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ENTREVISTAS
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Entrevista com o editor do Jornal Poiésis Camilo Mota


Entrevistador: Turi Souza, Saquarema, RJ
Um bate papo descontraído com o editor do Jornal Poiésis, Camilo Mota.

Camilo, fale um pouco sobre a sua infância em São João Nepomuceno-MG?

Eu gosto de pensar que eu sou mineiro, eu gosto desta idéia de ser mineiro. Eu nasci em São João Nepomuceno, mas a gente morava em um sítio, entre São João Nepomuceno e Rochedo de Minas. Meu pai criava gado, tinha as plantações... a minha infância foi tranqüila, foi no meio da natureza. Foi lá que eu aprendi a ler e escrever, a minha mãe que me ensinava... Em São João Nepomuceno eu vivi somente a primeira infância, até os 5 anos de idade. E de lá a família foi para Petrópolis com aquela intenção de dar melhor condição de vida pro filho. Na época era meu pai e minha mãe e eu. Meu irmão Frederico veio a nascer em 1978, já em Petrópolis. Eu nasci em 1965 e por volta de 1970 a família foi pra lá com esta intenção de eu poder estudar melhor, e de ter um pouco mais de condição por que a vida no campo era difícil.

Então você começou os estudos em Petrópolis?

Isso. O primário e o ginásio eu fiz em Petrópolis e depois fiz a Faculdade em Juiz de Fora.

E você teve alguma influência familiar para gostar de literatura?

Boa pergunta. Minha mãe é costureira, tem só a 4º série primária, e meu pai era lavrador e também só tinha a 4º série primária. São pessoas humildes. A influência que eu tive foi do interesse de minha mãe de me ensinar, tanto que quando eu cheguei no pré primário na escola eu já sabia ler e escrever, e depois de 6 meses no pré a professora falou “olha, você não pode ficar aqui não, você tem que ir para primeira série”. Então no meio do ano eu fiz a primeira série, e passei normalmente. E depois veio o ciclo normal dos estudos. Então não houve uma influência por conta de meus pais serem pessoas ligadas ao mundo da literatura, ou das artes ou de qualquer outra coisa...

Nem nenhum amigo, ou parente próximo influenciou?

Meu avô paterno tinha ligação com arte porque era músico, mas eu convivi com ele muito pouco tempo, só até os 3 ou 4 anos.

E quando foi que você decidiu pelas letras? Só quando você foi fazer o vestibular? Ou já veio antes uma vontade de estudar letras, de entrar para esta área?

Desde criança, quando fomos morar lá em Petrópolis, meus pais foram morar em uma casa trabalhando como caseiros. Nós tivemos a sorte do dono da casa, o Dr. Alberto de Sampaio Ferraz, guardo o nome dele até hoje com carinho, desde que ele me conheceu (eu, um garotinho de 5 ou 6 anos) trazia revistas em quadrinhos pra mim, trazia livros.. sempre trazia... toda vez que ele vinha no verão... e eu lia, lia, lia... gostava de ler naturalmente, fui aprendendo a gostar... Mas em termos de optar pelo curso de Letras, foi bem mais tarde, foi lá naquela época de adolescência mesmo, por volta dos 16 no ensino médio, que me despertou a literatura...

Então o seu contato com a literatura foi através da escola?

Foi na escola, mas teve muita influência do professor de português José Guilherme Dutra Vieira Christo, que me mostrou como pensava a gramática, que até então eu não entendia. Por que que eu estava estudando oração subordinada? Até então, pra mim isso não tinha muito sentido. No dia que eu entendi aquilo ali, e entendi como a literatura se estabelece, como um livro acontece, eu me encantei. Foi uma influência muito importante pela postura dele, pelo jeito de ensinar, e aí eu resolvi fazer Letras, apesar de contrariar os interesses família, por causa do tipo de trabalho, das dificuldades e da falta de valorização da profissão de professor...

E como foi seu trabalho no folheto Abre Alas em Juiz de Fora?

O despertar da literatura aconteceu em Petrópolis. Eu fui para Juiz de Fora com a intenção de ser professor. No meio do curso eu entrei em contato com os poetas de Juiz de Fora, que formavam um grupo chamado “Abre Alas”, que tinham um folheto de igual nome que era distribuído na faculdade. E isso me deu a primeira base de criação literária.

Você já escrevia poesia?

Quando eu era adolescente eu até escrevia poesias de amor, aquela coisa de amor platônico da juventude, mas depois eu esqueci disso. Só mais tarde, quando eu entrei na faculdade e ao conhecer o pessoal do Abre Alas, é que o interesse pela poesia renasceu em mim. Os poetas de lá eram muito interessantes. O pessoal ia pro calçadão da Rua Halfeld e fazia varal de poesia, pessoas desfilavam falando poesias no megafone, distribuíam o Abre Alas, e aquilo ali me encantou e eu comecei a escrever os meus versos e a conversar com eles. Nessa convivência eu cheguei a participar do conselho editorial, e isso me deu um gosto maior pelo fazer literário, e continuei escrevendo e me aprimorando...

Então você entrou na Faculdade com o pensamento de ser professor?

O pensamento era ser professor de português e literatura, e eu até teria sido se eu não tivesse depois desistido de ser professor. Mas o curso me ajudou muito, em todo o processo, até na criação do jornal.

E depois que você se formou, você já veio pra Saquarema?

Não, depois que eu terminei o curso, em 1990, eu voltei para Petrópolis já com uma outra perspectiva...

Já não queria mais ser professor?

Não, teve um momento difícil, crítico, existencial, de não querer ser professor. Eu cheguei a dar aula, mas tem um momento na vida que se chega em uma encruzilhada, e as coisas não ficam muito claras para onde se vai, e numa dessas encruzilhadas eu deixei este lado de ser professor, e fui fazer outras coisas, trabalhar em outras áreas. Só que o bichinho da literatura fica armazenado. Se você aprendeu aquilo, aquilo fica na sua veia.. Mesmo você querendo apagar, ele volta depois... Quando a gente tem uma tendência a desenvolver determinada arte, quando a gente desenvolve uma sensibilidade e consegue expressar esta sensibilidade em uma determinada arte, vai chegar uma hora que você pode até entrar em crise consigo mesmo e dizer “não quero mais fazer arte”, mas ela acaba voltando, porque ela está muito ligada na sua alma. É uma coisa de missão, quando o artista pensa em termos de arte como uma expressão de sua existência. Isso pode ser com qualquer tipo de arte, comigo foi com a literatura. Então, após ter voltado a Petrópolis e estar trabalhando em outras áreas, o meu olhar se desviou para um jornal da cidade, o jornal de uma livraria e papelaria chamada Obelisco, isso foi em 91. Veja como são as coincidências da vida. O dono deste jornal e da livraria, Paulo Roberto Lisboa, tinha sido meu professor de educação religiosa, e era uma pessoa muito bacana como professor, eu gostava muito dele, talvez até por causa dos ensinamentos, que eram morais e cristãos, pois eu estudei em escola católica... A editora deste jornal era Eliane Maciel, que na época estava colhendo os frutos de uma obra que foi um grande sucesso no Brasil, que é “Com licença eu vou a luta”. Era uma pessoa que eu admirava muito antes de conhece-la. No jornal também havia outras pessoas, o Vichy Junior que escrevia umas coisas de humor muito legais, e tinha um cronista também muito interessante, chamado Silvio Adalberto, que depois veio a fazer parte do conselho editorial do Poiésis. Tinha uma sessão neste jornal, um quadradinho, onde eles sempre publicavam um poema de alguém. Então eu resolvi mandar quatro poemas. Eu na época já estava escrevendo a poesia de uma maneira mais fluida, mais leve... Quando eu fui ver a outra edição do jornal, apareceram os quatro publicados na mesma edição. Eu fiquei bem feliz. Eu achava que iam publicar um e publicaram os quatro. Quando eu vi esta aceitação de poesia eu resolvi fazer um projeto.

E daí nasceu o Poiésis?

Isso, o Poiésis nasceu da aceitação da minha obra num jornal (Jornal Cultural Obelisco), e das pessoas que estavam ali, que eram pessoas a quem eu admirava. Então eu fiz o projeto. A minha idéia foi fazer duas páginas no jornal deles, onde eu iria editar poesias de outras pessoas, para fazer um intercâmbio de literatura, de poesias. Seria uma página independente. Quis desenvolver este projeto para enriquecer mais o jornal deles, que já veiculava coisas maravilhosas. Então eu falei com o Paulo Roberto, e ele aprovou. Assim no mês seguinte, isso foi em fevereiro de 93, duas páginas no jornal Obelisco vinham escritas assim em cima “Poiésis 1”, com poemas dispostos pela página e no fundo montagens feitas pelo artista plástico André Luis Esch. A gente fez uma parceria: ele desenhava, fazia a parte gráfica, diagramava, e eu escolhia os poemas e ele colocava lá.

E qual foi a origem deste nome, Poiésis?

Este nome é em grego. Eu tive um professor de Filosofia na UFJF, o Joel Neves, e ele usava dois termos para explicar a criação e percepção da obra de arte. Ele explicava sobre o poético e o poiético. Um termo era “poesis” e o outro era “poiésis”. Eu guardei este “poiésis”, por ser justamente a palavra poesia, a alma da obra de arte.

E depois, para o seu jornal se tornar independente?

Aí a vida vai dando voltas. Ele surgiu como estas duas páginas só de poesia, e nós ficamos 9 meses no Jornal Cultural Obelisco. Até quando ele parou de circular. Mas nesta mesma época já existia na cidade de Petrópolis um outro jornal cultural rodando, chamado Culturarte, do ator Fabio Limma, do qual eu já era colaborador, inclusive vindo a ser o editor do jornal meses depois. Eu conversei com o Fábio e propus levar o Poiésis para lá, do mesmo jeito que eu editava no Obelisco. Então ele se manteve mais um tempo na mesma estrutura, duas páginas só de poesia. Em 95 eu precisei tomar a decisão de colocar o Poiésis como um jornal independente. Então eu fiz a primeira edição de quatro páginas, um conto na capa, duas páginas de poesia e umas coisinhas a mais de literatura. Já era a intenção de fazer um jornal de poesia e de literatura como um todo, publicar contos, resenhas e crônicas... Na segunda edição que teve como independente já tinham oito páginas, e durante muito tempo ficou com 8 páginas.

Então inicialmente ele veio com esta cara de jornal literário?

Isso mesmo. Era um jornal de poesia e literatura. A intenção sempre foi essa, de ser exclusivamente literário. Porque o Culturarte era um jornal cultural, aberto, eu não ia ter espaço nele para publicar, por exemplo, um conto. E eu queria publicar conto. Eu acho que faz falta, você abre os jornais de grande circulação e não tem um conto, não tem poesia. São coisas raras na grande mídia. A grande imprensa não divulga literatura, divulga resenha de literatura, faz propaganda de livro, mas um texto literário mesmo a gente quase não encontra. Daí a idéia de fazer um jornal literário.

E você tomou algum outro jornal como exemplo?

Teve uma intenção inicial de ser semelhante ao Abre Alas na sua formação, quer dizer, você junta um grupo de pessoas, que gostam de literatura, discutem esta literatura, escolhem os textos e publicam. No inicio éramos somente eu e o André Esch, porque eu não conhecia mais ninguém na cidade ainda. E o André não era escritor, era pintor, artista plástico. Nesse período eu conheci o Fernando Py, quando eu trabalhava no Diário de Petrópolis. A gente começou a dialogar, a trocar idéias, e a assim formou-se o primeiro núcleo do conselho editorial do Poiésis.

E isso foi a partir de que fase do jornal?

Foi desde o começo, desde quando o Poiésis tinha duas páginas o Fernando Py já estava dentro.

E o jornal chegou a parar de circular alguma vez?

Para você ter uma idéia, o jornal iniciou em 93 e eu só parei de fazer em 2000. Nesta época deu uma crise meio existencial de fazer o jornal, dificuldade mesmo de fazer, então eu parei. Eu fiquei um ano sem ditar, e em 2001 ficou sem atividade do jornal. Mas muitas pessoas escreviam, pediam o retorno. Nós enviamos a publicação para fora, e sempre foi um jornal muito conceituado. Nós ganhamos alguns prêmios de reconhecimento, da União Brasileira de Escritores. Recebemos da Terezinka Pereira um diploma da Associação Internacional de Escritores (IWA). Então a gente fez uma história neste tempo de 93 até 2000 bem firme, e tivemos o reconhecimento de outros escritores. Isto porque nós sempre mantivemos a qualidade dos textos, discutíamos o que ia ser publicado para manter o nível cultural legal, não publicávamos qualquer poema. Por mais valor que tenha a poesia de um estudante, que está aprendendo, que faz um verso para a namorada, que é bonito, bacana, não é o tipo de texto que eu vou poder publicar no Poiésis. Porque existem escritores contemporâneos que estão hoje na lida da literatura, que tem muito valor e não têm espaço. E para estes que criei o espaço para a divulgação através do Poiésis.

Então a intenção do seu jornal é divulgar os escritores contemporâneos?

Sim. Mas o contemporâneo pode ter nascido em 1920 ou em 1980. O importante é a atividade literária em nosso tempo, independentemente de sua idade. O Fernando Py, por exemplo, é de 1935; eu sou de 65. Apesar dos 30 anos diferença em nossas idades, há uma identidade maior que acontece através da produção literária.

A escolha dos textos é pela qualidade então?

É pela qualidade do texto, pela criatividade da pessoa. A gente vê estas coisas na hora de publicar. Para não publicar um texto que às vezes foi feito assim sem ser muito trabalhado poeticamente. Por exemplo: vai publicar uma crônica, tem que ser uma crônica que tenha uma boa estrutura, um bom pensamento, em conformidade, que acrescente alguma coisa pro mundo literário, e pras pessoas pensarem melhor a sua realidade. Daí é o seguinte, quando o jornal se torna um jornal de literatura ele cresce e se expande, foi até 2000 assim, eu parei em 2001 e em 2002 eu retomei o projeto.

Com o mesmo grupo?

O grupo é o mesmo. Só que vão surgindo pessoas novas pelo caminho, hoje o conselho editorial é mais robusto, mais participativo, tem mais pessoas (Gerson Valle, Marcelo J. Fernandes, Sylvio Adalberto, Marco Aureh, Francisco Pontes de Miranda Ferreira, Celso Brito). Já foram incorporadas pessoas inclusive de Saquarema. É interessante isso, porque antigamente a gente fazia uma reunião de pauta na casa de alguém e podíamos sentar e conversar e olhar olho no olho. Hoje, como eu estou aqui em Saquarema, a conversa toda é por e-mail. Perdeu um pouco esta dinâmica do olho-no-olho mas o diálogo continua o mesmo. Do conselho editorial tem pessoas de lá de Petrópolis e tem pessoas daqui, que eu já conheci aqui em Saquarema, e que são interessantes de participar, que compartilham a mesma visão de mundo em termos de criação literária. O respeito que a gente tem que ter pela palavra escrita, e como a gente tem que trabalhar isso e divulgar isso. E em Saquarema tem pessoas muito interessantes. Eu não sabia que havia, quer dizer, sabia que havia mas não conhecia. Já surgem alguns nomes que aos poucos, se você perceber, já estão aparecendo publicados no jornal (Roseana Murray, Latuf Isaías Mucci, Jota de Jesus, Maria Clara Maia, Eric Iglesias, Charles Soares)

E a sua vinda pra Saquarema, onde entra nesta história?

A minha vinda foi em meados de 2002. Eu voltei a fazer o jornal no início de 2002 lá em Petrópolis e depois vim para cá e continuei fazendo o jornal lá. Num determinado momento, resolvemos eu e Regina, minha esposa, fazer o jornal aqui também, dar a oportunidade para esta cidade de conhecer este movimento literário que nós podemos desenvolver. Adaptamos a publicação para ser inserido a esta sociedade e após o lançamento aqui ele teve uma expansão enorme, porque a receptividade foi muito grande. As pessoas daqui precisavam disso, sentiram esta necessidade. Foi mais fácil de captar os anúncios, porque a gente depende deles pra fazer o jornal circular. E o ideário não é nem por causa de anúncio, de dinheiro, nunca foi isso. O ideário é ter um espaço de intercâmbio entre as pessoas que gostam de ler e escrever. Então você junta as duas pontas que trabalham isso. Só que hoje, o que eram duas páginas de poesia, e que um dia virou um jornal de literatura, tornou-se num jornal cultural, com literatura, música, teatro, meio ambiente... Mas o espaço maior continua sendo para literatura e sempre vai ser. E ele foi adaptado para a cultura local. O que eu mais ganhei vindo para Saquarema foi o contato da publicação do jornal com a comunidade, pra mim isso foi o mais interessante, porque antes, apesar de não ser essa a intenção, ele circulava muito pelo meio literário e nem tanto pela comunidade. Quando veio para cá ele se tornou um jornal cultural, aberto, para falar dos grandes temas, da cultura universal e falar do artista que está trabalhando aqui na cidade, do artesão, da associação, do músico que está fazendo um show ou gravando um CD, abriu-se espaço para estes pequenos núcleos da comunidade se espelharem também ali e se mostrarem. Este foi, ao meu ver, o grande ganho do Poiésis em Saquarema, o que ajudou a dar a expansão. Tanto que passou a ser distribuído também em Araruama, Cabo Frio, Arraial do Cabo, Iguaba Grande e em Petrópolis, é claro, além das livrarias do Rio de Janeiro. Sempre com distribuição gratuita.

E como foi a sua entrada para a Academia Brasileira de Poesia?

A Academia Brasileira de Poesia foi fundada em Petrópolis por um grupo de poetas que criaram na época a Academia Petropolitana de Poesia Raul de Leoni, em homenagem ao poeta parnasiano Raul de Leoni que é natural de Petrópolis. Por volta de 1993, quando eu criei o Poiésis, eu me sobressaí no mundo literário local. E estava convivendo com o Fernando Py, conversando com ele, trocando muitas idéias. Então ele me convidou para fazer parte da academia, e eu sou membro titular. São apenas 40 cadeiras. Quando desocupam uma cadeira é eleita alguma pessoa para substituir, e eu tive a felicidade de ser eleito naquela época. Hoje eu ocupo a cadeira 32. Essa academia mudou o estatuto recentemente, e alterou o nome para Academia Brasileira de Poesia - Casa de Raul de Leoni.

Queremos que você faça um breve comentário a respeito das suas obras, e também cite uma poesia de cada uma delas.

O Cântico é a minha primeira experiência em termos de livro. Nem sei se podemos chamar de livro. Era um pequeno livreto de 16 páginas. Eu juntei os primeiro poemas que achei que eram significativos, em 92, e publiquei. Foi quase um folheto, são poemas bem mais simples, delicados, bem mais líricos do que os que eu fazia em Juiz de Fora. Em Juiz de Fora eu aprendi a trabalhar com a palavra, pegar o verbo, fazer um verso, cortar um adjetivo, modelar um ritmo, tentar entender o que eu estava fazendo, descobrindo a minha própria linguagem. Quando eu pensei ter descoberto a minha própria linguagem, escrevendo de forma natural, sem muita forçação de barra ou preocupação com forma, eu quis estruturar isso em um pequeno livreto, e eu fiz o Cântico.

O segundo livro, Bálsamo, já é mais encorpado. Tinha 60 páginas, eu já tinha um material mais encorpado para isso. Ele foi feito em 94, quando eu já tinha a bagagem do Poiésis. Nele tem poemas em prosa que eu comecei a desenvolver mais, a minha face lírica se aflorou mais, é um apanhado interessante de poemas.

O Tríade, que é de 98, na verdade é uma coleção de três livros. Eu uni Cântico, Bálsamo e Miserere, sendo este último um livro inédito e mais denso, com uma poesia mais enxuta, mais existencial em alguns momentos, mais madura.

Foi uma época melhor para divulgar os livros?

Sim, como eu estava vivendo uma época de expansão, de mostrar muito o meu trabalho através do Poiésis, quando eu fui lançar o terceiro livro, o Miserere, eu pensei que como tinha muita gente que nem tinha ouvido falar do Cântico e do Bálsamo, eu juntei todos e fiz o Tríade.

Muitos anos depois é que sai o Século Algum. Exatamente por causa do fim do século, e eu fiquei naquele intervalo: puxa vida, eu estou em que século? Eu estou no século 20 ou no 21? Então vou fazer um livro nesta linha. Eu estou no século algum, que tanto pode ser nenhum dos dois, por ser atemporal, quanto pode ser um ou outro, é algum. Então foi uma brincadeira com o nome que eu fiz.

O Paisagem de Ambos os Mundos, a gente fez no ano passado a convite da Editora Thesaurus de Brasília, de editar uma pequena antologia de poemas meus dentro de um projeto, onde o livreto é publicado e é distribuído nas escolas. Inclusive, é possível acessar o livro pelo site da Thesaurus, em formato pdf (http://www.thesaurus.com.br/livro-na-rua/acervo/camilo-mota/). Eu achei bacana, que é uma maneira de chegar nos estudantes e divulgar o trabalho. Isso é fundamental quando a gente escreve e desenvolve a própria linguagem. Quando você sabe o que está escrevendo, sabe o que quer dizer, e quando a gente publica, a gente acaba sendo descoberto. É interessante isso, as pessoas descobrem a poesia da gente, isso é uma coisa que é difícil de explicar, essa sensação que sentimos. Porque quando a gente escreve, o ato de escrever é um ato solitário, porque você escreve e aí? Você pega e divulga aquilo de alguma maneira; até então o poema não existe, até que alguém pegue e leia. Então você tem que contar que a pessoa vai pegar, vai ler, e vai sentir a vibração daquilo que você escreveu, porque enquanto o poema está escrito, ele está morto, ou pelo menos adormecido. Ele precisa de alguém para senti-lo. Quando você encontra uma pessoa que sentiu, você fica surpreso. Porque a poesia é diferente da música. A música, de uma maneira ou de outra, as pessoas estão sentindo através da audição. Pode haver uma contemplação mais passiva. A poesia tem uma outra vibração. Para a pessoa senti-la, ela tem que ter uma ligação consigo mesma. Se uma pessoa é tocada por uma poesia, é porque ela tem um toque que diz pra ela: “olha, você está neste mundo, você é sensível”. Eu acho importante isso de ser sensível, porque a gente vê que nem tudo está perdido no mundo, porque ainda existem pessoas sensíveis. Não é porque a pessoa sabe literatura que vai gostar de poesia, não é não. É porque a poesia tem uma palavra, tem uma vibração que toca no fundo de alguém, e aquele alguém se identifica com aquilo e se vê ali dentro. Então se eu estou escrevendo uma coisa hoje, é porque eu estou querendo dizer alguma coisa importante. Senão eu não iria perder meu tempo escrevendo, fazendo rabisco que não vai dizer nada pra ninguém. Se eu escrevo, é porque aquilo tem um significado, é porque eu percebi que aquilo ali é uma coisa de valor, eu tenho o meu valor pra aquilo, então eu coloco no mundo. O mundo vai ver se aquele valor que eu dei para aquele sentimento ou pensamento vai servir para alguma função maior. Para alguém vai servir, então é enriquecedor quando a gente encontra alguém, e eu tenho tido esta oportunidade muitas vezes, de alguém dizer pra mim “olha eu li aquele poema que você publicou no Poiésis, gostei muito, me disse muito”, e às vezes quem me diz isso é uma pessoa que eu jamais imaginaria que teria lido o poema. Às vezes uma pessoa humilde mesmo. Eu penso, será que aquela pessoa vai ler? Vai, a gente não pode ter preconceito com nada, com ninguém, o nosso leitor é qualquer leitor, qualquer pessoa pode ler e sentir.

Fonte: http://costadosolnews.webnode.com/news/entrevista-com-o-editor-do-jornal-poiesis-camilo-mota/