosseguia
lavando minhas mãos como Pilatos.

A SANTA CEIA DESTINO DO POETA – ( a Fernando Pessoa )

A mesa está posta, um ar agoureiro
em cada semblante por eles passou
a dúvida, o medo, que cada parceiro
covarde, silente, sequer demonstrou.

O pão é meu corpo, reparto primeiro,
o vinho suave é meu sangue, vos dou.
Nos olhos tão doce do bom carpinteiro,
nenhuma censura o olhar lhe turvou.

São todos omissos, distantes, alheios,
se vê em seus rostos, cobiça, rancor,
há poucas virtudes, há muitos receios...

O Mestre virá outra vez, não descreia,
salvar esses Judas, cristãos sem amor,
que estão até hoje presentes na ceia.

Fazer poemas é criar fingindo
que a própria realidade é fantasia,
fazer poemas, dar de si mentindo
aos outros no disfarce da alegria.

Falaz habitual, nos iludindo
na poética imagem da estesia,
vai sempre em cada verso conseguindo
fazer-nos crer verídica a poesia.

Mas dentro em mim traria a dor ingente,
a dor mais triste dentro em mim traria
se não pudesse mais rimar um dia.

E sofro inconformado, incompetente,
na estrofe que nasceu empobrecida,
em quem tentou fazer versos da vida...

O ADMIRÁVEL MUNDO NOVO ( a Aldous Huxley ) ”NOSCE TE IPSUM”

... Morreu um pobre homem lá na China !
As lutas raciais pela Nigéria !
Há greve de carvão naquela mina !
Homens de frio morrem na Sibéria !

Pelo Oriente Médio outra chacina !
Há crise de alimentos, há miséria !
O caos que há pelo mundo nos ensina,
que reina o deus-petróleo na matéria !

Por toda parte há fome, inanição !
Um novo terremoto no Japão !
... Um negro foi linchado pelo povo !

Estas notícias chegam incontinente.
Mas só importa o que acontece à gente,
no nosso admirável mundo novo !

Quantos de nós em fútil ostentação,
numa vaidade tola, desmedida,
queremos ser notados, mas em vão,
pois passamos em branco pela vida.

Quantos de nós em fátua presunção,
queremos vislumbrar a foragida
imagem de sonhada aspiração
que, cegos, quase sempre até se olvida.

Quantos de nós usando falsidade
para encobrir na vida os descompassos,
aparentamos sóbria honestidade.

Quantos de nós, enorme contingente,
a outrem atribuímos os fracassos
que fazem, afinal, parte da gente ...

ATAVISMO O QUE TENHO DE MEU

Em qual lugar se encontra, em qual neurônio
do cérebro surgiu a nossa mente ?
Que mistério nos deu por patrimônio
as luzes da razão, proficiente ?

Que atalho de atavismo, ou fato errôneo
fez surgir o “ homo sapiens ” de repente ?
Será que a evolução num pandemônio
fez do antropóide, ser inteligente ?

Nem sequer a linguagem, nem a voz,
mudou a besta fera que há em nós,
ou nos fez, em milagre - racionais ?

Com este indício, com tanta evidência,
convenço-me da minha procedência.
- Ainda somos todos animais !

O que tenho de meu, meu de verdade ?
Reminiscências vagas que hoje são
o que restou da minha vanidade,
dos meus conceitos, pobre charlatão.

O que tenho de meu na realidade ?
Sentenças que ficaram num desvão
da mente que retrata a nulidade
do meu saber, de falsa erudição.

O que tenho de meu ? Imprevidente
eu fui, não soube ter o predicado
de haveres possuir, qual tanta gente.

O que tenho de meu unicamente
é este velho corpo habituado,
a ser levado sem querer à frente ...

FILOSOFIA UTOPIA

Viver cada minuto intensamente,
como se fosse o último vivido.
Amar bastante, amar integralmente,
em cada amor tornar-se revivido.

Olhar o mundo em torno, complacente
por ter alimentado, ter nutrido
amores no passado ou no presente,
pois só se amando a vida faz sentido.

Jamais nessa existência acumulei
valores, por julgar pouco importantes,
dos bens terrenos sempre desdenhei.

Mas aprendi que é bem melhor sorrir,
e fiz eternos os milhões de instantes
que hão de durar enquanto eu existir.

Quem já não teve um sonho, uma utopia,
nem foi um pouco, às vezes, imprudente,
quem não devaneou na fantasia,
por certo não viveu intensamente.

Quem só conserva a dor, a nostalgia,
sempre a margem dos fatos, sempre ausente,
quem jamais cultivou uma alegria,
passou na vida, foi mero assistente.

Eu faço da ilusão minha poesia,
meu mundo de verdade, de harmonia,
que prefiro esconder no coração.

Meus horizontes, vastos universos,
completam-se na estética dos versos
que dou aos realistas sem visão.

TERRA SONETO POR UMA ALEGRIA ETERNA

Afunda a mão na terra umedecida,
que de nuances pulsa tão repleta,
milagre de existência ali nascida,
na entrega da colheita mais seleta.

Feliz serás com a terra abastecida
com tua ingerência mais dileta,
o amor há de adubar a tua vida
e uma primícia então te dá, completa.

Em preces rega a terra com humildade.
No universo, ancestral ventre materno,
que tudo dás de graça, em quantidade.

Ama essa terra em teu labor, tratada,
para alcançar a paz, descanso eterno,
quando a terra for última morada...

Alegria no amor não tem idade.
Há que ser tua vida aventureira,
imita essa ruidosa mocidade,
faz teu viver feliz, dessa maneira.

O riso da criança sem maldade,
tem mais valor que a glória passageira,
a nossa sisudez, formalidade,
se esvai ante a risada galhofeira.

Finge que és jovem, lembra das noitadas
indiferente ao mundo ao seu redor.
Namoros inocentes de mãos dadas...

Se não consegues rir, sorri apenas,
que a vida é breve, pode ser melhor,
quando encontramos graça em nossas penas.

A MOÇA FEIA SONETO SENSUAL SEM INTEÇÃO DE SER SENSUAL

Não tinha graça, não tinha beleza...
Quando passava, andar desajeitado,
eu a pensar ficava - a natureza
deve num instante ter se descuidado.

No seu semblante havia uma tristeza,
sempre ansiosa, um ar preocupado,
sem atrativos, não era surpresa
quando afastava alguém interessado.

Jamais teve um amante, um amor um dia;
no solitário quarto imaginava
romances que não teve e que queria...

A moça amarga, sem nenhum encanto;
a moça triste, que ninguém olhava;
a moça feia... que eu amava tanto !

Confesso que não estava predisposto
mas me excitei com teus lentos meneios
do colo quase nu, desnudo, exposto,
e depressa te disse uns galanteios.

Minha boca desci pelo teu rosto,
beijei teu peito arfante, os duros seios,
senti do corpo teu o ameno gosto
de meu prazer contido em teus receios.

As mãos pelo teu ventre se aventuraram,
vão descobrir os íntimos segredos
há muito dormitando nos teus medos.

Unidos nossos corpos se procuram...
Como quem de joelho vai rezando,
no altar dos teus quadris vou te beijando.

TE SEI DE COR NÃO DIGA NADA

A voz lasciva disse uns galanteios,
tremendo de volúpia, desvairado,
teus lábios mordisquei, louco beijei-os,
sentindo teu prazer ser despertado...

Dos limites altivos dos teus seios,
fronteiras do teu corpo desejado,
eu me perdi em sôfregos anseios
na curva de teu ventre acetinado.

E fomos um no outro tão perdidos,
que só vou me encontrar na angústia infinda
desse eterno buscar dos meus sentidos...

Hoje em meu sonho, logo recriada
te sinto junto a mim desnuda e linda,
na mente palmo a palmo decorada ...

 

É muito cedo, minha doce amada,
ainda sinto o gosto do teu beijo;
por que partir ? – É fria a madrugada,
vamos matar de vez este desejo...

A vida é breve, minha namorada,
és tudo quanto quero, quanto almejo,
o amor é um sonho apenas, quase um nada,
vem me querer sem mais receio ou pejo.

Nesse momento nosso de ternura,
não diga nada... ama com loucura,
que chega logo a hora da partida...

Se o tempo passa para nós depressa,
se nasce a cada encontro que começa,
se morre um pouco em cada despedida...

 

A GOTA D´ ÁGUA

Quando acordei já te encontrei segura
num galho embalançando, pequenina,
pareces gota d’água, clara e pura,
a lágrima do orvalho, adamantina.

De quedas já se faz tua estrutura,
pois mal nasceste o chão é tua sina;
fugaz, tremendo, oscilas insegura,
segundos de vivência matutina.

Encerras, gota d’água cristalina,
uma existência frágil, repentina,
inconsistente e breve, igual a mim.

Nasci também assim, débil, chorando,
vivi caindo, a custo levantando,
no mesmo chão que espera o nosso fim...