Meu coração é um cálice angustiante,
transbordando de lágrimas sentidas
recolhidas, aqui, ou lá, distante
dos olhos tristes de almas, tão sofridas!
Tem lágrima acérrima, suplicante
de crianças carentes decaídas.
Tem o pranto dorido, tão humilhante
de velhos, com forças, já, vencidas.
Tem lágrimas geradas, do temor.
Tem outras, dos que sofrem, por amor,
ou da dor de uma atroz ingratidão.
De tanta renitência, na amargura
ao ver tanta injustiça e desventura,
já, se parte o meu velho coração.
Meu pai
Em uma floresta espessa e sombria
um tenro arbusto, tímido nasceu,
junto ao forte carvalho que se erguia
majestoso, imponente, como um deus.
Quando o vento rugia, fortemente,
conivente com drástica procela,
arriando fortes galhos, brutalmente,
destruindo, então, a ramagem basta e bela,
o temeroso arbusto se encolhia,
buscando, no carvalho, a proteção.
Confiante, na guarida, resistia;
retornava à bonança, inteiro e são.
A fronde do carvalho desbordando,
no verão, era o pálio, que o abrigava.
Na primavera ia o arbusto se ufanando,
da sua ramagem, flórea, que ostentava.
Mas um dia, a mão nefasta, impiedosa,
destrutiva, orgulhosa do poder,
veio a golpes de machado, furiosa,
o carvalho gigantesco abater.
Aí, o pequeno arbusto, então, chorou.
Choraram desvairados passarinhos,
pelo sádico gesto, que matou
os filhotes, nos derribados ninhos.
Vive, hoje, lamentando o triste arbusto,
exposto às intempéries, à má sorte.
Aguarda, desolado, sempre, em susto,
o rijo golpe lúgubre da morte.
Também, eu conheci forte carvalho,
que desde que nasci guiou meus passos,
um pai, que foi p’ra mim, teto, agasalho
que fluiu muita ternura, em seus abraços.
Foi ele ao mesmo tempo pai, amigo;
Foi a mãe, que tão cedo, Deus levou.
Nos meus acres momentos, foi o abrigo
este anjo-pai, que o pranto me enxugou.
Camuflando o amargor, que o abatia,
após partir a amada companheira,
uma grande afeição, a mim volvia,
até sua trágica hora, derradeira.
Perdido nos atalhos do caminho
desta vida, onde há o viço da descrença,
eu sigo amargurado e tão sozinho
sem ter, mesmo, esta fé, que um vença,
o vazio, do qual estou impregnado.
Dele, somente, forte, um grito sai,
nos páramos celestes, ecoado.
Este grito alucinado é Meu Pai!
Ele, meu forte carvalho abençoado
hoje, não mais atende o apelo meu.
Na floresta da vida, angustiado,
aquele tenro arbusto, hoje, sou eu! |
Quando descamba o sol, lá, no poente,
traz aos olhos, daquele povo ingente,
um iriado céu do entardecer.
Ingurgitanto essa policromia,
a noite faz do morro, uma poesia,
com a voz do violão, a enternecer.
Fantasmagórico, um mundo de sonho,
vai gretando as barreiras do medonho
e da ventura, faz-se genetriz.
O som de uma canção dolente e bela,
que grassa pelo morro da favela,
leva, a todos, o instante do feliz.
O sofrer desse povo é, então, fugiente,
como se seu retorno, novamente,
estivesse, no campo do finito.
Sem pensar na graveza do amanhã,
vai convertendo o cansaço do afã,
nessas canções, que à noite, ali, são rito.
De novo, na manhã ensolarada,
entre as pedras do morro, desce a estrada
aquela pobre gente, sem guarida.
Mesmo a fome a afligindo, tem alento,
pois não pensa deixar, nem por momento,
a tapera, tão humile e querida!
Mas um dia, a chuva calamitosa
chega ao morro, persistente, impiedosa,
lavando-lhe, frenética, as ladeiras
e na sua descida, tão inclemente,
leva tudo: pedras, barracos, gente,
quais doidas e barrentas cachoeiras.
Bem triste, chora o morro irredento,
sob a ação destrutiva, de água e vento,
em integral e invita desventura,
porque entes queridos, infortunados:
- uns pobres miseráveis favelados
têm, ali, uma aviltante sepultura.
É omissa e irremissível a opulência;
não sente alor, para ofertar decência
à vida dessa gente, tão precária.
Todavia, é ali mesmo, na favela,
que então floreja uma atitude bela:
- a mão do pobre, terna e solidária!
O nascimento de Campinas
Lá vai o bandeirante, em busca do sertão
rasgando a imensidão das matas virginais
O subsolo rico é o seu potente alor,
pois vai, com destemor às minas dos metais
É árdua a caminhada e já se sente lasso.
Procura um espaço lene. Ali descansa,
envolto pelos campos. Logo adormentado
já sonha deslumbrado. O chão verde-esperança
com a sutil aragem e a fertilidade
é a meta, na verdade, à relação jugal
Com muito amor desperta e envolve em terno abraço
todo o esplendor do espaço e a terra jovial
Flexuando, põe, na leira, o beijo ardente
que é a fecunda semente, o gene de Sua Alteza
Desta flamante união eclode uma cidade
que é só felicidade e és tu, linda “Princesa” |