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CRÔNICAS

Banda de Ipanema & Cordão do Prata Preta & Choque de Ordem

André Luiz Lacé Lopes
Leblon, quarta-feira de cinzas – Carnaval 2010

Muito se tem escrito, com toda razão, sobre a internacionalmente famosa Banda de Ipanema. Sonho que começou a tomar forma em 1959 e, coincidência ou não, materializou-se em 1964. Sua frase-força, Yolhesman Cribelles, que chegou a preocupar os militares da época, não significava deliberadamente NADA. Esse era o espírito da banda. Entre outros, todos irreverentes, daí o seu sucesso imediato e sempre crescente. Tão crescente que, como foi possível confirmar no Carnaval deste ano, virou até problema. Fácil de resolver, diga-se de passagem, mas, mesmo assim, problema: gigantismo!
Ou seja, todo mundo querendo participar, do subúrbio carioca aos turistas estrangeiros passando pelos turistas internos. Não há som para tanta gente e a solução de colocar um famigerado trio elétrico, nem pensar. Até mesmo em respeito à opinião do querido e saudoso advogado Albino Pinheiro, “agitador cultural”, fundador da famosa Banda. Coisa de cláusula pétria, mesmo.
O problema não está afetando apenas a Banda de Ipanema, pois vem atacando todos os blocos que foram surgindo, na Zona Sul. Com toda razão, pois, quem não quer participar, para ficar apenas em dois bons exemplos, do “Simpatia quase Amor” ou do hilário “Que merda é essa?”, com as suas bem humoradas críticas aos governos e à própria sociedade como um todo?
Nada de carnaval “chapa branca”, ao contrário, um espetáculo magnífico de exercício de cidadania plena e bem humorada, feito através de textos (estandarte, palavras de ordem, manchetes etc) e, sobretudo através de músicas clássicas e eternas, entremeadas com músicas de protesto bem carioca. Tudo isso num meio ambiente maravilhoso e com pitadas a gosto de sensualidade.
Isso na Zona Sul, especialmente Ipanema e Leblon, mas, e o resto do RIO?
E a Zona Oeste, a Zona Norte, o Centro a Zona Portuária, a Baixada Fluminense, Niterói?
Pois é, a idéia desta crônica surgiu na Saúde, Zona Portuária, durante a concentração do Cordão da Prata Preta. Não leitor, não houve engano, não estamos nos referindo ao famoso Cordão do Bola Preta, é Prata Preta mesmo.
Este ano um herói-capoeira desfilou em homenagem a outro herói-capoeira.
O primeiro, Prata Preta (Horácio José da Silva), herói da Revolta da Vacina, o segundo, o homenageado, o Almirante Negro (João Cândido) herói da Revolta da Chibata.
Não fosse isto suficiente, também Vila Isabel prestou homenagem ao João Cândido.
Infelizmente, não me foi possível ver a Vila passar, mas não ficaria surpreso se trouxesse em seu enredo alguns capoeiras jogando uma capoeira teatral, embranquecida e aburguesada. Terrível, mas, lamentável mesmo, foi não encontrar um capoeira sequer na Saúde (Porto Arthur!!!) durante a concentração e no percurso do Cordão do Prata Preta. Local histórico, gente muito boa, enredo capoeiristico, e nada dos capoeiras. Fosse na Bahia, temos que reconhecer, já teriam tombado tudo, descolado um patrimônio imaterial da humanidade, verbas públicas para todo tipo de homenagens. E estariam agindo muito bem, pois, afinal, não estamos falando de fantasias, de mitos, de filmes com efeitos especiais. Estamos falando de dois grandes líderes, um que acabou sendo traído no acordo feito com as autoridades da época, e o outro que foi despachado para o Acre.
Foi o meu melhor programa neste Carnaval: mesas pela calçada, cuba-libre generosa e honesta (sempre peço cuba-libre, impossível de falsificar, pois acabaria ficando mais cara), seleção de músicas realmente com a cara do Carnaval, só faltou mesmo aquela antiga mortadela cortada a facão.
A excelência do momento levou-me a duas reflexões, a primeira, bem específica, sobre a extraordinária Capoeiragem no Rio de Janeiro; a segunda, sobre a possibilidade de intercambiar a Banda de Ipanema com o Cordão do Prata Preta (e similares!).
O auge da Revolta da Vacina (Prata Preta!) coincidiu com o ataque feito pelos japoneses à esquadra russa no porto chinês de Porto Arthur. O que fez com que os jornais brasileiros começassem a chamar o Bairro da Saúde, resistência final da mencionada revolta, pelo mesmo nome.
Por associação de idéia, lembrei do grande mestre Artur Emídio de Oliveira que, no dia 31 de março, estará complementando oitenta anos de idade. É muito possível que os inúmeros mestres de capoeira do Rio de Janeiro prestigiarão a data, da mesma maneira que prestigiaram o Cordão do Prata Preta neste ano: não comparecendo.
O que será um gol contra geral, para a capoeira e para os capoeiras.
Espero estar errado.
Como também espero que a segunda reflexão caia em terreno fértil, pois estou propondo, nada mais nada menos, que a Banda de Ipanema escolha um dia para se apresentar na Saúde, homenageando não apenas o Cordão do Prata Preta, mas, também, a Vizinha Faladeira, Pinto Sarado, Coração das Meninas, Escorrega mas Não Cai, Filhos de Gandhi, Banda do Morro da Conceição, enfim toda a Zona Portuária e adjacências.
Em retribuição, não apenas o Prata Preta, mais as demais associações carnavalescas da área, tratariam de agendar um dia para desfilarem pela Vieira Souto e Delfim Moreira.
Tivesse esse intercâmbio começado esse ano, seria sopa no mel, pois o Prata Preta poderia homenagear o marinheiro João Cândido, arranjando um jeito de passar também pela Dias Ferreira, onde homenagearia, de quebra, o famoso compositor Elton Medeiros, cujo pai, mestre arrais, aprendeu francês e matemática com o filho de um almirante a quem, em troca, ensinou capoeira. Nesse caso, além de Obaluaiê uma das razões da Revolta da Vacina, homenagens especiais seriam prestadas também a Xangô. Razões óbvias.
Prosperando a idéia, o intercâmbio poderá ser muito mais amplo, intercambiando de bandas e blocos da zona sul com blocos e cordões das demais zonas. Não sendo absurdo, a Banda de Ipanema agendar um desfile em Seropédica, dando voltas na casa do não menos brilhante compositor Nei Lopes. E nem vou lembrar Madureira, especialmente o jongo da Serrinha...
Para não deixar de falar em espinho ou de espinha atravessada na garganta, um trio elétrico voltou a atacar na praia de Ipanema. Música terrível, letra ainda pior, num volume enlouquecedor. Está ai uma ação governamental santificada: fazer com que o Choque de Ordem eletrocute esse trio elétrico alucinado e alucinante.
Ou o governo municipal isente os moradores da área de pagar IPTU no mês de fevereiro.