Versos perduram em prece.
Madrugo no Nordeste dos aquários.
Amanheço na tarde,
Bela, como o poema,
Fico a deglutir cada palavra,
Como uma prenda.
SENTIMENTO MUDO – Regina Lyra
Palavras não compreendidas.
O silêncio torna-se eloqüente.
Neste mar bravio de gritos e silêncios,
Procuro um tempo de paz,
Que não nos deixe jamais.
Nos gritos emudecidos do meu olhar,
Busco os sussurros dos teus lábios.
Eles andam calados. Sem ter o que falar.
Refazem a mágoa do sentimento mudo.
VIAGEM – Regina Lyra
O tempo é inexorável.
As lembranças povoam a mente,
A saudade, esta contínua companheira,
Pensa em um passado sem volta.
Mas a lembrança vem junto com a memória,
Por isso grita por um passado alegre,
Perante um presente acanhado
E um futuro incerto
- São sobras.
RESPOSTA AOS EUS – Regina Lyra
Os eus que emergem,
Alimentam o nosso eu.
Aqueles que sufocamos,
Pena, não vão nascer.
Perdemos sempre na vida
O que deixamos de fazer,
Numa seleção desconhecida,
Não sabemos por quê.
Assim como vários eus
Não deixamos sobreviver,
Num aborto interno,
Razões ignoradas,
A crise instalada
Sobrevive ao eu.
FOME
Já que imaginas meu corpo,
Tenho sono de princesa,
Para mostrar com beleza
Do corpo à natureza.
Já que imaginas meu corpo,
Hei de espalhar meu canto
Saída distante do calor
Que do corpo emana...
Mas se chamas um nome
Venhas alegre como um homem,
Dê sussurros, bem baixinho,
Mostras toda fome,
- Com
c
a
r
i
n
h
o
Já que imaginas
- Meu corpo.
QUASE
Quase nove, acabou,
Na prova dos noves fora
Aritmética poética,
Do nove que findou.
Quase nove, enganou-se,
Na equação passada,
Na matemática patética
Quase inconteste, equivocada!
Quase nove, virou a página
Deixou a oração visitada,
Na análise sintática
Da morfologia das palavras.
Quase poderia ter sido
O acerto mágico sentido,
No choque dos corpos
Quase não persiste!
Para sempre,
Como sempre,
Não existe!
RESPOSTA AO TEMPO E AO ESPAÇO
Poema demonstra bela sintonia
entre tempo-espaço na poesia.
Demonstra com a tranqüilidade da filosofia,
a temática do amor passo a passo!
Entretanto, poeta, nem sempre,
o desejado assim prevalece.
Desencontro da partida
chega ao fim!
Se pudéssemos congelar o tempo,
obviamente, em momentos prazerosos,
talvez o passado-presente ao lado
não terminaria com o sossego encontrado.
Eternizar o momento desejado
é parte da lembrança do passado!
Por isto descreve com desvelo
permitido passado no presente estar.
Antes que o fruto amadureça,
antes que a tarde escureça,
lembranças...
Guardadas em cofre do coração muita sede.
O visitante conhecera o inusitado,
percebera que o esquecimento não estaria ao lado,
revolta com o tempo sem espaço!
Certamente ponto ideal encontrado
na relatividade da vida na procura
jardins sempre visitados,
rosas inteiras merecidas nuas...
Ao crepúsculo do tempo olvidado
folhas cobririam o leito,
no sol perpetuaria o orgasmo,
eterno estaria satisfeito...
Resposta poeta, não esqueça,
comentário em poesia satisfaça.
Com delírio eternizar o pleito,
Com desejo iluminar o ato!
IN: Antologia Roda Mundo. São Paulo. Ed. Ottoni, 2007
O QUE AMO EM TI
O que amo em ti...
É a transformação diária,
É o escuro e o claro
O vinho e o vinagre.
O que amo em ti...
É o poder imaginário
Cortesia total
Quando não estás mal...
O que amo em ti...
É o café e o leite
É o apóstolo e o deleite
É o homem em ebulição...
O que amo em ti...
Talvez nem desconfies,
É a rosa ofertada,
A orquídea que já vinha...
A casa e o botão
O homem-menino.
Sorriso depositado,
Ao lado do corpo dourado...
HÚMUS DA POESIA
Soneto das mais bravas e recônditas esferas,
Fico a ler sem perceber o tempo passado,
Retorno ao tempo de hoje, ‘entrebrilhos’
Fugidios espécimes... Alvissareira esperança...
É o diálogo poético instalado
Em gentil corpo dourado da poesia sua chama.
O poema é forte, belo, altivo
Qual vôo de uma águia, nos céus do seu habitat.
Neste diálogo crédulo, imenso
Meu coração rejubila-se em encontro consigo mesmo,
Viva a arte poética, viva a poesia!
Neste desejo fastio, olho pratos servidos em desafio...
O poema traça seu rumo ao norte,
Seguir em frente a procura de toda sorte,
É a guarida da morte, antes do último suspiro.
É chegada a ultima trilha, vamos fazer a partilha!
IN: Antologia dos Escritores Brasileiros. 2ª ed. Salvador, 2006.
PARAÍSO
Aguardo tuas palavras,
néctar dos deuses,
presença constante,
rara beleza...
Aguardo tua presença
como o sol
que dá vida
às plantações,
ao planeta!
Aguardo teu carinho,
como moribundo
à extrema-unção,
para enfim penetrar
no paraíso,
pelas tuas mãos...
Lyra, Regina. Tempo de Encanto. João Pessoa: Ed. Universitária (UFPB), 2004.
SENTIDO INCOMPREENDIDO
O perdão que envio
Talvez não encontre fio!
Mesmo sendo assim,
Perdoado está!
Atos
Provocam dores
Vazias!
Encontro frio,
Desajuste climático
Dentro dos Eu’s...
Arte provoca desafio.
No contexto imaginário,
Mente insana!
Em terra semeada
Amor atraca!
Nasce a flor do deserto... |
A poesia é húmus que provoca frutos.
Ser poeta é algo intenso.
Portanto, o sofrimento
Magoa ao instalar-se.
Mesmo por momentos breves,
O amor se busca.
Encontram-se causa e efeito
Para novos encontros.
No amor descobre-se árvore frondosa:
Com beleza acaricia a essência,
Faz dos seus galhos, caminhos de Paz
E nos torna capazes de superar a dor.
ANDO ONDE ENCONTRO A FELICIDADE – Regina Lyra
Ando ao amanhecer do dia,
Ao entardecer,
Pela madrugada fria.
Nos braços da noite,
Descortino a madrugada,
Ao amanhecer desvirginado.
Olhos enamorados,
Suspiros acariciados,
Beijos apaixonados.
É o amor?
Talvez.
Pelo momento eternizado,
Perpetuado
- No instante.
VESTIDA COM A MINHA NUDEZ
Se olhos firmes me pudessem falar,
O absurdo instalar-se-ia,
Minha nudez não seria vista.
Sem vestes,
Nem trapos,
Seria vencida.
Com a indumentária despida
Encontrei mãos para cobrir-me,
- Não era preciso.
A natureza refeita do espanto
Refletiu meu pranto n’água
Fez-se um manto,
Deste manto
Nunca me desfiz.
Criou raiz
Na minha cantiga.
AMOR ANTIGO
Ao tecer o fio da lã
No casaco já usado
Percebeu o tocar das mãos
Na pele da saudade.
Ao tocar no calor do vento
O sopro da saudade
Percebeu a tecelã
O amor apaixonado.
A ausência do Sol
Tornou tudo gelado,
Veio ao encontro da saudade
A Lua atormentada...
A presença do amor antigo
Espontâneo abraço
Feito de aço,
Transformou a saudade
Em amor ressuscitado.
No toque das mãos
No toque das mãos
Nos lábios entreabertos,
Foi depositado
O beijo apopléctico.
Naquele encontro eterno
Os amantes entreolharam-se
Tinham nascido um para o outro
Mas à distância os separava...
No encontro fiel
Amáveis estavam unidos,
Emergiu do fundo d’alma
O amor rejuvenescido...
Amor
n
t
i
g
o
Nos encontros da vida
Anos passados
Estão repetidos
O amor lado a lado...
Assim descobertos
Sempre novos namorados.
QUERO QUE OS POEMAS
Quero que os poemas que escrevo...
Sejam poemas encantados,
Seu bojo rico em sais para as penas,
Delírios para o amor
Consolo para dilemas...
Quero que os poemas que escrevo...
Sejam cantos para o amado
Esperança no ser humano
Encontro agradável,
Para os Infelizes em supostas crises...
Quero que os poemas que escrevo...
Sejam recitados em bares, teatros e vilas,
Os enamorados saibam de cor,
Conquistem seus amores
Com meus versos declamados...
CIDADE BELA
As ruas da minha cidade
têm buracos imensos.
Menores que o lixo moral,
que da cidade emergiu.
E o lixo físico
que na cidade progrediu!
A minha cidade
possui defeitos,
inexplicáveis:
-Ladrões de banco,
assaltantes,
assassinos de mulheres
e crianças.
espalhados pelas ruas!
Crianças,
velhos pedintes,
semáforos da vida,
unidos pela pobreza.
II
Apesar de tudo,
minha cidade é linda!
Além do mar,
campo e montanha,
climas desiguais,
como a própria vida
da sua gente.
Tem uma brisa,
no verão de 40 graus.
III
Mas que destino é este,
Cidade bela?
Chorar por teus filhos
abandonados?
Sorrir por tua beleza,
natural?
IV
Esperar um dia
unir a beleza com a pureza
um lar para a pobreza,
promover cidadania...
BLEFE
Você é um blefe
na cara do domingo,
caiu feito esterco de vaca
na sala de visita,
transformou-se em cadáver
de rato
espantou a cobra no mato.
Sua estória não é nada,
mais parece um tabefe
na mentira do seu nome,
discurso marcado
por tempestade verborrágica,
hipocrisias da maldade!
Longe de críticas
insultos insones
terror de todos os nomes!
Você é a dor
de uma unha encravada,
o tormento
de uma espinha atravessada
na garganta da vida.
Você parece cão louco
em corrida desenfreada,
na perseguição de inocentes
em debandada.
Você é o esquecido
na lista de compras,
o adormecido que perdeu a passagem.
Você é a fome sem caridade
no banquete da mediocridade!
Você estava morto
e o corpo perdido,
hoje posso enterrá-lo
na ala dos esquecidos...
Lyra, Regina. Insensatas Palavras. João Pessoa: Ed. Universitária (UFPB), 2003.
CHAMADO
Não sentes,
Amor chamando?
Não sentes,
Mágoa instalada?
Sem perceber,
Fenece ao teu lado...
Amor...
Via de mão dupla,
Quando um fraqueja,
Outro ajuda!
Lyra, Regina. Atos em Arte. São Paulo: Ed. Scortecci, 2006. |