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INÍCIO - CORRESPONDENTES - REYNALDO VALINHO ALVAREZ - SONETOS DESCONSTRUÍDOS E RECONSTRUÍDOS

REYNALDO VALINHO ALVAREZ

Sócio Correspondente 1142
Rio de Janeiro - RJ - Brasil

- BIOGRAFIA
- COROA DE SONETOS
- OUTROS SONETOS

EXEMPLOS DE SONETOS DESCONSTRUÍDOS E RECONSTRUÍDOS

O CÉU PROGRAMADO

Prêmio Brasília de Poesia Para Obra Inédita 1978, da Fundação Cultural do Distrito Federal; Prêmio Emílio Moura 1979, da Coordenadoria de Cultura do Estado de Minas Gerais; Prêmio Augusto Motta 1980, da Sociedade Unificada de Ensino Superior Augusto Motta – SUAM; Prêmio Olavo Bilac 1981, da Academia Brasileira de Letras.

PRIMEIRA PARTE

AS AMARRAS

A ponte destruída, a morte fluida
infiltrada nas veias, nas artérias.
O rio circulando pelo corpo
nas águas deste sangue apodrecido.
A peia como pedra, proibindo
o vôo desfraldado para o cimo
de ares abertos. Frustra-se o caminho.
Os braços pendem nus, paralisados.
São tendas desarmadas. O deserto
recorta a solidão, recorda o sol.
As mãos estão cansadas das amarras.
A boca morde o pano da mordaça.
O navio não parte. O casco cede
ao peso dos mariscos.
________________________Nunca mais?

 

DISPNÉIA

As ânsias penetraram pelos poros,
estão fundas na caixa, no segredo
guardado a tantas chaves, encerrado
nas locas abissais de tantos mares
que banham tantos dias, tantas noites
perdidas nas insônias, nas insânias
das horas derramadas, no silêncio
que corrói as conversas como um câncer.
Os foles dos pulmões estão cansados
deste ar irrespirável. Tudo é sombra
na concha que se fecha. A noite explode
em gemidos, arquejos, em dispnéias
como adagas de fogo. A fome range
como roda no trilho.
________________________Então, a morte?

O SEPULCRO CAIADO

Os tempos são chegados. Chegarão
para tantos que foram? Chegarão
para a mesa comprida, para a fome
de tantas bocas murchas, para o estômago
ferido pelas úlceras do medo?
O tempo se divide nas migalhas
disputadas aos pombos no empedrado
destas ruas fechadas como trancas
opostas ao desejo que há nas chaves.
Do fundo das gavetas sobem hálitos
deste mofo gerado na umidade
de paredes sombrias onde insetos
se encolhem desolados na couraça
de suas armaduras.
______________________ Onde a chave?

 

ESTE FARDO IMPENSÁVEL

Este fardo impensável, a agonia
deste esforço nascido com o nascer,
esta marca levada sobre a pele,
esta marca lavada sobre a palha
que forra a manjedoura, no batismo,
este mar que lá vai, só breu, para a ilha
de todos os dejetos, os rejeitos
desta falta de jeito de viver,
destas areias turvas, destas águas
poluídas no enxurro destas chuvas
caídas sobre os morros, sobre a mirra
e o incenso desta nau lavrada em prata,
naveta soçobrada na região
abissal que há em mim.
___________________Rompeu-se a quilha?

NAVEGA SÃO

Navega são e salvo meu tormento
tormenta nestas águas revolvidas,
voltado para si como seu gancho,
o anzol em que se fere e se alimenta.
Navega são nas ondas de seu corpo,
nascido da semente que há no pomo,
pois que é pomo ele próprio, é pó, é mó
mastigando seu grão, semente e cibo.
Assim se vai nas voltas que se dá,
encostado às paredes, encolhido,
respirando escondido, mussitando,
dedo posto nos lábios, enrolado
na sombra que projeta a contragosto
contra o gesto de ser.
________________________ Será a gosto?

 

A GOSTO

Há gosto de limão, de ervas amargas
no a gosto em que se põe este constante
mutilar de si próprio, ante as estacas,
estático ante o medo, mudo e quedo
ante a queda dinâmica no abismo.
Há um gosto de agosto ante o desgosto
curtido entre masmorras de receio.
Há um muro no seio deste povo
de neurônios contidos, desterrados
para o fundo mais fundo deste crânio
medido com raios X, EEG e os testes
de muitas baterias. Há um muro,
há um dique no mar, uma barragem
no seio deste rio.
__________________________ Ainda flui?

A NÓS NA BORRASCA

São anos de borrasca. A nós se prendem
os fios de uma teia indevassável,
o visgo de uma aranha, o vesgo mar
arranhando esta quilha, esta que é ilha
ancorada no cais. A nós, em pânico,
embarcados no parto, a noz parece
emborcada no porto, sobre as águas
como sabre envergado, como verga
neste mar de sargaços, de soçobro.
A nós esta borrasca de nós feita,
lembra tramas e telas, lembra velas
sopradas e apagadas pelo vento
que desfaz as camadas destas águas
com seus dentes de sabre.
_________________________Como se abre?

 

ABERTURA DOS PORTOS

Abrem-se os portos para a brisa e o sal,
aquecendo-se ao sol, cheios de espuma,
os membros de concreto mergulhados
no lodo e nas areias, nos aterros
de muitas gerações, porém não se abrem
para soltar as asas deste grito
retido, como o bômbix, num casulo
de seda aconchegante ou entre o arame
farpado que circunda o campo morto
de raízes sem alma, de raízes
intumescidas, mortas, necrosadas.
Abrem-se às partes essas portas úmidas
cobertas de salsugem, mas se fecham
os lábios apertados.
_____________________Quousque tandem?

A PÉ QUANDO

A pé quando se vai pelas areias
e em pedrouços se esbarra o sangue jorra.
A fé quanto se fia nas ameias
de sua própria pedra, mais lhe medra
o horror do monstro em sua própria cela.
Nesta sela me lanço quando sento
e cavalgo por pedras e pedrouços
contra ventos, borrascas, nuvens prenhes
de coriscos, trovões, todas as águas
de dilúvios pretéritos agora.
Nesta sela me calo quando lanço
o olhar pelas paredes das montanhas
e me cerco de pedras onde estou,
para, estando, jazer.
_____________________ Onde é que estou?

 

UBI SUM

Entre amarras, ameias, grito preso,
a garra do silêncio me cortando,
tento transpor o fosso que me afasta
do que em mim foi mais eu e já não é,
perdido há tanto tempo no onde e quando,
como liana e tronco em qualquer selva,
unidos para sempre. O que me prende
está dentro de mim ou está fora
na fera que me aguarda e que me ronda,
na ronda da maré, no maremoto
deste mote implacável, do refrão
soando em meu ouvido como o gongo
de um despertar terrível. Quem está
sob meu rosto agora?
_______________________ Eu ou quem fui?

O SILÊNCIO QUEBRADO

O silêncio quebrado entre as raízes
deste sono perdido na memória
quer libertar o grito, mas o mito
em sua capa escura o esconde e leva
para trancá-lo em arcas, nos armários,
em sótãos e porões, para impedi-lo
de se mostrar ao sol. Que hei de fazer
para recuperá-lo ou esquecê-lo?
Bate-me o coração sob a armadura,
a sotaina rasgada, este burel
grosseiro que me cobre nos caminhos
por onde vou, molhado até os ossos,
de chuva ou de suor. Ainda bate?
ou é apenas eco?
_______________________ É tudo espera.

   

“Meu livro Das rias ao mar oceano sairá até mesmo com sextinas. E mais ainda, com uma forma que denominei sextina de sextinas, criada por mim e fabricada aqui em casa, com o espírito voltado para as preocupações do homem de hoje, que são, na essência, as do homem de sempre.” R.V.A.