"BAHIA DE SÃO SALVADOR"
(Angelo Romero)
O bar estava repleto. Instalado no alto da parede, à esquerda de quem entra, um aparelho de televisão exibia, naquele momento, a novela das oito, no volume máximo. Na última mesa, nos fundos, à direita, um pequeno grupo ouvia, através de um possante rádio de pilha, a transmissão do jogo de futebol entre o Bahia e o Fluminense de Feira de Santana. Portanto, como é de se imaginar, o barulho por ali era ensurdecedor. Aliás, o brasileiro é o único povo no mundo que pensa que todo mundo é surdo... Vai falar alto assim nos "quintos do inferno"! Pois bem, apesar da diversificação e do volume dos ruídos, uma voz se destacou na pequena multidão:
- DEUS é baiano! - exclamou Bartô, jornalista licenciado da "Folha da Tarde".
Aquela afirmação em frase curta obteve o efeito de um tiro dado para o alto. O silêncio passou a ser maior do que o da elevação da eucaristia nas missas da sexta-feira da Paixão.
- Está louco você, ou o fogo da cachaça já lhe fritou os miolos? - perguntou Luis Alfonso, o espanhol dono do bar, com seu castelhano perfeito, mas já com o sotaque baiano.
Luis estava a 30 anos em Salvador e "Filho da Puta" era a única coisa que sabia falar em perfeito português.
- É isso mesmo - continuou Bartô - Descobri que Deus é baiano.
Não fosse o seu adiantado estado de embriagues, poderiam as pessoas pensar que ele estava falando sério. Apesar de viver constantemente licenciado para tratamento do alcoolismo, era ele um cronista respeitado. Zé do Carmo, gozador aposentado pelo INSS, procurou alimentar o tema levantado:
- Olha cara, eu sei que a Bahia é privilegiada. Afinal, é o Estado que mais homens ilustres têm dado ao Brasil... Mas, DEUS!? Eu acho que agora você exagerou. Como foi que chegou a esta conclusão?
- Baseei-me em estudos e observações...
Barriguinha, freguês assíduo do bar do espanhol, era católico fervoroso. Tão católico que a cada gole que dava em seu traçado, não só agradecia como oferecia a Deus. Pois bem, Barriguinha estava indignado com Bartô.
- Baitôla, miserável! Você só pode ser ateu. Não conhece o mandamento que diz "não levantar Seu Santo Nome em vão"? Como você pode brincar com o nome de Deus! ?
- Deus não só é baiano, como nasceu em Salvador - afirmou Bartô.
- Isso é sacrilégio! Cala essa boca, infeliz, antes que eu perca a cabeça e lhe quebre os dentes - gritou Barriguinha, ameaçando se levantar.
- Calma Barriguinha - interveio Zé do Carmo. Se o homem aí estudou e chegou a essa conclusão, vamos dar uma oportunidade a ele de se explicar... Vá em frente, Bartô.
- A igreja não é a casa de Deus? - perguntou o cronista. Pois bem – continuou - Qual é a cidade que tem 365 igrejas? Qual é a cidade que tem 365 dias festivos no ano? Qual é a cidade em que poucos trabalham pra valer, para que todos possam se divertir diariamente? Salvador, meu filho - SALVADOR!
"Nova Galícia", mais conhecido como bar do espanhol, era reduto de aposentados, desempregados, biscateiros e foras da lei. Logo, aquela revelação causou indignação na maioria dos presentes, pois quem mais se revolta em ser chamado de preguiçoso, é justamente quem menos é chegado ao trabalho. Assim, em meio a palavrões e ameaças, o grito de Zé do Carmo se fez destacar:
- Calma gente, que o letrado aí deve ter mais coisas a dizer.
- E é bom que tenha mesmo, porque até agora o que ele fez foi chamar baiano de preguiçoso. E logo esse miserável que só vive licenciado!
- E quem foi que disse que baiano é preguiçoso? - Baiano é esperto, criativo... Trabalha com a cabeça. E quem lhe deu toda essa esperteza e inteligência? Deus, que é seu Pai, e Jesus que é seu irmão - falou Bartô.
Aproveitando o momento de silêncio, Zé do Carmo provocou:
- Mas esperto só se cria quando encontra otário, e por aqui quem é otário?
- Ué, os turistas - rebateu ele. O pessoal que vem de todas as partes do Brasil e do mundo pra trazer dinheiro pra nós. Ah, e por falar em turista, por que vocês acham que Deus colocou Sergipe coladinho à Bahia?
- Eu sei lá porque - resmungou Zé do Carmo.
- Por causa do artesanato baiano - respondeu Bartô.
- Êpa. Essa eu não entendi...
- Mas eu explico - continuou. Nós faturamos horrores com o nosso artesanato que é conhecido no mundo todo. No entanto, a maior parte do artesanato baiano é feito em Sergipe. Ou seja: eles, por lá, dão um duro danado, e nós aqui, vendemos e ganhamos a fama!
- Esse indivíduo continua a chamar a gente de preguiçoso, cara. Já vi que pra ele, baiano não trabalha... Eu já tô começando a ficar puto - falou Barriguinha, ameaçador.
- Se segura aí, Barriguinha. O que o letrado quer dizer é que nós, baianos, sabemos ganhar dinheiro sem precisar dar duro...
- É isso aí - continuou Bartô. Por exemplo: - quem inventou o "Trio Elétrico"?
- Foi um baiano? - perguntou Zé do Carmo.
- Não sei, e pouco me interessa saber. O que importa mesmo é que foi um baiano esperto quem divulgou a engenhoca. Antes do advento do "Trio Elétrico" era preciso uma orquestra para levar o som para um grupo de pessoas. Hoje, através da engenhoca, um pequeno grupo de músicos, sem fazer muita força, leva o mesmo som para milhares de foliões. Vê? Só mesmo coisa de baiano...
É bem verdade que, até ali, nada havia sido dito de concreto, por Bartô, que pudesse provar a nacionalidade e naturalidade de Deus. No entanto, com sua verve, o cronista conseguira acalmar os ânimos. A discussão, naquela altura, poderia ter morrido, mas Zé do Carmo não deixou:
- Tu achas cara, que se Deus fosse baiano ia mandar Jesus, Seu filho, pra Jerusalém? Mandava Ele pra Salvador.
- E quem pode me assegurar que Jesus quando veio ao mundo não esteve por aqui primeiro? Tem alguém aqui que conheça Jerusalém?
Silêncio total!
Pois asseguro que não precisam ir até lá. Seria uma perda de tempo e de dinheiro. Se querem saber como é Jerusalém, basta ir até Milagres, aqui no sertão baiano. Tenho a impressão de que Jesus, antes de ir pra Jerusalém, andou uns tempos por Milagres para ir se acostumando com o tipo de região... Claro que não temos a infra-estrutura que hoje eles têm por lá. E nem precisamos, pois se em Jerusalém o povo vive à custa do turismo, em Milagres, a gente de lá vive à custa de milagres. Aliás, esta é a única diferença, pois em termos de riqueza e beleza naturais, é tudo igual. É como trocar merda por cocô.
Todos riram exceto Terencio. Para falar neste último personagem, preciso abrir um parêntese: - Seria desperdício de tempo calcular as medidas, em centímetros, que aquele negão tinha de tórax, braços e pernas. Porém, de altura era fácil: mais de um metro e noventa. Terencio estava sentado no fundo do bar e, ao se por de pé, quebrou a luminária do teto com a cabeça. Sua voz de trovão fez balançar os cascos vazios de cerveja que estavam por sobre o balcão:
- Está me chamando de merda? - perguntou ele a Bartô. Pois saiba que sou filho daquela terra...
Na certa aqueles eram os dentes mais alvos e perfeitos de toda a Bahia. Era, sem dúvida, em todos os sentidos, um dos mais bem dotados exemplares da cor de ébano. Negro pra qualquer rainha escandinava abdicar da coroa! Mesmo assim, diante daquele monumento, Bartô não perdeu a pose:
- Se o amigo aí é de Milagres, por favor, não se ofenda. Quem nasce naquela região pobre, traída pelos políticos, esquecida pelas autoridades e, mesmo assim, consegue sobreviver e se transformar num homem forte, saudável e inteligente como você, é prova viva de que minha teoria está certa. Você, cidadão, é o próprio milagre!
O negão voltou a sentar e, já mais calmo, falou:
- Bem, na verdade, eu nasci em Milagres, mas fui criado numa fazenda de cacau em Itabuna...
- Milagres ou Itabuna, não importa. Tudo isso é relevante. O que conta, realmente, é que aqui todos nós somos baianos com a graça de Deus. Temos esse privilégio. O verdadeiro baiano não briga com outro baiano a não ser por mulher, cachaça ou futebol. Portanto, gente, estou tranquilo, pois falo de Deus Todo Poderoso!
- Ah, quer dizer que você acredita que por religião, baiano não briga? - perguntou Barriguinha.
- Claro que não - respondeu Bartô - pois se brigasse os adeptos do Candomblé não iam lavar as escadarias da igreja do Bonfim. Nós, baianos, somos um povo unido na religião, na política e nas artes. Principalmente nas artes! Ao eleger os melhores do país, o baiano é unânime. Querem ver? Vou perguntar, sabendo que não precisam responder: - Quem é o maior escritor do Brasil? Qual é o melhor pintor? Quem são os melhores cantores, cantoras e compositores? Quem é o maior líder político do país? Todos são baianos com a benção de Deus!
Houve aplausos e silencioso balançar de cabeça em sinal de aprovação. No entanto, Zé do Carmo não estava nada satisfeito e acabou por provocar novamente:
- É, na retórica, o ilustrado cronista é imbatível! Porém, pra mim, pessoalmente, tudo até aqui não passou de uma prosa divertida. Na verdade, nenhuma prova cabal, histórica, irrefutável foi apresentada, capaz de colocar como inquestionável, tão absurda tese. Entretanto, como acredito na inteligência e na cultura de nosso cronista maior, imagino que você, Bartô, tenha guardado para o final, uma revelação bombástica, colhida sob a poeira de um alfarrábio do tempo. Vamos lá, Bartô, não nos faça esperar mais. Seja benevolente para com nossa desconfiança e comprove sua tese. Afinal, por que acredita que Deus é baiano?
Bartô coçou a cabeça. Dezenas de olhos questionavam o silêncio. Olhos que pareciam fuzis apontados em sua direção no momento que antecede ao fuzilamento. O cronista pigarreou procurando ganhar tempo. O bar do espanhol nunca havia experimentado silêncio parecido. De repente, Bartô sorriu. Foi um sorriso curto, contido. Mais de alívio do que de satisfação. Parecia que havia encontrado uma luz no fim do escuro túnel, quando começou a falar pausadamente:
- Como é sabido por todos, Deus fez a semana ter 7 dias. Em 6 dias criou o mundo e no domingo descansou, não é verdade?
Não se ouviu uma só voz, murmúrio ou ruído.
- Mentira! - gritou Bartô. Todos vocês foram enganados a respeito. Domingo não é o último dia da semana, é o primeiro. Portanto, Deus, quando resolveu criar o universo, descansou bastante no domingo, pra depois fazer o mundo na segunda, terça, quarta, quinta, sexta e sábado. E aí está meus amigos, a maior prova que posso dar de que Deus é baiano...
A voz de Zé do Carmo interrompeu o silêncio:
- Explique melhor. Não sei aonde você quer chegar...
- Muito simples - concluiu Bartô. O baiano é o único povo no mundo, capaz de tirar férias antes de começar a trabalhar...
E aí, gente, o pau comeu... |