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HINO DA ACADEMIA BRASILEIRA DE POESIA
"CASA DE RAUL DE LEONI"

Letra e música de autoria do Acadêmico Roger Feraudy (1923 - 2006)


Academia Raul de Leoni,
cultuamos com amor e alegria,
para sempre teu vulto lembrado,
será por todos exaltado!
Academia Raul de Leoni,
que nós celebramos com poesia,
teu nome, glória da literatura,
expoente do saber e da cultura!

A Luz mediterrânea
ilumina o nosso ideal,
brilhando tão espontânea
no teu verso original!

O teu nome pertence à história,
mas no Silogeu estás presente,
viverás eternamente
como exemplo na memória,
inspirando nossa gente!

 

Haicai

Ataualpa A. P. Filho

Noções sobre haicai

Haicai (haiku) consiste em uma composição poética de origem japonesa formada por 17 sílabas, distribuídas em três versos: o primeiro com cinco sílabas (redondilha menor), o segundo com sete (redondilha maior) e o terceiro com cinco (redondilha menor).
O precursor dessa composição literária foi Matsuo Bashô, nascido em 1644 em Ueno, pequena cidade japonesa da província de Iga. Ele também foi responsável pela condução do haicai dentro de um pensamento zen-budista.
Bashô faleceu em 1694, mas sua contribuição para a percepção do real com o objetivo de captar ensinamentos de vida permanece até hoje.

Características do haicai em sua forma original

  • Não possui título.
  • Não há preocupação com rimas.
  • Um dos versos deve fazer referência a uma das estações do ano (Kigo). Esta é explorada pelas suas características vinculadas à cultura nipônica, destacando os elementos da natureza. Ex: sakura (cerejeira) indica primavera, momiji (folhagem vermelha) indica outono.
  •  Contam-se todas as unidades silábicas.
  • Capta-se uma cena da realidade, capaz de provocar uma reflexão sobre a vida.  E por essa meditação tira-se uma mensagem (haimi).
  •  Uso de uma linguagem simples, concisa, sem sentimentalismo, sem excesso de adjetivos.
  • Não se apresenta de forma discursiva. O poema em si sugere um processo reflexivo, expõe um instante da realidade que leva à meditação.



Tradução:

            Em uma tradução literal, teríamos: o lago antigo, o som da água da rã mergulhando.
Como a palavra “Furu-ike” (lago velho) em japonês, remete, de forma poética, a um local longe da civilização. A tradução literal não faz sentido em português.
A tradução mais comum, em forma de haicai, dessa composição de Bashô é a seguinte:
Velho lago
mergulha a rã
fragor d’água

            Em uma linguagem contextual, pode-se ter a seguinte idéia:
Ao chegar a um lago no interior, consigo escutar até o som da rã ao mergulhar.

O sentido:

Esse haicai descreve uma cena, onde se encontra um lago, longe da civilização. Diante da tranqüilidade, é possível ouvir até o som da rã mergulhando na água.O poema transmite paz, harmonia. E o selênico é tanto que pode ser quebrado pelo barulho provocado pelo mergulho da rã.

 

O haicai no Brasil

            Shuhei Uetsuka (1876-1935) que partiu do porto de Kobe em 28 de abril de 1908, chegou ao porto de Santos em 18 de junho de 1908, trazendo, a bordo do navio Kassato Maru, o primeiro contingente de imigrantes japoneses para o Brasil, formado por setecentos e oitenta e uma pessoas, fundador das colônias de Itacolomi-Promissão e Guaimbé, considerado o Pai da Imigração Japonesa pelos seus conterrâneos, foi um dos primeiros japoneses a fazer haicai no Brasil.
O haicai seguinte é tido como o primeiro feito no Brasil em língua japonesa por Shuhei Uetsuka:

Karetaki o                                               A nau migrante
Miagete tsukinu                                      chegando: vê-se lá no alto
iminsen                                                  a cascata seca.

Também de autoria do Pai da Imigração Japonesa, encontram-se no Parque Shuhei Uetsuka em Promissão, estes dois haicais:
Quando a tarde chega                                         Imigrantes fugidos
um choro se ouve nas sombras                           fustigam minha lembrança
colheita de café.                                                   Ah! Noite de estrelas.

            Mas a primeira divulgação do haicai, no Brasil, é atribuída ao autor baiano Afrânio Julio Peixoto (1875-1947), no prefácio do seu livro “Trovas Populares Brasileiras”, publicado em 1919. Mas o primeiro livro exclusivamente de haicais foi publicado em 1933 por Waldomiro Siqueira Júnior.
Outro autor responsável pela propagação do haicai no Brasil foi Guilherme de Almeida, que após o encontro com o Cônsul Japonês no Brasil, em 1936, começou a escrever o livro “Haicais em Português”. E em 1937, publicou o artigo “Os Meus Haicais”.
Guilherme de Almeida foi um dos fundadores da Aliança Brasil-Japão e foi quem primeiro a presidiu. Ele deu uma outra estrutura aos haicais:

  • Colocou título.
  • Estabeleceu um critério de rimas: o primeiro verso rima com o terceiro e o segundo apresenta uma rima interna, em que a segunda sílaba rima com a sétima. Dentro do seguinte esquema:

 __ __ __ __ _a
__ __b __ __ __ __ __b
__ __ __ __ __a

            Essa forma de fazer haicai com tais características recebeu vários adeptos, consolidou, portanto, o que mais tarde ficou conhecida como Escola Guilhermista. E os haicias, assim estruturados, são chamados de guilherminos.
É válido ressaltar que o haicai, no Brasil, passou a abordar outras linhas temáticas, fugindo dos critérios adotados por Matsuo Bashô; ganhou um traço de humor, ironia e crítica social, fugindo do vínculo com a natureza e com as estações do ano. E aqui a contagem das unidades silábicas é diferente da exercida no Japão, uma vez que se conta somente até a última sílaba tônica da palavra encontrada no final de cada verso.
Os haicaístas, no Brasil, também fazem uso das licenças poéticas como a elisão (junção de vogais átonas pertencentes a palavras diferentes em uma só sílaba métrica. Ex: tan/to a/mor.)
Vários escritores de destaque na Literatura Brasileira fizeram haicais.  Eis aqui alguns deles:

 

Haicais de autores brasileiros

Tatalou e caiu
como onda espiralada
fragor de entrudo.

            Guimarães Rosa

Gota de orvalho
na coroa dum lírio
jóia do tempo.

            Érico Veríssimo

 

- O senhor cultiva
epigramas?
- Não, só a grama de meu jardim.

          Carlos Drummond de Andrade

 

Mallarmé Bashô

Um salto de sapo
jamais abolirá
O velho poço.

          Paulo Leminski

                       
Entre velhas páginas
uma folha ainda verde
da casa antiga.

Alice Ruiz

Com pó e mistério
a mulher ao espelho
retoca o adultério.

         Millôr Fernandes

Haicais em Petrópolis

Sol quente. Vapor.
Promessa de um aguaceiro
pra hora do sol se por.

Gustavo Wider

Do Tempo

 O tempo, ao passar,
faz ficar bem para trás
a luz do teu olhar...

        
Ivan Herzog

A ebulição
da vida. Se for doída:
se tira lição.

Caçula 

Folha bailarina
ao vento dança e não cansa
como ágil menina.

João Roberto Gullino

 

Japão e Petrópolis,
cerejeiras e hortênsias,
eternas amizades.

  Ataualpa A.P.Filho

 

Entrevista com o ex cônsul Geral do Japão sr, Yutaka Nakamura

  1. Como o senhor chegou ao Brasil?

Após ingressar no Ministério dos Negócios Estrangeiros no Japão eu vim para o Brasil estudar a língua portuguesa.

  1. E como chegou em Petrópolis?

Vim estudar português na Universidade Católica de Petrópolis e em minha permanência nesta cidade durante dois anos  fiz grandes amigos.

  1. E  depois deste período?

Fui viver no Rio de Janeiro onde exerci o cargo de adido adjunto na Embaixada do Japão

  1. Como foi sua carreira diplomática a partir daí?

Voltei para o Japão , trabalhei no Ministério dos Negócios Estrangeiros sendo transferido para Portugal onde permaneci 4 anos presenciando a Revolução dos Cravos. De Lisboa voltei ao Brasil como Cônsul em Porto Alegre, sendo transferido para Brasília.Nesta época aconteceu a visita do Presidente Geisel ao Japão onde servi como intérprete oficial do governo japonês. Fui novamente para o Japão trabalhei no Departamento de Assistência Econômica. Em 1980 voltei ao Brasil como Cônsul Geral Adjunto na cidade de São Paulo e nesta época houve a primeira visita do Príncipe herdeiro ao Brasil e eu participei ativamente desta visita. No ano de 1983 fui ao Japão e voltei ao Brasil como cônsul Geral Adjunto  no Rio de Janeiro e em São Paulo.Encerrei minha carreira em Manaus como Cônsul Geral  e fui morar no Japão.

5.O que o fez escolher o Brasil para viver?
Porque me casei com uma brasileira que conheci na época da UCP e com quem estou casado há 43 anos.

6.O que o senhor poderia contar nestas idas e vindas entre Japão Europa e Brasil?
Muitas coisas interessantes aconteceram mas eu percebi que apesar das diferenças culturais, religiosas e de raças o ser humano é igual na sua essência e atualmente com os meios de comunicação cada vez maior os povos estão se igualando.Cito como exemplos a  moda, a música e os esportes.

7.Como o senhor vê a diferença entre a cultura japonesa e a brasileira?
O povo japonês é disciplinado, educado, limpo e responsável.A educação no Japão é obrigatória durante 9 anos e  99,9% é alfabetizado.A alfabetização é gratuita apesar de existir escolas particulares. O período é de tempo integral ou seja de manhã até à tarde
A presença dos pais e professores é forte na formação dos jovens.O povo japonês não se preocupa somente com a instrução mas com a educação como um todo  para formar o cidadão.A arte, o esporte , os cuidados com a natureza e com os animais estão sempre presentes na própria escola.
Durante estes 30 anos de serviço diplomático no Brasil, percebi que houve um notável desenvolvimento na parte de instrução com a diminuição de analfabetos.E mais, hoje existe a merenda escolar e os Amigos da Escola. Iniciativas como essas aproximam as pessoas da escola como acontece no Japão e os tornam mais conscientes de suas responsabilidades na formação dos jovens.

8. Já que estamos representando uma Academia de Poesia o que é o HAICAI?
Haicai é uma composição poética de origem japonesa formada por 17 sílabas , 5, 7, 5 e que são distribuídas em três versos.
O Haicai não possui título e nem rimas.Um dos versos deve fazer referência a uma das estações do ano chamada KIGO.É uma cena da realidade capaz de provocar uma reflexão sobre a vida.Por essa meditação tira-se uma mensagem HAIMI.
O primeiro Haicalista chamava Matsuo Basho que nasceu em 1644, na Província de IGA no Japão.
Fiquei surpreso ao saber que existem pessoas que fazem ou fizeram HAICAIS no Brasil.Inclusive em Petrópolis temos um haicalista  o professor Ataualpa A.P. Filho membro desta Academia.

9. O que mais o senhor gostaria de acrescentar?
Como servi mais no Brasil, país pelo qual tenho a mais profunda admiração e cujo povo alegre, jovem e informal muito me encanta, sempre procurei pautar o meu trabalho para um maior estreitamento dos laços de amizade entre os dois povos.Japoneses e brasileiros só tem a ganhar com tudo que um possa ensinar ao outro.E podem crer que apesar de ou por causa da longa distancia, da dificuldade da língua  e das respectivas e distintas culturas, são povos que se atraem e se completam.

Neste ano em que é comemorado o Centenário da Imigração Japonesa no Brasil a Academia Brasileira de Poesia  Casa Raul de Leoni agradece a sua entrevista e deseja  que os laços entre Brasil e Japão se tornem cada vez mais fortes.

Entrevistadora Julia Gouvêa Schaefer cadeira 01

 

 

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