A Leila Seabra
Andei sobre brasas e na maioria das vezes
achei o que me queimava.
Cobrei de mim o que não devia
falei o que não gostaria de ouvir
e ouvi o que gostaria de ter dito.
Nem toda palavra que sai da boca do homem
quer dizer que pertença a esse homem.
Por onde andei encontrei muita palavra sem dono
em bocas que procuravam caminhos.
Quando encontrei uma fonte fazendo água
procurei a sombra que deveria estar por perto.
Descobri que é bom deitar na sombra alheia.
A idade me ensinou que não existe
fonte sem sombra
nem sede que não encontre sua água.
Todas às vezes que quis fazer poesia
não saiu nada que prestasse.
Mas quando calei a boca
um mundo de poesia jorrou de meu silêncio.
O tempo me ensinou paciência
e paciência é a matéria
com a qual a eternidade é construída.
Nem por isso sou sábio.
Sábio é o velho cão de beira de estrada,
sempre na expectativa de algum tipo de migalha.
Ele não fala.
Mas a angústia que exibe nos olhos
mostra vestígios fundos
de todas as agonias humanas.
Enquanto escrevo
vou ouvindo minhas ressonâncias no que penso.
Só uso as palavras para organizar esse silêncio.
Não consigo por no papel
o que sinto do jeito que penso que sinto.
Tem expressões que nem quem sabe consegue traduzir.
Por isso é que tenho essa dor de cotovelo encruada,
que como esse poema, não serve pra porra nenhuma.
Mas dói pra cacete na hora que não precisa!
Sylvio Adalberto |