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| GONÇALVES DIAS E O ROMANTISMO |
Gerson Valle
I
Quando Antônio Gonçalves Dias (1823-1864) tinha apenas vinte e quatro anos é publicada, em Portugal, uma elogiosa resenha de seu livro “Primeiros Cantos”. Assinava-a o consagrado escritor Alexandre Herculano. Isto concorreu para que a burguesia nacional procurasse lê-lo, e nele logo identificasse o primeiro poeta importante brasileiro, cujo surgimento era ansiado. A sociedade prezava bastante a Poesia nessa época, e o momento era do Romantismo. Até mesmo o imperador o admira. O contraste de seus versos de grande ternura com os de uma força telúrica continuou sempre a atingir a sensibilidade dos leitores. Pode-se dizer que tal contraste encerra o que há de mais romântico, o heroísmo e a sentimentalidade, e o Romantismo não cessou nunca de tocar a alma brasileira.
Romântica foi sua obra, e sua vida teve uma movimentação bastante diversificada, como pede o espírito de aventura romântico. Porém, isto se deveu mais à necessidade de trabalho que de ânimo aventureiro. Não tinha o espírito inconsequente que predispõe à aventura romântica. Talvez mesmo se possa dizer que era mais voltado à paciência do estudioso ou curiosidade do cientista. Até que ponto, no entanto, o que lhe afligia na realidade, desejando sempre mudar, lamentando o presente, não era propriamente uma inquietação romântica, mas a atitude de um analista das dificuldades por que passava seu meio, seu tempo, seu país?
Nasceu num lugarejo perto de Caxias, no Maranhão. Era filho ilegítimo do comerciante português João Manuel Gonçalves Dias com a cafuza Vicência Ferreira. Com seu nascimento passaram a viver juntos. Mas, quando tinha 6 anos de idade, o pai abandona a mãe, para se casar com a senhora branca Adelaide Ramos de Almeida. Leva com ele nosso pequeno Antônio, matriculando-o em colégio para receber as primeiras letras, o que se pode, nessa época, considerar um privilégio para quem possuísse suas características étnicas e sociais. Aos 10 anos é colocado como caixeiro e encarregado da escrituração dos negócios do pai. Por aí já se percebem a inteligência e o esforço que continuarão a caracterizá-lo a vida inteira. Seu pai reconhece isto e aos 12 anos o retira do balcão para que estude latim, francês e filosofia! Sempre com orgulho dos talentos demonstrados pelo filho, quando este tem 15 anos o leva para São Luís, na intenção de embarcar com ele para Portugal, desejando que lá complete sua formação. No entanto, João Manuel morre ainda em São Luís. Com sorte, no ano seguinte, um vizinho da madrasta resolve levá-lo para Portugal. Parece que os talentos do rapazinho faziam com que se investisse nele. E esse era um tempo ainda em que se investia num talento jovem, desejando-se ajudar, fazer justiça, por bondade, religiosidade ou o que fosse... Hoje em dia, uma biografia semelhante, se se pode fazer um paralelo com os usos e costumes, seria difícil de ter o mesmo desenvolvimento. Em Coimbra, após alguns estudos, entra para a faculdade de Direito sem dificuldade na demonstração de conhecimentos. No meio do curso, a madrasta, que o estava custeando, escreve-lhe dizendo não ter mais disponibilidade financeira para o continuar fazendo. Tão querido era dos colegas de faculdade, que estes lhe oferecem moradia e alimentação, conseguindo diplomar-se, além de ter estudado alemão, e lido o necessário para uma bela formação em seu tempo.
É durante os sete anos que esteve pela primeira vez em Portugal, que escreve alguns poemas de seu primeiro livro, aí sentindo as saudades do sabiá e das palmeiras com a “Canção do Exílio”. Note-se que, de certa forma, para um jovem do interior uma vida de estudante em Coimbra, desfrutando do que culturalmente desejava, rodeado de bons amigos, e ainda tendo algumas namoradas, é curiosa a nostalgia por sua terra natal, onde nada disto desfrutava... Diga-se de passagem que Gonçalves Dias era pardo (o que não era bem visto) e de somente um metro e meio de altura, o que, para um homem não é considerado atraente. Porém, seja pelo que for, cativava as mulheres. Pela vida toda, teve muitas namoradas, às vezes mais de uma ao mesmo tempo, e muitas deixaram por escrito seu encanto pelo poeta! Certa vez quase morre por ter sido flagrado com uma mulher comprometida, coisa que comprova sua agitada vida amorosa... De que tanto se queixava o romântico?
Ao voltar dos estudos em Portugal, é nomeado, em Caxias, sua terra, para uma banca examinadora de mestras de meninas. E seu caráter se ressalta de pronto, pedindo demissão ao cientificar-se de que os outros examinadores eram amigos das famílias de algumas meninas... Mora poucos meses em São Luís na casa do amigo Alexandre Teófilo, que lhe consegue uma passagem, do Vive-Presidente do Maranhão, para o Rio. No Rio escreve o drama “Leonor Mendonça”, após muita leitura na Biblioteca Pública. Seu drama “Beatriz Censi” é recusado pelo Conservatório Dramático que o considera imoral. Mas, seu livro “Primeiros Cantos” é publicado com sucesso, logo aparecendo em Portugal o elogio de Alexandre Herculano. Foi, nesta época, professor de Latim no Liceu de Niterói, e, logo após o sucesso de seu livro e crítica de Herculano, entra para o Instituto Histórico e é nomeado professor de Latim e História do Brasil do Colégio Pedro II. O imperador, admirando sua poesia, lhe concede a Ordem da Rosa. Orgulhoso, Gonçalves Dias ao ver o seu nome numa página inteira de agraciados, no “Jornal do Comércio”, diz não ter sido “distinguido”, mas sim “confundido”, e que não gostava de ver seu nome ao lado de “tendeiros e negreiros”. Sua crítica é ferina à condição do país onde se prestigiavam grandes fortunas nascidas do bárbaro comércio de escravos.
Depois de 4 anos de Rio de Janeiro é incumbido pelo governo a estudar a instrução primária, secundária e profissional nas províncias do Norte, e para aí colher documentos históricos. Casado, 3 anos depois, é nomeado 1º Oficial da Secretaria dos Negócios Estrangeiros. Dois anos depois é comissionado para estudar os métodos de instrução pública em diversos países da Europa e coligir documentos referentes à História do Brasil nesses países. Quando procura os relatórios que entregara ao governo sobre a educação, para deles tirar alguns dados, não os encontra. Escreve ao ministro Paranhos mostrando-se indignado de como o poder público estava mal servido no país. Dois anos depois, sua esposa volta ao Brasil, e ele permanece só, na Europa. Trabalha para o governo na “Exposição de Paris”, enviando um relatório onde sugere ao imperador a adoção do sistema métrico no Brasil. Visita escolas na França, Bélgica, Alemanha, Áustria, Itália, Suíça, dentro de suas obrigações de observador do governo para aprimoramento da educação. Namora uma belga, que deseja que ele viva com ela. Ao mesmo tempo namora uma brasileira em Paris que deixou escrito amar-lhe tanto que sempre desejaria realizar-lhe todos os desejos. Nomeado chefe na Comissão Científica de Exploração ao norte do país, volta ao Brasil. Trabalha então junto a índios do Amazonas, onde exerce funções de historiador, etnólogo, pedagogo, filólogo... Sim, pode-se dizer que o bacharel em Direito foi tudo isto, por seu esforço próprio, estudos, quando essas ciências despontavam e ele era dos poucos em nossa sociedade capaz de acompanhar tais progressos.
De certa forma, sua dedicação em pesquisas por questões brasileiras, arregaçando as mangas para realizá-las e refletir sobre nossa realidade, procurando o desenvolvimento, antecede obras de intelectuais como Euclides da Cunha, Gilberto Freire, Sérgio Buarque de Hollanda, Mário de Andrade... Aliás, como Mário, ele também foi mais que trezentos, e digo até filólogo porque escreveu, inclusive, um dicionário de tupi-guarani e nas “Sextilhas de Frei Antão” utiliza expressões arcaicas... Sua admiração pelos índios nos mostra o etnólogo, observando serem eles prestativos, e que deve ter havido uma alta civilização que decaiu, em tudo condizente com seus poemas indianistas. O “romantismo” se encontrava com o “cientificismo” de seus trabalhos?
O exagero da expressão romântica, enfática e/ou queixosa, encontra, sim, a realidade, se percebermos no “Canto do Piaga” uma representação dos índios dizimados no Brasil. Reproduzo algumas quadras (1):
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“Não sabeis o que o monstro procura?
Não sabeis a que vem, o que quer?
Vem matar vossos bravos guerreiros,
Vem roubar-vos a filha, a mulher!
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Vem trazer-vos algemas pesadas,
Com que a tribo Tupi vai gemer;
Hão-de os velhos servirem de escravos
Mesmo o Piaga inda escravo há de ser!
Fugireis procurando um asilo,
Triste asilo por ínvio sertão;
Anhangá de prazer há se rir-se,
Vendo os vossos quão pouco serão.”
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De volta ao Rio, depois de 8 anos, já não vive com a esposa, com quem tivera uma filha que morrera. Sua saúde que foi precária desde a adolescência, piora sempre. É diagnosticada inflamação crônica no fígado e lesão no coração, além de problemas constantes de coluna, garganta e de sífilis. Parte para o Maranhão para rever sua terra, tentar descansar, mas em Recife um médico o aconselha a deixar a zona tórrida, e embarca ali mesmo num navio a vela, como único passageiro, para a França. A viagem é relatada num diário, onde se pode constatar seu estoicismo. Descreve seus sintomas, o inchaço dos membros inferiores que o impedem alguns dias de vestir as calças, a quantidade de galinha que levara para sua alimentação, racionando-a para o caso da viagem se prolongar e não ter o que comer, e mais mínimos detalhes de ocorrências na navegação. Quase não se levanta. Mais de quarenta dias e chega à Europa. Passa quase dois anos se tratando em estações de águas, é operado na Bélgica, onde lhe tiram o sino da garganta. Na poesia se queixa de agruras sentimentais, mas, o homem, na prática, suporta tudo estoicamente. Onde mente o poeta, onde a homem se disfarça na Poesia? É nomeado mais uma vez para colher documentos históricos. Em Paris trata de angina e gastrite, e resolve retornar ao Maranhão com o amigo Odorico Mendes. O amigo morre e atrasa o retorno para cuidar dos escritos por ele deixados. Embarca, finalmente, no Havre, no navio “Bois de Boulogne”. Piora na viagem. Já sequer consegue comer, com a dor na garganta e várias partes do corpo. Quando é avistada a terra do Maranhão, pede que o deitem no tombadilho para apreciá-la. O navio bate numa pedra e afunda. A tripulação se salva, mas seu corpo jamais foi encontrado.
II
A morte de Gonçalves Dias tem uma feição romântica, como sempre se considerou também romântica sua paixão obstinada por Ana Amélia Ferreira do Valle. Conhecera-a logo que retornara dos estudos em Portugal, durante os cinco meses que passou na casa do amigo Alexandre Teófilo, de quem ela era prima e cunhada. Achou-a graciosa em sua adolescência de 14 anos, logo lhe inspirando alguns poemas, que são como pinturas românticas, ainda não de paixão, mas de amor pela beleza e juventude e de sujeição romântica ao lado feminino da vida: “Leviana”, “Mimosa e bela” e “Seus olhos”, de onde reproduzo:
“Seus olhos tão negros, tão belos, tão puros,
Assim é que são;
Às vezes luzindo, serenos, tranquilos,
Às vezes vulcão!”
Cinco anos depois, quando volta do Rio para cumprir a missão de estudar a educação no norte do país, resolve parar um pouco de novo para reviver os tempos felizes na casa do amigo Alexandre Teófilo. E aí reencontra Ana Amélia já moça, vistosa, pronta para receber sua paixão. Demora-se alguns meses em São Luís, não descuidando de visitar colégios, seminários, bibliotecas e arquivos, onde também pesquisa para a sua “História dos Jesuítas”, que nunca chegou a completar. Mas, a razão da demora maior, evidentemente, era o namoro com Ana Amélia.
Deixou para pedir a mão de sua namorada à mãe dela no último instante, quando partia para continuar sua missão no Ceará. E aí Dona Lourença tinha se retirado para Alcântara com as três filhas. Só lhe restou fazer o pedido por carta. E este é um documento notável, que lembra o que disse dele o intelectual Otto Maria Carpeaux, que logo ao chegar ao Brasil se encantou com seus versos: Maior que o poeta era o homem Gonçalves Dias! Sim, quantas outras pessoas teriam tanto caráter para a sinceridade dessa carta? Qual apaixonado que se diminui quando tenta alcançar a felicidade de viver com a amada, por amor maior pela honestidade, e para que, mesmo que contra ele, a decisão da mãe responsável pese bem a decisão sobre a concessão ou não da mão da filha? Escreveu: “Não tenho a ambição de figurar na política de meu país, nem o amor a fazer fortuna, e quando se desse o contrário faltar-me-ia ainda a habilidade, o jeito a alcançar ambas ou qualquer dessas coisas. Assim, parece-me que nem chegarei a ter mais do que hoje tenho, sendo difícil que venha a ter menos, nem valerei mais do que hoje valho, que é bem pouco. Não desconheço que outros, e de certo melhores partidos se oferecerão para sua filha: a única compensação, que lhe posso oferecer, mas que não sei se a julgará suficiente – é que me parece ter conhecido quanto ela por suas qualidades se recomenda, e querer lisonjear-me de que a trataria quanto melhor pudesse, se bem que não quanto ela merece.”
A resposta de dona Lourença chegou-lhe quando já se encontrava no Recife, prosseguindo seu trabalho. Breve, em quatro linhas, repudiava o pedido, demonstrando na brevidade o quanto considerava atrevido o pedido da mão de uma de suas filhas feita por um cafuzo filho ilegítimo! Pelo resto da vida, Gonçalves Dias demonstrará sua dor pela perda de Ana Amélia em vários poemas. Ainda no Recife escreveu o famoso poema em versos brancos “Se se morre de amor”, indiretamente relacionado ao que passava, de que reproduzo o início:
“Amor é vida; é ter constantemente
Alma, sentidos, coração – abertos
Ao grande, ao belo; é ser capaz de extremos,
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Conhecer o prazer e a desventura
No mesmo tempo, e ser no mesmo ponto
O ditoso, o misérrimo dos entes:
Isso é amor, e desse amor se morre!”
Ana Amélia manda-lhe uma carta, pedindo que ele desobedeça sua mãe, e a tire de casa. O homem Gonçalves Dias seria incapaz de um ato desmedido como este, por mais que o poeta o desejasse.
Antes de tudo isto ocorrer, Gonçalves Dias conhecera a filha de um médico, Olímpia Coriolano da Costa, apaixonada por ele. Nunca chegou a amá-la, mas, considerada friamente a situação, depois da perda irreversível de sua amada Ana Amélia, ao voltar ao Rio, casa-se com Olímpia, nunca sendo feliz com ela.
Ana Amélia também se casou pouco após esses eventos. A condição de origem e cor de seu marido era igual à de Gonçalves Dias, e parece que ela o escolheu de propósito para humilhar a família. Mas, desta vez ela convenceu ao noivo de tirá-la à força de casa, sua mãe tendo apenas de consolidar o casamento. O marido, comerciante, faliu e fugiu para Portugal. Lá, alguns anos depois, o poeta a encontra casualmente, e escreve “Ainda uma vez – adeus!”, de que reproduzo alguns trechos:
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“Louco, aflito, a saciar-me
D’agravar minha ferida,
Tomou-me tédio da vida,
Passos da morte senti;
Mas quase no passo extremo,
No último arcar da esperança,
Tu me vieste à lembrança:
Quis viver mais e vivi!
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Pensar que o teu destino
Ligado ao meu, outro fora,
Pensar que te vejo agora,
Por culpa minha, infeliz;
Pensar que a tua ventura
Deus ab aeterna a fizera,
No meu caminho a pusera...
E eu! Eu fui que a não quis!
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Dói-te de mim, que te imploro
Perdão, a teus pés curvado;
Perdão!... de não ter ousado
Viver contente e feliz!
Perdão da minha miséria,
Da dor que me rala o peito,
E se do mal que te hei feito,
Também do mal que me fiz!”
A expressão desesperada da poesia romântica dá a idéia de que a dor do poeta o impossibilita de viver. No entanto, Gonçalves Dias não só vivia ao lado de tais poemas, como se casou e namorou outras moças, como nunca deixou de cumprir suas obrigações como funcionário exemplar e estudioso de vários assuntos. O fato de seu casamento não ter dado certo, de enfadá-lo os ciúmes que a mulher sentia dele, de lhe parecerem bisonhas suas ambições, de até dela se ter separado de fato, talvez demonstre sua personalidade independente e muito ligada a preocupações intelectuais pouco usuais no normal das pessoas da sociedade brasileira de então, mais do que a chateação de a esposa não ser a Ana Amélia. Lúcia Miguel Pereira (2) pergunta, em sua biografia de Gonçalves Dias, se acaso se tivesse casado com Ana Amélia, se dela, com o tempo, também não se enfadaria... E aí o retorno à questão fundamental aqui colocada. Até que ponto suas queixas da vida tão repetidas não encerram um ideal que lhe chegou pela escola literária de seu tempo, seus costumes, colocações da moda? Até que ponto o homem Gonçalves Dias era romântico como foi o poeta?
III
A resposta não é simples. Ao mesmo tempo está relacionada com o próprio significado da Literatura como um todo. A questão de o poeta ser um fingidor colocada por Fernando Pessoa parece-me encontrar-se no cerne de todo problema literário. Na verdade, a Literatura expressa por formas próprias algo que já não é vida, mas que da vida toma as grandes coordenadas. Gonçalves Dias deve ter amado de verdade Ana Amélia. Deve ter sofrido por perdê-la. Mas, a forma de expressar poeticamente esta dor parece transformar o próprio sentido da vida, ultrapassando os meios de sobreexistência, quando na verdade, ele sobreviveu! O sentido da Poesia é este. Dar realce pela forma. No caso do Romantismo, não ser a dor, por exemplo, mas expressá-la, chegando a seu paroxismo para realçá-la, fazê-la visível, até mesmo fazer com que o leitor sinta o reflexo de algo existente, sim, mesmo que não da mesma forma exagerada que parece tomar a expressão escrita. Mas, ainda assim, verdadeiro.
E Gonçalves Dias foi nosso primeiro poeta a criar uma forma viva, que incorpora a personalidade de um povo, que o faz sentir identidade com uma manifestação cultural. A começar pelo ritmo e seus temas. Além do lado lírico, que preocupava tanto a época romântica, a chamada de atenção que nos situa, a “poesia americana”. Sua mestiçagem parece clamar pelo ritmo forte de muitos de seus versos. Usa bastante o anapesto para expressar essa força. O anapesto que vem dos gregos e que neles consistia em duas sílabas breves e uma longa, entre nós é a seqüência de duas sílabas átonas e uma tônica. É como se fossem, em música, duas semicolcheias e uma colcheia, ou seja, o compasso binário da marcha:
“Ó guerreiros da taba sagrada,
Ó guerreiros da tribo tupi.”
Binário com a força não só de marcha, mas mesmo, dependendo da leitura, dá a sensação da sincopa de ritmo brasileiro de origem africana:
“No meio das tabas de amenos verdores,
Cercados de troncos – cobertos de flores,
Alteiam-se os tetos d’ altiva nação”
Estes são versos undecassílabos, que seguem o mesmo ritmo das redondilhas menores, uma vez que a quinta sílaba é sempre acentuada, e a sílaba átona final da redondilha pode compor o undecassílabo se juntada com o verso seguinte:
“Sou bravo, sou forte,
Sou filho do Norte,
Meu canto de morte,
Guerreiros, ouvi.”
É de se notar que a metrificação em Gonçalves Dias não é sempre ortodoxa, seguindo mais o sentido rítmico do verso, e este sempre de acordo com a intenção de seu significado. Isto deu margem a alguns equívocos. A começar pelo famoso artigo de Alexandre Herculano, que elogia o poeta que surge no Brasil, vendo sua distinção por tratar de temas americanos, e não simplesmente copiar os motivos europeus, mas também observa que há algumas falhas métricas em seus versos, que acha que a maturidade fará corrigir... O que não se cumpriu, uma vez que na posterior edição de Leipzig, Gonçalves Dias corrigiu algumas imperfeições de língua e estilo, mas nenhuma de metrificação! De onde se conclui que não se tratavam de erros, mas sim de formas que desejava! Gonçalves Dias pertencia ao movimento que se opunha a classicismos, o Romantismo. Herculano fixou sua poesia na mocidade, se bem que já dando tratamento romântico aos temas, e ele inicia este movimento em Portugal, formalmente ainda preso a estéticas árcades, que foram neoclássicos. Isto foi um fenômeno português. O Romantismo, como um todo, procurou maior liberdade de expressão, e nada de equilíbrios clássicos. O gosto mais de invenção que de repetição. Ao contrário dos clássicos, dos árcades e dos posteriores parnasianos, que equivalem aos realistas na prosa como reação ao Romantismo, observe-se que os românticos não usavam com a mesma frequência, por exemplo, uma forma fixa como o soneto.
Manuel Bandeira, em sua biografia de “Gonçalves Dias” (2), livro notável de demonstração de amor de um poeta modernista a outro poeta do passado, cita a existência na biblioteca da Academia Brasileira de Letras de um exemplar de “Os Timbiras”, o poema épico que Gonçalves Dias deixou incompleto, com observações à margem do parnasiano Alberto de Oliveira, tais como: “Errado” ou “Errado ou pelo menos frouxo”. Cita também a edição Garnier que contratou um revisor para “consertar” a métrica onde não estivesse nos parâmetros clássicos ou parnasianos.
Ora, Gonçalves Dias, em sua efervescência rítmica, vai muito além da contagem de sílabas tradicional. Por vezes, propositalmente, muda de decassílabo para eneassílabo ou undecassílabo, que faz o ritmo criar efeito na narrativa. Tudo em função do sentido. Observe-se a mudança do eneassílabo para a redondilha maior em “I-Juca-Pirama”, que efeito formidável produz:
“Dize-nos quem és, teu feito canta,
Ou se mais te apraz, defende-te.”
Aliás, não só variava de metro dentro de estrofe, como gostava de variar de estrofe dentro da poesia. E o que mais poderia irritar os parnasianos, não se importava de usar hiatos fora das palavras:
“Mas elas perturbaram-se – coitadas!
E empalideceram, contristadas”
(Bandeira comenta: “quem não sentirá o movimento sobrosso no hiato “E empalideceram”?)
Quanto à questão de rima, já citei versos brancos de “Se se morre de amor”. Quem sente aí a falta de rima? E é de se lembrar que não fazia questão de rima rica, usando muitas toantes, e até mais sutis como “grata” com “nota”, ou “tarde” com “perde”. A sonoridade é encantadora! E isto vale mais que as regras!
Manuel Bandeira observa sobre o assunto: “O estudo da poética de Gonçalves Dias prova que a regulamentação da poesia, se é coisa útil para ajudar os poetas medíocres a fazerem versos passáveis (a sentença é ........... de Bainville), nada vale para quem, como era o caso do grande romântico, não precisa de regras de ninguém para criar o seu ritmo e a sua música”.
Concluo tentando responder à questão colocada no início: Gonçalves Dias tinha o espírito lírico de sua poesia romântica ou a frieza científica de seus estudos e trabalhos e até das posturas de auto-piedade romântica, mas com a justeza e igualdade para com seu próximo, como na carta de pedido à mãe de Ana Amélia?
No fundo, não há essa tão aparente contradição. Gonçalves Dias era um homem que procurava o saber e a justiça. Sentia ser de um país de muitas injustiças, a começar pela escravidão, de que foi dos primeiros a escrever que era a característica pior para quem quer que chegasse de fora e nos examinasse: aqui o trabalho era escravo, mandado por senhores que nada faziam e torturavam seus irmãos só pela cor negra. E sem trabalhar, nada progredia, todos só querendo empregos para ganharem, e títulos para se exibirem... Faz a análise fria, científica, como um antropólogo antes da existência desta profissão, mas que foi, um antropólogo “avant la lettre”. E demonstra, por sua vida, um exemplo de como se pode conduzir para as coisas mudarem. A idéia de mudança o torna sonhador, sim, romântico. A sua sensibilidade exagera a dor romântica. E nisto mostra o lado positivo da brasilidade, sua veia artística. Sim, a brasilidade, seu estudo e exemplificação têm em Gonçalves Dias um dos mais destacados pioneiros. E sua linha terá outros tantos notáveis em nossa cultura. Daqueles que criticam nossas raízes, para compreenderem o que somos e como devemos agir para progredirmos. Só lamento é que outra característica brasileira seja a do esquecimento e desprezo pela sua própria cultura. Quantos estão estudando e escrevendo sobre o passado de europeus e norteamericanos que ignoram o significado de um Gonçalves Dias? Este esquecimento é também nefasto, fazendo-nos estar sempre recomeçando, e nos desenraizando, tornando-nos tão estranhos a nós mesmos que acabaremos sendo parte de um passado que não nos pertence. Como os africanos colonizados pelos franceses diziam, na época da colônia, que seus antepassados eram os paladinos de Carlos Magno. Foi bom isto para a África? Também não é bom para o Brasil desconhecermos o romântico excelente caráter, que nos aponta o que somos e como mudarmos, que foi Gonçalves Dias.
Quando morreu fez-se luto nacional. E, no Rio, um jovem escritor de nome Machado de Assis, homenageia-lhe num poema, donde tiro o dístico que procura um ritmo diferenciado para dar ênfase à dor de forma exaltada, bem romântica, tirando proveito da mudança do decassílabo heróico para o sáfico:
Morto, é morto o cantor dos meus guerreiros!
Virgens da mata, suspirai comigo!
E, numa palestra que assisti no Museu Imperial, a Duquesa de Paris, neta da nossa princesa Izabel, contou que, quando criança, sua avó, sentindo-se sempre exilada, gostava de descrever o Brasil, dizendo que deviam dele se orgulhar e para lá retornarem, terminando sempre recitando de cor a eterna e bela “Canção do Exílio”:
“Não permita Deus que eu morra
Sem que eu volte para lá;
Sem que desfrute os primores
Que não encontro por cá;
Sem que ainda aviste as palmeiras,
Onde canta o sabiá.”
(1) Todos os poemas aqui reproduzidos seguem a publicação “Gonçalves Dias – Poesia Completa e prosa escolhida”, Editora José Aguilar, Rio de Janeiro, 1959, onde se encontra uma volumosa bibliografia para qualquer estudo sobre o poeta.
(2) Pereira, Lúcia Miguel – “A vida de Gonçalves Dias”, José Olympio, Rio de Janeiro, 1943.
(3) Bandeira, Manuel – “Gonçalves Dias”, Irmãos Pongetti Editores, Rio de Janeiro, 1952. |