Todo mineiro tem dois trens na vida:
Aquele que entrou pelas pupilas infantis
e ficou gravado na estação da memória
em imagens recorrentes da partida
e um outro, a circular velozmente
nos emaranhados túneis dos anseios,
rasgando o peito e sangrando as veias
sem vontade de parar.
O primeiro vai assim...
Devagar...Silencioso...
Gemendo e se arrastando,
contornando molemente
as voltas que a vida dá.
Parte o outro, num instante,
pois tem pressa de chegar.
Rompe serras e barreiras,
abandona os próprios trilhos
e se põe a viajar.
E o mineiro caminhante
segue os trens da própria vida.
Ora calmo, lentamente,
vai montando sua história,
ou, então, parte agitado,
pelo progresso arrastado,
em marcha obrigatória.
Paulo César de Almeida
REGALO DE VERMES
Avante, micromáquinas vorazes!
Eis vosso prato podre já servido!
Sede rápidos, o quanto capazes
De consumir este vil corpo ardido!
Mexei vossos corpos, invertebrados!
Continuai vosso banquete em festa!
Limpai todos os ossos alquebrados!
Fazei pasto da carne que me resta!
Vivo, fui regalo de muitas gentes,
Alimentei tantas línguas ardentes
Cujo prazer em difamar consiste.
Morto, a vós eu me entrego com prazer
Sois amigos a quem dou de comer,
Posto que a maldade em vós não existe.
Paulo César de Almeida |
Um poema só será bom soneto
se for ao todo muito bem rimado,
diferente de qualquer poemeto
sem rima ou com verso de pé quebrado.
Feito o primeiro, faz-se outro quarteto
cuidadosamente metrificado;
passa-se, então, ao primeiro terceto
por outro terceto finalizado.
Assim como é tão importante a forma,
preza-se um conteúdo original,
para se conseguir a plataforma,
que leva ao pensamento principal,
de acordo com o que apregoa a norma,
a chave de ouro do verso final.
Paulo César de Almeida
SONETO DO LOUCO AMOR
O que dizer desta minha loucura...
De querer-te tanto como ninguém?
Sentimento que eternamente dura
E que me faz sentir assim tão bem.
A que se compara a estranha ventura,
Que acesa a chama de viver mantém,
Na solidão desta minha clausura,
Sem os prazeres que da vida vêm?
A certeza deste amor, que perdura,
Inalteradamente, por alguém,
Converte-me na mais louca figura,
Tal como à própria loucura convém.
Meu amor é doidice que se apura
Na mesma certeza que os loucos têm.
SER BRASIL
Ser Brasil é ter mil cidades encravadas nos montes
ao longo das pradarias;
é ter sido futuro de glórias, de pedras e diamantes,
dos colonizadores e bandeirantes,
índios, estrangeiros, negros, imigrantes,
de toda raça enfim.
Ser Brasil é ter nascido num colo de ouro
e do esplêndido berço ainda estar se levantando;
é ter as minas gerais que quase nem minas tem mais
como outras riquezas tantas que se perderam por aí.
Ser Brasil é ter o tempo e o vento bravos do sul
é ser ecumênico e individual,
distinto e mestiço,
simples e complicado ao mesmo tempo,
mameluco, cafuzo, confuso na sua gente,
pois que a própria gente não conhece bem.
Ser Brasil é ter um tal jeito especial
de resolver as questões mais sérias
sem a seriedade que lhes convém;
é querer levar vantagem em tudo
e continuar sempre devendo a alguém.
Ser Brasil é ser, do mesmo jeito,
Invejado e objeto de dó;
É ter rei do rádio e rainha também,
Rei do gado, do café e da música,
rei Momo e rei Pelé.
Ser Brasil é perder-se para sempre
no amplo verde inferno amazônico
ou se espremer num quarto-e-sala qualquer
com cheiro de mofo e fritura
nessa colméia estúpida de concreto
que massacra a liberdade humana.
Ser Brasil é ter o voto direto e secreto,
Obrigatório, adolescente, analfabeto;
É ter quinhentos anos de teimosia,
Ensaiando, ainda, os primeiros passos
De liberdade, justiça e democracia.
Paulo César de Almeida. |