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INÍCIO - CORRESPONDENTES - REYNALDO VALINHO ALVAREZ - COROA DE SONETOS

REYNALDO VALINHO ALVAREZ

Sócio Correspondente 1142
Rio de Janeiro - RJ - Brasil

- BIOGRAFIA
- EXEMPLOS DE SONETOS DESCONSTRUÍDOS E RECONSTRUÍDOS
- OUTROS SONETOS

COROA DE SONETOS - REYNALDO VALINHO ALVAREZ (apud A faca pelo fio)

SAINDO DA CAVERNA

1

Para apagar o vale solitário
das visões de outro tempo, das auroras
em que uma vez por outra ainda moras,
quiseste proteger-te num sudário
e andar ao tempo sempre incerto e vário,
para buscar no fundo das gavetas
um domingo de linhos e palhetas,
como o calor de um sol embrionário
todo feito de afagos e promessas,
mas sem saber que, logo assim que cessas
este jogo de entregas que te invade,
como outra voz mais forte se levanta,
de tal modo que a ti e aos mais espanta,
este dia que engoles sem vontade.

2

Este dia que engoles sem vontade
é feito só de escombros, de mentiras
gravadas em teu rosto, como tiras
de pano e de uma falsa piedade
que recobrem apenas a metade
da face de quem tomba sob as miras
dos mosquetões, por acender as piras
da sempre perseguida liberdade,
e assim é o trapo, é o farrapo sujo
em que secas ao sol o caramujo
que em vão das folhas de tua horta espantas,
pois as horas violentas em que tombas,
tu as comes sem pena, como pombas,
pela boca da noite, quando jantas.

3

Pela boca da noite, quando jantas,
engoles, como a garça, o peixe aflito,
criado neste lodo que é teu mito
e o dilúvio de escória em que te encantas,
e assim bebes o vinho e as águas santas
de tanto sangue e urina, como um rito
diário de aflições, grito maldito,
sepultado no fundo das gargantas,
por isso queres, bípede funesto,
destruir o teu mundo em cada gesto
devorador de bichos e de plantas,
comendo teu cardápio de doente,
sem perceber que o prato em tua frente
é a carne faminta das infantas.

4

É a carne faminta das infantas
que está entre os teus dentes e que cortas
com a lentidão que range em velhas portas
abertas para as noites em que jantas
como pesadas, gordurosas antas,
que nem de longe se antecipam mortas
nas garras de onças ágeis, garras tortas
sobre as ancas e os dorsos, sobre tantas
vontades de viver, o que não sabes
e que não podes ver é que não cabes
em teus próprios limites, nessa grade
a que te agarras, como a infantas nuas
que mendigam descalças pelas ruas,
roídas por miséria e insanidade.

5

Roídas por miséria e insanidade,
lá se vão essas vidas pelas ruas,
imperitas, atônitas, tão nuas,
tão carentes de paz e humanidade
que, ao vê-las, tu te vês como quem há-de
morrer de solidão, mas logo as tuas
visões se encaramujam, pois que atuas
como um bicho assustado que se evade
para dentro de si e que está vendo
que é sempre mais o subtraendo,
aquele que não mais se persuade,
a parcela caída, como as bombas
que cortam com seu vôo o voar das pombas
nascidas num desvão da realidade.

6

Nascidas num desvão da realidade,
as aves que alimentas não resistem
aos ares e às caçadas, não insistem
no apelo de voar, ainda que brade
no espaço a voz de quem as dissuade
dessa fuga em que o gênero persiste,
pois mais que tudo existe, coexiste,
por mais que isso até mesmo desagrade
os que pensam impor todas as normas
de viver e morrer, segundo formas
contidas nas bandeiras que levantas,
pois, aonde vás, memórias te acompanham,
como sombra imprecisa, e se emaranham,
crescidas sem ajuda, como as plantas.

7

Crescidas sem ajuda, como as plantas,
as infantas apagam os teus sois,
os mesmos que brilharam sobre herois
de um mundo que talvez hoje suplantas
e que, apesar de tudo, ainda imantas
com o que te condoi e que destrois
com todas as derrotas que remois
e com tudo com que te desencantas,
pois que elas só te falam da miséria
que há na rua, na praça e em cada artéria
desse corpo em que já não te agigantas
para vencer o oposto, o não e o nunca,
o fio dessa espada que te trunca,
enquanto, por aí, pensas que cantas.

8

Enquanto, por aí, pensas que cantas,
a rua é uma explosão em cada pedra
e nenhum cravo no canteiro medra,
pois tu, que és jardineiro, te quebrantas
nesse grito que emigra das gargantas
e recorda o uivo trágico de Fedra
com que teu chão interior se empedra,
ao mesmo tempo em que de horror te espantas
de ver que neste caos se desconcerta
teu mundo, todo claro e cena aberta,
asfixiado no fumo da cidade,
mostrando que ficaste no caminho,
regendo, sem batuta e em desalinho,
o concerto dos hinos da verdade.

9

O concerto dos hinos da verdade
é falácia nos gritos que há na rua
e onde explode a violência toda nua
ante o horror recalcado da cidade,
em que o nome fatal, mendacidade,
está posto nos muros, como a pua
que fura os corações, a onda que estua
para ferver em caos e impunidade,
ali onde apodrecem estas águas
e estes charcos de sangue em que deságuas,
feitos de todas essas coisas brutas
que circulam nas ruas, bago de uva
apodrecido por toda essa chuva
que não cai, como as gotas que há nas grutas.

10

Que não cai, como as gotas que há nas grutas,
a chuva do concerto e entendimento,
isso está claro, hoje e em qualquer momento,
sem as sutis perquirições argutas
que traçam, com prazer, longas minutas,
para iludir a mente, e o pensamento
transformar num aluno mudo e atento,
sem revolta, desejo, espasmos, lutas,
pois o que vai sem vir é o que se quer,
seja a paz, a alegria ou o talher
com que à noite se encerram as labutas,
e ao fim faltam as ínfimas sementes
com que sonham sadios e doentes
para gerar, como se fossem frutas.

11

Para gerar, como se fossem frutas,
as sementes do caos e da violência,
nem é preciso, não, que uses ciência
ou toda a encenação que ainda executas
e não são mais que as terras devolutas
das alienações e da demência
que habitam tua mente, chore-a, pense-a
o fiel freqüentador das dissolutas
visões alcandoradas e sublimes,
porém concretizadas nestes crimes
em que se molda o vão destino vário,
feito de estalagmites e também
dessas estalactites que sustêm
os lustres espantosos do calcário.

12

Os lustres espantosos do calcário
não pendem solitários das cavernas
em que sozinho longamente hibernas
como o peixe metido em seu aquário,
mas falam de uma vida e de um calvário
todo votado a escavações internas,
como à procura de água nas cisternas
de um profundo e ignorado abecedário,
por isso vais, em teu trabalho obscuro,
rasgando lentamente, no monturo,
o mapa roto do destino breve,
pois sabes que o teu sonho de demente
não sobe como os jatos de água quente,
mas, ao contrário, tomba como a neve.

13

Mas, ao contrário, tomba como a neve,
e grisalha no tom dos infelizes
toda a malha de fundas cicatrizes
de uma existência errante de almocreve,
que não vale falar do que se leve
deste dia passado nas matrizes
de todos os pecados que tu dizes
serem o capital que se subscreve,
pois o que importa é que te arrisques, pronto
a, em qualquer momento e qualquer ponto,
seres tudo a que tudo em ti se atreve,
para poderes contemplar à frente,
sem temer, a vertigem do acidente
de uma avalancha, num momento breve.

14

De uma avalancha, num momento breve,
tudo pode esperar-se, é necessário
prever-se o cataclismo e o obituário
da tragédia impedir, pois que se deve
deter o gesto mau, esse que inscreve
cada gesto de amor no mostruário
das coisas que se enterram no ossuário
daquilo que se foi, não se descreve,
e assim se apaga para sempre e morre
sem ver que todo o tempo assim decorre
sem paga e recompensa, sem salário,
pois o que vale é o fim, o gesto bruto
que explode na área tensa de um minuto,
para apagar o vale solitário.

15

Este dia que engoles sem vontade
pela boca da noite, quando jantas,
é a carne faminta das infantas
roídas por miséria e insanidade,
nascidas sem ajuda, como as plantas,
enquanto, por aí, pensas que cantas
o concerto dos hinos da verdade,
que não cai, como as gotas que há nas grutas,
para gerar, como se fossem frutas,
os lustres espantosos do calcário,
mas, ao contrário, tomba como a neve
de uma avalancha, num momento breve,
para apagar o vale solitário.

 

Trecho de Reynaldo Valinho Alvarez, sobre os seus sonetos:

Sobre os sonetos, penso que poucos autores se terão empenhado tanto em fazer, desfazer, refazer, inovar e reinventar essa forma poética, por meio de mil experiências e experimentações, quanto este seu modesto e humilde leitor e admirador. Tanto nos versos rimados quanto nos brancos ou nos de rima interna. Com ou sem aliterações, assonâncias, paronomásias e outros recursos fonéticos, gráficos, métricos e toda a parafernália existente ou em elaboração. Ao longo da aventura literária que venho empreendendo, tenho feito sonetos de todos os tipos, construindo, desconstruindo e reconstruindo. E também coroas de sonetos de vários jeitos e modos. Tomando liberdades aqui, autolimitando-me ali. Tudo impregnado da cor e do som do nosso tempo, sem voltar as costas para o caminho por onde tudo isso chegou até nós.