gosto de dar cara a tapa
expor o peito
não ter medo de fogueira
o que me faz a cabeça
é isso que na veia pulsa
a surpresa de quem vai à luta
e degusta a vida
não tenho medo de ridículo
pagar mico é risco
de quem busca o prazer
gosto mesmo é do imprevisto
da alma do momento vivo
viver é o ápice do vício
única droga que insisto |
tem gente
que é tão doce
que se mais fosse
era poesia
Inconfessável
têm coisas que soam em silêncio
que voam ao vento
que só nós sabemos
têm horas que a vida é senhora
nos pede o agora
sem arrependimento
cada um é refém do momento
ator de um roteiro
sem culpa ou querendo
só resta em certas horas
guardar segredo
até de nós mesmos |
como desligar o automático
quando no lábio o sorriso
é plástico
e cada palavra, mesmo sensata
não guarda emoção
é volátil
como voar sem ter asas
- essas que nascem dos sonhos -
quando o chão
é fato
e toda certeza é não tê-la
toda beleza é feia
e tudo parece
tão chato
não dá para desligar a tristeza
quando ela entra na veia
e nos toma
de assalto
Cárcere
cada dia
que passa
a sentença
minha alma
condenada
ao poema
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sempre à noite
as sombras têm
mais cor
a falta
é mais dura
o silêncio
é um grito
de dor
e as pálpebras
gotejam cristais
urgências
desejos
sopro da alma
que rola na face
e lhe dá
um beijo
e insone
como as horas
nu de luzes
e certezas
bordo
um poema
e não
me culpo
sempre à noite
o querer é
voraz
o possível
é tardio
o grito
é silêncio
nada mais |
tem dias
que a tristeza
tem o peso
do universo
sinto-me
náufrago
preso
às correntes
que me cercam
queria o ar
como bálsamo
a meu peito
submerso
queria apenas
amar cada dia
dos dias
que me restam
|
esse par de braços
que estendo
abraça o mundo
enquanto é tempo
sei que cada momento
é tudo o que tenho
e o agora tudo que existe
de braços abertos
me entrego
e abraço os amigos
enquanto os vejo
no recanto seguro
do que amo e sinto
a alma, espaço sem limites
mesmo quando estou triste
e o pranto é tanto
e a dor é toda
não sei como nem quanto
guardo nos braços um abrigo
me curo, me dando
esse é meu gesto
exponho o peito sem medo
sem dúvida, inteiro
e a quem queira
me entrego |
somos feitos
de tudo que nos cerca
de argila, madeira
poeira e pedra
somos palco
de uma peça
normais, humanos
loucos ou feras
somos aquilo
que não somos
artistas, retratos
heróis de espelho
somos nosso
maior receio
pior do que tudo
contágio do meio
mesmo que loucos
perdidos no verso
feiticeiros da vida
poema incerto
somos parte do todo
grãos de mistério
construtores do sonho
em busca do eterno |
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