
O POETA DO VERSO CLARO
1 – Sua poesia deixa transparecer um olhar de desencanto sobre nosso século. Você quer dizer com isso, que a arte, no caso a poesia, é o caminho para a redenção do ser humano e instrumento para se ordenar esse caos?
A poesia pode não ser o caminho para a redenção do ser humano e o instrumento para se ordenar esse caos. Mas não deixa de ser uma opção, uma tentativa de romper o cerco e buscar a salvação, no sentido de que é preciso quebrar o conformismo e não ceder ao encarceramento cultural, psicológico e social do que há de mais fraterno e solidário no ser humano. Temos de enfrentar todas as pressões que nos oprimem e o desencanto que nos rodeia. Para quem vê na poesia algo mais que um exercício literário, sujeito a modismos e teorizações de todos os gêneros, ou um caminho para o posicionamento e a ascensão no estéril mundo da política cultural, é inaceitável assistir ao empobrecimento a que ela é submetida quando passa a constituir um simples meio de inserção na área difusa da vaidade literária ou um joguete ao sabor dos passageiros e contraditórios ventos da moda ou das ideologias desejosas de confronto e hegemonia. A esse quadro deve contrapor-se uma dedicação que não recua, mas, ao contrário, prossegue em sua procura interminável do belo, em meio ao que há de mais profundo e arraigado na tragicomédia do cotidiano. Cito, a propósito, os versos finais do longo poema “Noite sobre dia”, que faz parte do volume Lavradio, em que me arrisquei a expresssar-me a respeito, opondo, em metáfora, a luz desse desejo à sombra silenciosa da noite vazia:
o poema é teu escudo
ergue-te e luta
não é a noite
essa intrigante bruta
que há de roubar-te a luz
crê e levanta
esse estandarte
o poema
e a vida canta
com a esperança no bolso quebra e espanca
a longa mancha dessa noite branca
e estilhaça o sofrer
a morte
o espanto
que se esconde em seu pardacento manto
aonde fores terás sempre a esperança
na forma exata de uma aguda lança
para rasgar a noite
e achar o dia
mesmo que só na tua fantasia
talha a pedra
que a pedra não te nega
tudo que nela operas
e te lega
a ode clara do dia
o alto poema
que é da esperança a mais valiosa gema
2 – Você foi construindo sua poesia à margem de escolas e correntes literárias e conseguiu a aprovação do público e da crítica. Isso o faz se sentir realizado como poeta?
A realização como poeta é uma conquista que se faz no dia-a-dia, a cada poema escrito, a cada encontro entre a vida real e a fantasia, o pensamento e a palavra, a razão e a metáfora capaz de expressá-la. Esse é um terreno em que a pretensão, a arrogância e a veleidade não passam de um jogo fátuo e ridículo que se dissipa como a fumaça e apenas cega os ególatras e imprudentes. Todo um caminho se faz e refaz, com humildade e perseverança, a cada verso, a cada imagem, a cada tema percorrido com a curiosidade insopitável de uma criança que se interroga, questionando o mundo à sua volta. Não há ponto de chegada, mas uma peregrinação que tem em si mesma seu próprio destino e sua justificação.
3 – Estão presentes em sua poesia a interação do existencial e do social, a paixão pelo artesanato formal, a expressão verbal como síntese do novo e do tradicional. Como é que funciona a alquimia dessa interação?
A alquimia da interação entre existencial e social, artesanato formal e expressão como síntese do novo e do tradicional é uma exigência da economia do poema, de sua estrutura interna, de sua razão de existir como expressão de uma experiência humana e seu desejo de permanência. O poema é a representação escrita, concreta e real de um estado poético, seja ele resultado de uma emoção, uma sensação, uma idéia, um pensamento organizado, uma circunstância que se deseja preservar do caruncho do tempo, uma aspiração de plenitude e de continuidade no plano estético, inerente à condição humana, sitiada pela iminência indesejada da mortalidade. A poesia pode oferecer um olhar abrangente desse complexo interativo de aspirações e realizações.
4 – A presença da morte, a corrosão do tempo, a violência do cotidiano, o isolamento e a solidão da era da internet, parecem clamar na sua voz, por um mundo mais justo e uma humanidade mais livre, somados a resíduos de leituras e vivências pessoais, pode-se dizer que sejam a essência de sua poesia?
A essência da poesia, tal como a compreendo, deriva da própria essência do ser humano. Ela está impregnada da vida e dela retira o sumo, a seiva e o sangue de sua existência que se expresssa por intermédio da palavra. É no cerne e no som da palavra que ela explode com seu encantamento, sua música, sua verdade que se exterioriza na harmonia das sílabas entrelaçadas de um modo que se distingue de qualquer outra forma de comunicação verbal.
5 – É verdade que seu fazer poético é sintoma de inconformismo com o que está sendo feito em matéria de poesia, que você quer mais do que o que está sendo feito?
Procuro o meu próprio caminho em meio ao arquipélago de estilos, movimentos e tendências que ocupam o lugar outrora tomado pelas escolas literárias. O caráter múltiplo das manifestações contemporâneas tem, ao menos, a vantagem de ninguém passar pelo dissabor de sofrer a ditadura de uma determinada escola, seja ela qual for. É possível que a última tentativa do gênero esteja extinta há cinquenta anos e já se tenha perdido na poeira do tempo, como se dizia em outra época, diferente desta que alguns denominam de pós-moderna. Sob essa ou outra classificação, ela permite a liberdade de expressão atual, marginada, de um lado, pelo caos à beira do absoluto e, do outro, pela teimosa e aleatória pretensão de alguns círculos e grupos de se apresentarem como os donos da verdade. Trata-se de pura ilusão, quando se vive num terreno instável e movediço como este de que estamos falando, em que os cânones, normas, leis e preceitos parecem soar como sinos rachados, tocados em paragens ermas e vazias. É preciso fazer mais, sim, sempre mais, ancorado no presente, mas olhando para frente e para trás, pois nada se cria do nada, quando se trata de uma obra humana. Estamos em cima dos degraus que outros construíram ao longo dos séculos e, no fundo, não estamos criando nada que não esteja contido nos limites insondáveis do fazer humano. Não inventamos o que já está inventado. Podemos, sim, reinventar, no sentido de renovar e recriar.
6 – Os críticos dizem que “sua excepcional capacidade para construir o poema sugere um ressentimento com o individualismo alienador, e parece que você tenta unificar o mundo pela palavra”. Quanto há de realidade nisso?
A solidariedade humana sempre foi e será uma aspiração, um desejo e uma idéia-força mais do que uma realidade que se apresente com frequência no cenário do cotidiano. Toda iniciativa solidária corre o risco de se esgotar na oralidade ou no verbo escrito. Mas, ao contrário, deveria estar presente onde se faz necessária, nos muitíssimos palcos em que se exibe a tragédia da miséria humana. Essa tragédia secular é traduzida em exploração, injustiça, assassínio, guerra, genocídio, inanição, ignorância e toda a coorte fantasmagórica que invade tanto as urbes gigantescas de países desenvolvidos ou atrasados quanto os campos talados pela devastação implacável e irracional dos conflitos de toda natureza. Hoje, há os originados em causas econômicas, sociais, políticas, ideológicas, religiosas, étnicas ou em qualquer outro motivo capaz de levar ao massacre, ao morticínio, ao confinamento em campos de concentração, às execuções, aos atentados ou à solitária bala perdida. A esse horror, temos de opor o escudo e a couraça de uma poesia que procure, em sua humildade, constituir-se num padrão de beleza, num documento afirmativo e num sopro de paz.
7 – Dentre tantos livros sobre qual deles recai sua preferência pessoal?
Cada livro tem sua própria história, sua origem, seu momento de concepção, sua razão de ser. É impossível preferir um aos outros, porque todos fazem parte de um painel composto de muitos mosaicos, de um conjunto solidário, de uma obra em andamento que só terminará com a morte ou a incapacidade física do autor. Há sempre algo melhor a fazer ou o desejo de se fazer melhor, ou ainda a ilusão de se fazer melhor, assim como um dia se sucede a outro dia e nenhum se assume como igual ao outro, mas todos somam nossa presença e nossa passagem no tempo e pelo tempo. Cidade em grito, o primeiro livro publicado, quando o autor já tinha 42 anos, mas escrito aos 27 anos, é um longo poema estruturado, de tema urbano, prefaciado pelo grande escritor português Ferreira de Castro, que ressaltou essa característica do livro. A partir daí, surgiram Canto em si e outros cantos, volume composto de três livros voltados também para a temática urbana, e O solitário gesto de viver, que registra e verbera a reificação do homem citadino, embora repleto de metáforas e imagens campestres, além do cenário gaúcho; O sol nas entranhas, visão de um Rio de Janeiro em que a urbanização se fez sobre a destruição de marcos e referências do passado; Solo e subsolo, formado por três livros, o primeiro com a apresentação de uma paisagem mineira agredida pela ação do homem; o segundo centrado na figura de um Cristo operário e de um São Francisco despojado; e o terceiro que retomou o tema da coisificação do ser humano, com ironia e experimentações poéticas e verbais diversas. Seguiram-se O continente e a ilha, formado por dois livros em que a experimentação estética se une à problematica existencial, à memoria, à historia e à biografia, e Galope do tempo, em que a tônica da passagem dos dias abriga aforismos e alusões conceituais de fundo existencial, ao longo de uma estrutura poética em que se utiliza, com frequência, a técnica experimental no plano do desenvolvimento da obra. Vieram ainda Lavradio, constituído por quatro livros: o primeiro, uma viagem ao longo da memória; o segundo, uma reflexão sobre a poesia; o terceiro, a visão trágica de um Rio de Janeiro assolado pela violência e pelo ceticismo; e o quarto, um longo poema sobre a travessia existencial. Depois dele, foram publicados Das rias ao mar oceano, uma ponte entre a Ibéria e o Brasil, com ênfase na memória ancestral galaica, e Corta a noite um gemido, longo poema em que a experimentação com a reinvenção de formas e modelos clássicos conta a história sangrenta e inaceitável dos ataques às populações civis, vindos de onde vierem. Nesse período, apareceram também traduções de alguns livros em países como a Suécia, a Itália, o Canadá e a Espanha, além de uma edição bilíngue em português e francês sob o título O tempo e a pedra / Le temps et la pierre, organizado e traduzido por minha mulher, Maria José de Sant’Anna Alvarez, com a colaboração de vários tradutores, e Diáspora ou aprendiz de galego, livro bilíngue que reúne trinta sonetos que escrevi em galego e traduzi para o português. Estão sendo lançados agora El último día, volume que junta o longo poema-título sobre a condição humana à coletânea El aullido y los perros, escrita no princípio da década de 1980 e publicada em 2003, e a edição bilíngue com a tradução em italiano do longo poema sobre a América Latina intitulado “Manual de conduta”, já publicado em duas obras anteriores do autor. Em 1999, A faca pelo fio, coedição da Fundação Biblioteca Nacional com a Imago Editora, reuniu seis livros meus: Galope do tempo, O continente e a ilha, Solo e subsolo, O solitário gesto de viver, O sol nas entranhas e Canto em si e outros cantos. Todos eles ajudaram a erguer os andares de uma obra em progresso que está longe ainda de sua conclusão. Assim o desejo e espero.
Reynaldo Valinho Alvarez
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