O jardineiro planta a palavra,
semente efêmera;
rega o jardim morfológico
e lava as cicatrizes de suas desventuras;
A seiva esverdeada e culta
escorre ao vento lúdico de seu fazer;
Cada novo fruto entorpece
o pássaro de luz
que faz seu ninho no galho
da árvore poética.
Pronto!
O machado crítico se agiganta,
zune no ar
e destrói-lhe a raiz:
Sua obra jaz morta numa folha de papel...
Os quatro elementos – Ar
A poesia voa nas asas do vento
como tempestade boreal a colorir o papel;
Um céu de luzes, habitado pelos Anjos,
clareia a decepção dos escribas fracassados:
“O ar frio das noites setentrionais,
o ar tépido das tardes meridionais,
o ar tórrido das manhãs tropicais...”
Não importam as luas e suas fases,
nem o sol, imutável criador...
As nuvens...
sim...
as nuvens são fadas em constante mutação
a desfilar seus idílios de novidade:
a poesia pousa, enfim, no aeródromo vegetal!
Lendas mortas
Foge, Curupira!
Cara-pálida, cospe-fogo,
já matou o Boitatá,
implantou o saci,
comeu a mula-sem-cabeça:
Iara chora e umedece as matas
abandonadas por Tupã...
Palavras Ao vento
Um poema
escrito na Areia
é
eterno:
pois,
seus versos
serão levados
pelo Vento
ao
encontro
da
Liberdade.
A esfinge
Menina da sacada,
joga as tranças;
O alpinista de seios e pernas
deseja escalar a esfinge lasciva...
Nossos suores...
Fomos feitos da argila que reveste o campo,
somos revestidos da ramagem que recobre os morros,
estamos recobertos da umidade que brota da nascente,
brotamos dos suores que escorrem das grutas magistrais!
À Manuel Bandeira
Tosse tísica, tubércula rosa,
Pneumotórax, histórias do além,
Tantos mistérios em versos e prosa:
“Bala comprada em qualquer armazém!”
Alma apodrece o aidético hino,
Sofre de medo o mofino refém,
Quanta miséria reserva o destino:
“Bala perdida na rua ou no trem!”
Como cantar, cancerígeno mudo?
No chão, a morte agoniza um amém,
Bela ironia ser humano escudo:
“Bala encontrada no peito de alguém!”
Voar, voar...
Vivia a cortejá-la como um mago plácido;
Em todo passo um tombo nas calçadas lúdicas;
Seu corpo me abrigava numa guerra púnica:
As mãos entrelaçavam meus cabelos módicos.
No louco descompasso me iludia a tântrica;
Seu cheiro entorpecia nos velórios sôfregos;
Se em cada refazer, não fenecia a música:
Dançava sem cansaço num processo lírico.
Sempre aquecia a cama sem riscar um fósforo;
Comia minha língua em suores sátiros;
Abria sua alma e enrijecia o másculo:
Fugiu da nossa vida como bruxa lépida.
E via em cada rosto um sorriso bêbado;
Já não mais escrevia minhas prosas tétricas;
Lutei contra os demônios dessa treva sânscrita:
Ousei nascer de novo, mergulhei no útero.
Haikai XXXI
Pobre Natureza!
Chora a alma de Bashô:
Não há cor no céu...
Haikai XXXII
Vamos: cinco sílabas,
A Natureza é o motivo:
Nasceu um Haikai!
Haikai XXXIII
O touro ama a vaca:
Balança a prole no açougue...
O churrasco chora!
Juras
Jurei amar, e não cumpri;
Jurei falar, e não calei;
Jurei gerar, e não pari;
Jurei viver, e não nasci...
IZ...
Diz, meretriz infeliz:
esse matiz
condiz
com a mediatriz
da atriz;
Ou por um triz,
o feliz sonho de giz
curou-lhe a cicatriz
que fiz?
Hermético
Caixa
baú
cofre
cadeia:
o pássaro morreu...
já podem libertar a gaiola!
Dêixis
Não pretendo compor anáforas:
remissões são fraquezas contumazes;
Tampouco entendo as catáforas:
o futuro é inexorável surpresa;
Faço êxodo de mim!
Aglutinação
Respondo ao amigo:
“Não, Fonseca,
em Abrolhos não há pernaltas;
mas no Planalto
bebem aguardente,
dolarizam a economia
e o povo,
boquiaberto,
consome o vinagre!”
É, amigo Henfil,
Vossemecê estava certo:
Já vou embora,
É chegada a hora,
Apagarei a luz!
Resposta da Donzela ao Menestrel
Não suporto a tua ausência,
Anjo bom, amor candente,
vivo presa à vil demência
de um pátrio poder ausente.
Rego a flor, e ela morre
- talvez de tédio padeça -
leva-me, presto, socorre,
antes que o jardim feneça...
Sonhei tuas mãos nas minhas,
misto de dor e delícias,
chorei saber que não vinhas
inundar-me de carícias.
Juro aos pés da Santa Cruz
calar o alaúde e o berro:
Ó Senhor, devolve a luz,
ou nas trevas me desterro!
O Padre se apieda da Donzela
Ouve um conselho, menina:
no inverno morrem as flores...
sofrem poetas a sina...
choram donzelas amores...
Teu pecado Deus perdoa,
não cabe a mim julgamento;
tua dor, no vale, ecoa,
já te escutam o lamento...
Minha filha, faz a prece,
pede aos Anjos proteção;
esse amor que te enriquece,
pode ser-te a perdição.
Se essa estrada é perigosa,
trilha com fé teu caminho:
"Felicidade é uma rosa
que, sem regar, vira espinho!" |
Letras úmidas escorrem no papel:
um hidropoema se concretiza gelo,
metamorfoseado em iceberg lúdico;
A Natureza bebe poesia mansa
Nas marés que banham as planícies;
Árvores-naus singram as florestas,
encharcadas pelas monções edificantes,
e aportam seguras em terras oníricas;
Angélicos pescadores de ilusão
absorvem luz,
adornam-se de luar,
aceitam a sina:
Os peixes são poetas do Planeta Água.
Os quatro elementos – Terra
Germina a poética mística
à flor da terra que nos verá passar;
As viagens das letras mágicas
tornam possível a majestosa redenção da idéia;
A arte somatiza em grãos agrestes
o senso do mistério seco nos papiros crus;
Já não há rituais capazes de calar
a gema nobre que a lírica expurga:
se a morte configura o ciclo,
a Terra brota a gene vital da criação.
Os quatro elementos – Fogo
Quantos versos se têm criado,
no magma da inspiração insólita?
Explodem em versos piroplásticos
e arrebatam os gélidos corações incautos.
Sua lava escorre cálida
na lisa superfície do papel pautado;
não temo o fogo:
suas chamas me emprenham de furor,
se componho,
com travor,
a doce melodia da paixão.
E quando deitado em linhas de horizontes finitos,
amo-te como vulcão de poesia ígnea.
Fogo-fátuo
Do trigo que amamenta o pão;
do negro que inebria a noite;
do lábio que destrava o beijo;
do corpo que incendeia a vida;
do toque que semeia o leite;
do pêlo que recobre a pele;
do sonho que se acorda ao dia;
do ventre que alardeia o nome;
do abraço que enternece a dor;
do louco que acalenta o sonho;
do fogo que destrói o monstro;
do mago que aclara a dúvida;
do fado que balança o berço;
do ímã que afixa a prosa;
do erro que exclui a mente;
da seiva que escorre da flor;
Do nada que expurga tudo;
Do tudo que me falta, o nada
Pré-conceitos
Num tempo amargo, sem vida, sem luz,
Deram-me o Branco, promessa de paz;
Cri ser criança carente essa cruz,
Vi que a verdade também é mordaz.
Dias depois, tive o ouro Amarelo,
Luxo, cobiça e pecado latente;
Fiz do seu mundo luxúria e flagelo,
Midas insano, tua morte é o presente.
Sonhos pintados de sangue Vermelho,
Almas penadas num tronco ou a ferro;
Sinto-me podre ao mirar-me no espelho.
Ó Grande Negro, teu grito ora berro,
Peço perdão, ante Deus me ajoelho:
Vil preconceito, demônio que enterro.
Sensível? Corruptível!
Arquétipo?
Esquelético.
Agnóstico?
Pernóstico.
Paciente?
Indolente.
Patriota?
Idiota.
Generoso?
Tenebroso.
Ser humano?
Ledo engano!
A viagem
(13 de maio de 1888, 23h e 14 min...)
O escravo fujão,
de paletó e cravo na lapela,
ora jaz abandonado na capela tosca
junto ao cravo de sua cruz.
Na senzala,
apodrece o feijão pagão do santo guerreiro,
e o terreiro batuca
o tum-tum-tum da liberdade!
“Três vivas à princesinha branca!”
O escravo lívido
enfim é livre
como fora o ex-cravo
único companheiro a glorificar-lhe a viagem...
Haikai VII
A flauta de pan
- silvo de pura magia -
floreia ao luar!
Haikai VIII
E à luz do luar,
colhia as flores-do-campo
o deus Poetar!
Haikai XV
Jaz aqui a deusa
Senhora do mar errante:
afogou-se a paz!
Haikai XXI
A concha se abriu,
a maré expulsa a vida:
a pérola? Nada!
Haikai XXIV
Meus olhos marejam:
As crianças passam fome;
Brincam de morrer...
Haikai XXVI
Chega a lua cheia
as ondas lambem a praia
nasce uma sereia...
A revisita de Straus
“Quando Claude Lévi-Straus,
em visita à Guanabara,
afirmou, sincero e puro,
que faltavam dentes em sua baía,
consideraram-no indelicado e arrogante;
os ufanistas tupiniquins
morreriam de vergonha,
se, em hipotética revisita,
o antropólogo francês sentisse o fétido hálito
de um arroto de sua boca banguela!”
O Menestrel e a Donzela
Bom dia, Santa Donzela,
folgo ver-te com saúde,
airosa, cheirosa e bela,
no dedilhar do alaúde.
Permita-me o atrevimento
de postar-me assim tão perto:
não rogo pranto ou lamento,
mas paixão, de peito aberto.
Trago a ti, em verso, um canto
da amiga cotovia
- perdão, se te causo espanto -
almejo alegrar teu dia:
“Ama a lua o pôr-do-sol
a dor da tristeza errante:
no trinar de um rouxinol,
surge o amor, anjo inconstante...”
A Donzela se confessa ao Padre do Condado
Santo Padre, hei amado,
sãos instantes de ternura:
por que desejo é o pecado...
minha dor... minha loucura?
De nuvens o sol se cobre,
não muda as fases a lua,
divido o amor entre um nobre
e um plebeu que me ama nua!
Assim gira o carrossel,
todo o tempo, aventureiro:
choro por um menestrel...
durmo com um cavaleiro...
Rezo doze Ave-marias,
jamais finda essa novena:
entorpece as alegrias
o veneno da falena! |