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HINO DA ACADEMIA BRASILEIRA DE POESIA
"CASA DE RAUL DE LEONI"

Letra e música de autoria do Acadêmico Roger Feraudy (1923 - 2006)


Academia Raul de Leoni,
cultuamos com amor e alegria,
para sempre teu vulto lembrado,
será por todos exaltado!
Academia Raul de Leoni,
que nós celebramos com poesia,
teu nome, glória da literatura,
expoente do saber e da cultura!

A Luz mediterrânea
ilumina o nosso ideal,
brilhando tão espontânea
no teu verso original!

O teu nome pertence à história,
mas no Silogeu estás presente,
viverás eternamente
como exemplo na memória,
inspirando nossa gente!

 

Entrevistas

Entrevista com o editor do jornal Poiésis Camilo Mota
Entrevistador: Turi Souza, Saquarema, RJ

Um bate papo descontraído com o editor do Jornal Poiésis, Camilo Mota.

 

Camilo, fale um pouco sobre a sua infância em São João Nepomuceno-MG?

Eu gosto de pensar que eu sou mineiro, eu gosto desta idéia de ser mineiro. Eu nasci em São João Nepomuceno, mas a gente morava em um sítio, entre São João Nepomuceno e Rochedo de Minas. Meu pai criava gado, tinha as plantações... a minha infância foi tranqüila, foi no meio da natureza. Foi lá que eu aprendi a ler e escrever, a minha mãe que me ensinava... Em São João Nepomuceno eu vivi somente a primeira infância, até os 5 anos de idade. E de lá a família foi para Petrópolis com aquela intenção de dar melhor condição de vida pro filho. Na época era meu pai e minha mãe e eu. Meu irmão Frederico veio a nascer em 1978, já em Petrópolis. Eu nasci em 1965 e por volta de 1970 a família foi pra lá com esta intenção de eu poder estudar melhor, e de ter um pouco mais de condição por que a vida no campo era difícil.

Então você começou os estudos em Petrópolis?

Isso. O primário e o ginásio eu fiz em Petrópolis e depois fiz a Faculdade em Juiz de Fora.

E você teve alguma influência familiar para gostar de literatura?

Boa pergunta. Minha mãe é costureira, tem só a 4º série primária, e meu pai era lavrador e também só tinha a 4º série primária. São pessoas humildes. A influência que eu tive foi do interesse de minha mãe de me ensinar, tanto que quando eu cheguei no pré primário na escola eu já sabia ler e escrever, e depois de 6 meses no pré a professora falou “olha, você não pode ficar aqui não, você tem que ir para primeira série”. Então no meio do ano eu fiz a primeira série, e passei normalmente. E depois veio o ciclo normal dos estudos. Então não houve uma influência por conta de meus pais serem pessoas ligadas ao mundo da literatura, ou das artes ou de qualquer outra coisa...

Nem nenhum amigo, ou parente próximo influenciou?

Meu avô paterno tinha ligação com arte porque era músico, mas eu convivi com ele muito pouco tempo, só até os 3 ou 4 anos.

E quando foi que você decidiu pelas letras? Só quando você foi fazer o vestibular? Ou já veio antes uma vontade de estudar letras, de entrar para esta área?


Desde criança, quando fomos morar lá em Petrópolis, meus pais foram morar em uma casa trabalhando como caseiros. Nós tivemos a sorte do dono da casa, o Dr. Alberto de Sampaio Ferraz, guardo o nome dele até hoje com carinho, desde que ele me conheceu (eu, um garotinho de 5 ou 6 anos) trazia revistas em quadrinhos pra mim, trazia livros.. sempre trazia... toda vez que ele vinha no verão... e eu lia, lia, lia... gostava de ler naturalmente, fui aprendendo a gostar... Mas em termos de optar pelo curso de Letras, foi bem mais tarde, foi lá naquela época de adolescência mesmo, por volta dos 16 no ensino médio, que me despertou a literatura...

Então o seu contato com a literatura foi através da escola?

Foi na escola, mas teve muita influência do professor de português José Guilherme Dutra Vieira Christo, que me mostrou como pensava a gramática, que até então eu não entendia. Por que que eu estava estudando oração subordinada? Até então, pra mim isso não tinha muito sentido. No dia que eu entendi aquilo ali, e entendi como a literatura se estabelece, como um livro acontece, eu me encantei. Foi uma influência muito importante pela postura dele, pelo jeito de ensinar, e aí eu resolvi fazer Letras, apesar de contrariar os interesses família, por causa do tipo de trabalho, das dificuldades e da falta de valorização da profissão de professor...

E como foi seu trabalho no folheto Abre Alas em Juiz de Fora?

O despertar da literatura aconteceu em Petrópolis. Eu fui para Juiz de Fora com a intenção de ser professor. No meio do curso eu entrei em contato com os poetas de Juiz de Fora, que formavam um grupo chamado “Abre Alas”, que tinham um folheto de igual nome que era distribuído na faculdade. E isso me deu a primeira base de criação literária.

Você já escrevia poesia?

Quando eu era adolescente eu até escrevia poesias de amor, aquela coisa de amor platônico da juventude, mas depois eu esqueci disso. Só mais tarde, quando eu entrei na faculdade e ao conhecer o pessoal do Abre Alas, é que o interesse pela poesia renasceu em mim. Os poetas de lá eram muito interessantes. O pessoal ia pro calçadão da Rua Halfeld e fazia varal de poesia, pessoas desfilavam falando poesias no megafone, distribuíam o Abre Alas, e aquilo ali me encantou e eu comecei a escrever os meus versos e a conversar com eles. Nessa convivência eu cheguei a participar do conselho editorial, e isso me deu um gosto maior pelo fazer literário, e continuei escrevendo e me aprimorando...

Então você entrou na Faculdade com o pensamento de ser professor?

O pensamento era ser professor de português e literatura, e eu até teria sido se eu não tivesse depois desistido de ser professor. Mas o curso me ajudou muito, em todo o processo, até na criação do jornal.

E depois que você se formou, você já veio pra Saquarema?

Não, depois que eu terminei o curso, em 1990, eu voltei para Petrópolis já com uma outra perspectiva...

Já não queria mais ser professor?

Não, teve um momento difícil, crítico, existencial, de não querer ser professor. Eu cheguei a dar aula, mas tem um momento na vida que se chega em uma encruzilhada, e as coisas não ficam muito claras para onde se vai, e numa dessas encruzilhadas eu deixei este lado de ser professor, e fui fazer outras coisas, trabalhar em outras áreas. Só que o bichinho da literatura fica armazenado. Se você aprendeu aquilo, aquilo fica na sua veia.. Mesmo você querendo apagar, ele volta depois... Quando a gente tem uma tendência a desenvolver determinada arte, quando a gente desenvolve uma sensibilidade e consegue expressar esta sensibilidade em uma determinada arte, vai chegar uma hora que você pode até entrar em crise consigo mesmo e dizer “não quero mais fazer arte”, mas ela acaba voltando, porque ela está muito ligada na sua alma. É uma coisa de missão, quando o artista pensa em termos de arte como uma expressão de sua existência. Isso pode ser com qualquer tipo de arte, comigo foi com a literatura. Então, após ter voltado a Petrópolis e estar trabalhando em outras áreas, o meu olhar se desviou para um jornal da cidade, o jornal de uma livraria e papelaria chamada Obelisco, isso foi em 91. Veja como são as coincidências da vida. O dono deste jornal e da livraria, Paulo Roberto Lisboa, tinha sido meu professor de educação religiosa, e era uma pessoa muito bacana como professor, eu gostava muito dele, talvez até por causa dos ensinamentos, que eram morais e cristãos, pois eu estudei em escola católica... A editora deste jornal era Eliane Maciel, que na época estava colhendo os frutos de uma obra que foi um grande sucesso no Brasil, que é “Com licença eu vou a luta”. Era uma pessoa que eu admirava muito antes de conhece-la. No jornal também havia outras pessoas, o Vichy Junior que escrevia umas coisas de humor muito legais, e tinha um cronista também muito interessante, chamado Silvio Adalberto, que depois veio a fazer parte do conselho editorial do Poiésis. Tinha uma sessão neste jornal, um quadradinho, onde eles sempre publicavam um poema de alguém. Então eu resolvi mandar quatro poemas. Eu na época já estava escrevendo a poesia de uma maneira mais fluida, mais leve... Quando eu fui ver a outra edição do jornal, apareceram os quatro publicados na mesma edição. Eu fiquei bem feliz. Eu achava que iam publicar um e publicaram os quatro. Quando eu vi esta aceitação de poesia eu resolvi fazer um projeto.

E daí nasceu o Poiésis?

Isso, o Poiésis nasceu da aceitação da minha obra num jornal (Jornal Cultural Obelisco), e das pessoas que estavam ali, que eram pessoas a quem eu admirava. Então eu fiz o projeto. A minha idéia foi fazer duas páginas no jornal deles, onde eu iria editar poesias de outras pessoas, para fazer um intercâmbio de literatura, de poesias. Seria uma página independente. Quis desenvolver este projeto para enriquecer mais o jornal deles, que já veiculava coisas maravilhosas. Então eu falei com o Paulo Roberto, e ele aprovou. Assim no mês seguinte, isso foi em fevereiro de 93, duas páginas no jornal Obelisco vinham escritas assim em cima “Poiésis 1”, com poemas dispostos pela página e no fundo montagens feitas pelo artista plástico André Luis Esch. A gente fez uma parceria: ele desenhava, fazia a parte gráfica, diagramava, e eu escolhia os poemas e ele colocava lá.

E qual foi a origem deste nome, Poiésis?

Este nome é em grego. Eu tive um professor de Filosofia na UFJF, o Joel Neves, e ele usava dois termos para explicar a criação e percepção da obra de arte. Ele explicava sobre o poético e o poiético. Um termo era “poesis” e o outro era “poiésis”. Eu guardei este “poiésis”, por ser justamente a palavra poesia, a alma da obra de arte.

E depois, para o seu jornal se tornar independente?

Aí a vida vai dando voltas. Ele surgiu como estas duas páginas só de poesia, e nós ficamos 9 meses no Jornal Cultural Obelisco. Até quando ele parou de circular. Mas nesta mesma época já existia na cidade de Petrópolis um outro jornal cultural rodando, chamado Culturarte, do ator Fabio Limma, do qual eu já era colaborador, inclusive vindo a ser o editor do jornal meses depois. Eu conversei com o Fábio e propus levar o Poiésis para lá, do mesmo jeito que eu editava no Obelisco. Então ele se manteve mais um tempo na mesma estrutura, duas páginas só de poesia. Em 95 eu precisei tomar a decisão de colocar o Poiésis como um jornal independente. Então eu fiz a primeira edição de quatro páginas, um conto na capa, duas páginas de poesia e umas coisinhas a mais de literatura. Já era a intenção de fazer um jornal de poesia e de literatura como um todo, publicar contos, resenhas e crônicas... Na segunda edição que teve como independente já tinham oito páginas, e durante muito tempo ficou com 8 páginas.

Então inicialmente ele veio com esta cara de jornal literário?

Isso mesmo. Era um jornal de poesia e literatura. A intenção sempre foi essa, de ser exclusivamente literário. Porque o Culturarte era um jornal cultural, aberto, eu não ia ter espaço nele para publicar, por exemplo, um conto. E eu queria publicar conto. Eu acho que faz falta, você abre os jornais de grande circulação e não tem um conto, não tem poesia. São coisas raras na grande mídia. A grande imprensa não divulga literatura, divulga resenha de literatura, faz propaganda de livro, mas um texto literário mesmo a gente quase não encontra. Daí a idéia de fazer um jornal literário.

E você tomou algum outro jornal como exemplo?

Teve uma intenção inicial de ser semelhante ao Abre Alas na sua formação, quer dizer, você junta um grupo de pessoas, que gostam de literatura, discutem esta literatura, escolhem os textos e publicam. No inicio éramos somente eu e o André Esch, porque eu não conhecia mais ninguém na cidade ainda. E o André não era escritor, era pintor, artista plástico. Nesse período eu conheci o Fernando Py, quando eu trabalhava no Diário de Petrópolis. A gente começou a dialogar, a trocar idéias, e a assim formou-se o primeiro núcleo do conselho editorial do Poiésis.

E isso foi a partir de que fase do jornal?

Foi desde o começo, desde quando o Poiésis tinha duas páginas o Fernando Py já estava dentro.

E o jornal chegou a parar de circular alguma vez?

Para você ter uma idéia, o jornal iniciou em 93 e eu só parei de fazer em 2000. Nesta época deu uma crise meio existencial de fazer o jornal, dificuldade mesmo de fazer, então eu parei. Eu fiquei um ano sem ditar, e em 2001 ficou sem atividade do jornal. Mas muitas pessoas escreviam, pediam o retorno. Nós enviamos a publicação para fora, e sempre foi um jornal muito conceituado. Nós ganhamos alguns prêmios de reconhecimento, da União Brasileira de Escritores. Recebemos da Terezinka Pereira um diploma da Associação Internacional de Escritores (IWA). Então a gente fez uma história neste tempo de 93 até 2000 bem firme, e tivemos o reconhecimento de outros escritores. Isto porque nós sempre mantivemos a qualidade dos textos, discutíamos o que ia ser publicado para manter o nível cultural legal, não publicávamos qualquer poema. Por mais valor que tenha a poesia de um estudante, que está aprendendo, que faz um verso para a namorada, que é bonito, bacana, não é o tipo de texto que eu vou poder publicar no Poiésis. Porque existem escritores contemporâneos que estão hoje na lida da literatura, que tem muito valor e não têm espaço. E para estes que criei o espaço para a divulgação através do Poiésis.

Então a intenção do seu jornal é divulgar os escritores contemporâneos?

Sim. Mas o contemporâneo pode ter nascido em 1920 ou em 1980. O importante é a atividade literária em nosso tempo, independentemente de sua idade. O Fernando Py, por exemplo, é de 1935; eu sou de 65. Apesar dos 30 anos diferença em nossas idades, há uma identidade maior que acontece através da produção literária.

A escolha dos textos é pela qualidade então?


É pela qualidade do texto, pela criatividade da pessoa. A gente vê estas coisas na hora de publicar. Para não publicar um texto que às vezes foi feito assim sem ser muito trabalhado poeticamente. Por exemplo: vai publicar uma crônica, tem que ser uma crônica que tenha uma boa estrutura, um bom pensamento, em conformidade, que acrescente alguma coisa pro mundo literário, e pras pessoas pensarem melhor a sua realidade. Daí é o seguinte, quando o jornal se torna um jornal de literatura ele cresce e se expande, foi até 2000 assim, eu parei em 2001 e em 2002 eu retomei o projeto.

Com o mesmo grupo?

O grupo é o mesmo. Só que vão surgindo pessoas novas pelo caminho, hoje o conselho editorial é mais robusto, mais participativo, tem mais pessoas (Gerson Valle, Marcelo J. Fernandes, Sylvio Adalberto, Marco Aureh, Francisco Pontes de Miranda Ferreira, Celso Brito). Já foram incorporadas pessoas inclusive de Saquarema. É interessante isso, porque antigamente a gente fazia uma reunião de pauta na casa de alguém e podíamos sentar e conversar e olhar olho no olho. Hoje, como eu estou aqui em Saquarema, a conversa toda é por e-mail. Perdeu um pouco esta dinâmica do olho-no-olho mas o diálogo continua o mesmo. Do conselho editorial tem pessoas de lá de Petrópolis e tem pessoas daqui, que eu já conheci aqui em Saquarema, e que são interessantes de participar, que compartilham a mesma visão de mundo em termos de criação literária. O respeito que a gente tem que ter pela palavra escrita, e como a gente tem que trabalhar isso e divulgar isso. E em Saquarema tem pessoas muito interessantes. Eu não sabia que havia, quer dizer, sabia que havia mas não conhecia. Já surgem alguns nomes que aos poucos, se você perceber, já estão aparecendo publicados no jornal (Roseana Murray, Latuf Isaías Mucci, Jota de Jesus, Maria Clara Maia, Eric Iglesias, Charles Soares)

E a sua vinda pra Saquarema, onde entra nesta história?

A minha vinda foi em meados de 2002. Eu voltei a fazer o jornal no início de 2002 lá em Petrópolis e depois vim para cá e continuei fazendo o jornal lá. Num determinado momento, resolvemos eu e Regina, minha esposa, fazer o jornal aqui também, dar a oportunidade para esta cidade de conhecer este movimento literário que nós podemos desenvolver. Adaptamos a publicação para ser inserido a esta sociedade e após o lançamento aqui ele teve uma expansão enorme, porque a receptividade foi muito grande. As pessoas daqui precisavam disso, sentiram esta necessidade. Foi mais fácil de captar os anúncios, porque a gente depende deles pra fazer o jornal circular. E o ideário não é nem por causa de anúncio, de dinheiro, nunca foi isso. O ideário é ter um espaço de intercâmbio entre as pessoas que gostam de ler e escrever. Então você junta as duas pontas que trabalham isso. Só que hoje, o que eram duas páginas de poesia, e que um dia virou um jornal de literatura, tornou-se num jornal cultural, com literatura, música, teatro, meio ambiente... Mas o espaço maior continua sendo para literatura e sempre vai ser. E ele foi adaptado para a cultura local. O que eu mais ganhei vindo para Saquarema foi o contato da publicação do jornal com a comunidade, pra mim isso foi o mais interessante, porque antes, apesar de não ser essa a intenção, ele circulava muito pelo meio literário e nem tanto pela comunidade. Quando veio para cá ele se tornou um jornal cultural, aberto, para falar dos grandes temas, da cultura universal e falar do artista que está trabalhando aqui na cidade, do artesão, da associação, do músico que está fazendo um show ou gravando um CD, abriu-se espaço para estes pequenos núcleos da comunidade se espelharem também ali e se mostrarem. Este foi, ao meu ver, o grande ganho do Poiésis em Saquarema, o que ajudou a dar a expansão. Tanto que passou a ser distribuído também em Araruama, Cabo Frio, Arraial do Cabo, Iguaba Grande e em Petrópolis, é claro, além das livrarias do Rio de Janeiro. Sempre com distribuição gratuita.

E como foi a sua entrada para a Academia Brasileira de Poesia?

A Academia Brasileira de Poesia foi fundada em Petrópolis por um grupo de poetas que criaram na época a Academia Petropolitana de Poesia Raul de Leoni, em homenagem ao poeta parnasiano Raul de Leoni que é natural de Petrópolis. Por volta de 1993, quando eu criei o Poiésis, eu me sobressaí no mundo literário local. E estava convivendo com o Fernando Py, conversando com ele, trocando muitas idéias. Então ele me convidou para fazer parte da academia, e eu sou membro titular. São apenas 40 cadeiras. Quando desocupam uma cadeira é eleita alguma pessoa para substituir, e eu tive a felicidade de ser eleito naquela época. Hoje eu ocupo a cadeira 32. Essa academia mudou o estatuto recentemente, e alterou o nome para Academia Brasileira de Poesia - Casa de Raul de Leoni.

Queremos que você faça um breve comentário a respeito das suas obras, e também cite uma poesia de cada uma delas.

O Cântico é a minha primeira experiência em termos de livro. Nem sei se podemos chamar de livro. Era um pequeno livreto de 16 páginas. Eu juntei os primeiro poemas que achei que eram significativos, em 92, e publiquei. Foi quase um folheto, são poemas bem mais simples, delicados, bem mais líricos do que os que eu fazia em Juiz de Fora. Em Juiz de Fora eu aprendi a trabalhar com a palavra, pegar o verbo, fazer um verso, cortar um adjetivo, modelar um ritmo, tentar entender o que eu estava fazendo, descobrindo a minha própria linguagem. Quando eu pensei ter descoberto a minha própria linguagem, escrevendo de forma natural, sem muita forçação de barra ou preocupação com forma, eu quis estruturar isso em um pequeno livreto, e eu fiz o Cântico.

O segundo livro, Bálsamo, já é mais encorpado. Tinha 60 páginas, eu já tinha um material mais encorpado para isso. Ele foi feito em 94, quando eu já tinha a bagagem do Poiésis. Nele tem poemas em prosa que eu comecei a desenvolver mais, a minha face lírica se aflorou mais, é um apanhado interessante de poemas.

O Tríade, que é de 98, na verdade é uma coleção de três livros. Eu uni Cântico, Bálsamo e Miserere, sendo este último um livro inédito e mais denso, com uma poesia mais enxuta, mais existencial em alguns momentos, mais madura.

Foi uma época melhor para divulgar os livros?

Sim, como eu estava vivendo uma época de expansão, de mostrar muito o meu trabalho através do Poiésis, quando eu fui lançar o terceiro livro, o Miserere, eu pensei que como tinha muita gente que nem tinha ouvido falar do Cântico e do Bálsamo, eu juntei todos e fiz o Tríade.

Muitos anos depois é que sai o Século Algum. Exatamente por causa do fim do século, e eu fiquei naquele intervalo: puxa vida, eu estou em que século? Eu estou no século 20 ou no 21? Então vou fazer um livro nesta linha. Eu estou no século algum, que tanto pode ser nenhum dos dois, por ser atemporal, quanto pode ser um ou outro, é algum. Então foi uma brincadeira com o nome que eu fiz.

O Paisagem de Ambos os Mundos, a gente fez no ano passado a convite da Editora Thesaurus de Brasília, de editar uma pequena antologia de poemas meus dentro de um projeto, onde o livreto é publicado e é distribuído nas escolas. Inclusive, é possível acessar o livro pelo site da Thesaurus, em formato pdf (http://www.thesaurus.com.br/livro-na-rua/acervo/camilo-mota/). Eu achei bacana, que é uma maneira de chegar nos estudantes e divulgar o trabalho. Isso é fundamental quando a gente escreve e desenvolve a própria linguagem. Quando você sabe o que está escrevendo, sabe o que quer dizer, e quando a gente publica, a gente acaba sendo descoberto. É interessante isso, as pessoas descobrem a poesia da gente, isso é uma coisa que é difícil de explicar, essa sensação que sentimos. Porque quando a gente escreve, o ato de escrever é um ato solitário, porque você escreve e aí? Você pega e divulga aquilo de alguma maneira; até então o poema não existe, até que alguém pegue e leia. Então você tem que contar que a pessoa vai pegar, vai ler, e vai sentir a vibração daquilo que você escreveu, porque enquanto o poema está escrito, ele está morto, ou pelo menos adormecido. Ele precisa de alguém para senti-lo. Quando você encontra uma pessoa que sentiu, você fica surpreso. Porque a poesia é diferente da música. A música, de uma maneira ou de outra, as pessoas estão sentindo através da audição. Pode haver uma contemplação mais passiva. A poesia tem uma outra vibração. Para a pessoa senti-la, ela tem que ter uma ligação consigo mesma. Se uma pessoa é tocada por uma poesia, é porque ela tem um toque que diz pra ela: “olha, você está neste mundo, você é sensível”. Eu acho importante isso de ser sensível, porque a gente vê que nem tudo está perdido no mundo, porque ainda existem pessoas sensíveis. Não é porque a pessoa sabe literatura que vai gostar de poesia, não é não. É porque a poesia tem uma palavra, tem uma vibração que toca no fundo de alguém, e aquele alguém se identifica com aquilo e se vê ali dentro. Então se eu estou escrevendo uma coisa hoje, é porque eu estou querendo dizer alguma coisa importante. Senão eu não iria perder meu tempo escrevendo, fazendo rabisco que não vai dizer nada pra ninguém. Se eu escrevo, é porque aquilo tem um significado, é porque eu percebi que aquilo ali é uma coisa de valor, eu tenho o meu valor pra aquilo, então eu coloco no mundo. O mundo vai ver se aquele valor que eu dei para aquele sentimento ou pensamento vai servir para alguma função maior. Para alguém vai servir, então é enriquecedor quando a gente encontra alguém, e eu tenho tido esta oportunidade muitas vezes, de alguém dizer pra mim “olha eu li aquele poema que você publicou no Poiésis, gostei muito, me disse muito”, e às vezes quem me diz isso é uma pessoa que eu jamais imaginaria que teria lido o poema. Às vezes uma pessoa humilde mesmo. Eu penso, será que aquela pessoa vai ler? Vai, a gente não pode ter preconceito com nada, com ninguém, o nosso leitor é qualquer leitor, qualquer pessoa pode ler e sentir.

Fonte: http://costadosolnews.webnode.com/news/entrevista-com-o-editor-do-jornal-poiesis-camilo-mota/


Pedro Lyra: Poeta do amor e do pensamento

Entrevista exclusiva para o Jornal Poiésis. Doutor em Poética, professor na Universidade Federal do Rio de Janeiro, Pedro Lyra é natural de Fortaleza-CE. Uma referência na poesia brasileira do pós-modernismo. Atual e inovador. Tradicional e revolucionário. Ele fala ao Jornal Poiésis sobre sua obra e faz reflexões sobre os seus modos de escritura, revelando aspectos bem peculiares do processo de criação poética.

 

Poiésis: Como é que você, empregando a disciplina clássica do soneto e retornando a desgastada temática do amor, consegue conciliar o tradicional e o revolucionário, criando uma poesia com tanta força e beleza?
Pedro Lyra – Antes de tudo, meu caro Sylvio: muito grato pelo tom desta pergunta inicial. É a síntese de uma crítica altamente valorativa. Porque não é tão simples “conciliar o tradicional e o revolucionário”, como você considera, e afirma que o consegui. Ainda mais explorando “a desgastada temática do amor” e “empregando a disciplina clássica do soneto”.  E você ainda acrescenta que o fiz “com tanta força e beleza”. Bom, eu conto no depoimento “A gênese de uma poética do amor”, ao final do livro (Desafio – Uma poética do amor, de 1991), como o escrevi. Em síntese: estava sozinho em Portugal, no inverno de 1986. Numa gélida madrugada, fui como que sacudido pela lembrança de amores passados. Decidi na hora escrever um poema para cada uma – e espontaneamente brotou na forma do soneto. Como você observa, tanto a forma quanto o tema estão desgastados. Então resolvi reestruturar o soneto, através de dois procedimentos básicos: flexibilizar a estrofação, evitando a fórmula 4-4-3-3, e decompor o verso, conforme o ritmo e/ou a sintaxe. O resultado me pareceu realmente algo novo: quanto à forma, alguns poetas já haviam decomposto o verso, mas ninguém antes havia alterado o modelo; quanto ao tema, superados são apenas os históricos, não os eternos, como o amor. Desde que o poeta seja capaz de acrescentar algo pessoal ao que já foi revelado sobre um tema eterno, seu poema supera esse desgaste. A julgar pela fortuna crítica desse livro, posso acreditar que consegui.

Jornal Poiésis: É verdade que sua poesia é um percurso através do seu próprio eu, uma espécie de autobiografia?
Pedro Lyra – Alguém já afirmou que todo poema lírico é autobiográfico. Ele se desenrola na imaginação, mas decola sempre de uma vivência pessoal. No caso do poema de amor, ele se limita a três motivos, centrados no desejo: 1) a falta – que é o desejo frustrado; 2) a conquista – que é o desejo realizado; 3) a perda – que é o desejo contrariado. Já que a falta e a perda se equivalem, temos, portanto apenas dois tipos básicos de poema amoroso: o de celebração, muito raro, porque, estando satisfeito, o indivíduo se entrega à fruição da hora; e o de lamento, muito mais freqüente, porque, estando insatisfeito, o individuo sofre a necessidade de preencher o vazio existencial, e a única criação humana capaz disso é a arte: todas as outras formas (viagem, trabalho e, principalmente, um novo e imediato amor) são ilusórias. Mas esse tom autobiográfico é apenas do livro Desafio (e de Contágio, de 1993, subintitulado exatamente “Poesia do desejo”). Porque os outros são diferentes, e vão do satírico ao dramático, do metafísico ao épico – como aqui mesmo neste jornal já foi assinalado pelo poeta e crítico Fernando Py. Creio que todos estão bem definidos nos subtítulos: Decisão (de 1983) é uma coletânea de “Poemas dialéticos”, contestando a sociedade burguesa; Errância (de 1996) é “Uma alegoria trans-histórica”, que põe em confronto o pré-histórico e o pós-moderno, numa tentativa de caracterização do trajeto da nossa civilização; Jogo (de 1998) é “Um delírio erótico-metafísico-econômico”, em que um jogador, desesperado por estar perdendo tanto, vai refletindo aleatoriamente sobre o amor, sobre o destino e sobre sua própria situação; Confronto (de 2005) é “Um diálogo com Deus”, questionando todos os magnos problemas vinculados à idéia de sua existência, como a origem do universo, a condição da Terra, o sentido da vida e o destino do ser; Argumento (de 2006) é uma coletânea de “Poemythos globais”, abordando em poemas curtos os três “mitos” da nossa hora – a globalização, o terrorismo e o liberalismo.

Jornal Poiésis: Você é mesmo esse "homo eroticus" disseminado através de sua poesia?
Pedro Lyra – Suponho que o “homo sapiens”, que antes foi o “homo faber”, seja também um “homo eroticus”, ou nossa espécie já teria se extinguido. Portanto, como qualquer ser humano normal, eu sou também um “homo eroticus”. E como a de qualquer outro poeta, minha poesia amorosa deriva dos meus desejos e suas respectivas vivências. Mas, pelo que afirmei na resposta anterior, talvez eu seja também um “homo criticus”,.. Entre a de sentimento e a de pensamento, creio que minha poesia se identifique mais como de pensamento. Mesmo em Desafio: a maior parte é de sonetos sobre amor, não de amor, como afirmo no citado depoimento.
 
Jornal Poiésis:  A mulher é, na sua poesia, mero objeto do prazer, ou o pano de fundo de um lirismo derramado?
Pedro Lyra – Agora peço-lhe permissão para discordar das suas duas suposições: nem um “mero objeto do prazer”, nem “o pano de fundo de um lirismo derramado”. Quanto à primeira: em Desafio, há 5 tipos de sonetos: 1) conceitual – em que se define uma face do amor; 2) narrativo – em que se conta um caso de amor: 3) confessional – em que fala o homem, sempre solicitando esclarecimentos à musa; 4) analítico – em que fala a mulher, sempre instigando o homem, ora como musa, ora como fêmea; 5) dialogal – em que poeta e musa se debatem em torno do amor. Em todos os sonetos da dicção feminina, a mulher/musa fala sempre com a pretensa voz da sabedoria. Portanto, jamais ela aparece como mero objeto de prazer. Quanto à segunda: em poemas dessa natureza, em que predomina o tom reflexivo, jamais se pode ter um lirismo derramado: é sempre contido, até mesmo pelas imposições da forma do soneto. No livro Contágio, uma coletânea de forma livre, há alguns poemas relativamente longos, mas nenhum dos meus críticos jamais os considerou “derramados”. Indico os dois livros já publicados sobre minha poesia: Uma palavra marcada, da professora Hermínia Lima, de 1999; e Uma poesia dialógica, do já citado Fernando Py, de 2005.
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Jornal Poiésis: Você fala de amor, de morte, da dor, do prazer, da vida em suma, como se se esvaísse por uma veia rasgada. O que é vivência e o que é leitura nesse contínuo esvair-se?
Pedro Lyra – Todo poeta fala dessas coisas – e praticamente apenas dessas coisas, pois que não há tantas outras ou a condição humana se resume mesmo nelas. No meu caso, eu incluiria também a problemática social. Mas você me acrescenta um esvair-se de substância tornada poética como se “por uma veia rasgada”. Tomo-o como outro grande elogio, e lhe agradeço. Pois isso implica uma autenticidade de emoção criadora – imaginária ou sentida, tanto faz. E a obra de todo poeta culto é um misto de vivência e leitura – e a minha também é. Nem sempre essas duas grandes fontes aparecem equilibradas. Decisão, por exemplo, é um livro de poemas políticos, e jamais tive a menor participação na vida política do nosso país: tenho nojo: portanto, é mais um fruto de leitura, observação e reflexão. Já Contágio parece o oposto: são poemas explorando aquelas três formas do desejo, dispensando leituras prévias. Desafio talvez seja o meu livro em que aquelas duas fontes aparecem mais próximas de um equilíbrio. Já disse como ele surgiu: de vivências passadas. E acrescento: ele abre com uma “Folha de Créditos”, em que registro meu débito para com poetas da minha preferência. São epígrafes de 21 deles, algumas retomadas quase como paráfrases num ou noutro soneto.

Jornal Poiésis: Onde você situa Raul de Leoni na poesia nacional, e a Neide Archanjo?
Pedro Lyra – Luz mediterrânea é um dos meus livros preferidos, e assim aparece num tópico do meu Orkut. Tenho todas as suas edições numa prateleira especial da minha biblioteca e organizei duas delas: uma para a Topbooks, com comentários sobre elas, em 1996, outra para a Global, na coleção “Os melhores poemas”, no ano 2000. Nos prefácios, eu o situo como um eclético pré-moderno (não apenas pela contingência temporal mas, sobretudo, pela reivindicação da liberdade de posicionamento, pelo polimetrismo bem próximo do versilibrismo, pelas antecipações de certas configurações sociais de nossa época etc.), com estilemas de todas as estéticas anteriores: ele é, simultaneamente, também neo-clássico (na intenção filosófica, na altivez de espírito, na clareza da enunciação, na depuração da linguagem etc.); neo-romântico (embora tenha publicado apenas um poema de amor – na concepção idealista de vida, em certa melancolia diante do ideal inatingível, numa vaga idealização do passado etc.); neo-parnasiano (embora não tenha escrito um só poema tipicamente escolástico – no requinte formal, no distanciamento emotivo, na opção pelo soneto mesmo não-alexandrino etc.) e, talvez mais que todos, neo-simbolista (na musicalidade da expressão, em certa diluição dos referentes, no ritmo melodioso e às vezes encantatório, na dicção penumbrista, na ambigüidade do misticismo, no gosto pela alegorização etc.). Acho estranho que alguém ainda o considere simplesmente como parnasiano, quando esta é a nota de menor presença. Quanto à Neide Archanjo, ela é um dos nomes paradigmáticos da Geração-60. Na introdução a Sincretismo (Topbooks, 1995), livro em que tento configurar essa geração, que é a minha, apresento sua poesia com três grandes segmentos: 1º) a “Tradição discursiva”, de poetas fiéis ao verso e à imagem; 2º) o “Semioticismo vanguardista”, das poéticas experimentalistas do Poema/Processo e da Arte-Postal; 3º) a “Variante alternativa”, dos poetas “marginais”. Neide se vincula ao primeiro, em que identifico quatro vertentes básicas: 1ª) a “Herança lírica”, 2ª) o “Protesto social”, 3ª) a “Explosão épica”, 4ª) a “Convicção metapoética”. E ela explora todas essas quatro vertentes: a segunda com Poesia na praça e a terceira com Quixote, tango e fox-trote; a primeira e a última, com o restante de sua vasta e bela obra.

Concluo com um reconhecido abraço aos leitores de Poiesis - um jornal que resiste às forças da anti-poesia.


Anderson Braga Horta

O diálogo entre poetas é sempre enriquecedor. Muitos até escrevem poesias apenas para poetas lerem. Outros mostram sua alma para que todos a descubram. Alguns poetas são a própria poesia. Talvez seja este o caso de Anderson Braga Horta, mineiro radicado em Brasília, e que é, sem dúvida um dos mais importantes escritores brasileiros em atividade hoje, seja pelo trabalho poético em si, seja pelas importantes traduções que faz da literatura mundial, em particular a francesa. Nós do conselho editorial do Jornal Poiésis elaboramos algumas perguntas para Anderson, que nos brindou com um dos melhores diálogos que já criamos nas páginas de nossa publicação.

ENTREVISTA A POIÉSIS

Camilo Mota – Você nasceu em Minas Gerais. Essa mineiridade genética está em sua obra? E como você vê esse espírito mineiro oscilando entre memória da terra natal e a sua universalidade frente ao mundo?

ABH – Meu caro Camilo, passei meus sete primeiros anos de vida em Minas, em cidades da Zona da Mata (Carangola, onde nasci, Manhumirim...), com breve passagem por Belo Horizonte. Os seguintes cinco anos, em Goiás Velho e Goiânia (onde comecei o Ginásio). Mais sete anos em cidades mineiras (em Manhumirim e em Leopoldina estudei, nessas duas cidades despertou meu interesse ativo por literatura), antes de partir para o Rio, onde passei os próximos sete anos (quantos setes!) e onde fiz o curso de Direito. Em Brasília, onde me fixei, onde constituí minha família, onde publico meus livros, estou há quase 48 anos. Por esse prisma, sou mais candango que outra coisa... Mas Brasília é também Minas, é também Goiás, é também o Rio de Janeiro, Brasília vai se tornando uma espécie de crisol do Brasil. De todo modo, a origem genética não se perde; nem, no meu caso, a origem geográfica, nem, muito menos, a origem sociocultural. Temperado por essas andanças e vivências, o espírito mineiro não me abandona, antes se apura e se enriquece.
Mas o que é mesmo essa mineiridade, esse espírito de Minas?
Drummond, num belo poema de A Vida Passada a Limpo, a “Prece de Mineiro no Rio”, atribui-lhe um “claro raio ordenador”, um balanço “entre o real e o irreal”, a capacidade de dedicar-se “em corpo e alma”, mas “sem apego servil”, uma humildade orgulhosa, uma circunspecção, um recato que não inibe “uma partícula de fogo embriagador”, um “profundo mar” longe do oceano. Não posso pretender definição mais exata, nem mais doida... Apenas quero explicitar que esse espírito é conservador, não renega, antes cultiva a tradição, sendo entretanto capaz de abrir-se para o novo (não para as novidades...).
É como me vejo: homem de formação tradicional, mas não infenso à renovação, o que digo como descrição, não como juízo.
Voltando aos termos de sua pergunta, acho que o espírito mineiro funde o sentimento da terra natal e o sentido de universalidade. Nisso me incluo, mas modestamente, sem pretensão às alturas em que voa o imenso poeta de Itabira.

Camilo Mota – A humanidade hoje parece caminhar para dois lados distintos: um voltado para a materialidade, a falta de esperança e o crescimento da violência. Outro, envolvendo as pessoas em prol de um amor coletivo pelo planeta, de volta a uma originalidade poética frente ao mundo. Você vê uma possibilidade de diálogo entre esses dois caminhos? A poesia e as artes ainda têm vez como veículos para conduzir os homens a um destino mais digno, mais humano?

ABH – O diálogo é quase impossível. Como diz o ditado, pau que nasce torto morre torto. Claro, em tese, é possível endireitar, mas trata-se de uma possibilidade para poucos... O caminho para um futuro viável passa, decerto, por todas as tentativas de diálogo do amor com o desamor, que você desdobra em materialidade, desesperança e violência. Todavia, se não se pode desprezar essas tentativas, por mais que os frutos se antecipem escassos, para atingir o desiderato é preciso ser radical: é preciso evitar que o mal germine e prolifere, eliminando o caldo de cultura que o permite. E isso só é possível pela educação. Educação universal, generalizada, integral. Aliada, ça va sans dire, a sanitarismo, assistência de saúde, alimentação, moradia e trabalho, mas como base sem a qual todos estes benefícios se frustram diante do mal.
Quando falo em educação, é claro que não me refiro tão-só à instrução, isto é, ao ensino de normas de linguagem, regras de aritmética, matérias profissionalizantes, etc. Tudo isso é indispensável, mas ainda é pouco. A educação há de ser holística, total, incluindo e privilegiando a formação cívica (para o cuidado da coisa pública), social (para a boa convivência), ambiental, moral e ética, tudo imbricado com uma preparação para as artes, para sua fruição e, na medida das inclinações de cada um, para sua produção também. Educação que envolva o Estado e a sociedade, instituições privadas, empresas, meios de comunicação, a família.
Assim, penso que educar também para a poesia, para as artes, para a meditação sobre o homem e o universo é fundamental, não se podendo esquecer, está visto, adequada educação sentimental, nem se perder de vista que educar não pode ser um processo exclusiva ou predominantemente teórico.
Difícil? Sem dúvida. Mas não vislumbro outro caminho a nosso alcance.

Marcelo Fernandes – Quais suas influências, seus autores favoritos e como é seu processo de criação?

ABH – Primeiras influências: Castro Alves e todos os outros românticos, Bilac e os principais companheiros do Parnaso; dentre os simbolistas, Alphonsus e Cruz e Sousa. Mais Camões, Antero e, avançando para o século XX, Fernando Pessoa. Do nosso Modernismo, Bandeira e Drummond, sobre todos. Continuam sendo meus autores favoritos, mas teria de acrescentar nomes do peso de Jorge de Lima, Cecília Meireles, tantos que é bom suster a pena. De outras literaturas, Dante, Victor Hugo, Baudelaire e Rimbaud, Quevedo e outros sóis do Século de Ouro espanhol. Em prosa, ponho em primeiro plano Machado de Assis.
Quanto ao meu processo de criação, não sou o poeta-engenheiro, à João Cabral de Melo Neto; meus poemas não são riscados na prancha, aos sóis da mente, como uma planta de arquiteto. A prancha existe, a mente trabalha, mas a semente nasce no escuro, de nebulosas que nem sempre podemos rastrear. Tendo longo tirocínio dos meios da construção poética, posso dispensar a visita, aleatória, da inspiração. Mas sempre que o procurei fazer dei com os burros nágua: saía-me o poema frio, rígido, sem graça. Sou daqueles a quem se aplica o dito de Valéry, de que o primeiro verso ofertam-no os deuses. Se não os deuses, que era querer demais, talvez algum duendezinho en passant... E o ofertado nem sempre é um verso inteiro; às vezes é tão-só a sombra de um ritmo, ou o vislumbre de uma idéia. Os deuses... Só a uns raros dão eles a iluminação completa, como o poema sonhado, à Coleridge, ou à Manuel Bandeira. Para funcionar bem, preciso de uma faísca original, não das grandes, que não tenho estrutura para tanto, mas de um pequeno relâmpago, como diz o poeta português José Carlos de Vasconcelos, em seu Caçador de Pirilampos.
Resta dizer que o relâmpago que nos põe em estado de poesia pode ser provocado com atiçadores como o bom poema, a boa música...
Já me ocorreu pensar o poema, planejá-lo, e ficar meses e anos à espera do momento de o escrever. Preciso estar in the mood, para que a boa idéia não se frustre.

Fernando Py – Dentre seus livros, quais aqueles que tiveram mais aceitação da crítica?

ABH – Estreei tarde. Esperei os 37 anos para lançar meu primeiro livro individual. Foi bom, pois com isso deixei nas gavetas uma grande produção absolutamente anacrônica. E tive tempo de ir publicando avulsamente, participando em antologias, ganhando um ou outro concurso, me relacionando proveitosamente com os meios literários, principalmente depois da vinda para Brasília.  Não sei se devido a isso, a repercussão de meus livros tem sido maior do que a esperável. Embora a maioria deles tenha circulado em termos não comerciais, o que é uma limitação indesejável, não tenho de que me queixar. Não apenas quanto à poesia: mesmo a minha prosa crítico-ensaística vem tendo boa aceitação.
Como a poesia é o meu gênero primeiro e meu vício de eleição, atenho-me a ela. Sobre os meus versos, desde Altiplano e Outros Poemas, passando por Incomunicação, Marvário, Cronoscópio, O Pássaro no Aquário, Pulso, Quarteto Arcaico, manifestaram-se positivamente figuras como Drummond, Almeida Fischer, Waldemar Lopes, Domingos Carvalho da Silva, Geraldo Pinto Rodrigues – e deixo a exemplificação com os desaparecidos, para não abusar. Só uma exceção, para lembrar que você mesmo tem comentado, sempre generosamente, os meus trabalhos  desde 1991, em pelo menos sete artigos. (Novamente o sagrado sete, número obsessivo dos meus Exercícios de Homem, número intencionalmente empregado pelo Gerson na distribuição dos seus poemas... E são sete as vossas perguntas!) Refiro-me, aqui, aos textos públicos, mas guardo um sem-número de cartas memoráveis, algumas, verdadeiramente, quase-ensaios. Sei que não mereço tanto; mas sou grato aos amigos, próximos ou distantes, que tanto me têm prestigiado. E penso, até, que o fato mesmo da não-comercialidade me tem propiciado esta fortuna, pois que me obriga a uma distribuição orientada...
Um livro, porém, se destaca dentre os meus nesse particular, e é justamente o mais ambicioso: Exercícios de Homem foi alvo de dezenas de apreciações, assinadas –e aqui me permito incluir vivos e mortos– por autores do porte de Henriqueta Lisboa, Homero Silveira, Fritz Teixeira de Sales, Ivan Junqueira, Wilson Martins, Paschoal Rangel, Foed Castro Chamma, Hermann José Reipert; Sérgio de Castro Pinto; por gente ilustre do Poiésis, que ora me entrevista – Fernando Py e Gerson Valle; no exterior, por F. Pires Lopes, Nahuel Santana, Carlos García de la Fuente, Artigas Milans Martínez, Francisco Hernándes Avilés; novamente no Brasil, por Afonso Félix de Sousa (antes até da edição), Alan Viggiano, Carlos Burlamáqui Kopke, Fischer, Antonio Carlos Osorio, H. Dobal, Branca Bakaj, José Roberto Teixeira Pinto, Celso Moliterno, Reynaldo Bairão, Olney Borges Pinto de Souza, Jácomo Mandato, Euclides Marques Andrade – não tenho como esgotar a lista.

Gerson Valle – A tradução lhe dá o mesmo prazer que a escrita, uma vez que ambas são excelentes?

ABH – Comecei a traduzir motivado por um concurso da revista A Época, do Centro Acadêmico Cândido de Oliveira, o famoso CACO, da antiga Faculdade Nacional de Direito. Estimulado pelo prêmio, conferido por Drummond, segui fazendo pequenas traduções. Décadas mais tarde, aqui em Brasília, a parceria com o saudoso Fernando Mendes Vianna e com José Jeronymo Rivera me triplicou a alegria de traduzir.
Você sabe, já conversamos a respeito, que traduzir poesia é para mim algo muito próximo ao escrever poesia original; dá, sim, alegria semelhante, mas há diferenças essenciais. O ideal, ao traduzir o poema, é procurar na língua-meta um resultado que corresponda ao traduzido, não só no sentido discursivo (quando há), mas ainda no ritmo, na melodia, nas reverberações, no poder de encantamento, enfim, do original. Só que esse trabalho tem de obedecer às diretrizes de seu objeto, sob pena de desclassificação. Deste modo, alguns dos prazeres do poetar originalmente não são dados pelo traduzir. O principal deles é a ausência da dádiva a que me referi na resposta ao Marcelo: o relâmpago, grande ou minúsculo, não é do tradutor (exceto na hipótese da solução de problema particularmente difícil), porque já foi transmitido a outrem. (Um relâmpago de segunda mão?...) Noutras palavras: falta a surpresa, ou o novo, da criação. Outro fator de diminuição dessa especialíssima libido é o tolhimento da liberdade de criar, já que as linhas mestras nos são impostas, já que a criação é um dado, cabendo ao tradutor, no máximo, recriar – dentro dos estreitos limites a que o junge o objeto sobre que trabalha, pena de descambar para a paráfrase ou a paródia.
Assim, pois, devo responder que o prazer da tradução é quase equivalente ao da escrita...
Mas há uma satisfação a mais que pode dar o traduzir, em relação ao escrever  primário: a de (re)fazer (ou pelo menos tentar...) obra de qualidade superando todas essas limitações.

Marco Aureh – O que você tem a dizer sobre a poesia falada, declamada, e que formas de interpretação mais lhe agradam?

ABH – Poesia, arte da palavra, é para ser pronunciada, para ser dita, para ser cantada, e assim era no princípio. Essa oralidade recobrou vida com os trovadores e, mais tarde, com os poetas românticos que, a exemplo de nosso Castro Alves, a proferiam na praça ou declamavam nos salões e no teatro. Ela pode ter-se tornado recôndita, mas não foi eliminada: o poeta, mentalmente, fala e canta, e se não o faz vocalmente é, talvez, porque lhe falta o registro, o tom, o jeito...
Há uma poesia, contudo, que parece rejeitar a voz, ou ser por ela rejeitada, seja por se afastar demasiadamente do ritmo, da música, seja por se ter feito extremadamente cerebral, seja por um vanguardeiro apelo à visualidade.
Sou partidário da voz, da palavra, isto é, do ritmo e da música, o que não significa –antes pelo contrário– desdenhar o pensamento e a imagem. Afinal, palavra é tudo isso.
Equivocado, porém, me parece aplicar a impostação, a entonação, a dicção teatral a poema que não o dramático, o que o leva a soar falso, quando não ridículo. Não me consta que tenhamos escola para isso.
Agora, vamos e venhamos: mal declamado, não há poema que resista!

Sylvio Adalberto – O fato de seus pais serem poetas, e bons poetas, de que maneira influenciou seu labor poético?

ABH – Difícil dizê-lo. Só tomei, verdadeiramente, consciência de que meus pais eram poetas após o despertar para a poesia, motivado pelo conhecimento de Castro Alves e pela conseqüente ambição de realizar, também eu, alguma coisa comparável àquele prodígio de beleza verbal. Em seguida, porém, dei-lhes a ver minha incipiente produção, que eles prontamente estimularam, e tratei de me familiarizar (mais do que conveniente!) com a deles. Breve estaria a pastichar ora um, ora outro, a par dos clássicos, românticos, parnasianos e simbolistas que ia conhecendo e incorporando às minhas admirações.

Mas eles me influenciaram bem antes disso, desde sempre, em verdade, porque me trouxeram à vida num ambiente de amor e respeito aos livros, à inteligência, às artes, à Poesia.

 

 

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