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LUZ MEDITERRÂNEA
 

APRESENTAÇÃO

88 anos de Luz mediterrânea

Raul de Leoni, poeta renovador

A poesia de Raul de Leoni se compõe, basicamente, dos poemas estampados em Luz mediterrânea, cuja primeira edição é de 1922. Esta edição, portanto, comemora os oitenta anos da edição princeps. O ano de 1922 foi fundamental para a poesia, pois significou o verdadeiro início do nosso Modernismo, não só pela Semana de Arte Moderna, como pela publicação da Paulicéia desvairada, de Mário de Andrade. Todavia, Raul de Leoni não pode ser classificado como modernista, muito embora tenha trazido para nossa poesia uma contribuição singularmente renovadora. Aliás, convém desde já melhor situá-lo para que possamos compreender em que consistiu essa renovação.
O poeta apareceu numa época de confluências, que se prolongava desde o primeiro decênio do século XX. Em 1922, além do Modernismo incipiente, vicejavam entre nós, correntes literárias outras: o Parnasianismo, que resistia bravamente à extinção e, no caso brasileiro, deu um subproduto a que chamamos Neoparnasianismo, cujos expoentes mais conhecidos foram Goulart de Andrade, Amadeu Amaral e Martins Fontes; e o Simbolismo, que apresentava a sua segunda geração, com nomes expressivos como os Da Costa e Silva e Gilka Machado. E havia também pequenas subcorrentes dessas escolas, caracterizando em geral poetas menores. Todos esses estilos de época existiam simultaneamente e não era raro um poeta mostrar características de uma outra corrente literária, sendo às vezes difícil, senão impossível enquadrar nesta ou naquela um poeta muito pessoal – caso de Augusto dos Anjos, p. ex. Veremos a seguir como é semelhante a posição de Raul de Leoni.
De um modo geral, a crítica e a historiografia literárias tendem a encarecer os aspectos neoparnasianos do poeta. Não há dúvida de que o autor da Ode a um poeta morto ou do Pórtico ou do Pórtico pode, sem esforço, ser admitido entre os neoparnasianos, ainda mais que, mantidas as devidas proporções de quantidade e conteúdo das obras respectivas, Raul de Leoni exibe algum parentesco lírico com a poesia de Martins Fontes, sobretudo em Verão (1917), e é cuidado, mas sem rigidez, e sua visão é a de uma esteta . O gosto pela beleza e a perfeição das formas o leva, por outro lado, a uma poesia de cunho helenizante, que o aproxima dos mestres Olavo Bilac e Alberto de Oliveira. Mas é justamente nessa "helenização" que sua poesia deixa claras as principais divergências quanto ao parnasianismo ortodoxo e bilaqueano.
Para começar, sua métrica nunca é imutável, seus versos ostentam a feitura plástica e a musicalidade muito afins do próprio Simbolismo ( que aliás, chegou a impregnar o Raimundo Correia de " Plenilúnio"). Segundo, o esteticismo de Leoni se assenta na busca da expressão nítida, exata e enxuta, e as imagens sobressaem pela clareza do enunciado, pelo poder visualização. Há um lado tipicamente simbolista no poeta, visível não só no hábito de escrever certas palavras-chave com inicial maiúscula, e que em princípio denotam abstrações ( não raro intitulando alguns poemas), como na animização dessas mesmas abstrações, encaradas pela inteligência como entudades autônomas, com vida e sentimentos próprios, numa espécie de platonização das idéias. Os exemplos enxameiam; cito apenas os poemas que me parecem característicos: A hora cinzenta , Unidade, Adolescência e imaginação. Sua poesia é essencialmente filosófica antecede a literária: é serena, e as idéias que exprime se bastam a si mesmas. Um pouco mais, e o poeta estaria sendo acusado de "absenteísta".
Mas não é disso que se trata. Pois em Leoni, se a poesia pode e deve ser considerada um fim em si mesma, percebe-se também que houve uma nítida evolução no modo de enacará-la. Porem, essa evolução não se deu , necessariamente, no terreno formal, sendo, sensível no campo das idéias. Da exaltação do pensamento como veículo que o levaria a "penetrar a essência das coisas"2 , passou a cultuar o instinto, que destacou em vários poemas, notadamente no soneto desse título; e esse instinto, por assim dizer glorificado pelo poeta, levou-o finalmente a manter a fé nas idéias que nascem no fundo da consciência. Daí, portanto, o não haver poetado sobre acontecimentos, meras contingências pessoais e/ou coletivas que nunca lhe souberam à inspiração.
Porém, Raul de Leoni, se foi neoparnasiano de fortes acentos simbolistas, não fugiu igualmente à influência da sua própria geração. Há em sua poesia aspectos rítmicos e formais bastante ousados para o seu tempo, em certa medida também cultivados por neo-simbolistas de valor. Em grande certa medida também cultivados por neo-simbolistas de valor. Em grande número de poemas, o poeta pratica a polimetria e extrai efeitos surpreendentemente plásticos e musicais de versos compostos exclusivamente de adjetivos, como em Maquiavélico, Mefisto e outros. Chega às vezes a sonetos não isométricos, de rinas escassas e ausentes, e o seu polimetrismo está a um passo do verso livro: em Árvore de natal, p. ex., o verso " Como um pinheiro contemplativo" precisa, para ser lido como decassílabo, de um hiato em "Como um"; e, sendo assim, é um decassílado ibérico (com cesura na quinta sílaba), tipo de verso que muito depois o modernistas Carlos Drummond de Andrade aproveitaria magistralmente no soneto A oficina irritada (in: Claro enigma, 1951).
É verdade que, par dessas atitudes renovadoras do metro, do verso e do conteúdo dos poemas , Raul de Leoni apresenta processos tipicamente parnasianos, quais sejam: a sinérese e sinalefa, obrigatórias em alguns casos. O exemplo mais marcante me parece o do soneto Legenda dos dias, verso sexto: " E ao Poente, o Homem, com a sombra recolhida" _ decassílado que, se preferirmos o hiato em " Poente" e o "Homem" e a sinalefa em "coma", se transforma num verso de doze sílabas com censura na quinta, destoando inteiramente da medida dos demais versos, todos decassílabos.
Existe em Raul de Leoni, um curioso procedimento técnico- estilístico a aproximá-lo, e não por acaso, da poesia de Augusto dos Anjos. Em algumas ocasiões, um decassílabo leoniano é construído com um adjetivo preposto ou posposto a um substantivo, sendo um deles quase sempre esdrúxulo, e findado com a relação transitiva – nos moldes, p. ex., de O apetite necrófago da mosca!3 , do poeta paraibano. Assim, temos: " Na orquestração nostálgica dos ventos". ( Ode a um poeta morto), "Com a perfídia elegante de um sofista" (Maquiavélico), "A ironia longínqua das estrelas" (Noturno), " Na balada sonâmbula dos sinos!..." ( Torre morta do acaso), além de muitos outros, Não se trata de influência do autor de Eu (cuja poesia é quase certo que Raul não chegou a conhecer), e sim de um procedimento corriqueiro dos neoparnasianos, principalmente aqueles que se preocupavam com o soneto de chave-de-ouro –– pois mesmo Leoni não se furtou à chave-de-ouro, embora o acabem no formal de todos os poemas assim o exigisse, ou melhor, tornasse perfeitamente natural esse processo.
Sendo comemorativa da edição princeps de Luz mediterrânea, a presente edição naturalmente exclui todas as seções de versos incluídos nas publicações póstumas da obra de Raul de Leoni. Assim , não aparecem aqui poemas inacabados, dispersos e avulsos, acrescentados a Luz mediterrânea desde a segunda edição (1928). Tais poemas, em geral, mantêm o nível que o poeta alcançara, e neles se destaca sobretudo o soneto que se tornou seu texto mais conhecido. Deixado sem título, ora é chamado "Argila", ora tem o nome de "Eugenia". Nele, mais uma vez o poeta se volta para a instintividade primordial, para essa argila de todos somos feitos, alcançando o máximo em sua expressão poética. Raul de Leoni legou-nos uma obra pequena, mas significativa e singular, que certamente ainda há de ser muito lida e estudada, enquanto houver interesse pela grande e genuína poesia do nosso tempo.


Fernando Py
Poeta, crítico literário e tradutor
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1.Cf.CARPEAUX, Otto Maria Pequena bibliografia crítica da literatura brasileira. 3.,ver. E aum. Rio de Janeiro: Letras & Artes, 1964, p. 235.
2 BANDEIRA, Manuel. "Raul de Leoni". In: crônicas da província do Brasil. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1937, p. 152
3 ANJOS, Augusto dos. Eu. Rio de Janeiro, 1912, p. 27 [ "As cismas do destino", verso final da décima quadra da parte II].

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