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BALANÇO SECULAR
Do livro Argumento Poemythos globais-Ibis Libris-2006-RJ
280 guerras em meio século.
A outra metade se preparando para os intervalos.
Umas três sinfonias e uma ou outra epopéia de valor.
300 milhões de trucidados.
Muitos rocks e raps, muitos filmes.
10 milhões de crianças.
Muito show, muita festa, muito jogo.
Quase todas entre um gigante e um pigmeu, no solo do pigmeu.
Muitos romances, alguns sonetos.
Duas com todo mundo, todos perdedores.
Quase nenhum amor.
Milhões de mutilados, pernas e braços confundidos com o lixo.
Muita sedução, muita traição.
Milhões de fetos retorcidos, como o aço das construções destruídas.
900.000.000.000.000 de euros, para as reconstruções.
Bombas inteligentes, mais que seus fabricantes.
Muito negócio, muita trapaça.
Muitas máquinas muito eficientes, sobretudo no oficio da trituração
de carne.
1.000.000.000 de famintos, ainda acomodados.
Uns 100 bilionários, ainda insatisfeitos.
Algum progresso (somente na ciência).
E a nenhuma esperança de que o próximo seja menos bárbaro.
Ou
sequer
diferente.
(Apenas
mais adestrado.) |
O GRANDE ACONTECIMENTO
O mercado podia ter fervido.
As bolsas podiam ter tombado.
O gerente do mundo, sumido;
o euro, disparado; o dólar, implodido;
o Banco Central, se reunido à meia-noite;
o povo, dissolvido.
Mas
não aconteceu
nada.
Felizmente,
que hoje não aconteceu nada!
Nenhuma medida,
permanente, traiçoeira.
O congresso passeava pelas nuvens.
Os ministros recebiam suas amantes.
O presidente tomava mais um porre (e tentava
Destramar outro trambique,
destrançar outra trapaça.)
pois não ter acontecido nada
foi o grande acontecimento do dia – o único
favorável à população.
Amanhã deve ser um outro dia.
(Se puder amanhecer.) |
O MOTIVO
Não é (só) o petróleo,
a divisão da Europa,
a conversão da Rússia,
uma barreira à China,
um entreposto no Oriente,
a contenção do euro,
sem nobres intenções
como plantar democracia nos desertos,
nem pôr um freio a bombas que não sejam próprias.
O negócio mesmo
neste cambiante império do troca-troca
é trocar de alma.
(Se os direitos humanos não são os nossos,
não precisam ser respeitados.) |
A LENDA DO TRABALHO
Nos áureos tempos da Escravidão,
os trabalhadores não recebiam salário:
recebiam uns restos para se manter vivos
e alimentar o suplício do dia seguinte.
Amavam sem amarras, como os bichos,
e eram jogados fora quando soava a hora.
Tinham um chiqueiro para dormir.
Não tinham que pagar
conta de água
de luz
nem taxas de contribuição de melhoria nos seus catres.
Nos duros tempos da Liberdade,
os trabalhadores não recebem nada de graça.
Recebem um salário
com que têm de pagar a ração do dia, para o mesmo ante-fim;
a conta de luz,
de água,
as taxas de contribuição de melhoria nos seus catres
e outras, por serviços que não servem.
Alugam um barraco, onde forjam amor e dormem.
(Mas isso apenas quando encontram um posto
onde estragar a vida.
Com um exército de reserva
à espreita.)
Antes, explorados:
apenas sofriam – de tudo;
hoje, descartados:
murcham lentamente – por nada. |
NÊNIA AO PAPA
O mais reverenciado dos indivíduos.
A maior autoridade moral do planeta.
Sem PIB em trilhões,
como demonstram as estatísticas;
sem nem uma divisão,
como constatava um dos demônios.
Em face da fome,
em face da guerra,
da animosidade universal entre as pessoas
e da rivalidade universal entre as nações,
apela à comunidade internacional,
apela aos corações enternecidos.
Não há comunidade internacional.
E o coração apenas bombeia sangue.
Então, faz o que pode:
reza.
Como sempre esteve:
sozinho.
Como sempre resultou:
em vão. |
NA ERA DO TERROR – I
Um estanho ruído.
Um estranho cheiro.
Um estranho pó.
O país inteiro entra em pânico.
E podia ser
(bem que podia!)
a última ressonância de uma nova sinfonia,
a última rescendência de uma exótica flor, que se cumpre
liberando a ternura do pólen.
Mas é apenas
não a vingança dos humilhados
mas a explosão de uma bolha
- uma bolha de culpa.
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NA ERA DO TERROR – IV
É inimigo
e cometeu
um ato de terror
aqui, na nossa casa:
- vamos liquidá-lo.
Cometeu
um ato de terror
no outro lado do mundo,
mas é um aliado:
- vamos marcar uma Cimeira.
O que é mesmo que eles combatem:
o terrorismo
ou a divergência? |
O QUE IMPORTA – II
Estoura a guerra,
uma guerrinha
- pois que entre dois povinhos.
O mercador
Da paz orça um acordo
e vende arma aos dois.
Não interessa quem perca:
interessa quem compre.
Ambos vão perder,
ele vai ganhar.
Não é que precise desse lucro:
precisa é dessas mortes.
(podem tornar-se
novos concorrentes.) |
O POVO FELIZ
49% de pobres.
Não se sabe quanto de mais-que-pobres
nem de remediados.
(Sabe-se que pagam.)
13% de estocados
(estocados e mantidos).
1% de satisfeitos
(satisfeitos e temerosos).
35% dos orçamentos sistematicamente transviados.
2 ou 3 corruptos presos (por uma semana).
90% dos assassinatos impunes.
Uma espiral de marginais,
com um assalto em cada esquina.
Balas que esfolam crianças a dormir
e que eles chamam de perdidas, as balas.
99% de credores no entanto endividados.
Um fosso de 60x entre os extremos
(o maior do planeta)
segundo as próprias estatísticas do governo.
(Deve ser mais.)
Nenhum filósofo.
Um maior e alguns grandes poetas, que ninguém lê.
Muitos gênios, nas artes de exibição.
Os outros ainda não estão cadastrados.
(Ainda não abortaram.) |
A LENDA DA IDEOLOGIA
Um dia
(e era um dia de sol de primavera)
de um Reino antigo muito, longe muito
e muito castigado pelas tramas da Direita,
a Esquerda, um dia, para festa de traídos e explorados,
nesse dia, enfim, a Esquerda chegou ao Paraíso.
Mas,
Instalada no Empíreo, ela
quebrou o seu espelho, confundiu
páramos com báratros-e passou a fazer
o mesmo que os demônios
vinham fazendo por milênios.
Se,
no poder, a Esquerda
negocia e negaceia, verga como a Direita,
é que o Destino do Reino é decidido
noutras margens.
Não na terceira.
(Talvez
nas quatro
do Estige.) |
Do livro: Confronto – Um diálogo com Deus
I) As Horas e Seus Viventes
Em suma: prosseguimos.
Prosseguimos, entre o Bem e o Mal.
Entre este escasso Bem e este abundante Mal.
Nos interstícios, o insignificante (isto é: o grosso da
humana condição,
pelo menos no estágio em que se encontra).
Mas por que esperaste tanto para Te manifestar?
De repente, dispensaste a Fé
e resolveste conceder a prova – em carne, sangue, amor
e, principalmente, verbo
mas, sobretudo, milagres?
E por aquela hora, aquela?
Os de antes não precisaram?
Por que deixaste os secundários filhos tanto tempo
no abandono?
Precisaste aguardar que a devassidão tocasse os seus
limites?
E por que os de então foram os eleitos?
(Toda matéria se exibe numa forma,
e basta o movimento da energia dos contrários.)
Sentido último,
onde todos os seres se resolvem?
(Mas a resolução só se daria no desfecho
e sua utilidade é no processo.)
Idéia de perfeição,
que apenas o perfeito poderia infundir?
(Falta-lhe a concretude do ato,
ou deturpada em fetiches vulneráveis.)
O Pastor,
e nada faltará ao rebanho?
(Só se for in excelsis. No chão,
só não falta a condição de perceber as faltas.)
Qualquer hipótese se fecha na incerteza.
E a Fé,
se chancela,
não responde.
E gera tanto crentes quanto os fanáticos.
Ou tão somente esta chuva de metáforas?
IV) Da Criação
E além – se nada havia – de que material fizeste o Cosmos?
Esta massa não pode não ter existido:
não cabe no Não-Ser.
O verbo cria fantasias, mas não realidades;
situações, não objetos.
E do Nada não se tira nada - as filosofias o garantem.
De tua própria matéria, pois que era a única disponível?
Que houve no processo, já que o produto é tão satânico?
Pressa?
A eternidade estava aberta.
Descuido?
Não havia inenção.
Incompetência?
Nem precisavas de projeto.
Porém,
massa não és.
O cosmos é, em cíclica mutação.
Não previste a que custo se processaria a transfiguração do
espírito divino em galáctica matéria?
Nós atestamos:
a custo de suor, decepção e suplício.
Ou jamais careceu de ser criado
- sendo sempre, sem origem, sem desfecho –
e apenas o Nada é imutável.
Ou foi um anti-deus que o criou, mais verossímil.
Pois deu no que deu:
irmãos,
respondemos como estranhos,
nos tratamos como inimigos.
XXVI) Dos Humanos Entulhos
Como resolver tal paradoxo?
É preciso
(humanamente preciso)
a danação – para os corruptos,
a redenção – para os corretos.
Este suplício só se resgata com a recompensa transcendente
fe o transcendente castigo para quem o infligiu.
Quem, tão monstruosos, para perdoar
o estuprador de sua filha?
o traidor de um ideal?
o sugador de uma nação?
um malfeitor de toda a espécie?
Que não sejam aniquilados, mas preservados nos entulhos
do infinito,
esses, que entulharam a vida.
E que introjetem esse entulho,
e o carreguem para sempre, no peito e na visão,
para qualquer lugar onde precisem procurar outro lugar.
Pois elegeram a flor dos privilégios,
merecem o bronze dos suplícios.
E se era exclusivo o desejado,
que o indesejado também seja.
Só assim se fartará nossa sede e nossa fome de justiça.
Aqui não dá: são seus agentes quem julga.
E ideal era que fosse aqui, no Transitório:
lá, só vai retardar nossa descarga.
Era uma prova da fraqueza nossa e da potência deles,
nós tão cordatos
e eles tão ativos?
Pois que, pelo imutável, as posições se sinvertem
e que, na transição, tenha valido
a pena, não o gozo.
Como evitar o revide onde ele é interditado,
mas sedutor por eterno?
O perdão é um passaporte para a reincidência:
de novo, fariam tudo, como alguns já depuseram.
Ou forçaram: mesmo no Paraíso,
abrir um mercado
(de bênçãos),
fundar um banco
(de êxtases).
Não soubemos
não pudemos fazer da terra uma miniatura do Paraíso;
eles podem,
fariam do Paraíso uma caricatura da Terra.
E nós, privados de um, privados do outro.
E eles, que arremedaram um e vilipendiaram o outro,com
ambos.
E para sempre.
Já tiveram um céu, sob o Céu.
Um outro céu, lá no Céu?
Não dá. |
III) Da Múltipla Presença
Mas se não Te encontramos pela essência,
talvez naqueles redutos donde exerça teu império.
Todos os seres?
(A maioridade é de mesquinhos e medíocres.
A mediocridade pode ser uma passagem
mas a mesquinharia deve ser uma barreira.
Ou foi o espírito paráclito que degenerou?)
Todas as coisas?
(Não Te concebo na alcova de um potentado
nem numa lata de lixo.
Ou é para recuperar espíritos degenerados?)
Todos os pontos?
(Só se for de outros sistemas: no Solar,
quem parece que está em todos os recantos é o Demônio:
tantas catástrofes, nos astros ou nos nervos.)
Qualquer resposta tomba noutra pergunta
e a pergunta refrata a resposta.
Não: por essa via,
não acendemos a luz.
Mas a outra a dispensa
e é preciso seguir, mesmo no escuro.
Estás em cada um de nós?
(Mas como cabes, se és infinito?)
Te projetas em nossas obras?
Mas de que mo, se és perfeito?)
Morres quando morremos?
(Mas como pode, se és eterno?)
E não serias um, nem três, mas multidão,
numa humanidade grávida de deuses decaídos,
pois cada um de nós terá criado um próprio.
(Mas como, se és absoluto?)
Eterno, Infinito, Perfeito – teu Ser
escaparia ao lince de nossa mente, tão acanhada.
Mesmo assim, tão acanhada,
o que lhe escapa não é o Absoluto
(pois que até a minha, mais acanhada ainda, consegue
nomeá-lo):
é apenas o ilógico
- o Inominável.
Ou és apenas
(na falta de um conceito, todos tortos,
ou mesmo de uma imagem, todas nebulosas)
essas simples analogias para nossos parâmetros?
(Se os peixes pudessem criar-se um deus,
eles o fariam marinho.)
ou apenas uma âncora
para emergência e a aceitação desta vida,
fora dela inescrutáveis?
(As delícias que em teu nome prometem para o sempre
são as mesmas que queremos para o agora.)
E, se estás em nós,
deve ser numa forma translata: a manifestação
só Te revela em alguns poucos;
na maioria, é como que ao reverso.
Não merecem tua oferta nem mesmo teu castigo, tão
caricatos que são.
Que palpites
em cada ato de amor, de criatividade ou sacrifício – tão
raros;
mas que pulsa nos atos de egoísmo, agressão e privilégio
- bem mais freqüentes?
Estás
ao mesmo tempo
no estuprador e na virgem,
no banqueiro e no necessitado,
no torturador e no herói?
Ou Te expulsaram uns
e abandonaste os outros?
Não pareces presente nos atos nem nos fatos que entorpecem
nosso dia.
(tanto zelo por um fruto
porém qual pelos famintos?)
e que infernizam nosso dia-a-dia.
Será por isso que o infernizam?
Retiras algum lucro da infernalização?
Inda menos nas cúpulas globais.
Ou apenas uma crédula recusa da terrena circunstância? |
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Fortuna crítica:
Tenho acompanhado a evolução da poesia de Pedro Lyra desde a abertura de sua maturidade, com Decisão: poemas dialéticos (1983), passando por Desafio: uma poética do amor (1991), Contágio: poesia do desejo (1993), Errância: uma alegoria trans-histórica (1996), Visão do ser: antologia poética (1998)s e Jogo: um delírio erótico-metafísico-econômico ou uma aventura versifrases (1999), bem como a versão francesa da antologia Vision de l’être (2000), através de resenhas publicadas em diversos jornais.
Convidado pelo próprio poeta para apresentar o primeiro livro dedicado à sua obra (Uma palavra marcada: emoção e consciência na poética de Pedro Lyra, dissertação de mestrado da professora Hermínia Lima, defendida na faculdade de Letras da Universidade Federal do Ceará em 1966, publicada pelas Edições UFC em 1999, texto que aqui vai em apêndice), pude, provocado por esse livro, organizar uma visão de conjunto da sua poesia.
Tendo ele incluído todas essas resenhas na Fortuna Crítica que acompanha sua antologia poética, conjunto a que dei título de “A poesia madura de Pedro Lyra” (p.452-460), veio-me a idéia de reuni-las num pequeno volume, que a editora da Universidade Federal do Ceará, terra natal do poeta, se dispôs a editar, num gesto que agora agradeço.
Mas me faltavam suas obras de juventude: Sombras, de 1967, e Doramor , de 1969, publicadas ainda em Fortaleza. Perguntei-lhe se não me podiam oferecê-las. Respondeu-me que dispunha de apenas três exemplares da primeira e de quatro da segunda e que só os cederia para um crítico de sua obra com o eu. Fiquei comovido com esse gesto e motivei-me a escrever, também sobre esses seus dois primeiros livros, resenhas que são publicadas aqui pela primeira vez.
Pequenas repetições, que neste volume parecem viciosas, no entanto, inevitáveis quando se atenta para os intervalos das publicações dos diversos livros. Conservei-as, para integridade dos textos.
São resenhas, agora ligeiramente retocadas, inclusive com a inserção de passagens, que não caberiam nos jornais, dos poemas então apenas mencionados, alguns aqui transcritos na integra para oferecer ao leitor deste volume o próprio texto do poeta, além da opinião do crítico; breves abordagens de livros no instante de sua publicação. Portanto, leituras pioneiras de obras sem nenhuma referência prévia (com a necessária exceção de Vision de l’être, apenas Sombras e Errância têm prefácio) e que, por isso, têm ao menos o mérito de iniciar esta leitura, como atesta o próprio livro da professora Hermínia, que cita várias delas. Aliás, acrescentei ao final de minha apresentação algumas passagens da obra, o que lá seria desnecessário.
Na preparação do volume, ordenei-as do modo mais natural, acompanhando a seqüência cronológica de publicação dos respectivos livros. Exceto quanto à antologia Visão do ser, que é anterior ao livro Jogo, mas do qual inclui vários trechos como inéditos. Em se tratando de síntese de toda a obra, achei melhor fechar com ela o conjunto.
Resenhas são textos duplamente limitados: pelo tempo para a produção e pelo espaço oferecido pelos jornais. Mas são aberturas de caminhos, que neste caso poderão ser úteis aos futuros críticos deste que é um dos poetas mais significativos da Geração-60 no Brasil, como ele mesmo denominou a nossa geração no ensaio/antologia Sincrestismo, em 1965.
O título – Uma poesia dialógica – foi sugerido pelos próprios textos das resenhas, onde ressalto com freqüência a logicidade da exposição e o caráter dialético da expressão do poeta. Um poeta de percurso singular, que evolui de um pessimismo matafisicista inicial aos painéis épico-dramáticos de seu estágio atual, passando pela poesia amorosa. De vanguarda e de protesto.
Fernando Py
CLARIDADE SOLAR DA POESIA DE PEDRO LYRA
Gerson Valle
“Me acusam / de muito claro. // Mas como ser obscuro / se pervago um sistema solar?” (Pedro Lyra)
Em minhas manifestações sobre as tendências da Poesia atual tenho criticado a acentuada reminiscência surrealista à procura do desentendimento, metáforas sobre metáforas, como se a clareza de idéias e lógica fossem domínio exclusivo da prosa. Ao poeta, caberia a imagem baça. Os textos que se posicionam de forma esclarecedora são tidos por ingênuos, não-poéticos, ultrapassados... É verdade que o significante integra mais o subjetivismo das artes que o significado. E nenhum exemplo melhor que a música pura ou as artes plásticas após o advento do abstracionismo. A poesia, de certo, traz muito de seu conteúdo na simples composição formal. Mas.... e aí eu coloco minha reflexão: cabe tratar das palavras como se fossem sempre cores? (Elas até que são também, não é, gente sensível?) Ou como se fossem sons de melodias, harmonias, ritmos somente (Nossa! E como são!!! Mas, SOMENTE???)? A tendência irracional da poesia contemporânea corre o risco, no meu entender, de confundir valores humanísticos, porque ela se compõe de palavras que, mal ou bem, trazem consigo significados. Uma piada não se importa de correr este risco. A graça da piada está na contradição que ela esboça, sem preocupação moral ou intelectual. A poesia seria como a piada? Não teria outra função social? Eu acho que poesia e piada são fenômenos diversos. E colocar-se, seguidamente, a abstração nas palavras, pode esconder, inclusive, conceitos contraditórios (só para não perder a graça, na piada; só para contrariar a razão lógica e prosaica, na poesia) com exposição de injustiças, fascismos, agressões e todo tipo de canalhice, sem lhes entrar no mérito, em função da estética pura e/ou do lazer descomprometido com a realidade. A arte moderna aceitou este risco. E aí estão Artaud, Bukowski ou Tarantino... A poesia, para sempre, acatará a crueldade por liberalismo? Que mentalidade espúria criou a civilização capitalista! O poeta já não acalanta o mundo em sua poesia, e esta já não integra nosso Humanismo verdadeiro?
Não. Há ainda Poesia com toda a manifestação dos significados inerentes à nossa condição social, política, humana, pertinente sempre ao raciocínio e reflexão sobre o que somos e podemos ser. E prova disto dou com o livro de Pedro Lyra “Argumento – Poemythos globais” (Ibis libris, RJ, 2006). Sim, são poemas que apontam o mito da globalização, “face superior / do imperialismo”, que é a “face superior / do capitalismo”, que é a “face superior da barbárie”. “É o prenúncio do fim”. O poeta reflete sobre a realidade dessa “involução”: “Para recomeçar / sabendo ao menos / o quê e como não fazer”. A Poesia mostra que o “unilateralismo”, na verdade, é que é “a face superior da globalização”. E que nada mais “Anti-global” que “Num pólo, os Estados Unidos da América do Norte; / no que seria o outro, não a União Européia, / nem a periferia do planeta, mas Ela, / a que devia ser a Grande Dama Universal, / a Organização das Nações Unidas”. Mas, “Não precisam da Grande Dama: / já a financiam. / Aliás, ela pode atrapalhar. / Então, passam por cima, já que a financiam. // Ou ela lhes obedece / ou eles a ignoram. / Como faz / com seus porcos / o dono de qualquer chiqueiro; / com suas putas / o dono de qualquer bordel”. E dentro desta “Unilateralidade” do pretenso mundo global, mas de dono exclusivo que o trata como porco ou puta, há um combate ao inimigo que cometeu “um ato de terror / aqui, na nossa casa”, se bem que é um aliado quem “cometeu / um ato de terror / no outro lado do mundo”. A lógica é de se perguntar: “O que é mesmo que eles combatem: / o terrorismo / ou a divergência?”
Na era do terror em que se está, se indaga, tentando ainda rever seu início, no mais perfeito “lirismo aterrado”: “Quando isso começar a acontecer / os culpados irão buscar um meio, / tomar enérgicas providências, / as medidas cabíveis / pra evitar que isso tenha acontecido”. (!!!, exclamo eu, como anotação em meu exemplar. A poesia está toda aí. Dito sintético, mas expresso!)
O “retorno” ao Humanismo, numa forma de pensar e expor a realidade avara dentro da esperança lírica, encontra-se, em Pedro Lyra, muito claramente apresentado na denúncia ao capitalismo, confundindo-se nisto os males de uma estética sem compromisso humano com o “terror” do próprio sistema econômico imposto ao mundo pela nação mais rica. Mostra como os valores da Humanidade são decorrentes da “unilateralidade” de uma globalização imposta, e não surgida como resultado das divergências vivas dos povos, culturas. E isto não se escreve somente com imagens fugidias, como certa crítica (tipicamente capitalista) deseja que seja a manifestação poética. Crítica que deseja que seja só assim, fechando-se de um só lado das considerações do mundo, da posição social, do ser humano... No poema “Ideologema” a questão fica muito bem colocada, e num sentido poético maravilhoso: “Acabou-se. // Morreu / a ideologia. // Não há mais esquerda / não há mais direita: / - estamos todos num Centrão. // Porém / já repararam / que quem proclama essa morte / é sempre um sobrevivente da Direitona?” Acho que este poema deveria figurar, repetidamente, na primeira página do veículo que desejasse ver seus leitores refletindo a realidade, pensando em mudança positiva, lembrando que os problemas sociais apontados pelos socialismos não se resolveram, por exemplo, para que eles possam ser chamados de ultrapassados, simplesmente porque certas formas ultrapassadas de suas manifestações terem sido tentadas!...
O centro da poesia de Pedro Lyra permanece sendo, como em todo grande Humanismo poético, o ser humano, este ser social, de tantos desentendimentos, mas ainda capaz de se compreender e se aperfeiçoar. A racionalidade dentro da irracionalidade dos desencontros humanos achou necessária a criação do Estado. Seu desejo é que este chegue “do Estado Pleno ao Estado Mínimo” e daí surja “- o Estado Nenhum! // E então que reine o An-Arquismo! // O homem / não nasceu para a humilhação / de ser governado por um outro.” E com isto, a coragem de ressuscitar uma visão socialista, humanista, de um Proudhon, que os marxistas tanto desprezaram fazendo com que muitos se desiludissem com o próprio socialismo!
Nossa realidade se torna clara na poesia clara, como em “A lenda da ética”: “Choveu denúncias / contra o governo. // Os culpados ostentam os fatos / nas expressões com que os negam. // Mas o Rei continua tranqüilo / ainda não exibindo provas. // O país todo enlameado / e ele insiste que não choveu.”
Ao contrário das toneladas de poemas que se publicam sem que ninguém se sinta estimulado a lê-los, por tão distantes de tudo que nos cerca (Um filme quase nunca deixa a imagem distante de nossa própria existência. Por que a linguagem da poesia atual se condenou a isto?), a Poesia de Pedro Lyra, quando encontrada, sem dúvida pode abrir muitos caminhos às gerações do novo século. Que ela seja mais divulgada. Lida nas escolas, nos lugares de trabalho, nas casas, por toda a parte, para a lembrança do ser humano de si mesmo, em sua real essência. Real e poética. |
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