Angelo Romero

“UMA GOTA DE INFÂNCIA”
Manhã de sábado esplendorosa eu, como sempre apressado para resolver problemas de trabalho, estava caminhando pela Rua 16 de Março, coração de Petrópolis, quando uma singela imagem me fez parar. Um belo menino loiro, com cabelos encaracolados, chorava baixinho de mãos dadas com uma jovem senhora, possivelmente sua mãe. Até aí, nada demais. Já havia visto imagem semelhante algumas vezes. O menino tinha em torno e cinco anos de idade e seu tipo de choro não me pareceu ser de má criação. Percebi, ou quis perceber um profundo sentimento de tristeza que embaçava seus belos olhos graúdos, castanho-esverdeado. Alguma coisa que não identifiquei me fez parar para acompanhar os passos daquela dupla. Por três vezes consecutivas a jovem senhora parou diante de vitrines para apreciá-las. O escritor costuma ser um observador voraz da vida. Entretanto, seu poder imaginativo é incontrolável. Em certas ocasiões ele vê um detalhe da vida que, embora real, muitos não seriam capazes de enxergar; em outras, ele vê o que sua imaginação privilegiada gostaria que fosse uma verdade absoluta. Diante daquela imagem o que pude constatar foi olhares contrastantes: enquanto um parecia embevecido e banhado do desejo consumista, o outro denotava total indiferença e triste desprezo. Mergulhei no túnel do tempo e sentei-me num banco para descansar da curta viagem. E percebi que da viagem havia voltado revigorado. Voltara a ser criança com cabelos loiros encaracolados e olhos graúdos castanho-esverdeado. A jovem, bela e esbelta senhora, que estava de costas para mim, bem que poderia ser minha mãe Ciata. Ah! Quantas vezes ela me havia feito chorar de tristeza enquanto, embevecida, apreciava as vitrines da Rua do Ouvidor, no Rio. Um corte e uma explicação: nas poucas ocasiões em que mamãe precisou deixar o subúrbio pra ir ao Centro do Rio, ouviu profundas queixas e reclamações ao voltar: - O Angelo é muito levado! Quase caiu de cima da árvore do jamelão! Brigou com a prima o tempo todo. Voltou da rua com as canelas esfoladas do futebol! Levou uma pedrada dos moleques do morro e voltou com a cabeça sangrando”. Mamãe resolveu dar um basta: “não lhe deixo mais em casa. Toda vez que tiver que ir para a Cidade levarei você comigo”. Criei traumas: até hoje não consigo parar diante de uma vitrine, a não ser quando preciso comprar alguma coisa: não consigo caminhar sem objetivar um destino e ficar de pé, parado, me cansa mais do que caminhar quilômetros. Tio José, ex-combatente da segunda guerra, meu ídolo e meu herói, passou pelo túnel do tempo para vir ao meu encontro. Vá se acostumando a ficar de pé, parado, sobrinho. Lembre-se de que quando for servir ao exército, terá que ficar, no mínimo, duas horas parado, de prontidão no quartel e com um pesado fuzil no ombro sem se mexer. Esta tenebrosa imagem fez parte integrante de meus pesadelos da infância à minha adolescência. Em vista de meu forte temperamento e destemor diante de provocações e ignorâncias, papai resolveu mexer os pauzinhos, como se dizia, e eu, para grande alívio, fui dispensado do Serviço Militar. Mas ali, na Rua do Ouvidor, Assembléia, ou Marechal Floriano eu chorava parado diante das vitrines. Meu choro também não era de má-criação. Era de profunda tristeza. Estava desperdiçando meu tempo de infância. Deixara a bola de futebol, meu papagaio de papel de seda, as bolas de gude, os jogos de futebol de botões, meu pé de Jamelão e tantas outras coisas maravilhosas para ver minha mãe admirar vitrines com objetos que não podia comprar. O pior consumista é o pobre. É aquele em que enquanto os olhos sorriem de desejo por lindas mercadorias, as mãos vazias choram por desenganos. Esfreguei os olhos e voltei da viagem tomado por um forte sentimento de solidariedade. Meu primeiro impulso foi o de abraçar e consolar aquele menino que me fizera viajar. Viajar para uma longínqua tarde de outubro na Rua do Ouvidor quando, chorando sentado ao meio-fio da calçada, ouvi uma piedosa voz de uma desconhecida me perguntar: -“Está sentindo alguma coisa, meu bem?” – “Estou”- respondi. – “O que?” – perguntou preocupada. – “Um desejo enorme de crescer” - desabafei.
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