E o tempo ignoto corroia o corpo
E as luzes das janelas mudas se fecharam
Ao escutar os gemidos da alma que ao escapar
Voara em giros e relâmpagos.
Nada se mexia no quarto lugubre em que outrora
Entrara o sol e a felicidade,
Papéis, livros e lembranças ficaram
Chorando quedamente a partida do poeta.
Pedaços duma vida que foram arte e poesia
Que deram triunfos, palmas e desilusões
Até a caneta gasta com as marcas do poeta
Ficaram jogadas num canto, até que um outro
Poeta a pegasse.
E a alma voou longe e perdeu-se no infinito...
E o corpo corroído pelo tempo ignoto
Fez-se pó e também voou longe.
- II –
As janelas do quarto estão abertas
A lua entra caudalosa e se sente que
Uma outra vida surge no ar e nos papéis,
Uma mão jovem e bela pega a caneta desgastada
E escreve versos e poemas inspirados,
Misteriosos.
Transcendentes são os ares que respira
E o mesmo tempo ar de antigamente
Ele recebe a inspiração
E se pergunta no silencio... Porque eu? |
De todas as vezes que escutei na natureza
A que mais me perturba e me mostra a presença
de Deus, á a voz do mar...
a chuva é romântica e triste
o vento uivante é um grito de socorro...
mas a voz do mar é a mais bela e a mais diversificada
de todas as vozes...
nela escutamos rugidos, murmúrios, golpes rápidos
quando as águas chocam-se nas rocas que estão
eternamente cimentadas no mar...
as vozes do mar poderiam ser conversa das ondas
e também o pedido de socorro dos moradores do mar...
a voz do mar é um sem fim de ruídos cambiantes
ela tem acentos e melodias e variadas sinfonias...
as vezes com um simples compasso compõe uma ópera
inigualável e eterna...
as vezes é um monstro que chega aos lugares
e semeia a morte e o pânico com os tsunamis
talvez para limpar as sujeiras que o homem faz...
a voz do mar nos acalma, acaricia nossos ouvidos
fala o idioma da alma, a voz do mar é distante...
e beleza eterna, a voz do mar canta e fala baixinho
ao seu eterno enamorado que é o céu... |
Fui eu construindo na minha janela
Um castelo de ilusões
Suas torres são pensamentos
E as vidraças emoções...
Meu castelo não tem portas, só janelas.
O teto pintei de estrelas
Estrelas abrilhantadas
O chão pintei de luar
Luas brancas e amarelas.
Caminho por meu castelo
Sem sapatos e ao azar...
Nas paredes estão os versos
Que a vida me faz lembrar...
E tem um sino vermelho
Que bate forte, tão forte
Para que eu possa despertar
Meu castelo de ilusões
Só começa a funcionar
Quando minha alma de criança...
Foge da alma de mulher. |