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INÍCIO - ACADÊMICOS - ACADÊMICOS TITULARES - GERSON VALLE - POEMAS
GERSON VALLE - CADEIRA 31 - PATRONO: MURILLO CABRAL FILHO

BIOGRAFIA
POEMAS
PALESTRAS
INÍCIO
 
CANTIGA ANTIGA CANTINELA

Caminha, caminha, sozinha entre as vinhas
a moça que eu quero e não sei se ela é minha.
Mas minha é a vinha formada de dia
com cachos de suco maduro dos sonhos

caídos da noite de orvalhos, serenos,
em gotas de gostos tão gratos à boca.
Caminha, caminha, vermelha alegria
do sonho mais pleno tirado das vinhas...

E ainda caminha, caminha, sozinha,
a moça que eu quero e não sei se ela é minha.
Mas sempre me vem como sempre me vinha
das vinhas o vinho fazer companhia.

A minha mocinha sozinha entre as vinhas
se torna velhinha e ainda sozinha;
a vida envelhece a mulher, de verdade,
e o vinho prossegue em barris sem saudade.

Enquanto caminha sozinha entre as vinhas
a imagem da moça no mundo da roça,
sem nunca saber se, de fato, ela é minha,
recebo das vinhas o dom da alegria!

(Poema-letra feito na prosódia para cantar a melodia do 3º movimento de Instantes III de Ernani Aguiar, e por ele passado para coro)

Na várzea o vento vai varrendo e carregando
antigos cantos de tristeza ali caídos.
Não sei de onde eles vieram, se perdidos,
ou se trazidos pelo mesmo vento brando.

Os ventos, cúmplices dos rasgos e dos gritos,
nessa paisagem que adormece docemente,
são os tecidos estampando nossas mentes
feitos de linhas coloridas e em conflito.

O canto é o vento errante forte e frio,
toque transformado de uma lágrima a rolar.
Quando um elemento vira noutro - água em ar?
é quando o nosso pensamento corre em rio.

Varre o vento a voz da mata,
som aflito de outras eras,
vindo em eco, dor deveras
que em sussurro se resgata.

Sussurra a mata o que sobrou do triste canto,
e no sussurro tal tristeza vai embora
saindo a dor jogada fora pelo pranto,
e se adentrando o nosso amor de puro encanto.

CAPUZ OS LEVES PASSOS DE EVA NA APARENTE MORTE DO TEMPO
Às vezes,
passeando no tempo
de meus jardins anacrônicos,
avisto uma gata miando
no mel da voz e postura.
Seu passo algodoado
parece coberto por capa e capuz,
protegida da violência
de nossas cidades densas.
Seus olhos observam perigos externos,
mas quieta e meiga
se deixa
roçar entre flores fora do tempo,
para onde eu também me transponho,
sem que o resto do mundo me tropece...

Guardiã da noite avisa
aos amantes nela escondidos
o fim do momento envolvente
na cama onde acolhem-se em chamas:
Cuidado! Vai raiar o dia!
- Ou não seria a cotovia?

A tarde também se despede
com pena de largar a lida
de todos os laços que a prendem
à lucidez, aos poucos dispersa
rumo ao desconhecido sereno
como se retorno não tendo.

Na aparente morte do tempo,
Eva, em seus passos, levemente
pisa o cenário idealizado
em torno do amante, semente.
Se despétala, desfalece
toda vez que se faz em taça
e se entrega toda...

FALA DAS MELODIAS REFLEXO

Chegávamos ao ponto
de falarmos por melodias,
enquanto nossos olhares
davam-se as mãos, percorrendo
um possível horizonte de encontros.
Que palavras haveriam de se formar
na dimensão pura de nosso olhar?
Escapa a emoção dos momentos
forçando-nos a procurá-los
por cima dos armários,
pelas penas dos pássaros que passam,
ou condensá-los na forma de poesia,
que não devia estar aqui,
ser escrita ou pensada,
por ser poesia em si,
e mais nada.

Mas, não querendo esquecer a melodia,
escrevo e reescrevo a mesma poesia,
com medo que ela caia e se esvaia
como as folhas no outono,
e assim a retenho guardada
para os possíveis tempos mais duros
imprevisíveis do futuro.

Foi pensando em você que eu escrevi
a letra da canção sentimental
que começa e termina tal e qual
este mesmo soneto escrito aqui.

Retive nas palavras o que vi
da imagem de expressão dimensional,
além de todo bem e todo mal,
você por mim pensada ou que é em si.

Não sei se o canto é só um eco brando
de seu corpo em mim, vindo e se formando
enquanto vou compondo o seu reflexo.

Talvez seja você que nasça quando
projeto o pensamento e vou voando...
Mas, pensando em você tudo fez nexo

SOMBRA DO AMOR CORO GREGO

(Soneto com contra-soneto)

E sempre à luz da lua ela surgia,
trazendo-me no olhar seus pensamentos,
e eu a via e eu a tinha internamente,
tal como quem namora em hora certa...

Não há porque buscar outros momentos
nos dias alternados pela lua.
Somente havia o instante em que ela vinha,
o resto sendo apenas meus tormentos.

Não sei se ela dormia ou que fazia
na ausência prolongada de seu dia.
Quem sabe ela seria um elemento?

Quem sabe, à luz do dia, inexistia?
Quem sabe a claridade desse morte
àquele corpo vago, esguio e nobre?

Quem sabe ela não fosse só a sombra
dos galhos encostados sobre o muro
levados para o fundo à luz da lua?

Ela vinha e vagava ao ar noturno...
Soprava-me de cima algum intento
e andava, como a brisa, em passo lento...

Se acaso ela encostasse com seu corpo
no olhar que eu lhe lançava sob a lua,
então eu saberia se era viva
aquela imagem pálida e altiva...

Mas nada ela mudava com seu vulto,
passando o tempo em puro encantamento,
enquanto eu via um fluido olhar de amante
dentre o silêncio, só, no altar do vento!

Quando partiu
as vozes ainda tentaram atrapalhar seus sentimentos,
indefinidas, distantes,
mas fortes no todo da dúvida dos homens:

- Não parta que tudo que importa
já está decidido,
a porta da vida não tem outro lado,
o sentido de tudo permanece guardado.

Ainda por cima a madrugada indistinta
tolhia-lhe as árvores
e pássaros incógnitos piavam tristes.
Ao longe as badaladas chegavam
esmaecidas, perdidas de significado.
Já não se podia dizer que os sinos dobravam edificantes, claros.
Tornaram-se toscos ecos da madrugada
caídos perdidos no espaço do além.

- Não parta que o parto da vida
é aqui que se dá.
Para lá não há nada.
Somente a escuridão do dia ainda não nascido.
Somente o perigo de alguns bichos famintos.
Somente o precipício doido das encostas sem dono.

Era preciso fingir não ouvir o tom sensato
dos vizinhos solícitos ou invejosos,
dos párias acostumados aos usos repetidos,
dos pobres carentes de opiniões,
dos ricos acastelados nas próprias provisões.
Era preciso romper a grande ternura protetora
dos hábitos e paixões já conquistadas,
e se voltar para o desconhecido promissor
de novas vantagens incalculáveis
a romper com o sol que tudo invade
lá fora da casa, lá fora do cerco,
lá fora dos porões dos mantimentos previsíveis.

- Não parta que o mundo
encontrado e guardado nos vícios e outros riscos
está com raiva e agride
qualquer infidelidade!

Mas, aí era tarde.
As vozes do coro já estavam distantes,
do outro lado dos passos..