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| CANTIGA ANTIGA |
CANTINELA |
Caminha, caminha, sozinha entre as vinhas
a moça que eu quero e não sei se ela é minha.
Mas minha é a vinha formada de dia
com cachos de suco maduro dos sonhos
caídos da noite de orvalhos, serenos,
em gotas de gostos tão gratos à boca.
Caminha, caminha, vermelha alegria
do sonho mais pleno tirado das vinhas...
E ainda caminha, caminha, sozinha,
a moça que eu quero e não sei se ela é minha.
Mas sempre me vem como sempre me vinha
das vinhas o vinho fazer companhia.
A minha mocinha sozinha entre as vinhas
se torna velhinha e ainda sozinha;
a vida envelhece a mulher, de verdade,
e o vinho prossegue em barris sem saudade.
Enquanto caminha sozinha entre as vinhas
a imagem da moça no mundo da roça,
sem nunca saber se, de fato, ela é minha,
recebo das vinhas o dom da alegria! |
(Poema-letra feito na prosódia para cantar a melodia do 3º movimento de Instantes III de Ernani Aguiar, e por ele passado para coro)
Na várzea o vento vai varrendo e carregando
antigos cantos de tristeza ali caídos.
Não sei de onde eles vieram, se perdidos,
ou se trazidos pelo mesmo vento brando.
Os ventos, cúmplices dos rasgos e dos gritos,
nessa paisagem que adormece docemente,
são os tecidos estampando nossas mentes
feitos de linhas coloridas e em conflito.
O canto é o vento errante forte e frio,
toque transformado de uma lágrima a rolar.
Quando um elemento vira noutro - água em ar?
é quando o nosso pensamento corre em rio.
Varre o vento a voz da mata,
som aflito de outras eras,
vindo em eco, dor deveras
que em sussurro se resgata.
Sussurra a mata o que sobrou do triste canto,
e no sussurro tal tristeza vai embora
saindo a dor jogada fora pelo pranto,
e se adentrando o nosso amor de puro encanto. |
| CAPUZ |
OS LEVES PASSOS DE EVA NA APARENTE MORTE DO TEMPO |
Às vezes,
passeando no tempo
de meus jardins anacrônicos,
avisto uma gata miando
no mel da voz e postura.
Seu passo algodoado
parece coberto por capa e capuz,
protegida da violência
de nossas cidades densas.
Seus olhos observam perigos externos,
mas quieta e meiga
se deixa
roçar entre flores fora do tempo,
para onde eu também me transponho,
sem que o resto do mundo me tropece... |
Guardiã da noite avisa
aos amantes nela escondidos
o fim do momento envolvente
na cama onde acolhem-se em chamas:
Cuidado! Vai raiar o dia!
- Ou não seria a cotovia?
A tarde também se despede
com pena de largar a lida
de todos os laços que a prendem
à lucidez, aos poucos dispersa
rumo ao desconhecido sereno
como se retorno não tendo.
Na aparente morte do tempo,
Eva, em seus passos, levemente
pisa o cenário idealizado
em torno do amante, semente.
Se despétala, desfalece
toda vez que se faz em taça
e se entrega toda... |
| FALA DAS MELODIAS |
REFLEXO |
Chegávamos ao ponto
de falarmos por melodias,
enquanto nossos olhares
davam-se as mãos, percorrendo
um possível horizonte de encontros.
Que palavras haveriam de se formar
na dimensão pura de nosso olhar?
Escapa a emoção dos momentos
forçando-nos a procurá-los
por cima dos armários,
pelas penas dos pássaros que passam,
ou condensá-los na forma de poesia,
que não devia estar aqui,
ser escrita ou pensada,
por ser poesia em si,
e mais nada.
Mas, não querendo esquecer a melodia,
escrevo e reescrevo a mesma poesia,
com medo que ela caia e se esvaia
como as folhas no outono,
e assim a retenho guardada
para os possíveis tempos mais duros
imprevisíveis do futuro.
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Foi pensando em você que eu escrevi
a letra da canção sentimental
que começa e termina tal e qual
este mesmo soneto escrito aqui.
Retive nas palavras o que vi
da imagem de expressão dimensional,
além de todo bem e todo mal,
você por mim pensada ou que é em si.
Não sei se o canto é só um eco brando
de seu corpo em mim, vindo e se formando
enquanto vou compondo o seu reflexo.
Talvez seja você que nasça quando
projeto o pensamento e vou voando...
Mas, pensando em você tudo fez nexo |
| SOMBRA DO AMOR |
CORO GREGO |
(Soneto com contra-soneto)
E sempre à luz da lua ela surgia,
trazendo-me no olhar seus pensamentos,
e eu a via e eu a tinha internamente,
tal como quem namora em hora certa...
Não há porque buscar outros momentos
nos dias alternados pela lua.
Somente havia o instante em que ela vinha,
o resto sendo apenas meus tormentos.
Não sei se ela dormia ou que fazia
na ausência prolongada de seu dia.
Quem sabe ela seria um elemento?
Quem sabe, à luz do dia, inexistia?
Quem sabe a claridade desse morte
àquele corpo vago, esguio e nobre?
Quem sabe ela não fosse só a sombra
dos galhos encostados sobre o muro
levados para o fundo à luz da lua?
Ela vinha e vagava ao ar noturno...
Soprava-me de cima algum intento
e andava, como a brisa, em passo lento...
Se acaso ela encostasse com seu corpo
no olhar que eu lhe lançava sob a lua,
então eu saberia se era viva
aquela imagem pálida e altiva...
Mas nada ela mudava com seu vulto,
passando o tempo em puro encantamento,
enquanto eu via um fluido olhar de amante
dentre o silêncio, só, no altar do vento! |
Quando partiu
as vozes ainda tentaram atrapalhar seus sentimentos,
indefinidas, distantes,
mas fortes no todo da dúvida dos homens:
- Não parta que tudo que importa
já está decidido,
a porta da vida não tem outro lado,
o sentido de tudo permanece guardado.
Ainda por cima a madrugada indistinta
tolhia-lhe as árvores
e pássaros incógnitos piavam tristes.
Ao longe as badaladas chegavam
esmaecidas, perdidas de significado.
Já não se podia dizer que os sinos dobravam edificantes, claros.
Tornaram-se toscos ecos da madrugada
caídos perdidos no espaço do além.
- Não parta que o parto da vida
é aqui que se dá.
Para lá não há nada.
Somente a escuridão do dia ainda não nascido.
Somente o perigo de alguns bichos famintos.
Somente o precipício doido das encostas sem dono.
Era preciso fingir não ouvir o tom sensato
dos vizinhos solícitos ou invejosos,
dos párias acostumados aos usos repetidos,
dos pobres carentes de opiniões,
dos ricos acastelados nas próprias provisões.
Era preciso romper a grande ternura protetora
dos hábitos e paixões já conquistadas,
e se voltar para o desconhecido promissor
de novas vantagens incalculáveis
a romper com o sol que tudo invade
lá fora da casa, lá fora do cerco,
lá fora dos porões dos mantimentos previsíveis.
- Não parta que o mundo
encontrado e guardado nos vícios e outros riscos
está com raiva e agride
qualquer infidelidade!
Mas, aí era tarde.
As vozes do coro já estavam distantes,
do outro lado dos passos.. |
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