
Fichas e mãos limpas
Não resta dúvida que a chamada Lei Ficha Limpa foi uma grande conquista da sociedade, que mobilizou a população, acompanhou a votação no Congresso e agora cobra do Poder Judiciário o cumprimento dela. Mas não para aqui o trabalho de mudança que se pretende fazer, de forma democrática, na escolha dos representantes do povo, tanto no Legislativo como no Executivo. O pente fino pode tirar os piolhos, mas as lêndeas, tem que ser no fio a fio...
A lei cassa "os que tenham sido julgados e condenados pela Justiça Eleitoral por corrupção eleitoral ( art. 299 do Código Eleitoral), captação ilícita de sufrágio (art. 41-A da Lei nº 9.504/97), conduta vedada a agentes públicos em campanha eleitoral (arts. 73 a 77 da Lei nº 9.504/97) ou por captação ou gastos ilícitos de recursos (art. 30-A da Lei nº 9.504/97), pelo prazo de 8 (oito) anos a contar da realização da eleição." Porém não é tudo. Há os que não têm processos em tramitação nos tribunais, mas agem de formas ilícitas, cometem outros "crimes", adotam condutas demagógicas, não cumprem as promessas feitas em campanha, abandonam o eleitorado, só voltam às comunidades, nas quais captaram os votos, no outro período eleitoral. Nesses casos em que o "crime" é mais de natureza ética, o trabalho tem que ser feito nas urnas, no voto a voto. Por isso a mudança desejada é lenta, pois depende do esclarecimento da população, do discernimento do eleitor para separar o trigo do joio.
Na semana que findou, um candidato a Presidente, entrevistado em um telejornal, falou: "Para mim, não tem grupinho de deputado indicando diretor financeiro de uma empresa, ou diretor de compras de outra. Pra que um deputado quer isso? É para corrupção". Essa declaração expõe uma prática que é comum, porém não correta, mas que acontece na esfera Municipal, Estadual e Federal.
Em uma conferência proferida em Juiz de Fora, Olavo Bilac afirmou "O Brasil não tem excesso de servidores; ao contrário, é ainda escasso o número dos que podem amá-lo e servi-lo com verdadeira utilidade". O livro em que está a íntegra dessa conferência foi publicado em 1912, ou seja, o País está carente de verdadeiros servidores há muito tempo, por isso que há essa desconfiança dos que se candidatam com a proposta de defender os interesse do povo. Leia o perfil dos candidatos...
Não se pode negar que há muitos candidatos com ficha limpa, mas que também nunca fizeram nada pelo povo, isto é, as mãos são limpas, porém vazias. Basta olhar a relação dos candidatos para perceber que muitos querem transformar em votos a popularidade que conseguiram em atividades esportivas, artísticas ou pelos meios de comunicação: foram ou são ídolos que agora se filiaram a um partido com intuito de obter um cargo político; contudo o pensamento ainda é muito individualista, não apresentam nenhuma consciência social, o cargo que almejam ainda é para atender a interesses pessoais. E nesses casos, é sempre bom ter no pensamento que "não pode a árvore boa dar maus frutos; nem a árvore má dar frutos bons" (Mt 7,18).
E diante das enormes cifras das doações de campanha e das palavras do candidato a Presidente mencionado, é possível perceber que a política do "toma lá dá cá" ainda está em vigor. O "toma lá" não é tão problemático, o perigo maior está no "dá cá": dá cá as minhas empreitadas, dá cá os meus cargos, dá cá a minha fatia do bolo feito com o leite retirado da teta da mãe Pátria. E para evitar essa sangria, não basta a lei, é preciso o voto consciente de cada cidadão.
Ataualpa A.P. Filho |