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| Discurso de Posse na Academia Brasileira de Poesia - Casa de Raul de Leoni - Cadeira nº 14 - CAROLINA AZEVEDO DE CASTRO | |||||||||||||
Denilson Cardoso de Araújo BOA NOITE. SAÚDO A TODOS OS PRESENTES, ESPECIALMENTE AOS ILUSTRES ACADÊMICOS QUE ME ACOLHEM NESTA CONFRARIA. Entre genuínos artistas do verso, minhas imperfeições de pretenso poeta ficarão mais expostas. Mas como "Academia" significou antes, em Platão, um jardim de ensino e discipulado, é como aprendiz que me achego aos mestres aqui reunidos, nesta casa do legendário poeta de único e luminoso livro. RAUL DE LEONI, DOS QUE ESCREVERAM POUCO PARA DIZER TANTO. Eu, que demais redijo para dizer menos, criança vi pelas praças o busto, a memória, o livro, a legenda. Criança, comecei a rascunhar versos. Lembra-me a emoção de vê-los datilografados pelo meu pai, em bela surpresa. Foi a primeira "publicação". Meu pai pôs em letra de fôrma as linhas mal traçadas do épico precoce de meus dez anos de idade. Sobre o Êxodo era, e em êxodos de aprendizados, me vi pela vida. MAS PETROPOLITANO, COMIGO FORAM SEMPRE OS SINOS DA CATEDRAL, os vitrais varejados de sol colorido, as ruas de neblina e hortênsias, os cristais, quitandas, quitandinhas, bandas, bancos, pontes, morros, colinas. O Imperador na praça, meditando seu livro. Livros que por sebos, bibliotecas e saudosas livrarias que se foram, amei cedo. Aqui conheci a paixão, aqui me fiz, aqui residem meus pais e irmãos, e aqui meu coração habita constante, à espera do corpo ausente por razões profissionais. Brasileira a Academia, me orgulha que seja antes Petropolitana, e que nos receba nela o Patriarca de todos os poetas desta cidade serrana. AGRADEÇO À ACADEMIA. AO OPEROSO PRESIDENTE, SYLVIO ADALBERTO. Ao meu Padrinho de candidatura, múltiplo Dr. Fernando Costa. Ao Professor Ataualpa Filho, que sobre meu trabalho teceu apreciação crítica tão generosa. Agradeço à família, irmãos, sobrinhos, aos pais queridos. Dr. Dinizar de Araújo, fibra e integridade, poeta, cuja apetitosa estante de livros, contemplada na infância, me fez amar a literatura, ele, meu primeiro editor. E Nilma, mãe solidária e cristã, que deu-nos sempre a mão nos momentos difíceis da existência. Ambos, deram o exemplo da vida humilde, digna e vitoriosa. Agradeço à Mariana, filha do meu coração, o afeto e presença sua e de Lucas, rebento tão amado e de Vania, eterna amiga. Aos companheiros de trabalho, que me honram e afagam com a companhia nesta hora importante, especialmente à líder e mestra, Juíza Drª Inês Joaquina Sant'Ana Santos Coutinho. Agradeço aos adolescentes do Conselho Juvenil e de outros Programas da Vara da Infância de Teresópolis com os quais me permito sonhar outro mundo, melhor e mais justo. Agradeço aos irmãos da Segunda Igreja Batista. Agradeço especialmente a Hélio de Castro e senhora, (bem como a Edna Azevedo de Castro) que aqui trazem, com sua participação, a própria presença da genitora Carolina Azevedo de Castro. E agradeço à minha esposa, amada companheira de lutas, jornadas várias e sonhos incansáveis, por vivermos juntos este momento especial. Mas acima de tudo e de todos, agradeço a Deus-Pai, Logos-Criador, Senhor dos Senhores, Cristo Salvador, que me tem dado as luzes para seguir caminhando. CHEGO COM MERECIMENTOS FRACOS QUANDO SE VÊ O LUME QUE PAIRA SOBRE A CADEIRA QUE OCUPAREI. Sucedo a um genial trovador e poeta, o Professor Roberto Francisco. Sapucaiense como meu pai, filho dileto de Ibrahim, mestre de verso, vocabulário e sentido, casado com esposa cujo nome é já poesia: Neusa Dalva. Professor de Matemática, mestre da oratória e do improviso, líder político, vereador, autor do projeto que cria o Museu Casa do Colono, Diretor de colégio, fundador de Educandário. Hoje Acadêmico Emérito da Casa, integra também as Academias Petropolitanas de Ciências, de Educação, e de Letras. E encontra tempo para presidir - há quase 3 décadas! - a União Brasileira de Trovadores - Petrópolis. Em 2008, "Acadêmico do Ano" pela Academia Petropolitana de Letras, é autor de um estudo sobre a trova e sua história, que da página desta Academia na Internet demonstra sua verve e cultura. Esta, a responsabilidade que me alcança. Pequeno assim, suceder a um gigante. ESPECIALIZOU-SE NA TROVA, ESSA ARTE DE PINTORES DE CABEÇA DE ALFINETE, ESSE "PEQUENINO FRASCO DE PERFUME" COMO CITA ROBERTO FRANCISCO, EM SEU ESTUDO. Nela, sem desprezo por seu igual talento no soneto, foi mestra. Por isso é reverenciada pelos trovadores, esta família especial de poetas, estirpe de hábeis cantores e bardos que vem dos tempos medievais. Na Internet, CAROLINA é por eles reconhecida como "uma das pioneiras do moderno trovismo brasileiro", referidos seus muitos prêmios e o afeto despertado em "quantos tiveram a felicidade de conhecê-la". A POETA NASCEU EM TERRA DE POETAS. Recife, em 1909, foi seu berço. Cedo se apegou à poesia. Num soneto disse: "Nasci poetisa". Declamadora, era atração de festas caseiras e eventos da escola. Casou-se com Francisco Correa de Castro, que - quis a coincidência desse encontro atemporal - como bancário fui em Petrópolis, fosse bancário, e por conta da profissão, para Petrópolis tenha vindo (Digamos ainda mais, pois fomos ambos bancários do Banco do Brasil). Aqui chegada em 1941, a jovem Carolina teve seus filhos. Edna Azevedo de Castro nasce primeiro. Em 1944 chega Vera e em 1946, Hélio de Castro. DO CONTATO COM A NEBLINA E AS HORTÊNSIAS, NO ACONCHEGO DA SUA FAMÍLIA, DESABROCHOU DE VEZ O SOL DA SUA POESIA, JÁ EMBRIONÁRIA EM PERNAMBUCO. Ela que fora voz dos tantos poetas que dissera, descobriu dicção própria, nesse momento que tantos dos senhores já vivenciaram, e que marca para sempre uma existência. O verso requer voz e nos surpreende a nós, que sempre duvidamos de nossa capacidade de a dizer. Mas Carolina tinha algo a proclamar. A poesia a convocava e ela atendeu ao chamado. Dona de casa, esposa, mãe e poeta, assim vivia. A VISÃO DA DONA DE CASA POETA ENTRANDO NOITE ADENTRO, APÓS AFAZERES DOMÉSTICOS, nos remete a outras artistas, como Adélia Prado, Cora Coralina, que conjugaram o bordado, os cuidados dos filhos e as surpresas do forno, com a confeitaria de metáforas. Estas, milimetricamente escolhidas para as exatas palavras, posto que Carolina aventurou-se na difícil arte da trova, esse exercício lírico, esse bonsai de vocábulos. Participou de Jogos Florais, tendo se destacado sempre com premiações. Foi fundadora e primeira presidente da seção local do Grêmio Brasileiro de Trovadores, sucedido pela UBT - União Brasileira de Trovadores. ORGANIZOU CONCURSOS DE TROVAS, COM APOIO DO MARIDO, e coadjuvada por petropolitanos ilustres. As festividades aconteciam no Hotel Quitandinha ou no Casablanca Palace Hotel. Roberto Francisco lembra que Carolina mobilizava hoteleiros e donos de restaurante para recepcionar artistas do Brasil inteiro. Petrópolis, assim, se tornava uma Capital da Trova. VENCEU DIVERSOS CONCURSOS, EM PETRÓPOLIS, pelo Brasil afora, destacando-se também em eventos em Portugal e Angola. O orgulho que deu à cidade que sua foi por tanto tempo, fez com que o Vereador José Duarte Canellas propusesse o título concedido de "Cidadã Petropolitana". O FILHO HÉLIO RELATOU-ME COM SAUDADE OS TEMPOS EM QUE CAROLINA PROMOVIA EM SUA RESIDÊNCIA ENCONTROS, para leitura, música e conversas sobre arte e poesia. As famosas tertúlias. Assim disse-me Hélio, que delas participava: "Ao cair da tarde dos sábados, se reuniam poetas, músicos, literatos e outros artistas para declamarem seus trabalhos, cantarem ou representarem, enriquecendo a infância e a juventude de um jovem que ficava olhando tudo aquilo com um olhar muito curioso, se deleitando com tanta coisa bonita que era trazida aos seus olhos e ouvidos." O Prof. Roberto Francisco confirma essas passagens especiais, das quais sua saudade destaca o próprio Hélio como jovem músico, e Carolina, à frente do piano e do poema. Essa imagem da mãe reunindo em seu lar a arte e partilhando-a com os filhos, como quem distribui pão sagrado, nos enternece e comove, nestes tempos de famílias em declínio, afetos destroçados e desamor pela sensibilidade da existência. MAS PODEMOS VER O QUE PODE FAZER A CONJUGAÇÃO DA GENÉTICA COM A POSITIVA INFLUÊNCIA DO MEIO. Criados num tal ambiente, seus filhos se tornaram ligados à arte e literatura. Edna Azevedo de Castro, exerceu magistério como Professora de Línguas. Vera de Castro, que se foi precocemente, era escritora. E Hélio, que esteve bancário como eu e como o pai, é trovador militante, além de músico de jazz. Como acasos inexistem, foi aluno - mundo pequeno! - de Mariazinha Chaves e Wolney Aguiar, pais do Maestro Ernani Aguiar, esposo de minha irmã. E, melhor que tudo, Hélio foi também aluno de Roberto Francisco, amigo de sua mãe, que me antecedeu nesta cadeira. São estes os filhos de Carolina. Alimentados com exemplo e arte, com arte e exemplo procederam. CUMPRE DESTACAR EM CAROLINA AINDA O VIGOR MORAL DA MULHER DE SAÚDE FRÁGIL. Mesmo enfrentando nove cirurgias por razões diversas, não se furtou à maternidade presente e ao ofício da poesia. DESSA ALMA FORTE E TERNA SURGIRAM OBRAS. "PLUMAS AO VENTO", a coletânea de trovas publicada em 1973, mereceu apreciação do escritor paulista Walter Weny: "É um livro inteiro de bons versos, sem altos e baixos, mostrando, plenamente, que domina a arte com absoluta segurança, sabe torná-la útil ao leitor, insinuando o bom conselho, mostrando o bom exemplo, incentivando o culto da virtude. Esta é a missão do escritor: ser útil ao leitor, ajudá-lo a resolver seus problemas íntimos e a superar seus fracassos e desânimos" CAROLINA COLABOROU COM O POETA LUIZ OTÁVIO NO "DECÁLOGO DE METRIFICAÇÃO", divulgado pela União Brasileira de Trovadores e descrito na Internet em diversos sítios com o "interessantíssimo" e "imperdível" "Dicionário de Versificação". EM HOMENAGEM PÓSTUMA, EM 1980, O ESPOSO E OS FILHOS FIZERAM PUBLICAR A COLETÂNEA DE SONETOS DE CAROLINA, DENOMINADA "IMAGENS QUE FICARAM". Deliciei-me com o exemplar que me foi ofertado por Hélio, que tem prefácio da filha Vera Azevedo de Castro e é aberto por um trova de Francisco Correa de Castro, marido saudoso e devotado. DA OBSERVAÇÃO DA SUA OBRA, VÊ-SE QUE Carolina, ao contrário da mulher distraída, cantada por um excelso poeta, era atenta 'nos seus olhos profundos', e guardava não a dor, mas 'tanto amor, o amor de todo esse mundo'. E por isso, fazia da sua poesia um elemento de conforto em sofrimentos, de protesto na injustiça, de estímulo no caminho da perseverança. Multitemática, não declinava ao desafio de qualquer mote. Fez poemas para louvar a Força Expedicionária Brasileira. Pedro Álvares Cabral. Seu marido. Os filhos. Elvis Presley. Oswaldo Cruz. Uma cigana. Viu um negro pobre na rua e escreveu um soneto belíssimo, denunciando a mácula da escravidão que pairava na sua ancestral desgraça. Viu a pequena mendiga de 09 anos, e seu coração de mãe e de poeta não resistiu e deu-lhe, mais que qualquer pobre moeda, um soneto régio, de belíssima construção. Identifiquei-me com a sua fé, a sua sensibilidade social, e seu amor pelos jovens e crianças. CAROLINA NÃO DESCUIDAVA AFAZERES DO LAR, MAS ESTAVA ATENTA AO QUE OCORRIA NO MUNDO. Um Natal. Guerra na Hungria. O rádio ecoa a tragédia gélida. Vendo em torno de si a alegria dos filhos aquecidos à volta de pinheiro e presépio, sua generosidade de poeta doce, transportava-se em carinhos para os alheios filhos envoltos na tragédia, e cantou então (mãe do mundo que se fazia) como se ninasse os filhos próprios no mesmo colo afetuoso: Feliz Natal, pequenos da Hungria! Diante desta torpe tirania, Deveriam vocês estar cantando, Paz a vocês, crianças da Hungria! MAS ANTES DE TUDO, CAROLINA É UMA POETA DE GÊNERO. Isso não a reduz ao gueto, pelo contrário, amplia seu discurso, porque o sentimento do feminino não a enraivece como em equívocos de certo feminismo, mas sim, engrandece. Por isso, em diversos modos ela refere a um tempo a bravura de mulher que exercitou em vida e a delicadeza do sentimento implícito no gênero: Sou austera e destemida / quando o momento requer;/ Às vezes desdenha com bom humor da crítica masculina: Com seu gênio caprichoso,/ o seu fascínio e beleza,/ E provando que a consciência do feminino não precisa ser irascível, ela, tão mulher, dá-se ao luxo de brincar ferinamente: Há três coisas que a mulher / consegue fazer de um nada:/ CAROLINA É TAMBÉM POETA DO SENTIMENTO. E explora, do coração ao papel, suas esperanças, saudades e sonhos, como se vê deste pequeno conjunto de trovas: Quanto esta vida seria / difícil de suportar, / E SE TORNA EFETIVAMENTE POETA PETROPOLITANA, nas muitas linhas que dedica à cidade, como as estrofes finais de um belíssimo soneto: Cidade Verde!... Oh! Que reminiscências Vejo-te, fulgurante de harmonia, MAS CAROLINA ERA TAMBÉM - E AQUI OUTRO PONTO DE IDENTIFICAÇÃO E ALEGRIA - UMA POETA CUJOS VERSOS ECOAVAM SUA FÉ. Dedicou muitos poemas ao sagrado. Palavras de Cristo sobre a primazia das crianças no Reino dos Céus. Sobre a importância da confiança em Deus. E da confluência da fé e amor aos pequeninos em sua arte, gostaria de demonstrá-la com a citação deste soneto admirável, intitulado "O Milagre das Estrelas": Já nascera de parto prematuro Sem preconceito algum quanto ao futuro, Erguendo o olhar sem brilho ao infinito, Dos olhos afastado o negro véu, COMO SE VÊ ERA POETA DO ENCORAJAMENTO. Por isso usou a própria dificuldade da saúde fragilizada, como mote, no belíssimo soneto "Divina Dor", de que vai aqui um trecho: Divina a dor, que não se denuncia/ CAROLINA, QUE NASCEU PERNAMBUCANA, VIVEU PETROPOLITANA, FALECEU PARANAENSE. Aos 68 anos, em 31 de agosto de 1977, foi sepultada em Curitiba. Mas sua poesia vive e viverá sempre, cobrindo como um manto doce a geografia da sua trajetória, trovando desde o litoral nordestino, sonetando pelas serras fluminenses, poetando até ao sul do Brasil. MINHA DISPOSIÇÃO É MUITO APRENDER, ATÉ PARA NÃO DESONRAR ESSA CÉLEBRE CADEIRA QUE TANTOS FRUTOS LEGOU. Aprender com Carolina Azevedo de Castro. Aprender com os confrades. Oferto ao acervo da Academia o exemplar do livro que me foi doado pelo filho da patrona, bem como o seu retrato, para que melhor honremos sua memória e a perenidade da sua poesia. ANTES DO DESFECHO, NADA DIRÁ MELHOR DE CAROLINA DO QUE O SONETO FEITO EM 1978 POR SEU FILHO, HÉLIO DE CASTRO, aqui presente, e que expressa tão bem não só o carinho filial, mas a certeza da imortalidade da artista. Chama-se "À Minha Mãe': Liberta, enfim, da dor e do sofrimento, Serás lembrada por nós a qualquer momento, Eras a Mãe dedicada, esposa e amiga, Por tudo isso, minha Mãe, força é que eu diga: Saúdo a Academia. Saúdo Roberto Francisco. Honro Carolina Azevedo de Castro. A Deus entrego as glórias. Muito obrigado. Petrópolis, 25 de setembro de 2010. |
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| MAIS INFORMAÇÕES | |||||||||||||
Participação em antologias e coletâneas: "Nossos Poetas" (poesia - 1981); "Sob o Céu de Teresópolis" (conto - 2002) "Servidor das Letras" (poesia - 2004); "Servidor das Letras" (ensaio - 2005); "Servidor das Letras" (poesia - 2008); Revista da EMERJ - Comemorativa dos 80 anos do Código Mello Matos (ensaio - 2007); |
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