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Aládia Pereira de Almeida
Farid Félix
Hamilton Lopes
Luiz Cavalcanti
Maria Nazareth Zilves Maio
Roger Feraudy

MEMÓRIA ACADÊMICA
LUIZ CAVALCANTI
Foi professor do SENAI, de Ciências Físicas, Químicas e Biológicas, funcionário federal da Previdência Social, extrovertido, alegre, amigo. Deixou poemas e crônicas espalhados por jornais da Cidade e muitas antologias. Um livro editado POEMAÇÃO, Editôtora Pirilampo, 1987, em parceria com o grande e dedicado amigo poeta Arnaldo Rippel e um inédito: MIUÇALHAS. Casado com Dylza, em segundas núpcias, a quem chamava de musa, mulher, secretária e grande amor. Tinha uma grande paixão pela filha Maria Lúcia e pela neta. Nasceu em 1924 e morreu em 21/05/94, no dia e na hora de sua posse na Academia Petropolitana de Letras.
Poeta inspirado, de linguagem fácil e agradável. Muito bom e verdadeiro na sua arte.

MAKTUBI

Durmo um dormir sem sonhos. Noites pobres.
Vivo um viver sem cores. Pobres dias.
Dentre os sinos de minha freguesia,
sou o mais triste deles, toco dobres.

Se a vida é tiro ao alvo, eu sou a mosca,
se a vida é caçador, eu sou a caça.
Quando ela é diamante, eu sou a jaça.
Se comem caviar, eu rôo rosca.

Não há como acertar o desacerto,
se, no Livro da Vida do mortal,
anjo troncho escreveu frase fatal:
Vai viver, infeliz! Não há conserto.

LEMBRANÇAS

Guardo em meu coração restos de antanho:
um pião, uma gaita, uma bandeira,
um time de botões, uma peneira,
e o escrínio c’oa chave do tamanho.

Guardo em minha memória enternecida
o frio das manhãs enevoadas,
o bendito fracasso das tragadas
e o desfile da tropa na Avenida.

Guardo em minha saudade dolorida
teu sorriso, tua voz, teu porte altivo...
e é só. Eu tenho um medo compulsivo
de que redoa a dor da tua ida.

AUSÊNCIA

No fundo desta bolsa a tiracolo,
eu escondo meu último desejo.
Quero, em Brejo-de-Areia, sem ter pejo,
aliviar este meu desconsolo.

Lá, naquela cidade nordestina,
espero ouvir, à guisa de acalanto,
um cantador, seu agridoce canto
e, ao anoitecer a sururina.

Quando papai cantava a sua terra,
falando em João Pessoa e Epitácio,
eu dormia feliz, no seu regaço,
a esquecer da estrela, a minha serra.

Hoje, cursando uma terceira idade,
depois de muita luta, muita lida,
aprendi a viver com esta ferida,
que fez trinta e seis anos: a saudade.

PRINCÍPIO E FIM

Eu nasci no verão. Aqui na Serra
Da Estrela, Deus à noite, uma cascata
De pirilampos jogou sobre a mata,
Fez o espelho do céu na minha terra.

No inverno de manhãs enevoadas
senti, na pele imberbe do meu rosto,
o corte das navalhas que em agosto,
o vento empunha pelas madrugadas.

Hoje, chegando à linha de partida,
de quando em vez remexo uma lembrança.
A recordar, eu volto a ser criança,
Engreno marcha à ré na min há vida,
e, quando se cumprir o meu Destino
,sei que m,e julgará um Deus-Menino.

VIDA

(a Renato Borges da Fonseca)

Inda me lembro bem da minha vida
passada. Algodão doce e cor de rosa,
infância nacarada e gloriosa,
de uma porção de sonhos a guarida.

Depois cresci e eles sumiram logo,
como somem as gotas cristalinas
de orvalho, quando o sol rasga a neblina,
em funeral de luz, de cor, de fogo.

E sem sonhos a vida é acachapada,
é insossa brincadeira de arlequim,
é como um jasmineiro sem jasmim
pois, sem sonhos, a vida não é nada.

ALELUIA

Fui fantoche dos fios de um Destino,
que anjo canhestro andou manipulando.
Nas malhas do mais negro desatino
eu quase me enredei, desesperando.

Salvou-me o amor, o mágico elixir,
enfrascado num corpo de mulher...
Foi ele que mudou meu existir
numa polifonia rosicler.

Hoje tenho uma doce criatura,
Que estende alfombras pelo meu caminho.
É uma luz de vitral em nave escura,
É aragem cheirando a rosmaninho.

Ó TU

Ó tu, que ate nem sabes que eu te amo,
pois eu vivo o disfarce, eu tergiverso,
eu me escondo nas sombras do meu verso
e, de dentes serrados, não te chamo.

Ó tu, que até nem sabes quanto eu peno,
pois queria dizer-te o que não digo,
vivendo de ouropéis, só teu amigo,
a ganhar vez por outra um teu aceno.

Ó tu, que por feliz és tão risonha
quando, postas as mãos, fizeres prece,
pede por quem não sabes que padece,
pede por quem só vive porque sonha.

DYLZA

Bufão do amor em toques de opereta!
Pobre de mim,vivi tão iludido,
que a trapos dei nobreza de vestido
e vi o céu na poça da sarjeta.

Até que um dia, enfim, tão de repente,
Ao passar pela loja pequenina,
em vulto (era mulher, anjo ou menina?)
fitou-me de maneira diferente.

Siderado parei... A vida é bela,
e agora, quando deixo seu regaço,
preciso religar o marca-passo,
que me conserva vivo, longe dela...