A DEUSA BRANCA, de Robert Graves, Editora Bertrand Brasil, foi publicada pela primeira vez em 1948. É um escrito fundamental para a teoria da literatura, para a história das religiões e para quem quiser reconsiderar suas certezas mitológicas Ocidentais, cristãs ou não, é também indispensável para aqueles que se interessam por esoterismo (no sentido etimológico da palavra, não do popularesco), e por simbolismo. Nessa obra ímpar, Robert Graves age como um arqueólogo de crenças e restaura os rudimentos perdidos e os princípios ativos da magia que governa os poetas, de quem iremos nos ocupar aqui. Sua argumentação parte de um acurado exame de dois poemas galenses do século XIII, Cad Goddeu e Hanes Taliesin, (A Batalha das Árvores e A Canção de Taliesin) nos quais ele encontra as chaves, genialmente ocultas, desse antigo mistério. Sua tese consiste em afirmar que a linguagem do mito poético difundido na antiguidade, pelo Mediterrâneo e pelo norte da Europa, era uma linguagem mágica vinculada a cerimônias religiosas e popular, em honra a deusa lua ou Musa, algumas das quais datavam da Idade da Pedra, a qual permanece como linguagem da verdadeira poesia. “Verdadeira” no sentido saudosista moderno de “um original que não pode ser melhorado e não de um substituto sintético”(grifo do autor). A referida linguagem foi adulterada na tardia era minóica, quando invasores da Ásia Central começaram a substituir as instituições matrilineares pelas patrilineares e a remodelar ou refutar os mitos a fim de justificar as transformações sociais. Foi quando surgiram os filósofos gregos, fortes opositores da poesia mágica, posto que essa ameaçava sua nova religião da lógica. Sob a influência deles, uma linguagem poética racional (a linguagem clássica) foi elaborada em honra a seu patrono Apolo. Ela se impôs ao mundo como a última palavra em termos de iluminação espiritual. Foi dessa época que tal visão praticamente prevaleceu nas escolas e universidades, onde, se estudam os mitos como uma relíquia esquisita da infância da humanidade. O fato é que na época de Sócrates, o sentido da maioria dos mitos pertencente ao período anterior foi esquecido, ou guardado como segredo religioso. O Estudo da mitologia, como é colocado e discutido em A DEUSA BRANCA, está fundamentado sobre a ciência do conhecimento das árvores e na observação da vida campestre nas diferentes estações.
É de lamentar que, apesar do forte elemento mítico que existe no cristianismo, a palavra “mítico” tenha adquirido o significado de fantasioso, absurdo, não-histórico, pois a fantasia atuou de modo mínimo no desenvolvimento dos mitos gregos, latinos, palestinos e celtas. Quanto a estes últimos, até que os trovadores franco-normandos os convertessem em irresponsáveis romances de cavalaria. Todos os mitos são sérios registros de costumes ou de acontecimentos, antigos, tão confiáveis quanto a história, uma vez que sua linguagem seja entendida e que sejam levados em conta erros de transcrição, mal entendidos sobre rituais obsoletos e modificações propositais introduzidas por motivos morais ou políticos. Alguns mitos sobreviveram em formas mais puras que outras. Talvez a maior dificuldade em resolver os complexos problemas mitológicos consista no seguinte: “Os deuses conquistadores títulos usurpam / Daqueles inimigos que eles subjugam (...). Os poderes dos deuses eram continuamente redefinidos. Apolo, o deus grego, por exemplo, parece ter começado sua carreira como o demônio de uma irmandade do camundongo numa Europa totemista pré-ariana: gradualmente ascendeu à categoria divina por meio de armas, de chantagem e fraudes, até que se tornou patrono da música, da poesia, das artes e, finalmente, pelo menos em algumas regiões, depôs seu pai Zeus, da soberania do universo, identificando-se com Belinos, o deus intelectual da luz. Iahwe, divindade dos judeus, teve uma história ainda mais complexa. Qual a utilidade da poesia hoje? Esta é uma questão não menos pungente porque a levantam com insolência tantos ignorantes ou porque a respondam tantos tolos. A função da poesia é a invocação religiosa da Musa: seu uso é a experiência e uma mistura de exaltação e horror que a presença dela excita. Mas “hoje”? A função e o uso permanecem os mesmos, apenas sua aplicação se alterou. Outrora, este fora um alerta ao homem de que deveria viver em harmonia com a família das criaturas viventes dentre as quais ele nasceu, por obediência aos desejos da dona da casa; atualmente, trata-se de um lembrete que desprezou o aviso e virou a casa de cabeça para baixo por meio de voluntariosas experiências na filosofia, na ciência e na indústria, acarretando ruína para si e para sua família. O termo hoje significa uma civilização na qual os principais símbolos da poesia estão desonrados. Nela, a serpente, o leão e a águia pertencem, ao circo; o touro, o salmão e o javali, à fábrica de enlatados; os cavalos de corrida e os galgos, às pistas de apostas; as árvores sagradas às serrarias. Na atual civilização, a Lua é desprezada como satélite apagado da Terra e a mulher, considerada como “contingente auxiliar do estado”. Nela, o dinheiro compra quase qualquer coisa, exceto a verdade, e qualquer um, exceto o poeta possuído pela verdade.
É um paradoxo a poesia sobreviver obstinada na atual fase da civilização. Embora reconhecida como profissão erudita, é a única para cujo estudo as academias não estão abertas e para a qual não existe um padrão de medida, ainda que tosco, com trava. Na verdade só o minério de ouro pode ser transformado em ouro. Apenas a poesia torna-se poemas. A DEUSA BRANCA trata da redescoberta de rudimentos perdidos e de princípios ativos daquela magia poética que os governa, a qual se possa avaliar a perícia técnica. “Os poetas nascem, não são feitos”. A dedução esperada disto revela que a natureza da poesia é demasiadamente misteriosa para suportar um exame. É um mistério ainda maior do que a realeza. Reis tanto são feitos como nascem e as falas de um rei morto pouco pesam, quer no púlpito, quer na opinião pública. O paradoxo pode ser explicado pelo grande prestígio oficial que ainda , de algum modo, adere ao nome do poeta, como ao nome de um rei, e pelo sentimento de que a poesia , como desafiante da análise científica, deva estar enraizada em algum tipo de magia que, por sua vez, seja desonrosa. Na verdade, o conhecimento poético está, em última instância, fundado em princípios mágicos, cujos rudimentos formam um segredo religioso fechado ao longo dos séculos, os quais, finalmente, foram adulterados, desacreditados e esquecidos. Só por meio de raros acidentes de regressão espiritual, os poetas restauram a potência mágica de seus versos, no mesmo sentido de antigamente. A prática contemporânea da escrita de poemas relembraria as experiências fantásticas, e fracassadas, dos alquimistas medievais ao tentar converter metal vil em ouro puro, se não fosse pelo detalhe de que o alquimista podia reconhecer o ouro puro quando o encontrava. Na verdade só o minério de ouro pode ser transformado em ouro. Apenas a poesia torna-se poemas. A DEUSA BRANCA trata da redescoberta de rudimentos perdidos e de princípios ativos daquela magia poética que os governa e que fazia o encanto de bardos e menestréis.
Agora é que a porca torce o rabo, porque vou tentar resumir aqui, em poucas palavras, a diferença entre bardo e menestrel. Na Idade Média os bardos, ou mestres de poesia, tinham uma tradição profissional, incorporados num corpo de poemas que eram memorizados, palavra por palavra e cuidadosamente medidos, e assim eram transmitidos àqueles alunos interessados em estudar poesia. Quando os poetas do País de Gales foram convertidos ao cristianismo ortodoxo, século VIII, a tradição deles se fossilizou. Embora um alto grau de habilidade técnica continuasse sendo exigido dos mestres poetas, cobrava-se-lhes que evitassem aquilo que a igreja considerava como “falso” ou seja, o perigoso exercício da imaginação poética, (grifo meu). Os mestres da poesia tornaram-se funcionários da corte. E seu primeiro dever era agradar a Deus e o segundo, ao rei ou ao príncipe que lhe ofereciam sombra e água fresca. A associação dos menestréis, cujo status não era regido pela legislação, nem possuíam entre seus associados bispos ou trovadores do Estado, eram os encarregados de narrar lendas populares. Tinham a liberdade de escolher palavras, os temas e a métrica que quisessem. Ostentavam a aura de muita credibilidade popular, quanto a seus dons proféticos e divinatórios. Os trovadores iam de vilarejo em vilarejo entretendo o povo. Foram eles que mantiveram acesa uma surpreendente tradição literária antiga, na forma de lendas populares, que preservaram mitos que remontam a Idade da Pedra. Seus princípios poéticos estão reunidos na Tríade, que consta do O LIVRO VERMELHO DE HERGEST: Três coisas enriquecem o poeta / Mitos, força poética, um suprimento de versos antigos.
No inicio as duas escolas poéticas não tiveram contato. Era proibido aos “barrigudos” e bem vestidos bardos de corte comporem no estilo dos menestréis. Eles eram castigados se visitassem casas que não fossem da nobreza. Os magros e maltrapilhos menestréis não tinham o privilégio de apresentar-se em corte alguma, nem estavam preparados para empregar as complicadas formas poéticas exigidas dos bardos cortesãos. No século XIII o poeta Davyd ap Gwilyn, obteve a sanção de uma nova forma, chamada Kywyd, na qual se unem a poesia de corte e aquela dos menestréis. Mas a discussão não terminou aí. Até hoje ainda se discute que tema é poético e qual não é, exceto pelo efeito que possa causar no leitor.
Os antigos celtas, com cuidado distinguiram o poeta originalmente, sacerdote e juiz com personalidade sagrada, do simples cantor andarilho. Em irlandês, era denominado fili, que significava vidente. Em galês se chamava derwydd, ou seja, carvalho vidente, de onde se originou o termo druida. Até mesmo os reis estavam sob sua tutela moral. Quando dois exércitos iam bater-se, os poetas, de ambos os lados, retiravam-se juntos para uma colina, e lá, judiciosamente, discutiam a batalha, e os contendores aceitavam a versão da luta, com reverência e deleite, se ela merecesse ser comemorada em um poema. A palavra bardo que, durante a Idade Média, no País de Gales, equivalia a de mestre em poesia, na Irlanda tinha um significado diverso, designando um poeta inferior que não havia passado pelos “sete degraus da sabedoria”, prova que o convertia num ollave depois de penoso percurso de doze anos. Um bardo era alguém que não tinha instrução legal, além de sua própria inteligência. Contudo, no posterior Book of Ollaves, do século XIV, se diz claramente que o fato de ter alcançado o sétimo ano de sua educação poética dava direito ao estudante de receber a dignidade de bacharel na arte do bardismo. Significava que havia memorizado apenas metade das lendas e poemas prescritos, que não havia estudado a prosódia avançada e composição métrica, além de ser deficiente no conhecimento do seu antigo idioma. Tinha que conhecer a história e o valor mítico de cada palavra que empregava e não tinha nenhuma preocupação com aquilo que o homem comum pensava de sua obra. Ensinava apenas o julgamento de seus colegas que raramente se encontravam sem que se produzisse entre eles vivo intercâmbio de espírito poético com improvisação de versos. (Vide cantadores do nordeste). Sua educação, muito abrangente, incluía história, música, direito, ciência e adivinhação.
Ezra Pound, um dos mais discutidos e importantes poetas do século XX, cujos estudos críticos formam o corpo de crítica menos dispensável do nosso tempo, chamava os poetas, e os artistas de uma maneira geral, de “Antenas da raça”, e são classificados por ele na seguinte categoria: 1° - Inventores: Homens que descobriram um novo processo, ou cuja obra nos dá o primeiro exemplo conhecido de um processo; 2° - Mestres: Homens que combinaram um certo número de tais processos e que os usaram tão bem ou melhor que os inventores; 3° - Diluidores: Homens que vieram depois das duas primeiras espécies e não foram capazes de realizar tão bem um trabalho; 4° - Bons poetas sem qualidades salientes (a classe que produz a maior parte do que se escreve). Homens que fazem mais ou menos boa obra em mais ou menos bom estilo do período, como os sonetistas do tempo de Dante; 5°- Belas Letras: Os que realmente não inventaram nada, mas que realmente se especializaram numa parte particular de escrever; 6° - Lançadores de moda. Aqueles cuja onda se mantém por alguns séculos ou algumas décadas e de repente entram em recesso, deixando as coisas como estavam. As duas primeiras categorias são, segundo Ezra Pound as mais definidas e a familiaridade com elas torna possível avaliar quase qualquer tipo de livro à primeira vista.
Sylvio Adalberto |