Para Reynaldo Valinho Alvarez
Meu avô quis fazer um poema.
Só tinha medo
de não saber empilhar as palavras
fluentemente.
Falava muito, ele, o meu avô.
Um dia perguntou
se já haviam feito
a reforma acrossémica na gramática.
Era um latifundiário das palavras
o meu avô,
tinha um dicionário
escandido embaixo da cama.
Um dia, tropeçou num pentâmetro
e quebrou o vilancete
bem ali, perto do ditirambo.
Falam que quebrou por que caiu,
mas, não, caiu porque quebrou.
Não por isso meu avô foi um poeta
de pés quebrados,
era de anáforas, epânados e redondilhas.
Babava um pouco quando vinham
saias, pernas e certas insinuações mais fundas.
Esse avô espanhol, vindo de barcelonge,
quando encarou um médico, quis saber:
(Pura influência da Omídia, penso eu!)
- Doutor devo fazer sexo oral ou digital?
O médico, perplexo:
-Analógico, lógico! |