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INÍCIO - ACADÊMICOS - ACADÊMICOS TITULARES - DENILSON CARDOSO DE ARAÚJO
DENILSON CARDOSO DE ARAÚJO - CADEIRA 14 - PATRONO: CAROLINA DE AZEVEDO DE CASTRO

Petropolitano, nascido em 1959, em dezembro. Mês de natalício divino e ano de revolução cubana, dois eventos que marcaram minha vida e formação. Filho de pais em quem vi a humildade e o guerrear pelo bem.

Autodidata, por falta de definição mais adequada para quem evadiu de seu curso superior de Direito, sob amplos protestos gerais, especialmente os paternos, mas segue se virando.

Publicações: "Luzes do meu Caminho" (poesias - 1980); "Poesia em Família" (com meus pai e irmão, Dinizar de Araújo e Dinizar de Araújo Filho - 1987); "Farrapos, Cacos & Escreveduras" (poesias - 1992); "Assim Caminha a Insensatez - A Maconha, suas Marchas, Contramarchas e Marchas à Ré" (Ensaio, 2009). Diversas publicações eletrônicas, no sítio "Alma de Poeta" e nas Revistas Eletrônicas "Portal CliubJus" e "Jus Navigandi" [+]

A ILHA DO TESOURO

O livro repousa na mesa,
invisível como um cofre calado.
Insetos o percorrem de esguelha.
O dia o envolve em sua capa,
e amparado em névoa de luz,
até à noite, que em seu
tapete veludo o adormece,
o conduz.
É um sábio monge, com o hábito da
espera diligente, sob cascatas de ventos,
como um lótus que paira na pedra.
Assim dorme, ereta, sua lombada.
Fungos buscam sílabas, para morada.
Pouco importa, assim a palavra se engorda de signos.
Os verbos da umidade os invadem.
Desta forma, capítulos ganham personalidade.
Ali, ele permanece, o livro,
disfarçado, na ilusória túnica da inutilidade.
Quieto e pétreo, entre as traves das sólidas capas,
com seus paraísos trancados nas palavras.
Até que, um dia, uma alma sedenta,
pelo cômodo deserto cambaleia
e como um exausto explorador de tumbas
em festa o descobre: Livro! Cantil nutrido de oásis,
como o mel de um tesouro escondido
na invisível matéria do fim de tarde.
O livro abre um empoeirado olho
e na mirada experiente, reconhece:
eis aí a pessoa eleita e aguardada,
a pessoa com o coração, a carência e a chave.
Cumprindo sua razão, em fiel mandato,
o livro, então, como um cofre, a um toque se abre.
E nos olhos sedentos, suas bandeiras, desfralda.
E rompe o ar com as palavras clarinetas que entrega,
com a paixão de seus ouros barrocos,
suas bandas de sinfonia e retreta,
suas nascentes de desvendamentos,
suas filosofias e simplicidades.
Em desvelamentos se entrega e
chove lamparinas na razão e
fogueiras na emoção,
com todos os seus fósforos segredos,
de vez, acesos.
Promove oceanos na mente,
praticando vendavais no coração.
O livro une o passado ao presente.
Assim, faz o escritor solitário e já ido
abraçar o leitor ávido,
em quem o futuro é urdido.

ECONOMIA

Tinha músculos salgados,
entalhados em carvalho de dor no formão do deserto.
Vasto de fé, e cevado em vivências, o destemido guerreiro de Javé,
finalmente, adentrou a Canaã prometida.

Portava um abridor de rios, um aparador de sol e
um liquidificador de muralhas.

Guardava trinta eclipses no bolso.

Por um Josué comedido,
somente um foi usado.

MISTER DIVINO

O pior tormento é aquela expectativa do sentimento,
quando dele um retorno se aguarda.

Só que amor é semeadura que não se vê, e
cujo fruto, em pobres tabuadas e humanos ábacos, jamais se calcula.
Não há que, no amor, lavorar silogismos,
aguardando geometria e sínteses.

Não se trata de um anzol lançado,
que se boa é a isca e a paciência a circunda,
retorna da espuma da água uma prata garantida,
em resposta coroada de sabor e escama.

Amor é riqueza que adjetivos dispensa,
se omite em predicados. Fartura da estranha,
que escapole a pesagens, e agreste se porta nas contabilidades.
Faz-se baú de ouro invisível, da família daquela botija que,
o velho profeta ensinou, quanto mais se esvazia,
mais o ato de esvaziar a ceva e irradia.

Esta, a sua recompensa, que não se pega ou apalpa.
Embora certeza consistente, o amor é transparência.
É uma nascente, da qual se enxerga o jorro e a partida,
mas não se vê em que mar desembocam suas águas.
Por isso,
o rico do amor é ser o ritmo da luz que arrebata,
só porque nasce, e assim se largando
dar senso à batida da vida e ao coração, seu sentido.

Por isso,
como madrugada que encanta, o coração que bem ama,
não calcula, nada espera, não reclama... só canta.

O opulento no amor é ser o mister do divino.
Daí demonstrar riquezas de paciência, ao sem limite
do descabido.

O precioso, no amor, é seu próprio ato.
Por isso, expressa tanto, já calado.
Jamais se agasta, muito menos se arrasta.
Não se gasta. Se basta.
Sabe que no céu é que se dão suas safras.
E delas brotam jasmins, maçãs e colméias,
que alimentarão, como a anjos,
a desatentos e desconhecidos humanos.

Por isso, o que em plenitude é que ama,
na verdade, jamais se perturba
com pesos, ou anseia em abismos.
Como pluma, flutua. Descansa.

PAI

A história revela que requisitou-lhe o Gênesis, a melhor costela. Resulta, que homem é gente faltando pedaço. Por isso, essa má fama de bicho esquivo, ser escasso, nômade esquisito, viajando os horizontes, bruto e ferido, em busca do lado que lhe foi arrancado. Às vezes, parece que a procura se encerra. É quando, ungido pelo amor, o homem se completa e então cresce. Daí finca raízes na terra. Arma tendas, faz canções, tece um ninho pra amada, fica forte, encorpa, rebate os ventos, ara as nuvens pra colher na madrugada o seu favo.

Mas quando esperava a serenidade da completude, o homem se descobre nu, no deserto da paternidade. E aí ele torna a uma alegria e a uma escola, uma agonia nova. Menino tenso, em dia de prova. Pois, pai, é o homem em estado de fraco. À beira de um berço, os olhos baços. Guerreiro desarmado, em pranto de lágrima comedida e rara. Pedra que chora. Cascata na serra fazendo nossa alma, riacho. Pai é o homem em que, pra sempre, voltou a faltar uma coisa gente, um filho pedaço.

Acreditem, no fundo, pais são mães mais doídas. Sem os privilégios uterinos de sentir os tremores divinos e os silêncios de crisálida dentro de si, engravidam na alma, e isso não é pouco, isso é um mundo de sentimento profundo. A semente que plantaram cresce em outra paragem, cresce-lhe um coração evadido pra fora do corpo.

Pais são amarras de cais de onde partem terra e semente, mãe e ovo, navegando milagres de Deus nos sais de oceano novo. O homem, grávido na alma, à distância de uma barriga, espera. Distância que se cobre num abraço, minúscula que seja, é, ainda e sempre, distância. Mas esta é distância rara, a distância que mais junta quando separa. Pois gera carinhosos alertas e ternos cuidados. Como não há cordão umbilical, pai e filho, para sempre, tecem um cordão de afetos que lhes cimenta identidade nas almas.

E quando os filhos nascem, e quando os filhos crescem, e quando partem, pais são como atracadouros firmes, cais de chegadas. São os que chegam sempre trazendo abraço, pão e brinquedo. Chegam com seus braços fortes, entre risos fartos, atirando-nos para cima, meninos ao vento, pássaros sem asa no ar, para, na queda, em seu colo, como pluma, nos aparar. E nesse brinquedo nos dar alegria de anjos, a benção de pássaros, nos ensinar a voar. Por isso, pai é o que, da praia do eterno, com um assobio, nos estende a mão cheia de setas e prumos, de relógios e bússolas e rumos. Uma raiz. E tudo isso num baldinho plástico de peixinho, num oásis dos nossos 03 anos. Por isso, ainda hoje, para ele sempre corremos em busca do seu colo, do seu abraço e do seu exemplo.

Em busca desse momento em que os olhos do pai olhando os olhos do filho se tornam feixes de luz, colunas de um templo em que, vida afora, seguimos, dividindo os momentos de dor e de cruz e celebrando as alegrias de termos nesse homem que nos conduz, um mestre, um guia, uma coluna de nuvem, uma nuvem de fogo, um cometa que pra sempre reluz

CRISES

Tudo que medra.
O aço do tempo, a ferrugem dos desabamentos,
o que tomba na cabeça d’água,
o joelho da queda e o pé de vento.
Tudo que apenas paúra, ruína,
obstáculo, mágoa e estrago.
Toda penúria repentina.
Tudo que arde e é ruptura.
Toda sina que em dias de chumbo,
despenca, sem fundo.
A sede seca da garganta de pedra
em noite nordestina.
Todo fortuito e petardo, toda queimada larga
e rua escura, cada acidente
emboscado e a incerteza gruta.
O tropeço mais árduo, o infortúnio, o abismo,
o enfarto do miocárdio.
Tudo que vira no avesso.
Rasgo de sismo, inesperado ciclone,
atropelo e cruz, aquele percalço descalço,
ao qual nunca fiz jus...
O espesso. O cansaço.
Dor, desavença, embaraço, drama, doença
e a mais prosaica falta de luz.
Tudo que tocaia em calada.
O telefone cortado, o curto-circuito que entreva,
o estorvo, o susto, o que trava, o asco e o
dente que nos surpreende, quebrado.
Tudo que assim desampara.
A enxurrada no teto rachado,
o abuso goteira, o muro que separa e o
bombardeio da lágrima.
O súbito do corte ferrugem no arame farpado.
O grito aprisionado no pescoço rasgado,
a cara ralando no pó, o coração esmagado
o coração esmagado
esmagado
e só.

Solitário Jó desfilhado, com sua lepra miséria
seus amigos falsos e seu rebanho exterminado.

É quando grita pra cozinha assim, distraída,
essa Filha de Deus,
a Crise, incompreendida velha de face louca
e olho grave, mas que é, ao mesmo tempo,
mãezinha rouca e de colo quente, suave:
- Esperança, minha filha, traz cá aquelas
tuas lâmpadas...

Então, do insuportável, recebo o ouro fio do sol
que mereço e, finalmente, aniquilo a dor que,
como um rato no peito, me rói.

E com o embornal dourado
de gênesis frescos e frascos começos,
amanheço.

Crises.
Tantas tive, tanto amargo bebi...
Como um apóstolo que cai do cavalo em cegueira e,
preso, na treva naufraga, dura universidade
aprendi.
Quando trava, é que flui,
quando dói, é que eu cresço.
A crise me arranca pedaço, me esfarela e
desconstrói.
Não adianta.
É bíblico o enredo.
No mais fundo,
o mais alto.
No mais fraco,
renasço.

Com a Graça de Deus,
juntando novamente meus cacos, declaro:
ninho da fênix é
a fé com seu aço.

 

 

AULA DE FÍSICA

Observo o redondo peixe de fogo que junto ao teto incandesce. Pendente cometa, fino e controlado, na minúscula bolha cristal que pinga, como aquário de luz. Da reiterada mirada, concluo: -Ao fim dos fios e das contas, o que corre, intestino, nos rios da parede até as tomadas das suas extremidades... é aurora, em fiapo d’água, aurora em fio, encapada!

Sim! Mera água, emparedada na barriga de um rio, em enchente acumulada. Depois, em ferros filtrada, temperada de ríspidos sustos batidos no coice de égua das quedas e, por léguas, em torres archotes e magrelos aquedutos postos nos postes, com seus seixos e peixes, água viajada.

Mas, ao fim e ao sempre, em fonte começos ou ômega delta, continuamente a mesma água, em seu sumo que arde em essência, no fio que aclara e no filete que aquece, energia da aquosa massa transformada.

É certo que qualquer gota de lágrima, na folha de um cílio pousada, na rosa de um olho orvalhada, nascida de dor e dura queda da vida batida e torturada, carrega a mesma centelha explosiva, a mesma molécula de bela força dormida que pode, a qualquer tempo que dos açudes da alma adequadamente acordada, mover o que é profundo no mundo, e nos milagres da lágrima, com fé hidrelétrica, inventar luz na madrugada.

Uma tal extensão de mistério só depende do inventor que a percebe e do moinho que a matéria lágrima arrecada.

O arenoso rancor é farto em desperdícios plebeus. Mas a profunda oração, ante-sala da maior realeza, a compreende e em chafarizes de luz, em divina energia, a realiza.

BICICLETA

Como um aço de inseto, em delicadezas desenhado, passa por nós... a magrela harmonia! Repleta de ternas argolas, se move nas barras esguias, deslizante como abelha que em si leva a pessoa, montada num sonho, em seda brisa, paramentada em sua asa.

Flutuante vai, aquela pessoa, engalanada de sorrisos, a arrebatar a gravidade.

É em passo redondo e contínuo, que o sereno conjunto de coisa metal e pessoa de sangue circula equilíbrios. O fio da borracha pneu-mágica alinhava a reta linha do rastro exato que, no entanto, não de régua é que nasce, mas de um giro. Pois deriva da curva transversal do fino compasso preciso.

Conforme o observador, cada argola movente, no sol que aparece, se exibe em seus diâmetros, que do eixo metálico emitem raios dobrados. Podem ver-se, tais rodas, com seus negros calçados, como relógios de tempos vazados, ou como estranhos olhos arregalados, engrenagens de enxergar paisagens nos lados.

Da pessoa, que com firmes pisadas a move, se vê que também a completa, mas - indica a alegria em que pisa - talvez só ali ganhe o sentido que melhor a fabrique pessoa maior.

Deduz-se, portanto, do encaixe perfeito entre máquina e gente, a inteireza de um ser necessário e terceiro em que o sentido se faz no coração viajado que o corpo que sonha encaixa na harmonia do aço. Este, por sua vez, ao humano ser limitado, entrega a possibilidade de geografia mais larga e um folguedo elástico, sempre com alguma certeza do inusitado.

E assim vão, em bela parelha, como vão sempre as coisas com parentesco de luz mutuária, como o bocal que recebe sua lâmpada, como a orquídea que adota um barranco, como o brinquedo que fabrica o menino, como o cão de que deduz-se o afago, como o afago que origina o arrepio. Este arrepio, que agora te quer, pedalando ao horizonte, em meu lado.

COMEÇOS

No princípio,
a Palavra.
Na treva, em
pergaminho silêncio
guardada.
E a Palavra,
no princípio,
pronunciada,
gera luz e induz
existência.
Traduz
verbo em carne,
ofertando caminho
e desvelando essência.
A palavra,
se um ninho a recolhe,
se alça, e sua águia
revela.
Se um ouvido a
percebe,
a Palavra lavra,
a Palavra gera,
no universo-palavra
a larva perfeita
em gênesis arada,
e capaz de crisálidas.

Por isso é que é
buscada Palavra o
que em palavra
calada,
o judeu insistente,
no cofre da testa
carrega em tiara,
e em cada sílaba
de cada signo
que a cabala enumera,
na palavra, cuja cifra disseca.

É ansiada Palavra,
o que a alquebrada anciã
em óculos míopes e atentos grafites
busca na igreja acanhada,
colorindo na esquina
da palavra de Reis, o
amanhecido versículo
que, ao coração, um xale
lhe empresta.
Como Palavra procurada
é também o arabesco-palavra
que, exímio, borda o árabe,
ornato pintado
na mourisca parede,
como um galho barroco
de trepadeira florida,
de margarida ridente.

Mas de nenhuma busca ou caçada
resulta aquela rara
e ímpar Palavra,
integral e completa.
A Palavra repleta,
que não se aprisiona,
letrada a íris comuns ou dizível
em palato de humanos,
mas paira,
como a luz que fomenta o mundo,
na palavra despida de frase,
na palavra dessilabada e imprecisa,
na palavra de talha indefinida,
na palavra molhada e terna,
que se esconde em doçura lavoura
no primeiro balbucio de um Deus,
quando Deus se ouviu
na manjedoura.

Esse cicio pequeno,
arrulho de rouxinol demandando ninho,
chorinho de Deus grande encolhido
requerendo peito de mãe e carinhos,
linguagem de anjos novos e
galáxias de santas gramáticas,
discurso dos mais radicais mistérios.
Esta, a não dicionarizada Palavra,
das criações, das ressurreições
e o murmúrio dos começos mais velhos.

Esta, a pura Palavra
que gera.
A Palavra-raiz,
a que impera.

SERVIDÕES

Visando à pouca paga
dos desejos mais rasos,
pelos magros haveres
dos gozos mais ralos,
o impaciente corpo
em sombras se enreda,
em vícios se emprega,
e barganha a alma,
que apenas hospeda,
pra inquietos beduínos,
mercadores de escravos.

Cumpre à razão
resgatá-la!
Do viver, é este
o mandato.

SOLIDARIEDADE

A abelha no ovo,
o ovo no ninho,
o ninho no galho,
o galho e seu fruto,
na carne da árvore.
A árvore e a trepadeira,
enlaçadas parceiras,
desde o raso do pé
ao sol da cumeeira.
Todos, reses divinas
de mesmo rebanho,
comendo igual milho
no mesmo cocho,
raiz ávida que a
vida sorve do chão,
o sangue da seiva,
a lágrima do céu,
o sumo da terra,
a solidária e sagrada
bebida que, de Deus,
a toda alma sedenta
inebria.

TSUNAMI

Explodindo o zumbido da alma,
na emergência do pára-brisa apressado,
a súbita ave descobriu um silêncio de estaca.

No veloz apocalipse de vidro que reside na curva oculta
da estrada turva do fortuito, viu-se, em pleno vôo,
estancada em meu susto.

Com os desgarrados olhos velando
as negras sobras da miúda asa,
no repente, estraçalhada,
encosto o carro na estrada que, em meio ao nada,
percorre.

Na sombra, cuja garra me encobre,
medito as marcas de sangue que
há pouco voava e era capaz de parábolas.
Certamente, havia manhãs de gorjeio
e morada em poemas.
Talvez ninho, tivesse.
Filhotes, quem sabe?

Pouco depois, com o pasmo tremendo
em meu queixo vencido,
o pânico do rádio demonstra
a homérica onda cuja absurda
bocarra vomita em fúria todo o oceano,
que engole o mapa da Ásia.

É quando aprendo
um desfalecer de falta de ar,
uma certa lágrima
e um novo soluço.

Conjugados os eventos,
sepulto o que restou do pobre pássaro
e das vaidades secas de verdade,
na margem da estrada que em meio a tudo,
transcorre.

Do horizonte que arde em confusão,
recolho na concha da mão
para um epitáfio agudo
e embrião de um dilema,
a tênue palavra,
fugacidade.

Devagar dirijo o carro ao destino, como
quem acompanha um enterro.
As pessoas estranham,
quando um outro
eu
adentra a cidade.

A INCRÍVEL SAGA DE DARIO MARAVILHA

Era pra ser bandido, aquele menino pobre.
Cadeia certa, mendicância rasa ou metralha breve:
mapeado estava, o destino do menino escasso.
Da miséria à sarjeta e, desta, ao esgoto gordo,
que, com fomes, já o aguardava, ansioso.
Era pra ser ninguém, aquele garoto doido.
Mas Deus pôs nele um coração de canteiro,
e uma rala semente, que só floria no esforço.
E ele sentia essa coisa, que ria com ele,
e ninguém mais percebia, invisível tesouro.
Enquanto amolava sua faca em seu nome de rei
ele sentia, no fundo sabia, aos incrédulos dizia:
é exato, que um tal patrimônio não é pouco.
Deu aos desdém dos descrentes, ouvidos de mouco.
Daí, moveu moinhos, desviou uns rios do destino,
comeu grama, bebeu pedra e pôs-se, o pixote,
em atrevida armadura de ousadias quixotes.
Derrubou ventos, venceu muralhas e lutou
pelas graças da sua Dulcinéia, a esfera de couro, com que,
então, se fazia no país grande arte e uma saga de ouro.
Ainda receosa, meio dengosa, ela, entretanto,
percebeu um certo encanto naquele seresteiro
meio atrapalhado, mas constante, e então... cedeu.
Com uma pincelada grossa, de pincel de trapos
ele praticou uma arte escassa, de pincelada larga.
Embora pouco reconhecida, arte viva, era aquela.
Em plenos anos 1970, em Renascença plena,
desdenharam de suas obras, que pareciam esboços,
que não careciam moldura e desmereciam quadros.
Só Da Vincis e Sanzios, havia no ateliê dos gramados.
Ele, incapaz de Capelas Sistinas, decidiu-se
por cavernas pintadas, afrescos miúdos e aquarelas certeiras,
em igrejas de vilas e pequenos altares de outeiros.
Como um Bispo do Rosário, trabalhava com
o que, sua própria dor, em ardor, lhe fornecia.
Sede, lágrima ou alegria, na empenhada chuteira,
era tudo bem vindo, tudo bom vinho, tudo cabia.
Não podendo ser violino, não lamentou o seu fado.
Esforçou-se. Tentou e errou e tentou de novo.
A bola, Dulcinéa doce, pelo gentil empenho,
entregou-se a ele em amores, paciente com
seu desajeito, mas grata pela persistência.
Até que, em plena gala de refinado teatro,
acabou aplaudido por esmero na precisão percussiva
com que se empenhava, amoroso,
no fundo da orquestra, nos pratos.
E mesmo se era tosco em seu engenho,
como um carvão de um Van Gogh primário,
era certeiro o alcance do seu desempenho.
Do pouco que tinha, em bravura, obtinha milagres.
O fato é que agarrou a sua semente rala
e a encorpou em seara vasta, de garantida ceifa,
multiplicada com o suor, a alegria e a lágrima.
Como um Jacó portou-se, agarrando
com decisão de ferro sua benção,
se preciso, abdicando descansos,
desconsiderando descasos,
se necessário, até espancando o arcanjo.
Decidiu, com a matéria-prima que havia,
em forma de gols, fabricar felicidades.
Se não podia ser o solista da sinfonia,
seria a rabeca melhor, a da sagrada alegria.
Se não podia ter a boca dos palcos de classe,
seria um saltimbanco vermelho na praça.
E todos viam seu transparente coração de guerreiro
sangrando no campo, enquanto esculpia
suas obras, não com cinzel, mas a machado.
Não fazia minúcias de argila, esculpia em carvalhos.
Mas não se imagine que delicadeza faltasse.
Fazia do seu mister, sacerdócio, concedendo
dominicais alívios como um padre que entrega hóstias.
Dava nomes às suas obras, demonstrando ternura
por cada construção obtida, cujo custo ele sabia.
E era imbatível sua efígie, quando
a zagueiros tontos, se demonstrava uma esfinge.
Brilhava em seus brios o sol da tarde,
pousado no polido peito de aço estufado.
Levando seus gols como água de bilha farta,
erguia-se pelos estádios em estados de vôo, os mais vários.
Enganava ser helicóptero, beija-flor fingia-se,
quando a todos, que atentamente o viam,
evidente estava que no céu da área,
um anjo de camufladas asas é que, ali, aparecia.
E assim, aquele menino fadado a pária,
o que seria bandido,
virou uma estrela cigana, um general triunfante,
herói de multidões arfantes, esculpido em memória
e desenhado em bandeiras de muitas pátrias.
Como um circo mambembe de toldo escasso,
distribuía sua alegria viajante com a humildade
do bilheteiro, que trapezista ou pipoqueiro se faz,
conforme a arte dispõe ou a necessidade demanda.
E mesmo com suas pernas ditas de pau,
virou bailarino de feira, animador de quermesse,
capaz sempre da alegria do salto improvável.
Se de madeira eram feitos seus membros,
era porque serviam àquele gigante de festival,
um coroado mago que tirava aos domingos
gols das narinas e vitórias das cartolas da tarde.
Amoroso clown, tinha sempre o sorriso armado
e o bom gosto engatilhado na piada rápida.
Assim foi que o menino de prognose pobre,
de possível bandido ou fracasso provável,
exemplo de vida se fez, herói dos humildes,
membro da academia dos gênios da raça.
Por não admitir desdém ou desistências,
condecorado se viu com a maior honraria.
Foi assim que virou, para as posteridades,
príncipe dos humildes, senhor dos guerreiros,
goleador dos destinos, domador dos dias,
Sua Majestade, Dadá, o Primeiro,
o único Rei Maravilha.

Discurso de Posse na Academia Brasileira de Poesia - Casa de Raul de Leoni - Cadeira nº 14 - CAROLINA AZEVEDO DE CASTRO

Denilson Cardoso de Araújo

BOA NOITE. SAÚDO A TODOS OS PRESENTES, ESPECIALMENTE AOS ILUSTRES ACADÊMICOS QUE ME ACOLHEM NESTA CONFRARIA. Entre genuínos artistas do verso, minhas imperfeições de pretenso poeta ficarão mais expostas. Mas como "Academia" significou antes, em Platão, um jardim de ensino e discipulado, é como aprendiz que me achego aos mestres aqui reunidos, nesta casa do legendário poeta de único e luminoso livro.

RAUL DE LEONI, DOS QUE ESCREVERAM POUCO PARA DIZER TANTO. Eu, que demais redijo para dizer menos, criança vi pelas praças o busto, a memória, o livro, a legenda. Criança, comecei a rascunhar versos. Lembra-me a emoção de vê-los datilografados pelo meu pai, em bela surpresa. Foi a primeira "publicação". Meu pai pôs em letra de fôrma as linhas mal traçadas do épico precoce de meus dez anos de idade. Sobre o Êxodo era, e em êxodos de aprendizados, me vi pela vida.

MAS PETROPOLITANO, COMIGO FORAM SEMPRE OS SINOS DA CATEDRAL, os vitrais varejados de sol colorido, as ruas de neblina e hortênsias, os cristais, quitandas, quitandinhas, bandas, bancos, pontes, morros, colinas. O Imperador na praça, meditando seu livro. Livros que por sebos, bibliotecas e saudosas livrarias que se foram, amei cedo. Aqui conheci a paixão, aqui me fiz, aqui residem meus pais e irmãos, e aqui meu coração habita constante, à espera do corpo ausente por razões profissionais. Brasileira a Academia, me orgulha que seja antes Petropolitana, e que nos receba nela o Patriarca de todos os poetas desta cidade serrana.

AGRADEÇO À ACADEMIA. AO OPEROSO PRESIDENTE, SYLVIO ADALBERTO. Ao meu Padrinho de candidatura, múltiplo Dr. Fernando Costa. Ao Professor Ataualpa Filho, que sobre meu trabalho teceu apreciação crítica tão generosa. Agradeço à família, irmãos, sobrinhos, aos pais queridos. Dr. Dinizar de Araújo, fibra e integridade, poeta, cuja apetitosa estante de livros, contemplada na infância, me fez amar a literatura, ele, meu primeiro editor. E Nilma, mãe solidária e cristã, que deu-nos sempre a mão nos momentos difíceis da existência. Ambos, deram o exemplo da vida humilde, digna e vitoriosa. Agradeço à Mariana, filha do meu coração, o afeto e presença sua e de Lucas, rebento tão amado e de Vania, eterna amiga. Aos companheiros de trabalho, que me honram e afagam com a companhia nesta hora importante, especialmente à líder e mestra, Juíza Drª Inês Joaquina Sant'Ana Santos Coutinho. Agradeço aos adolescentes do Conselho Juvenil e de outros Programas da Vara da Infância de Teresópolis com os quais me permito sonhar outro mundo, melhor e mais justo. Agradeço aos irmãos da Segunda Igreja Batista. Agradeço especialmente a Hélio de Castro e senhora, (bem como a Edna Azevedo de Castro) que aqui trazem, com sua participação, a própria presença da genitora Carolina Azevedo de Castro. E agradeço à minha esposa, amada companheira de lutas, jornadas várias e sonhos incansáveis, por vivermos juntos este momento especial. Mas acima de tudo e de todos, agradeço a Deus-Pai, Logos-Criador, Senhor dos Senhores, Cristo Salvador, que me tem dado as luzes para seguir caminhando.

CHEGO COM MERECIMENTOS FRACOS QUANDO SE VÊ O LUME QUE PAIRA SOBRE A CADEIRA QUE OCUPAREI. Sucedo a um genial trovador e poeta, o Professor Roberto Francisco. Sapucaiense como meu pai, filho dileto de Ibrahim, mestre de verso, vocabulário e sentido, casado com esposa cujo nome é já poesia: Neusa Dalva. Professor de Matemática, mestre da oratória e do improviso, líder político, vereador, autor do projeto que cria o Museu Casa do Colono, Diretor de colégio, fundador de Educandário. Hoje Acadêmico Emérito da Casa, integra também as Academias Petropolitanas de Ciências, de Educação, e de Letras. E encontra tempo para presidir - há quase 3 décadas! - a União Brasileira de Trovadores - Petrópolis. Em 2008, "Acadêmico do Ano" pela Academia Petropolitana de Letras, é autor de um estudo sobre a trova e sua história, que da página desta Academia na Internet demonstra sua verve e cultura. Esta, a responsabilidade que me alcança. Pequeno assim, suceder a um gigante.

MAS NÃO BASTASSE A ENVERGADURA E ALTO LUSTRO DESTE ANTECESSOR, HÁ UM CRISTAL ANTERIOR QUE CINTILA SOBRE A CADEIRA DE Nº 14. Dela é patrona a grande poeta, sonetista e trovadora maior, CAROLINA AZEVEDO DE CASTRO. Ignorante da sua belíssima obra, envergonhei-me. Mas confortou-me o Mestre Sylvio Adalberto, lembrando que eventos como o de hoje é que nos dão percepção da imortalidade dos que já partiram, mas permanecem. Porque o verdadeiro talento jamais se vai. Como uma semente na terra, por anos pode esperar a água que dará uma flor em surpresa. Verso refinado como o de Carolina, e que carrega sentimento e a magia da alma encantada pela poesia genuína irá sempre florescer. Basta um coração que o acolha. E meu coração, como tantos Brasil afora, se ajardinou com a poesia de Carolina Azevedo de Castro.

ESPECIALIZOU-SE NA TROVA, ESSA ARTE DE PINTORES DE CABEÇA DE ALFINETE, ESSE "PEQUENINO FRASCO DE PERFUME" COMO CITA ROBERTO FRANCISCO, EM SEU ESTUDO. Nela, sem desprezo por seu igual talento no soneto, foi mestra. Por isso é reverenciada pelos trovadores, esta família especial de poetas, estirpe de hábeis cantores e bardos que vem dos tempos medievais. Na Internet, CAROLINA é por eles reconhecida como "uma das pioneiras do moderno trovismo brasileiro", referidos seus muitos prêmios e o afeto despertado em "quantos tiveram a felicidade de conhecê-la".

MELHOR CONHECER CAROLINA AZEVEDO DE CASTRO, PROPORCIONOU-ME O CONTATO COM O SEU FILHO, HÉLIO DE CASTRO, TAMBÉM TROVADOR, ACADÊMICO E MÚSICO, e que hoje muito me alegra com sua presença, vindo de Curitiba para honrar a memória da mãe tão benquista.

A POETA NASCEU EM TERRA DE POETAS. Recife, em 1909, foi seu berço. Cedo se apegou à poesia. Num soneto disse: "Nasci poetisa". Declamadora, era atração de festas caseiras e eventos da escola. Casou-se com Francisco Correa de Castro, que - quis a coincidência desse encontro atemporal - como bancário fui em Petrópolis, fosse bancário, e por conta da profissão, para Petrópolis tenha vindo (Digamos ainda mais, pois fomos ambos bancários do Banco do Brasil). Aqui chegada em 1941, a jovem Carolina teve seus filhos. Edna Azevedo de Castro nasce primeiro. Em 1944 chega Vera e em 1946, Hélio de Castro.

DO CONTATO COM A NEBLINA E AS HORTÊNSIAS, NO ACONCHEGO DA SUA FAMÍLIA, DESABROCHOU DE VEZ O SOL DA SUA POESIA, JÁ EMBRIONÁRIA EM PERNAMBUCO. Ela que fora voz dos tantos poetas que dissera, descobriu dicção própria, nesse momento que tantos dos senhores já vivenciaram, e que marca para sempre uma existência. O verso requer voz e nos surpreende a nós, que sempre duvidamos de nossa capacidade de a dizer. Mas Carolina tinha algo a proclamar. A poesia a convocava e ela atendeu ao chamado. Dona de casa, esposa, mãe e poeta, assim vivia.

A VISÃO DA DONA DE CASA POETA ENTRANDO NOITE ADENTRO, APÓS AFAZERES DOMÉSTICOS, nos remete a outras artistas, como Adélia Prado, Cora Coralina, que conjugaram o bordado, os cuidados dos filhos e as surpresas do forno, com a confeitaria de metáforas. Estas, milimetricamente escolhidas para as exatas palavras, posto que Carolina aventurou-se na difícil arte da trova, esse exercício lírico, esse bonsai de vocábulos. Participou de Jogos Florais, tendo se destacado sempre com premiações. Foi fundadora e primeira presidente da seção local do Grêmio Brasileiro de Trovadores, sucedido pela UBT - União Brasileira de Trovadores.

ORGANIZOU CONCURSOS DE TROVAS, COM APOIO DO MARIDO, e coadjuvada por petropolitanos ilustres. As festividades aconteciam no Hotel Quitandinha ou no Casablanca Palace Hotel. Roberto Francisco lembra que Carolina mobilizava hoteleiros e donos de restaurante para recepcionar artistas do Brasil inteiro. Petrópolis, assim, se tornava uma Capital da Trova.

VENCEU DIVERSOS CONCURSOS, EM PETRÓPOLIS, pelo Brasil afora, destacando-se também em eventos em Portugal e Angola. O orgulho que deu à cidade que sua foi por tanto tempo, fez com que o Vereador José Duarte Canellas propusesse o título concedido de "Cidadã Petropolitana".

O FILHO HÉLIO RELATOU-ME COM SAUDADE OS TEMPOS EM QUE CAROLINA PROMOVIA EM SUA RESIDÊNCIA ENCONTROS, para leitura, música e conversas sobre arte e poesia. As famosas tertúlias. Assim disse-me Hélio, que delas participava:

"Ao cair da tarde dos sábados, se reuniam poetas, músicos, literatos e outros artistas para declamarem seus trabalhos, cantarem ou representarem, enriquecendo a infância e a juventude de um jovem que ficava olhando tudo aquilo com um olhar muito curioso, se deleitando com tanta coisa bonita que era trazida aos seus olhos e ouvidos."

O Prof. Roberto Francisco confirma essas passagens especiais, das quais sua saudade destaca o próprio Hélio como jovem músico, e Carolina, à frente do piano e do poema. Essa imagem da mãe reunindo em seu lar a arte e partilhando-a com os filhos, como quem distribui pão sagrado, nos enternece e comove, nestes tempos de famílias em declínio, afetos destroçados e desamor pela sensibilidade da existência.

MAS PODEMOS VER O QUE PODE FAZER A CONJUGAÇÃO DA GENÉTICA COM A POSITIVA INFLUÊNCIA DO MEIO. Criados num tal ambiente, seus filhos se tornaram ligados à arte e literatura. Edna Azevedo de Castro, exerceu magistério como Professora de Línguas. Vera de Castro, que se foi precocemente, era escritora. E Hélio, que esteve bancário como eu e como o pai, é trovador militante, além de músico de jazz. Como acasos inexistem, foi aluno - mundo pequeno! - de Mariazinha Chaves e Wolney Aguiar, pais do Maestro Ernani Aguiar, esposo de minha irmã. E, melhor que tudo, Hélio foi também aluno de Roberto Francisco, amigo de sua mãe, que me antecedeu nesta cadeira. São estes os filhos de Carolina. Alimentados com exemplo e arte, com arte e exemplo procederam.

CUMPRE DESTACAR EM CAROLINA AINDA O VIGOR MORAL DA MULHER DE SAÚDE FRÁGIL. Mesmo enfrentando nove cirurgias por razões diversas, não se furtou à maternidade presente e ao ofício da poesia.

DESSA ALMA FORTE E TERNA SURGIRAM OBRAS. "PLUMAS AO VENTO", a coletânea de trovas publicada em 1973, mereceu apreciação do escritor paulista Walter Weny:

"É um livro inteiro de bons versos, sem altos e baixos, mostrando, plenamente, que domina a arte com absoluta segurança, sabe torná-la útil ao leitor, insinuando o bom conselho, mostrando o bom exemplo, incentivando o culto da virtude. Esta é a missão do escritor: ser útil ao leitor, ajudá-lo a resolver seus problemas íntimos e a superar seus fracassos e desânimos"

CAROLINA COLABOROU COM O POETA LUIZ OTÁVIO NO "DECÁLOGO DE METRIFICAÇÃO", divulgado pela União Brasileira de Trovadores e descrito na Internet em diversos sítios com o "interessantíssimo" e "imperdível" "Dicionário de Versificação".

EM HOMENAGEM PÓSTUMA, EM 1980, O ESPOSO E OS FILHOS FIZERAM PUBLICAR A COLETÂNEA DE SONETOS DE CAROLINA, DENOMINADA "IMAGENS QUE FICARAM". Deliciei-me com o exemplar que me foi ofertado por Hélio, que tem prefácio da filha Vera Azevedo de Castro e é aberto por um trova de Francisco Correa de Castro, marido saudoso e devotado.

DA OBSERVAÇÃO DA SUA OBRA, VÊ-SE QUE Carolina, ao contrário da mulher distraída, cantada por um excelso poeta, era atenta 'nos seus olhos profundos', e guardava não a dor, mas 'tanto amor, o amor de todo esse mundo'. E por isso, fazia da sua poesia um elemento de conforto em sofrimentos, de protesto na injustiça, de estímulo no caminho da perseverança. Multitemática, não declinava ao desafio de qualquer mote. Fez poemas para louvar a Força Expedicionária Brasileira. Pedro Álvares Cabral. Seu marido. Os filhos. Elvis Presley. Oswaldo Cruz. Uma cigana. Viu um negro pobre na rua e escreveu um soneto belíssimo, denunciando a mácula da escravidão que pairava na sua ancestral desgraça. Viu a pequena mendiga de 09 anos, e seu coração de mãe e de poeta não resistiu e deu-lhe, mais que qualquer pobre moeda, um soneto régio, de belíssima construção. Identifiquei-me com a sua fé, a sua sensibilidade social, e seu amor pelos jovens e crianças.

CAROLINA NÃO DESCUIDAVA AFAZERES DO LAR, MAS ESTAVA ATENTA AO QUE OCORRIA NO MUNDO. Um Natal. Guerra na Hungria. O rádio ecoa a tragédia gélida. Vendo em torno de si a alegria dos filhos aquecidos à volta de pinheiro e presépio, sua generosidade de poeta doce, transportava-se em carinhos para os alheios filhos envoltos na tragédia, e cantou então (mãe do mundo que se fazia) como se ninasse os filhos próprios no mesmo colo afetuoso:

Feliz Natal, pequenos da Hungria!
Nada será mais útil e dadivoso,
que este voto de paz e de harmonia
neste momento grave e angustioso.

Diante desta torpe tirania,
ouvindo o metralhar calamitoso,
já não podem sorrir com alegria
neste dia feliz e venturoso.

Deveriam vocês estar cantando,
mas estão em silêncio, contemplando
os espectros da guerra, em bacanal!

Paz a vocês, crianças da Hungria!
Possa Jesus lhes dar um novo dia
e uma tranqüila noite de Natal!

MAS ANTES DE TUDO, CAROLINA É UMA POETA DE GÊNERO. Isso não a reduz ao gueto, pelo contrário, amplia seu discurso, porque o sentimento do feminino não a enraivece como em equívocos de certo feminismo, mas sim, engrandece. Por isso, em diversos modos ela refere a um tempo a bravura de mulher que exercitou em vida e a delicadeza do sentimento implícito no gênero:

Sou austera e destemida / quando o momento requer;/
mas nos teus braços, vencida, / sou simplesmente mulher!

Às vezes desdenha com bom humor da crítica masculina:

Com seu gênio caprichoso,/ o seu fascínio e beleza,/
a mulher é o mais formoso/ defeito da natureza!

E provando que a consciência do feminino não precisa ser irascível, ela, tão mulher, dá-se ao luxo de brincar ferinamente:

Há três coisas que a mulher / consegue fazer de um nada:/
uma intriguinha qualquer, / um chapéu e uma salada!...

CAROLINA É TAMBÉM POETA DO SENTIMENTO. E explora, do coração ao papel, suas esperanças, saudades e sonhos, como se vê deste pequeno conjunto de trovas:

Quanto esta vida seria / difícil de suportar, /
se não fosse esta mania / que a gente tem de sonhar!
- - - - - - - -
Um carro de boi gemendo... / um longo apito de trem... /
uma porteira rangendo... / – isso é saudade também!
- - - - - - - -
Achei minhas esperanças / em pedaços divididas. /
Juntei-os e enchi meus sonhos / de mentiras coloridas.

E SE TORNA EFETIVAMENTE POETA PETROPOLITANA, nas muitas linhas que dedica à cidade, como as estrofes finais de um belíssimo soneto:

Cidade Verde!... Oh! Que reminiscências
nesta policromia das hortênsias,
que enfeitam, desde o início, a tua serra!

Vejo-te, fulgurante de harmonia,
por entre a verdejante serrania
qual pedaço de céu, posto na terra!

MAS CAROLINA ERA TAMBÉM - E AQUI OUTRO PONTO DE IDENTIFICAÇÃO E ALEGRIA - UMA POETA CUJOS VERSOS ECOAVAM SUA FÉ. Dedicou muitos poemas ao sagrado. Palavras de Cristo sobre a primazia das crianças no Reino dos Céus. Sobre a importância da confiança em Deus. E da confluência da fé e amor aos pequeninos em sua arte, gostaria de demonstrá-la com a citação deste soneto admirável, intitulado "O Milagre das Estrelas":

Já nascera de parto prematuro
e ficou cega em plena juventude.
Mas tinha fé e a fé é uma virtude,
um meio de viver mais bem seguro.

Sem preconceito algum quanto ao futuro,
indiferente ao seu destino rude,
vivia entregue à natural quietude
do seu mundo confuso e sempre escuro.

Erguendo o olhar sem brilho ao infinito,
de repente, a ceguinha solta um grito:
" -Meu Deus! Que maravilha! Eu posso vê-las!..."

Dos olhos afastado o negro véu,
concretizado viu, no azul do céu,
o divino milagre das estrelas!

COMO SE VÊ ERA POETA DO ENCORAJAMENTO. Por isso usou a própria dificuldade da saúde fragilizada, como mote, no belíssimo soneto "Divina Dor", de que vai aqui um trecho:

Divina a dor, que não se denuncia/
à medida que aumenta e se engrandece.../
Quanto mais nosso corpo suplicia,/
mais a alma purifica e fortalece

CAROLINA, QUE NASCEU PERNAMBUCANA, VIVEU PETROPOLITANA, FALECEU PARANAENSE. Aos 68 anos, em 31 de agosto de 1977, foi sepultada em Curitiba. Mas sua poesia vive e viverá sempre, cobrindo como um manto doce a geografia da sua trajetória, trovando desde o litoral nordestino, sonetando pelas serras fluminenses, poetando até ao sul do Brasil.

MINHA DISPOSIÇÃO É MUITO APRENDER, ATÉ PARA NÃO DESONRAR ESSA CÉLEBRE CADEIRA QUE TANTOS FRUTOS LEGOU. Aprender com Carolina Azevedo de Castro. Aprender com os confrades. Oferto ao acervo da Academia o exemplar do livro que me foi doado pelo filho da patrona, bem como o seu retrato, para que melhor honremos sua memória e a perenidade da sua poesia.

ANTES DO DESFECHO, NADA DIRÁ MELHOR DE CAROLINA DO QUE O SONETO FEITO EM 1978 POR SEU FILHO, HÉLIO DE CASTRO, aqui presente, e que expressa tão bem não só o carinho filial, mas a certeza da imortalidade da artista. Chama-se "À Minha Mãe':

Liberta, enfim, da dor e do sofrimento,
porque passaste aqui na Terra, como provas,
Hoje tu fazes teus versos, tuas trovas,
em algum ponto muito azul do Firmamento.

Serás lembrada por nós a qualquer momento,
em que se fale de lirismo e de poesias...
Deixarás nossas vidas menos vazias,
quando ficarmos a reler "Plumas ao Vento".

Eras a Mãe dedicada, esposa e amiga,
prestativa, caridosa e paciente,
mas ocultavas os teus dons sob a humildade.

Por tudo isso, minha Mãe, força é que eu diga:
por todo o sempre, onde estiveres, minha amiga,
serás banhada pela Luz da Divindade!

Saúdo a Academia. Saúdo Roberto Francisco. Honro Carolina Azevedo de Castro. A Deus entrego as glórias. Muito obrigado.

Petrópolis, 25 de setembro de 2010.

MAIS INFORMAÇÕES

Participação em antologias e coletâneas: "Nossos Poetas" (poesia - 1981); "Sob o Céu de Teresópolis" (conto - 2002) "Servidor das Letras" (poesia - 2004); "Servidor das Letras" (ensaio - 2005); "Servidor das Letras" (poesia - 2008); Revista da EMERJ - Comemorativa dos 80 anos do Código Mello Matos (ensaio - 2007);

Atuação em Programas sociais, coordenando, em Teresópolis, os Projetos da Vara da Infância, da Juventude e do Idoso: Conselho Juvenil; Esperança Futebol e Cultura (Para jovens em cumprimento de medida socioeducativa de semiliberdade); Esperança em Ação (Para jovens em cumprimento de medida socioeducativa de liberdade assistida), etc.

Palestrante: Em escolas, no Projeto Escola da Paz (parceria com a Secretaria de Educação de Teresópolis); EMERJ (Seminários sobre Direito da Infância e da Juventude); para a Faculdade de Direito da FESO; para a ABRAMINJ (Associação Brasileira de Magistrados da Infância e da Juventude); para a ESAJ (Escola de Administração Judiciária) etc. Às vezes, Deus me concede ir a um púlpito, para pregar o Evangelho, como nas igrejas batistas Central de Teresópolis, Segunda de Petrópolis, onde sou membro.