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INÍCIO - ACADÊMICOS - ACADÊMICOS EMÉRITOS - SYLVIO ADALBERTO- MITOLOGIA RELIGIÃO E POESIA
SYLVIO ADALBERTO


Petropolitano, poeta e contista, Presidente da Academia Brasileira de Poesia; Membro Titular da Cadeira 8 da Academia Petropolitana de Letras. Faz parte do conselho editorial do jornal Poiésis - Literatura, Pensamento & Arte. Por muitos anos colaborou na imprensa petropoliatana. Autor do livro Silêncio Alucinado agraciado com o prêmio Carauta de Souza da Academia Petropolitana de Letras, 1993. E-mail: sylvioadalberto@hotmail.com

Site: http://www.avesdamataatlantica.com.br

POEMÍNIMOS ILUSTRADOS
O POETA CRUZA O ESPAÇO
CANTO INÚTIL
OS GALOS DO JOÃO
A POESIA COMO COMUNICAÇÃO
CANTARILHO
COMUNICAÇÃO MODERNA
MITOLOGIA, RELIGIÃO E POESIA
O DEVER E O HAVER
PALAVRAS ESSAS
PARA QUE SERVE A POESIA
QUANDO EU NASCI
INVENÇÃO TEMPO
O HOMEM QUE PINTAVA GIRASSÓIS

MITOLOGIA, RELIGIÃO E POESIA

Todos os mitos são sérios registros de costumes ou de acontecimentos. - O conhecimento poético está fundado em princípios mágicos, cujos rudimentos formam um segredo religioso, que ao longo dos séculos foram adulterados, desacreditados e esquecidos. (Robert Graves em A Deusa Branca).

Mitologia é o sistema dos sonhos primitivos com que o inconsciente representa a natureza. O mito e o fato são coisas idênticas vistos por maneiras diversas. A mitologia nos seus sistemas contém o temperamento, o caráter ou o gênio da raça que a inventou. Linguagem sem palavras, escrita sem letras. O nosso tempo, com todo o seu saber não conseguiu despir os mitos do seu traje histórico. Cada raça tem sua mitologia. A alma íntima, ou expressão sintética em que se encontram fundidas todas as faces e aspectos do gênio de um povo. A mitologia primitiva é religiosa, porque para a imaginação inconsciente o Universo é um mistério, o mundo interior animizado produz as teogonias cósmicas. Interrogando seus sonhos ou as visões da noite o espírito primitivo vê-se assombrado por imenso mundo desconhecido que o aterroriza e espanta.Desse medo, gerado pelo instinto do conhecimento, nascem os mitos, raiz da religião. Por isso não existe raça sem religião.Sem mitos os homens seriam mudos. A primeira palavra é contemporânea do primeiro mito. È da natureza humana falar, representar as visões da imaginação e as impressões dos sentidos (inspiração). Em húngaro, refere-se Goldziher (Mitologia Hebraica, 1877), alvorada diz-se hajnal, cuja raiz é ho, que significa neve. Portanto alvorada quer dizer brancura, e a palavra hajnal pir, significando rosado-da-aurora, traduzida literalmente dá vermelho-do-branco. Esse exemplo mostra como na linguagem primitiva, a brancura, a luz e o vermelho confundem-se numa expressão comum. De brancura se fez à aurora. A palavra para denominar um objeto, obedece ao movimento do pensamento tendendo a dar realidade a uma visão. Para a imaginação primitiva não existe distinção entre o objeto e a sua imagem, e tanto é real uma coisa como a palavra ou o signo que a representa.
No animismo estão os mitos da criação voluntária. No naturalismo e no idealismo, estão vivos os mitos animistas. A série desses três momentos mostra na mitologia a unidade moral da humanidade. Nessa sucessão, grosso modo, do selvagem para o bárbaro e para o civilizado, observa-se uma evolução de capacidade mental. A imaginação inventa a alma, para inventar a capacidade criadora já é preciso um vislumbre de percepções cosmogônicas e morais, e para conceber a substância é preciso uma intuição aguda da essência das coisas. Onde termina a mitologia começa a concepção religiosa de um mundo povoado por deuses que o governam. O mito acaba quando as figuras míticas são transformadas em deuses ou heróis. O mito acaba quando se faz deus. O deus acaba quando se faz homem, sombra que aterrorizou o selvagem, enlouqueceu o bárbaro e virou poesia épica no abismo puro do pensamento do homem culto.

O mundo é uma visão. A vida uma alucinação sem finalidade e nós acreditamos em todas as invenções. O gênio é uma loucura. A humanidade atestou sua grandeza numa doença chamada mitologia. A mente selvagem descreve, não explica. Não existem cosmogonias onde haja apenas representação. Na linguagem primitiva, alma quer dizer sombra. O corpo projeta uma imagem obscura em que se reproduz. Na palidez da noite ou ao clarão da lua (A Deusa Branca), as sombras são fantásticas. A confusão do objeto com a imagem dá individualidade a sombra e é essa sombra que fala e vive nos sonhos. Na imaginação primitiva, confundem-se silenciosamente fenômenos do mundo externo e do mundo interno. A alma é a imagem das coisas e quer dizer sombra, em quase todos os idiomas primitivos, e essa sombra é a que fala e vive nos sonhos, e as sombras são imagens produzidas espontaneamente. E a alma sendo sombra é também espírito e concebida a alma tudo passa a ser animizado. Se a alma é vida, tudo que vive tem alma, e assim a imaginação humana criou um outro mundo de sombras e imagens, mundo mitológico, ainda, existente, até no seu tipo selvagem ou primitivo.

A morte é a chave do enigma das coisas e o mito dos mitos. O cadáver sonha, a sombra viaja e a alma foge para habitar regiões desconhecidas dos países fantásticos. O homem se sente duplo, como a realidade e como a alma, o mundo parece um duplo de corpos vivos e almas errantes em busca de moradia. Quando alguém morre, sua alma revive na criança que nasce. A idéia da imortalidade enraizada no pensamento humano surge como embrião nos mitos animistas primitivos. Para eles, quem morre, ressuscita. A essência do medo é o desconhecido. Do medo dos homens primitivos criaram-se os mitos. A noite é povoada de sombras, o bosque murmura e geme. E quando a lua espalha sua luz sobre as árvores sacudidas pelos ventos, parece que a floresta vive com olhos acesos, gemidos e murmúrios. Todos nós já sentimos alguma vez os deuses dos bosques nas suas danças ou o diabo com suas feiticeiras num Sabá. (Vide PARA QUE SERVE A POESIA, em número anterior desse Poiésis). Nascidos em outros tempos, não fizemos dessas visões, mitos, mas o medo que nos fez tremer, foi a impressão que levou o homem primitivo a cair de joelhos adorando um deus. O corpo da mitologia está formado, exprimindo primeiro a expansão da inteligência, depois os movimentos do sentimento, sob uma forma cultural. Assim a poesia é um produto da imaginação espontânea, e do corpo de sentimentos que esses produtos determinam, invenção somada ao efeito. O gênio dos povos faz com que predomine o elemento cósmico na esfera subjetiva das várias mitologias, assim também como os elementos a que chamamos psíquicos.

Se os mitos nasceram principalmente nos bosques, berço dos medos, as assombrações, como a inspiração, só aparecem ao homem só. Sozinho, á noite, olhando o céu, ou a mata inexplorada do seu interior é que a inspiração, ou as assombrações se manifesta. À medida que as sociedades passavam de um estado selvagem ou bárbaro para um estado etnicamente culto, a soberania da lua foi sendo substituída pelo sol.A lua preside a vida moral selvagem, as árvores, as pedras as plantas e animais: paganismo. Das almas errantes, que vagam no império das sombras, nasce o culto dos mortos. A mitologia, em cujo princípio está a religião, quer a das visões, dos sonhos ou das alucinações, nasce do estado mental nebuloso do homem primitivo, da confusão do objeto com a impressão que esse objeto provoca no cérebro. Nesse modo de proceder, que gera os mitos, está a origem do rudimento culto a que se chama fetichismo. A lua (A Deusa Branca) é o fetiche supremo, transição para a mitologia solar. O culto lunar é o primitivo e o solar é o posterior. O mundo religioso do sol começa com a civilização, a lua, como todos os vencidos, desce á condição feminina maligna. As percepções que se tornaram seres nas condições de deuses, fazem-se homens divinos, ao mesmo tempo em que a unificação, progredindo por obediência a uma exigência do pensamento amadurecido, reúne todos (funde) os deuses em um único deus, que segue sendo um dos aspectos da inconsciência.

Para um entendimento mais abrangente ler: MITOS DA RELIGIÃO, Oliveira Martins (1845-1894, Portugal) – Ed Madras – SP – 2004 – A DEUSA BRANCA, título original: The White Goddess – (livro de cabeceira de Jorge Luis Borges), Robert Graves, (1895-1985) – Ed Bertrand Brasil RJ- 2003.

Sylvio Adalberto