| A Lídio M. Bandeira de Mello |
A vida – fantasia de uma ilusão perdida |
O pintor me ensinou
- a sombra tem cor
ela pois varia
de intensidade, de matiz
talvez, por isso, assim
sob as cores
alegres e gentis
subreptícia se esconda
a dor profunda
que há nas sombras
ah! As sombras que escurecem
até as novas flores
que nos rejuvenescem
de esperanças novas
o coração enedoado
dessas sombras do passado
tentarei, ainda que em vão,
ir pintando as cores
que há nas sombras
ao invés de
nas alegres cores
a sombra que se esconde
que me mata e consome.
|
Ah pudesse a alma
À invocação de coisas belas
Esquecer-se em doces ondas
A suspirar a brisa
Em suaves iludira a vida
Ah pudesse a alma
Sob eufemismos amenizada
Das dores inauditas
De uma triste sina
Ser enganada
Pela felicidade ansiada
Em verdade nunca atingida
Não dão guarida –
Lenitivos meros!
À alma enternecida
Que tanto almeja... deseja
Mas por desditas imerecidas
A nada jamais chega... |
| Espinhos cheirando a flor |
Fingindo |
Saudade
Espinhos da rosa
Cuja fragrância
Ela ali deixou
Só nos espinhos
O vento para cá soprou
Que contamina por antecipação
Vãs tentativas de nova floração
Pelos espinhos
Minha alma escorregou,
Impedindo a felicidade
De que,... desde então,
Tem-se apenas mera pretensão |
Tapeando a vida indo
Que sou feliz fingindo
A eu mesmo talvez enganado
Troçando até o destino
Vivendo reticências...
Ao ponto final jamais chegando
Conquistas entre aspas
Fazendo orações
Períodos sem sentido
Intercaladas vidas
desconhecido fim. |
| Meu Túmulo |
Minha Praça |
A aurora alvejante
Alcança raios em mim
Em um túmulo secular
Toda vez voa, se levanta
E eu permaneço no mesmo lugar
Passageiros e eternos se fundem
Facetas de uma unidade só
Ao pôr-do-sol em movimento
Ofereço sossego, a paz
Do meu imóvel contempla. |
Pintei a praça defronte (a da liberdade)
Agora vejo – a paisagem, verdes,
Alvas nuvens, montanhas distantes
Mais nada
Só a natureza ilhada
Uma praça abandonada
Nem um banco,
Uma lâmpada sequer
Num poste mal torneado
Nem crianças traquinas
Nem um velho amuado
Nem um barquinho no lago
Ou um bêbado no tal
Poste desequilibrado
Como se o vento
Tivesse tudo levado
Não pus uma alma humana
Uma lembrança da vida malfada
Acho que nela retratei apenas
Minha’alma cansada. |
| O que se não alcança |
Paixão Noturna |
Se alguém ou algo aqui
Talvez sim ao abstrato amei
Nada é concreto de perene
Nada à disposição persiste
De algo sempre querido...
Toma a face da nossa afeição
Esse como amor, em cada instante
Se concretiza num empirismo
De cada situação,
Se materializando em certo alguém
Ou naquilo no momento cobiçado
Mas habita, em nós mesmos
O algo a ser, por fim, alcançado. |
Dissolveria-se a Lua
Sobre a superfície do mar?
Não só seu reflexo
É a própria que se espraia
Na paixão verde do escumar
Como não posso eu
Sem você restar
Quiçá sinta o mesmo
A áurea lua pelo mar
Ondeantes vagas
Ondeante choroso mar
Onde quer que vagues,
Quebrando sobre escumas
Ou com o vento a velejar,
Vadiando pelas praias morenas
Ou ao dourado sol a brilhar
Levarás também o luar. |
| Poderia ter sido |
Raios do nascer do dia |
Em meio a intensa neblina
Numa tarde apenas amena
Sem chuvas de ouro
Nem pó de estrelas
O rio como distante gemia
As cores se esmaeciam
Tudo transparência
Propicio a mais sentir
Esse imenso vazio
O vácuo do que se alcançaria
Se tivesse sido querido
Mesmo o estéreo
De soslaio saiu
O impossível evaporou
Quimeras – corri atrás
Do que não existia
Nada fiz – à toa
E os sonhos mil sumiram
Pelo tempo consumidos
Não devendo nem talvez
Terem sido concebidos
Adiante considerei:
Sou apenas a sombra
Do que poderia ter sido |
Longínqua vista
Longínquos verdes campos
Úmidos das celestes
Lágrimas matutinas
Nos quais cintilam
Raios da aurora
Naquela hora branca –
Como se espargia
A luz do dia!...
Em dolentes cores
E alegorias naturais
E os serenos
Em orvalhos convertidos
Refrescam ainda as margaridas
Docemente por acaso nascidas
Por aveludadas pétalas desciam
Em reflexos ditosos suavemente...
A terra umedeciam
Daquele cheiro perfumado
Dos dias chuvosos que inebriam
E nos fazem suspirar à brisa fria!
De sentimentos amorosos que floresce
À luz interior que nos ilumina. |