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INÍCIO - CORRESPONDENTES - REYNALDO VALINHO ALVAREZ - SONETOS

REYNALDO VALINHO ALVAREZ

Sócio Correspondente 1142
Rio de Janeiro - RJ - Brasil

- BIOGRAFIA
- EXEMPLOS DE SONETOS DESCONSTRUÍDOS E RECONSTRUÍDOS
- COROA DE SONETOS

SONETOS

DE GALOPE DO TEMPO

PÓRTICO

Da janela, na chuva, alguém procura
achar sua alma irmã na noite escura.
Na tuba enferrujada, desafina
o músico esquecido numa esquina.
O incêndio esconde o palco todo em fumo
e o mágico, aturdido, perde o rumo.
Entre gavião e pombo, uma vidraça
frustra o golpe mortal e se estilhaça.
As ondas que se quebram contra o dique
refluem sobre si e vão a pique.
Se a parábola volta, é que, na certa,
não a colheu a mente astuta e alerta.
A carta, na garrafa que se alaga,
O mar a lê, a leva, lava e apaga.

UM DOMINGO UMA TARDE

um domingo uma tarde um menino na rua
e à frente como um sol uma bola de cor
enquanto acima o sol real se espreguiçando
cai sobre o tempo morno e absorto do passado
em lentas gotas rubras num solene rito

um domingo uma tarde uma árvore frondosa
irrompendo na rua como um cone verde
enquanto as aves chamam o parceiro ausente
e os muros alvacentos gritam sob a luz
o prazer de brilhar na mornidão tranqüila

como pedir ao tempo
escasso e errante pingo
que fixe para sempre
a tarde de domingo?

COMO ANDO SEMPRE A PERQUIRIR

Como ando sempre a perquirir o tempo,
há tempo que me inquirem por que sempre
é tempo de indagar e pesquisar.

É como o vento que revolve o ar
com o mesmo gesto com que irrita o mar,
para afogar inermes e inocentes.

Veemente compulsão. Direi: o impulso
insopitável de um vulcão convulso.

Minerando em crateras, quebro as pedras,
no que há sempre mais perdas do que lerdas
aspirações de ganho, se as apanho.

Enquanto a pedra quebro, limpo e brito,
vou esculpindo o solitário grito,
arrancado ao meu dia, denso e vário.

A MOCHILA

Carrego na mochila, entre outros trastes,
três ou quatro verdades importantes.
O resto é de mentiras. São contrastes
que entrego às outras partes contrastantes.
A lira não me vale. São desastres
o que encontro nos outros caminhantes.
Na terra devastada, erguem-se as hastes
das lanças e dos canos fumegantes.
A mochila me pesa. As três verdades
ou quatro, já não sei, não pesam tanto,
mude-se o tempo e mudem-se as vontades.
O que me doi ou pesa, ou o que é um espanto
é que um modesto grama de inverdades
valha um tonel de torpe desencanto.

O LÍRIO REBELDE

Ah, lírio tão rebelde, flor selvagem,
que não se curva ao corte. Ah, que delírio,
a força que isto tem. Ah, que tragédia,
uma vida vivida em vã comédia,
como que em coma e cólica existida.
Viver do não, viver do sim, da ousada
vontade que se afirma e é quase nada.
Ah, viver sempre assim, sempre do não
ou do sim, mas viver, como quem anda,
com uma bengala ou um guarda-chuva à mão,
seguro de encontrar a condução.
Ah, viver de verdade. Não fingir,
mas viver uma vida. E não fugir.
Há nisto muito mais do que paixão.

NO ORESUND

Tarde de primavera no Oresund.
Defronte, a Dinamarca nos acena.
É Hamlet ou sua sombra. Mas aqui,
um salmão nos espera, sobre a mesa.
Somos tantos, chegados de outras terras.
E eu, vindo lá do sul, entre viquingues,
trago, nos bolsos, tipos de outro tempo.
Como viajar sem eles, se, no tempo,
só faço transportá-los nos meus lábios
e até nos olhos? Vejam que sorriem.
E quando falo, agora, a escandinavos,
é sua voz que fala em minha fala.
Basta um olhar, pra ver que eles ocupam,
agora que lhes falo, toda a sala.

O CARAMUJO

Neste domingo, o sol nasceu sem jeito.
Chuva e sol, casamento de espanhol.
Sol e chuva, casamento de viúva.

Tomo o café, olho a janela e vejo
as barracas armadas, o mercado
que se instalou em frente à minha porta.

Não me pediram vênia. Ou desculpa.
Foram chegando e por aqui ficaram.
Se estou incomodado, que me mude.

Isto resume a vida. Os invasores
armam barracas, roubam-me o caminho.
Se acaso me perturbo, que desista.

Neste domingo, o sol casou com a chuva.
E eu, caramujo, calo-me na casca.

AMÉRICAS PODRIDAS

Quando, gaulês, chamaste teu irmão
e também semelhante o teu leitor,
tinhas na mente, certo, a hórrida cor
do sofrimento universal. Ou não?
Prezado Baudelaire, se me permites,
aqui dou meus humílimos palpites.
O verme que cantaste é o mesmo verme
que me corroi o sono, o tempo e o verbo.
Eu nunca vi um verme tão soberbo.
Pois, sem pagar ao corpo o seu laudêmio,
ainda ousa ganhar, da vida, o prêmio.
Fizeste bem ao denunciá-lo, Charles.

Outro Colombo, ele abandona Palos,
para estuprar Américas podridas.

O BÊBADO

Piccadilly ou Manhattan. Eis o teste.
Ou vamos para o oeste ou para o leste.
Chuva de Londres ou a neve sobre
a maçã repartida entre etnias.
Cosmopolita e universal é o espaço
em que se move agora o mundo tenso.
Enfio a mão no bolso e tiro o lenço
para saudar os povos. Que inocência.
Quase recebo um tiro de raspão.
Cada um guarda em casa o seu canhão,
pronto a bater, com bala, a continência.
Penso em Carlitos. E também em Carlos.
Isto é ridículo, mas quem se importa?

Sou como um bêbado que errou a porta.

INSÔNIA

A manhã se aproxima e é sempre duro
quando o sol rompe a treva e inunda o escuro
de um sono que nem mesmo aconteceu.
Sinto-me novo e inútil Prometeu
a quem bicam o fígado, melhor
dizendo a mente, e que aprendeu de cor
os caminhos da noite soluçados,
como vagidos, em jardins murados,
numa vigília que não se escolheu.
Ah, estradas da noite, ah, poços fundos,
sempre cheios de lodo, tão imundos
deste vazio amortalhado em breu.
Ah, pontes sem destino, cruel fadiga
do tempo debulhado como espiga.

FIM DOS TEMPOS

Até o fim dos tempos. Mas que tempos,
estes que se revelam contratempos?
Homem, lobo do homem. Na verdade,
mais cresce e mais se afirma a realidade
da caverna e da selva, em meio a dores
pintadas sempre à luz de tantas cores,
no planeta sangrento que habitamos.
Para onde agora finalmente vamos?
Há tiros no Oriente e no Ocidente.
É sempre gente que assassina gente
e recebe medalhas por seu gesto.
O gatilho tão ágil e tão presto
surpreende o alvo tão fácil, tão inerme,
e engorda, com prazer, o abutre e o verme.

FIM

Todo princípio é uma questão de fim.
Ou todo fim, quem sabe, é uma questão
de princípio. Quem ousa discordar?

De princípios e fins. Eis um tratado,
para escrever, sentado, num mosteiro.

Irmãos, eis-nos chegados ao instante
em que é forçoso soluçar o adeus.

Espero não vos ter cansado o assédio.
Mas se disser que isto não tem remédio?
Mesmo no Louvre, há quem morra de tédio.
Que dizer destes parcos epigramas,
que podeis ler em vossas próprias camas?

RAZÃO DE NAVEGAR

1

Do mar assassinado em que navego,
a extinta cor somente está nas algas,
a superfície é um leito de petróleo,
disposto como o túmulo das aves
que mergulham na morte sem saberem,
e o fundo é o sono eterno, um céu queimado,
feito só de carvão, gelo e silêncio,
mas, se não fosse o mar o cemitério
dos rejeitos do mundo enfurecido,
movido pela gana de chegar,
talvez eu freqüentasse, amiga, a tona,
cansado destas locas empedradas,
e pudesse, chamando-te, dizer-te:
não te percas, amiga, na procura.

3

De quem segue, tão cego, pelas ruas,
falamos, como sempre, entre partidas
de barcos ancorados nos sargaços
e naufrágios vividos nos caminhos
que se abrem, sob a lua, sobre o mar
todo escória de estrelas, todo espuma
dos lábios amorosos das Nereidas,
mas também a água-viva em cada esquina,
o tentáculo rápido nas bolsas,
as mandíbulas fortes que se fecham
sobre a cauda assustada dos cetáceos,
caindo, como um raio, em quem navega,
desatento a recifes e baixios,
a olhar para as calçadas encardidas.

5

Como quem busca o níquel da miséria,
procuras o teu porto avidamente
e, se o percurso é longo e acidentado,
mais a fome de amor te roi a pele
queimada pelo fogo ao meio-dia,
mas o que vês são mares agitados,
calçadas onde os pés os pés esmagam,
sem que possas dizer se o teu roteiro
foi traçado por louco ou teu destino,
pois, como Ulisses, a Ítaca não chegas,
nem, mendigo, a moeda, enfim, encontras,
navegante encalhado na avenida,
que perdeu nau, os mapas e equipagens
e estende sua mão pelas esquinas.

7

Todo atento à passagem da patrulha,
é vítima e ladrão ao mesmo tempo,
pois que rouba a si próprio, quando rouba
a vida em que se mata, sem vivê-la,
e treme, a cada gesto dos pivetes,
temendo erguer a mão, soltar a voz,
levando, como sempre, em cada bolso,
as pedras reunidas das auroras
já mineralizadas pelos dias,
fósseis agora, como agora é fóssil
aquele que se esfria e paralisa
à passagem ruidosa da patrulha,
comido pela areia movediça,
meio dentro de si, meio por fora.

9

Indeciso entre a gruta e o campo largo,
assim é teu Romeu ou teu Quixote,
culpado de não ser o Sancho explícito
que fala em linha reta e não se afoga
nas praias de seus dias calorentos,
mas não te desesperes com teu bravo,
fatigado com urzes ou macegas
crescidas na campina entre as batalhas,
pois, na verdade, seu cavalo é manco
e ele próprio se cansa quando marcha,
vacilando entre a espada e o travesseiro,
porém não vás, incauta e impaciente,
sair para encontrá-lo, em mar de espinhos:
não, não te percas, a correr sozinha.

11

Tão junto ao meio-fio da avenida,
estás à beira-rio, irmão poeta,
entre o sol e a lua, a casa e a rua,
os seios em que dormes e a pantera
que salta em cada passo do teu dia:
eu sou tu, tu és eu, somos os dois,
que se revezam junto à roda, dando
o rumo insuspeitado deste barco
de casco já tomado pelas cracas
e assim, amiga, quanto te aprofundes
nas águas deste abismo em que me prendem,
não te iludam os jogos de outras luzes
nessa tua procura sem sentido,
pois, por mais que pesquises, sou o peixe.

13

Que se esconde nas locas mais profundas
este peixe de espasmo e desalento
que vê nos tubarões a serra aguda
de todas as mandíbulas da esquina,
eu e tu bem sabemos: pensa, amiga,
no que de mim a mim possa dizer-me,
que não o diga a ti, o que me falta
não é este dizer-me que percute
nas rochas abissais do mar urbano,
mas a força, as mandíbulas e os dentes,
já que me sobra o não querer a luta
em que é prêmio a queixada de outro peixe,
razão por que vou sempre mais ao fundo
e até nem sei se um dia chego à tona.

15

Não te percas, amiga, na procura
de quem segue, tão cego, pelas ruas,
a olhar para as calçadas encardidas,
como quem busca o níquel da miséria
e estende sua mão pelas esquinas,
todo atento à passagem da patrulha,
meio dentro de si, meio por fora,
indeciso entre a gruta e o campo largo,
não, não te percas, a correr sozinha
tão junto ao meio-fio da avenida,
pois, por mais que pesquises, sou o peixe
que se esconde nas locas mais profundas
e até nem sei se um dia chego à tona
do mar assassinado em que navego.

2

Não te percas, amiga, na procura
em que os minutos ferem como espinhos,
pois também gostaria de abrigar-me
nessas angras amenas do teu corpo
e ancorar o veleiro no canal,
para ofegar em paz sobre o teu ventre,
se navegar não fosse, como a sede,
a força que me impele para as águas
e, ainda que, sem saber nadar, me afogue
nas ondas agressivas da tormenta,
porque, se não me exilo em tua concha,
levado nas correntes que me arrastam,
é que pressinto, em cada artéria, o grito
de quem segue, tão cego, pelas ruas.

4

A olhar para as calçadas encardidas,
não te deixes levar águas abaixo,
para o salto ou a foz, se o que desejas
é encontrar as fontes, as nascentes
desse rio vestido pelo barro
de ouro e sangue arrancado dos barrancos,
pois, se perdes o pé, perdes a vida,
e o vau é impossível, que esse leito
muda a cada estação, é chão instável,
palavra sem substância ou consistência
que é preciso evitar, para que a fala
não se entranhe de caos e de estranheza
e nem fiques a olhar o chão, aflito,
como quem busca o níquel da miséria.

6

E estende sua mão pelas esquinas
o que encalhou no mundo, o que navega
contra ventos contrários, se tropeça
e aos arrancos o empurram na calçada,
mordendo o grito e tendo à boca em fogo
os fios das navalhas com que o cortam,
mas sem poder dizer de si o dito
que melhor fora não ser dito, em frases
caídas como pombos, na fumaça,
entre crateras, bêbedos, veículos,
loucos, mendigos, órfãos, moribundos,
enquanto ele, parado, engole o tempo,
árvore seca junto ao meio-fio,
todo atento à passagem da patrulha.

8

Meio dentro de si, meio por fora,
Apolo ou Dionísio, noite ou dia,
carne ou peixe, não sabe do ponteiro
que marca suas horas paralíticas,
ele próprio onça e anta, garra e caça,
entre o amor e o escritório, o pão e a cama,
repleto de não-ser, rato varrido
dos rodapés da casa, gato aflito
miando à fêmea, em muros guarnecidos
de fundos de garrafas, como facas,
navegador de rumos sempre opostos,
ora a singrar de Vênus a enseada,
ora a investir sem lança ou armadura,
indeciso entre a gruta e o campo largo.

10

Não, não te percas, a correr sozinha,
que nunca é mesmo tempo de fugir
das ruas apinhadas, das muralhas
erguidas entre os rostos na calçada,
mas, ao contrário, é bom que te aproximes
das marcas desenhadas com cuidado
por mãos e pés dos que vão navegando
por entre estes escombros, vai, amiga,
ouvir-me quando falo nos jardins
a meus próprios ouvidos e me trato
como te trato a ti e me tuteio,
para ligar os eus que me dividem,
cindido e solitário, entre ruídos,
tão junto ao meio-fio da avenida.

12

Pois, por mais que pesquises, sou o peixe
que deves abrigar em teu aquário,
o que deves salvar, antes que os dentes
dos tubarões lhe arranquem estas asas
que, nas águas, se chamam barbatanas,
mas não demores, que os anzóis pululam,
para puxar-me pela gorja, e o campo
de batalha se estende na avenida,
com facas afiadas, com projéteis
famintos de cortar ossos e carnes,
razão para que venhas e te enlaces
com o peito ainda de balas não crivado
e que hoje ainda é o peixe atormentado
que se esconde nas locas mais profundas.

14

E até nem sei se um dia chego à tona
para brilhar ao sol entre as espumas
dos lábios ou da concha de Afrodite,
pois o mar de verão molha um mercado
de gritos, ameaças, punhos e aços
cortantes e aguçados, como os dentes
das feras do oceano, enquanto, à margem,
tubarões, a que faltam barbatanas,
destroem estas águas, não com dentes,
mas com a fúria letal de uma outra luta
em que a arena é de números cifrados,
ali onde as amigas e os poetas
falam às ondas, declamando a saga
do mar assassinado em que navego.

De O continente e a ilha, “O exílio na pele”, “A desordem do corpo”:

Beberei deste vinho que verteste
nas ânforas de barro do teu dia,
monarca que se farta e se entedia
em todos os momentos, mesmo neste.

Assim é que propagas tua peste,
enquanto a tua garra mais se afia,
e bebo, como tu, dessa ironia
com que todo o teu asco se reveste.

Comungo teu banquete de ruínas,
roendo os ossos brancos do cansaço
que me pregas, me ofertas e me ensinas.

Espelho-me no jeito frio e lasso
de tuas mãos esguias e assassinas
sufocando o que sinto, penso ou faço.

De O continente e a ilha, “O exíliio do corpo”, “Memória do desterro – Inventário”

Ah, bem que pensas ter passado o tempo
em que fugias como inseto louco,
levado pelo vento ou pelo sopro
atro e hiemal da morte aconchegada
em seu manto terroso e enxovalhado.
Mas não te iludas. Foram-te as memórias
mas ainda vivem nesse limbo escuro
as sombras diluídas de teus gestos.
São velhos engelhados, são defuntos
insepultos e quentes, são denúncias
de cada passo em falso, cada rosto
mutilado em orgasmos e sevícias.

Não te iludas, amigo, está escrito
e as contas são cobradas uma a uma.

De O continente e a ilha, “Razão de navegar”, “A paz quase impossível”:
Ah, quem me dera, amiga, quem me dera
ouvir uma só voz no mar sem fim,
e aplacar, aqui dentro, esta pantera
que sempre estruge sua ameaça ruim
no ouvido de quem vive do que espera
e, porque espera, menos vive e enfim
mais se angustia, exalta e desespera,
por sentir a distância que há, em mim,
entre o roteiro e o curso do navio
atrelado à paixão de um desafio
sobre as águas revoltas, sobre a serra
do dorso destas ondas, puro orgasmo
de ironia mordaz e de sarcasmo,
na gargalhada que sufoca e aterra.
De Solo e subsolo,“O carpinteiro”, Os quatorze sonetos da purificação” :

OS QUATORZE SONETOS DA PURIFICAÇÃO

1

este cravo no peito apunhalado
bem no centro onde o cravo mais se afirma
estoura em margaridas cultivadas
ao céu-posto de estrelas e iguarias

que não se encontram mais sobre esta mesa
de repasto tão sóbrio quanto escasso
de vinhos e de queijos e de abraços
trocados na efusão de antigas ceias

mas onde o cravo mais ora se afirma
há um pedaço de chumbo intrometido
uma ferida que se afunda e alarga

pela ferida verte-se este soro
que quanto mais penetra mais aviva
mais acende mais queima e purifica

3

este barco não parte partirá?
tudo é distância neste mar que à frente
mais se enegrece enquanto a noite afunda
em seu poço de tédio e maresia

onde se pôs de luto meu caminho
começado num ventre e agora posto
à minha frente como ponte armada
entre mim e o que vem mas desconheço?

este barco não parte e a pé não cubro
o percurso da ponte e seu destino
trajetória entre pontos desconexos

este barco não parte e me aprofundo
neste poço sem fundo que se rasga
na procura de um líquido mais puro

5

foram tantos os mitos que deixavas
meus passos tresloucados caminharem
por pedras e pedrouços por penhascos
o coração no peito e os olhos tensos

foram tantos os mitos tanto o gesto
de recolher pedaços entre urtigas
que te punhas de pé sobre gemidos
para sofreres com meu não de espada

foram tantos os nãos tantos os sins
errados todos nesta boca em fogo
que cerravas os olhos e irrompias

em soluços de pedra sobre a lava
que tão inutilmente em mim corria
talvez para queimar o puro nada

7

de que me vale andar nesta sandália
neste burel tão áspero no apoio
deste cajado rudemente feito
se me falta esta paz dentro de mim?

de que me serve o andar pelos caminhos
molhar-me à chuva empoeirar-me ao sol
se há uma pedra inquebrável no meu peito
e os açoites que ferem me enfurecem?

por que me calo se não silencio
o grito rebelado que estrangulo
como um brado de punhos e punhais?

por que me sento e choro neste banco
se há vulcões explodindo em minhas vísceras
e terminou o tempo das alvíssaras?

9

estou aberto em cruz os braços presos
na miséria granítica dos dias
um cristo empoeirado um falso cristo
feito de sangue e horror não mais que falso

estou aberto em cruz mas os meus braços
pendem mais para o solo como flechas
que o círculo dos ares completaram
para fechá-lo neste chão de lama

estou aberto em cruz mas tão sem forças
tão escravo dos gritos que me agravam
que é bem mais grave em mim a gravidade

estou aberto sim mas tão cerrado
no jeito de me abrir para esta ilha
que se me fecha a porta e fico à espera

11

tanto me foi o sido que ontem fui
que hoje me vem o vindo que serei
como a nau esperada ou superada
das idas desejadas e não tidas

assim me vai o tempo decorrido
como um córrego louco um bem sumido
entre escarpas penedos duras penhas
as águas escorridas como chuvas

tudo me vai assim como a loucura
de um tempo tão varrido e desvairado
que me desvale em braço e peito amigo

aonde me irei parar posto que fluo
entre dejetos lodos e mentiras
sedento de água pura e rio limpo?

13

estou pobre hoje mais do que ontem creio
é que nem sempre assim me ponho pobre
para sentir o que há de impuro e pobre
na riqueza das gentes e das coisas

estou pobre hoje mais dentro de mim
na procura dessa outra mão que foge
embora o tédio e o esforço que há no diário
debruçar-se na busca do que some

estou hoje mais pobre não mais podre
do que estou noutros dias bem mais ricos
em que impero entre lixos e rejeitos

estou hoje mais pobre como o pobre
que entre peixes e pássaros transforma
em cobre o ouro do sol que as mãos aquece

2

acenderam-se os fogos sobre o porto
e os navios cansados das esperas
estão prontos e tensos mas aguardam
os sinais definidos de partida

assim também me acendo enquanto espero
o sinal definido que me aguarda
onde sequer foi posto ou cogitado
para que eu erga esta âncora de ferro

enquanto não me movo me percorre
o que em mim partirá e ainda não parte
tão afeito ao desejo de partida

estou preso no solo deste espaço
respiro os ares broncos deste tempo
e enquanto me angustio a alma se apura

4

quanto de mim se fez espinho ou farpa
neste caminho que não leva a porto
nem conduz a cidade vila ou pasto
em que me espoje como um bicho gasto?

quanto de mim se fez espanto ou náusea
nesta corrida amarga neste transe
neste copo de angústia nesta roça
continuamente cultivada e seca?

quanto de mim se fez óvulo e esperma
sem que a semente penetrasse o invólucro
e enfim um ovo me gerasse e desse

a graça de ser eu o que buscava
entre tantos enganos e sargaços
neste mar sem azul e sem pureza

6

abaixo dos beirais havia o grito
espantado de tantos passarinhos
que o céu acima dele me era tanto
e tão longo e tão alto e tão distante

que me pus de joelhos sobre mim
para entender além desses beirais
e enquanto assim fazia mais me punha
tão pobremente em mim que me cuidava

alguém perdido de se achar um dia
e de tal modo mortalmente feito
que acima dos beirais não via nunca

além do ar puríssimo ou talvez
o que ainda além se fosse como o vôo
daqueles passarinhos como um grito

8

isolei-me na ilha dos aflitos
tão degradado em mim como o largado
o abandonado o solto o escarmentado
para edificação dos povos todos

degredei-me e amarrei-me ao pelourinho
que eu próprio levantei como um exemplo
por beber a água impura desta fonte
que mina em todo solo em que se pise

entregue a mim ao trópico e ao gentio
explodi de em mim ser tanta perfídia
tanto espelho partido tanto espanto

e esgoto-me na ilha e na procura
dessas águas tão puras dessa fonte
que não está em solo algum que piso

10

eram alvos os tempos em que tudo
se explicava dobrando-se em si próprio
como lençóis bordados em seu linho
de purezas antigas preservadas

eram brancos os dias debruçados
nas janelas abertas para o sol
de tantas tardes transitando lentas
sobre risos aromas passos calmos

eram claros os temas desses dias
que se abriam parados entre os dedos
navegadores de águas sempre virgens

tudo era virgem límpido sereno
como o cristal quebrado ao meio-dia
pela trepidação das britadeiras

12

cansei-me de vertigens caio exausto
aos pés de quem não corre e tudo alcança
pois que tudo contempla e tudo abarca
com olhos de isto ver e o mais que existe

estou aos pés de quem os pés recolhe
e as mãos me estende como longa ponte
sobre abismos grotões falésias rios
nos sulcos profundíssimos dos vales

não me falem dos ares percorridos
em galopes selvagens nem nos vôos
das aves de rapina como flechas

estou cansado em mim e me acrescento
no que posso entender sentado aos pés
de quem guarda nas mãos todos os vôos

14

eu estava de pé mas não estava
tão de fato de pé que me faltava
o apoio que há no chão quando se firma
e não cede como água lodo ou barro

eu estava de pé mas já sentia
que não estava de pé como se está
quando se firma a sola sobre a pedra
e a pedra a sola fere com dureza

era-me estar assim com desconforto
com medo de não estar estando embora
um jeito de ir não indo ou pendurar-me

como um louco no fio do invisível
faltava-me uma pedra incorruptível
toda feita de fogo e de pureza

De Janeiros como rios, apud Lavradio, p. 107 e seguintes:
O escárnio que há nos dias de sol louco,
incendiando as mentes pouco a pouco,
é o ente errante em cada transeunte
que ri de seu desdém, sem que pergunte
a si mesmo por quê, como que em transe,
quanto mais se encasule, durma ou banze.
O olho doido escarnece dos mortais,
que adivinham a seca, a fome e os ais.
O ser cede ao calor. Cai em torpor
e colhe, como um cardo, a própria dor
de navegar assim sobre si mesmo
e se perder ou velejar a esmo
nas calçadas sem fim das avenidas,
roído pelas íntimas feridas.
Corja dos inocentes, inimigos
que transportam em si tantos perigos
e nada sabem disso, nem de nada.
Ah, mas que insipidez. Que gente airada.
Há que livrar-se dela bem depressa,
em meio a este calor da via expressa,
entre ônibus, peruas, limusines,
enquanto os sem trabalho olham vitrines,
o tráfego complica-se no asfalto
e as buzinas disparam num tom alto.
Há que chegar sempre antes. Os primeiros
são os que comem quente. Os derradeiros
limpam o lixo e vão olhar a lua,
arrastando consigo a fome crua.

O rosário da fome, na calçada,
junta as contas de um insistente nada.
O sol brilha nas lentes dos passantes,
que não vêem o que vêem, nem viam antes.
Luz ou escuro é tudo a mesma história.
Nada penetra a mente. Ou a memória,
que, nela, a contragosto, se acomoda.
Moi este mundo a mesma antiga roda.
As contas do rosário aumentam muito
sob o sol solitário e tão gratuito
no seu nascer e pôr-se. É um rei cansado,
que se entediou do povo e do reinado.
A indiferença olímpica dos deuses?
Mistérios celebrados em Elêusis.
O olhar da gente séria é como o sol.
É luz, é energia, é arrebol,
palavra que traduz tanta beleza,
embora nada valha posta à mesa.
Assim seguem, do mundo, os desencontros,
talvez porque impossíveis os encontros
entre tantos contrários. Vai a roda
fazendo, à sua moda, a crua poda,
moendo os, a moer, já condenados.
Nada de suspirar pelos coitados.
As regras estão postas, com certeza.
Nem todos têm direito à sobremesa.
Que ficou do passado? Reis, impérios
e a intriga prosperando em ministérios.

O desvio aparece em plena rua,
em meio aos empurrões, onde a alma nua
principia a tisnar-se com a fumaça
que brota, como horrenda e absurda ameaça,
dos canos de descarga. O grito estruge
na cidade violada. O gado muge.
Os altos matadouros de concreto
agora têm o seu curral completo
e devolvem as reses às calçadas,
onde elas morrerão, nas madrugadas,
de fome, doença ou tiro, à sua sorte.
Assim ninguém escapa ao duro corte.
Na rota individual ou coletiva,
a nau humana flui sempre à deriva.
Sobreviver ao sol. Mês de janeiro.
O rio de calor varre ligeiro
a lenta carga untada de gordura
dessa desanimada criatura,
a arrastar-se, pesada, pelas ruas,
como furada por punhais e puas,
afundada em betume e exposta aos raios
do sol, que chicoteia seus lacaios,
com o desprezo do líder pelas massas,
iludidas com truques e trapaças.
Sobreviver aos trancos e à batalha
que os sorrisos ingênuos amortalha
e chegar ao outro lado, mesmo a nado,
para chorar e rir do próprio estado.

Amanhã haverá um sol de novo,
queimando o rosto desse mesmo povo.
Apolo, no seu carro, corta o azul,
iluminando os vales e o paul.
A cidade suada tem o cheiro
que exala só no mês de fevereiro.
O sol, o mar, as praias, a floresta,
tudo é aqui uma constante festa.
Nunca estragar o clima de amizade
dessas pessoas, que, na realidade,
só se matam com dor e tanto amor
que até chega a causar grande estupor
saber que duelaram sem desejo,
pois preferiam ter trocado um beijo.
Todo o impulso de amar, ao libertar-se,
vai além de si mesmo e da catarse
de quem se fecha no âmago do nó
em que se pensa ou sente, sempre só.
Amar, em meio a férvidos janeiros,
seguidos de fogosos fevereiros,
é lavar cada anseio em fonte santa,
como quem solta a voz e, claro, canta
sua paixão lacrada no agro peito,
para compor o longo poema, feito
da dor universal, que cede e amansa,
banhada pelo rio da esperança
que atravessa o verão, enquanto as rosas
ardem nas suas cores amorosas.