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ENTREVISTAS
- Entrevista com o editor do Jornal Poiésis Camilo Mota
- Pedro Lyra em entrevista ao Jornal Poiésis Literatura Pensamento e Arte...
- Anderson Braga Horta - Entravista ao Jornal Poiésis
- Entrevista com o poeta Reynaldo Valinho Alvarez
Anderson Braga Horta - Entravista ao Jornal Poiésis

O diálogo entre poetas é sempre enriquecedor. Muitos até escrevem poesias apenas para poetas lerem. Outros mostram sua alma para que todos a descubram. Alguns poetas são a própria poesia. Talvez seja este o caso de Anderson Braga Horta, mineiro radicado em Brasília, e que é, sem dúvida um dos mais importantes escritores brasileiros em atividade hoje, seja pelo trabalho poético em si, seja pelas importantes traduções que faz da literatura mundial, em particular a francesa. Nós do conselho editorial do Jornal Poiésis elaboramos algumas perguntas para Anderson, que nos brindou com um dos melhores diálogos que já criamos nas páginas de nossa publicação.

Camilo Mota – Você nasceu em Minas Gerais. Essa mineiridade genética está em sua obra? E como você vê esse espírito mineiro oscilando entre memória da terra natal e a sua universalidade frente ao mundo?

ABH – Meu caro Camilo, passei meus sete primeiros anos de vida em Minas, em cidades da Zona da Mata (Carangola, onde nasci, Manhumirim...), com breve passagem por Belo Horizonte. Os seguintes cinco anos, em Goiás Velho e Goiânia (onde comecei o Ginásio). Mais sete anos em cidades mineiras (em Manhumirim e em Leopoldina estudei, nessas duas cidades despertou meu interesse ativo por literatura), antes de partir para o Rio, onde passei os próximos sete anos (quantos setes!) e onde fiz o curso de Direito. Em Brasília, onde me fixei, onde constituí minha família, onde publico meus livros, estou há quase 48 anos. Por esse prisma, sou mais candango que outra coisa... Mas Brasília é também Minas, é também Goiás, é também o Rio de Janeiro, Brasília vai se tornando uma espécie de crisol do Brasil. De todo modo, a origem genética não se perde; nem, no meu caso, a origem geográfica, nem, muito menos, a origem sociocultural. Temperado por essas andanças e vivências, o espírito mineiro não me abandona, antes se apura e se enriquece.
Mas o que é mesmo essa mineiridade, esse espírito de Minas?
Drummond, num belo poema de A Vida Passada a Limpo, a “Prece de Mineiro no Rio”, atribui-lhe um “claro raio ordenador”, um balanço “entre o real e o irreal”, a capacidade de dedicar-se “em corpo e alma”, mas “sem apego servil”, uma humildade orgulhosa, uma circunspecção, um recato que não inibe “uma partícula de fogo embriagador”, um “profundo mar” longe do oceano. Não posso pretender definição mais exata, nem mais doida... Apenas quero explicitar que esse espírito é conservador, não renega, antes cultiva a tradição, sendo entretanto capaz de abrir-se para o novo (não para as novidades...).
É como me vejo: homem de formação tradicional, mas não infenso à renovação, o que digo como descrição, não como juízo.
Voltando aos termos de sua pergunta, acho que o espírito mineiro funde o sentimento da terra natal e o sentido de universalidade. Nisso me incluo, mas modestamente, sem pretensão às alturas em que voa o imenso poeta de Itabira.

Camilo Mota – A humanidade hoje parece caminhar para dois lados distintos: um voltado para a materialidade, a falta de esperança e o crescimento da violência. Outro, envolvendo as pessoas em prol de um amor coletivo pelo planeta, de volta a uma originalidade poética frente ao mundo. Você vê uma possibilidade de diálogo entre esses dois caminhos? A poesia e as artes ainda têm vez como veículos para conduzir os homens a um destino mais digno, mais humano?

ABH – O diálogo é quase impossível. Como diz o ditado, pau que nasce torto morre torto. Claro, em tese, é possível endireitar, mas trata-se de uma possibilidade para poucos... O caminho para um futuro viável passa, decerto, por todas as tentativas de diálogo do amor com o desamor, que você desdobra em materialidade, desesperança e violência. Todavia, se não se pode desprezar essas tentativas, por mais que os frutos se antecipem escassos, para atingir o desiderato é preciso ser radical: é preciso evitar que o mal germine e prolifere, eliminando o caldo de cultura que o permite. E isso só é possível pela educação. Educação universal, generalizada, integral. Aliada, ça va sans dire, a sanitarismo, assistência de saúde, alimentação, moradia e trabalho, mas como base sem a qual todos estes benefícios se frustram diante do mal.
Quando falo em educação, é claro que não me refiro tão-só à instrução, isto é, ao ensino de normas de linguagem, regras de aritmética, matérias profissionalizantes, etc. Tudo isso é indispensável, mas ainda é pouco. A educação há de ser holística, total, incluindo e privilegiando a formação cívica (para o cuidado da coisa pública), social (para a boa convivência), ambiental, moral e ética, tudo imbricado com uma preparação para as artes, para sua fruição e, na medida das inclinações de cada um, para sua produção também. Educação que envolva o Estado e a sociedade, instituições privadas, empresas, meios de comunicação, a família.
Assim, penso que educar também para a poesia, para as artes, para a meditação sobre o homem e o universo é fundamental, não se podendo esquecer, está visto, adequada educação sentimental, nem se perder de vista que educar não pode ser um processo exclusiva ou predominantemente teórico.
Difícil? Sem dúvida. Mas não vislumbro outro caminho a nosso alcance.

Marcelo Fernandes – Quais suas influências, seus autores favoritos e como é seu processo de criação?

ABH – Primeiras influências: Castro Alves e todos os outros românticos, Bilac e os principais companheiros do Parnaso; dentre os simbolistas, Alphonsus e Cruz e Sousa. Mais Camões, Antero e, avançando para o século XX, Fernando Pessoa. Do nosso Modernismo, Bandeira e Drummond, sobre todos. Continuam sendo meus autores favoritos, mas teria de acrescentar nomes do peso de Jorge de Lima, Cecília Meireles, tantos que é bom suster a pena. De outras literaturas, Dante, Victor Hugo, Baudelaire e Rimbaud, Quevedo e outros sóis do Século de Ouro espanhol. Em prosa, ponho em primeiro plano Machado de Assis.
Quanto ao meu processo de criação, não sou o poeta-engenheiro, à João Cabral de Melo Neto; meus poemas não são riscados na prancha, aos sóis da mente, como uma planta de arquiteto. A prancha existe, a mente trabalha, mas a semente nasce no escuro, de nebulosas que nem sempre podemos rastrear. Tendo longo tirocínio dos meios da construção poética, posso dispensar a visita, aleatória, da inspiração. Mas sempre que o procurei fazer dei com os burros nágua: saía-me o poema frio, rígido, sem graça. Sou daqueles a quem se aplica o dito de Valéry, de que o primeiro verso ofertam-no os deuses. Se não os deuses, que era querer demais, talvez algum duendezinho en passant... E o ofertado nem sempre é um verso inteiro; às vezes é tão-só a sombra de um ritmo, ou o vislumbre de uma idéia. Os deuses... Só a uns raros dão eles a iluminação completa, como o poema sonhado, à Coleridge, ou à Manuel Bandeira. Para funcionar bem, preciso de uma faísca original, não das grandes, que não tenho estrutura para tanto, mas de um pequeno relâmpago, como diz o poeta português José Carlos de Vasconcelos, em seu Caçador de Pirilampos.
Resta dizer que o relâmpago que nos põe em estado de poesia pode ser provocado com atiçadores como o bom poema, a boa música...
Já me ocorreu pensar o poema, planejá-lo, e ficar meses e anos à espera do momento de o escrever. Preciso estar in the mood, para que a boa idéia não se frustre.

Fernando Py – Dentre seus livros, quais aqueles que tiveram mais aceitação da crítica?

ABH – Estreei tarde. Esperei os 37 anos para lançar meu primeiro livro individual. Foi bom, pois com isso deixei nas gavetas uma grande produção absolutamente anacrônica. E tive tempo de ir publicando avulsamente, participando em antologias, ganhando um ou outro concurso, me relacionando proveitosamente com os meios literários, principalmente depois da vinda para Brasília. Não sei se devido a isso, a repercussão de meus livros tem sido maior do que a esperável. Embora a maioria deles tenha circulado em termos não comerciais, o que é uma limitação indesejável, não tenho de que me queixar. Não apenas quanto à poesia: mesmo a minha prosa crítico-ensaística vem tendo boa aceitação.
Como a poesia é o meu gênero primeiro e meu vício de eleição, atenho-me a ela. Sobre os meus versos, desde Altiplano e Outros Poemas, passando por Incomunicação, Marvário, Cronoscópio, O Pássaro no Aquário, Pulso, Quarteto Arcaico, manifestaram-se positivamente figuras como Drummond, Almeida Fischer, Waldemar Lopes, Domingos Carvalho da Silva, Geraldo Pinto Rodrigues – e deixo a exemplificação com os desaparecidos, para não abusar. Só uma exceção, para lembrar que você mesmo tem comentado, sempre generosamente, os meus trabalhos desde 1991, em pelo menos sete artigos. (Novamente o sagrado sete, número obsessivo dos meus Exercícios de Homem, número intencionalmente empregado pelo Gerson na distribuição dos seus poemas... E são sete as vossas perguntas!) Refiro-me, aqui, aos textos públicos, mas guardo um sem-número de cartas memoráveis, algumas, verdadeiramente, quase-ensaios. Sei que não mereço tanto; mas sou grato aos amigos, próximos ou distantes, que tanto me têm prestigiado. E penso, até, que o fato mesmo da não-comercialidade me tem propiciado esta fortuna, pois que me obriga a uma distribuição orientada...
Um livro, porém, se destaca dentre os meus nesse particular, e é justamente o mais ambicioso: Exercícios de Homem foi alvo de dezenas de apreciações, assinadas –e aqui me permito incluir vivos e mortos– por autores do porte de Henriqueta Lisboa, Homero Silveira, Fritz Teixeira de Sales, Ivan Junqueira, Wilson Martins, Paschoal Rangel, Foed Castro Chamma, Hermann José Reipert; Sérgio de Castro Pinto; por gente ilustre do Poiésis, que ora me entrevista – Fernando Py e Gerson Valle; no exterior, por F. Pires Lopes, Nahuel Santana, Carlos García de la Fuente, Artigas Milans Martínez, Francisco Hernándes Avilés; novamente no Brasil, por Afonso Félix de Sousa (antes até da edição), Alan Viggiano, Carlos Burlamáqui Kopke, Fischer, Antonio Carlos Osorio, H. Dobal, Branca Bakaj, José Roberto Teixeira Pinto, Celso Moliterno, Reynaldo Bairão, Olney Borges Pinto de Souza, Jácomo Mandato, Euclides Marques Andrade – não tenho como esgotar a lista.

Gerson Valle – A tradução lhe dá o mesmo prazer que a escrita, uma vez que ambas são excelentes?

ABH – Comecei a traduzir motivado por um concurso da revista A Época, do Centro Acadêmico Cândido de Oliveira, o famoso CACO, da antiga Faculdade Nacional de Direito. Estimulado pelo prêmio, conferido por Drummond, segui fazendo pequenas traduções. Décadas mais tarde, aqui em Brasília, a parceria com o saudoso Fernando Mendes Vianna e com José Jeronymo Rivera me triplicou a alegria de traduzir.
Você sabe, já conversamos a respeito, que traduzir poesia é para mim algo muito próximo ao escrever poesia original; dá, sim, alegria semelhante, mas há diferenças essenciais. O ideal, ao traduzir o poema, é procurar na língua-meta um resultado que corresponda ao traduzido, não só no sentido discursivo (quando há), mas ainda no ritmo, na melodia, nas reverberações, no poder de encantamento, enfim, do original. Só que esse trabalho tem de obedecer às diretrizes de seu objeto, sob pena de desclassificação. Deste modo, alguns dos prazeres do poetar originalmente não são dados pelo traduzir. O principal deles é a ausência da dádiva a que me referi na resposta ao Marcelo: o relâmpago, grande ou minúsculo, não é do tradutor (exceto na hipótese da solução de problema particularmente difícil), porque já foi transmitido a outrem. (Um relâmpago de segunda mão?...) Noutras palavras: falta a surpresa, ou o novo, da criação. Outro fator de diminuição dessa especialíssima libido é o tolhimento da liberdade de criar, já que as linhas mestras nos são impostas, já que a criação é um dado, cabendo ao tradutor, no máximo, recriar – dentro dos estreitos limites a que o junge o objeto sobre que trabalha, pena de descambar para a paráfrase ou a paródia.
Assim, pois, devo responder que o prazer da tradução é quase equivalente ao da escrita...
Mas há uma satisfação a mais que pode dar o traduzir, em relação ao escrever primário: a de (re)fazer (ou pelo menos tentar...) obra de qualidade superando todas essas limitações.

Marco Aureh – O que você tem a dizer sobre a poesia falada, declamada, e que formas de interpretação mais lhe agradam?

ABH – Poesia, arte da palavra, é para ser pronunciada, para ser dita, para ser cantada, e assim era no princípio. Essa oralidade recobrou vida com os trovadores e, mais tarde, com os poetas românticos que, a exemplo de nosso Castro Alves, a proferiam na praça ou declamavam nos salões e no teatro. Ela pode ter-se tornado recôndita, mas não foi eliminada: o poeta, mentalmente, fala e canta, e se não o faz vocalmente é, talvez, porque lhe falta o registro, o tom, o jeito...
Há uma poesia, contudo, que parece rejeitar a voz, ou ser por ela rejeitada, seja por se afastar demasiadamente do ritmo, da música, seja por se ter feito extremadamente cerebral, seja por um vanguardeiro apelo à visualidade.
Sou partidário da voz, da palavra, isto é, do ritmo e da música, o que não significa –antes pelo contrário– desdenhar o pensamento e a imagem. Afinal, palavra é tudo isso.
Equivocado, porém, me parece aplicar a impostação, a entonação, a dicção teatral a poema que não o dramático, o que o leva a soar falso, quando não ridículo. Não me consta que tenhamos escola para isso.
Agora, vamos e venhamos: mal declamado, não há poema que resista!

Sylvio Adalberto – O fato de seus pais serem poetas, e bons poetas, de que maneira influenciou seu labor poético?

ABH – Difícil dizê-lo. Só tomei, verdadeiramente, consciência de que meus pais eram poetas após o despertar para a poesia, motivado pelo conhecimento de Castro Alves e pela conseqüente ambição de realizar, também eu, alguma coisa comparável àquele prodígio de beleza verbal. Em seguida, porém, dei-lhes a ver minha incipiente produção, que eles prontamente estimularam, e tratei de me familiarizar (mais do que conveniente!) com a deles. Breve estaria a pastichar ora um, ora outro, a par dos clássicos, românticos, parnasianos e simbolistas que ia conhecendo e incorporando às minhas admirações.

Mas eles me influenciaram bem antes disso, desde sempre, em verdade, porque me trouxeram à vida num ambiente de amor e respeito aos livros, à inteligência, às artes, à Poesia.