As tuas mãos morenas,
com longos dedos, esguias,
falam uma linguagem plena
de adeuses, de melodias.
Com a leveza de uma pena
transmitem um idioma mudo.
No silêncio de um poema,
sem palavras, dizem tudo.
O SACROSSANTO RITO DE TE DESPIRES
Valho-me dos cabelos brancos
e dos anos da serenidade
e não mais te ajudarei
no bailado denso de afetividade
de tirar a tua roupa.
Observar-te-ei
a uma distância pouca.
Quero reter em meu olhar tua nudez
para me convencer,
a cada vez,
que o corpo da mulher amada
não importa como seja feita -
é sempre para quem ama
o da Vênus mais perfeita.
POEMA DO TEMPO
O tempo passa.
Frase sem sentido.
O tempo não passa.
O tempo é repetido.
O tempo se renova
em cada dia findo.
O tempo não tem cova.
Segue, apenas, indo e vindo.
Nós é que passamos.
O tempo apenas corre.
Por mais que não queiramos,
a verdade nós sabemos:
o tempo não morre,
nós é que morremos. |
O cabelo embranquece,
a memória falha, esquece,
aparece o cansaço
o peito ofegante.
Reduzem-se os passos,
a insônia é constante.
A vista se turva,
diminui a audição,
a coluna se curva,
dispara a pressão.
Os desejos se espaçam
mas não somem não!
As lembranças perpassam,
o futuro é incerto,
o final fica perto,
mas os sonhos não se vão!
A vida se escorre,
mas a ternura persiste
e se o amor nunca morre,
a poesia resiste
e sobrevive ao caixão.
De "Versos da maturidade" – versos contemporâneos
Agradecimento
Agradeço,
com lembrança comovida,
a todas as mulheres
que passaram em minha vida.
Às que amei com paixão
que me deixaram feridas,
às que passaram discretas
quase não pressentidas,
às que se deram com ardor
sem ter retribuição
a todas, a gratidão
pela lição aprendida.
Se pintassem o meu retrato,
meu retrato emocional,
todas teriam o seu traço
na minha imagem final.
Todas contribuíram
pro homem maduro que sou,
todas me prepararam,
todas guiaram meus passos
pro grande amor que chegou.
De "Versos da maturidade" – versos contemporâneos |