MEU RETRATO
Imprimi na tela meu sentir em cores,
De vivos tons e brilhos cintilantes,
E misturei na tinta sonhos multicores
E o luzir das emoções constantes.
E a cada sonho meu, trocado em dores,
Se ofuscava o brilho, outrora fulgurante,
Mas unindo esperança aos meus pendores,
Renovava a tinta com o fulgor de antes.
Reavivada, assim, mil vezes repetidas,
Com pinceladas novas, devolvi o encanto
Da minha vida a se espelhar na tela.
Por fim, desfeito o encanto, as cores fenecidas,
A tela desbotada abandonei num canto,
E enxugando pranto, contemplei-me nela.
AMOR E FLOR
Tu, que as flores prezas e delas te ocupas,
Na faina dos cuidados mil que lhes dedicas,
E, de aurora ao por do sol, te preocupas,
Se o vento ou luz demais as prejudica;
Tu, que nos espinhos delas te machucas,
Na poda que as conserva e as duplica,
E vês a terra infértil e a adubas,
No empenho de colhê-las mais bonitas;
Não crês que o amor é tenra planta viva,
Que de ti, também, requer iguais cuidados,
A fim de que floresça bela e sobreviva
Às agressões do tempo hostil e descuidado,
E, enquanto abrigas tua muda predileta,
Deixas a flor do amor murchar entreaberta.
MAL OCULTO
Se és estrela, o céu da noite não contemplo
E em noite escura do meu céu procuro abrigo,
Se és a paz, eu me entrego ao meu tormento,
Se és riqueza, o bem que tens eu não mendigo;
Se és lembrança, eu me abandono neste templo
Do meu passado, onde a saudade vem comigo,
Se é prazer e és o amor, ao mesmo tempo,
Na dor de não te amar eu me castigo;
Se me buscas, eu me afasto do teu vulto,
Se me chamas, eu te ouvindo, não respondo,
E sofrendo à tua espera, eu me acuso
De ser em nossa vida um mal oculto,
Se com meu estranho ser eu me confronto,
Pois tudo o que a ti nego, a mim recuso. |
À MINHA IRMÃ
"A morte é indolor
O que dói nela é o nada
Que a vida faz do amor"
(Thiago de Mello)
Se eu chorar enquanto estás ausente
Do nosso mundo – tenda de enganos -,
Segue tua estrela guia, indiferente,
Que choro só por mim e por meus danos.
Contempla a face pura e reluzente
Do amor, em seus encantos soberanos,
Que eu vou cumprir a sina dos viventes,
Buscar a fé em meio aos desenganos.
Não te preocupes se me vires triste
Com meu lamento, nessa tua ausência,
Pelo vazio onde a saudade existe.
Que sofro a mágoa imensa que persiste:
Amor maior não ter-te dado na existência
E ter perdido teu amor quando partiste.
INVERNO
(Soneto Shakesperiano)
Quando o inverno colorir de branco a mata esguia
E um mar de gelo inundar, de vez, a terra enxuta,
E tudo o que foi vivo e de vida plana ardia,
Ocultar, em si, a salvo, a seiva bruta;
E aos olhos dos mortais, imagens puras
De fecundos verdes grãos, no solo germinando,
Forem só lembranças apagadas e obscuras;
Lembrarás que a primavera se afastou deixando
O amor febril que da minh'alma se expandia
Em vibrações de afeto e emanações queridas,
E que este amor, qual seiva bruta, se ocultaria
Na sombra glacial de tudo que restou sem vida,
Pois, enquanto o frio em mim perdura e recrudesce
No inverno deste amor nada germina nem floresce.
ESPERA
"A lembrança é uma forma de encontro" (Gibran Khalil)
Não deixarei tua lembrança perdida
em qualquer beira de estrada
ou porão de traças famintas.
Quero guardá-la
entre as páginas de um livro
como pétala de uma rosa antiga
com resquícios de rubro
em suas bordas gastas
ou como jóia lapidada
com o mais fino cinzel
cravada entre os dedos
de minhas mãos cansadas
tanto quanto as cordas
da velha harpa
onde dedilho a canção preferida
no compasso lento
de tua espera. |