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INÍCIO - ACADÊMICOS - ACADÊMICOS TITULARES - CHRISTIANE MICHELIN
CHRISTIANE MICHELIN - CADEIRA 35 - PATRONO: RAUL DE LEONI

Christiane Michelin é formada em Letras pela Universidade Católica de Petrópolis, RJ, e cursou a faculdade de jornalismo na Universidade Gama Filho, no Rio de Janeiro. Lecionou inglês por muitos anos. Foi coreógrafa do Grupo de Sapateado Michelin, por 18 anos e proprietária do Espaço de Arte e Cultura C. M. É jornalista e escritora. Membro da Academia Petropolitana de Letras, assina uma coluna semanal no Jornal de Petrópolis e outra no Diário de Petrópolis, além de prestar serviços como freelancer em revistas da cidade e do Rio de Janeiro. É autora de O Abecedário do Viajante ( 1999), O Abecedário do Casal ( 2000), Guia de Gastronomia, Hospedagem e Lazer de Petrópolis, Itaipava e Arredores, em sua 8a edição, Os Sete Pecados Revisitados, escrito com a psicóloga Sonia da S. Santos ( 2004) , o romance Convite de Casamento ( 2005), O Abecedário de Pais e Filhos ( 2006) e Convergência, escrito com seu pai, Fernando Magno ( 2007).

Coisas de Mulher

Christiane Michelin

Posto que 90% das mulheres vive em luta constante contra a balança e que um dos objetivos é estar bem na fita durante o verão – sejamos claras, bem no biquíni – por que diabos será que a grande maioria das lojas que vendem biquíni, possui cabinas iluminadas com aquelas famigeradas lâmpadas fluorescentes?
Para quem fez regime o ano inteiro, disse não aos brigadeiros, mousses, quiches e queijos e passou pelas sessões de massagem, com direito a tapas, choques e beliscões, nada pior do que ainda ter que enfrentar aquele maldito cubículo com luz branca. Aparece celulite até na testa! Tá certo que os namorados e maridos juram que não notam “ essas coisas” que para nós, mulheres, são absolutamente monstruosas, mas, todas sabemos que, depois das cabinas de tortura das lojas de biquíni, o segundo maior inimigo das mulheres, são os olhos das outras mulheres – na verdade, muito mais a língua do que os olhos.
Não bastasse, geralmente quando saímos em busca de um biquíni ainda estamos branquelas. Odeio aquele tom de aipim cru descascado das minhas pernas antes do verão. Já tentei de tudo para me livrar da mistura hispano-portuguesa gritando na minha pele. Uma pena que o tom marrom marroquino do meu avô tenha sido herança de poucos na família. Voltando ao aipim, essa coloração ainda torna a tarefa da escolha do biquíni sob a luz inquisitora pior. Sempre parece faltar pano e sobrar alguma gordurinha.
Portanto, senhores lojistas, vai aqui meu apelo, que, tenho certeza, não é só meu: por que não colocam uma meia luz nas tais cabinas, de forma que nos ajudem em tão delicada tarefa? Não se trata de tapar o sol com a peneira, mas sim, de não nos colocar nuas e brancas diante do espelho, sob uma luz que nos deforma de forma avassaladora. Aposto que eu, mais um séquito de fieis seguidoras das balanças, seremos eternamente gratas e clientes assíduas, para sempre.

Verso roto Mergulho I

Ponto de partida e de chegada
Minha poesia é ponte
Por sobre a qual passam poeiras de mares distantes

Por sobre ela
Pegadas de peregrinos em busca de paz
De pastores e seus rebanhos de estrelas

É porto onde pairam pirilampos e pensamentos
Liberdades e tormentas

É passagem para Pasárgadas outras
Onde pulsam as horas
Perdem-se os dias noite afora
Para se encontrarem adiante
Nas entrelinhas
De um verso roto.

Vi em seus olhos a possibilidade de mergulhar
Não hesitei
Mergulhei sem escafandro
Sem máscaras
Sem medo

Voltei à tona encharcada de luz
De lua

Vi minha alma espelhada no verde
Espraiada na líquida verdade de seu amar

Fui tocada pelo sopro que revela
Que entrega
Que aceita

Fui tangida pelo acalanto que cala o pranto
Que aquece
Que aquiesce

Dedos do Vento Périplo das Horas

Sonhei que estava acordada
Dormia profundamente
Por entre picos nevados
Vales
Vilas

Sonhei que dormia
E acordada
Brincava de roda
De pique-esconde
De faz de conta

Sonhei que um dia
Encontraria de novo a menina da saia rodada
Da fita encarnada
Das longas tranças

Um pouco mudada diante do espelho
Com marcas de sonhos vividos
E de outros frustrados
A menina aqui se apresenta

Não mais a fita e as tranças
Guarda ainda o som das canções
Que a faziam flanar a saia
O gosto do açúcar nos lábios
Embora já tenha provado do fel o sabor mais amargo

Guarda nos cabelos, agora soltos,
A sensação dos dedos do vento
A embaralhar-lhes os fios
Para depois, ternamente, acariciá-los

Guarda nos olhos o brilho mais intenso
Apesar de, vez por outra, mergulhar na escuridão
Das noites sem estrelas

Guarda no corpo a cadência das horas
E nos pés o compasso do tempo

Templo de sentimentos vários
É guardiã de muitas histórias

Líquida
Salgada
Ágil
A hora esvai-se por entre os ponteiros do dia

Lânguida
Doce
Frágil
Escorrega por entre os fios do tempo

Lúgubre
Ácida
Fácil
Entrega-se ao corte das lâminas de cada minuto

Lúdica
Lírica
Louca
Deixa-se morrer aqui
Para renascer adiante
No embate compassado de cada segundo
Por um átimo de vida

Força propulsora

No desenho de tuas linhas
Redescobri minha história
Memória de tempos
Em que castelos e condessas
Passeavam pelos jardins de nossas verdades

O calor de tuas mãos
É afago
Afeto e zelo

Tua pele é berço
Aconchego e manto

Teu calar é comunhão com o absoluto
Teu olhar mergulho no infinito

Força propulsora
Que impulsiona e mobiliza

ARMADURA CEROL E CORES

Às vezes esta roupa que me veste há mais de quarenta anos
me parece justa, suja, amarrotada.
Pequena demais.
Armadura de carne e osso que me tolhe os movimentos,
que me tolhe o pensamento que teima em se expandir
além das fronteiras da fala.
Que não cala.
Por isso busco o papel, a caneta, o palco, os jornais.
Abro todas as gavetas.
Vou aos tribunais.
O sonho já não comporta esta alma inquieta
que busca sua própria verdade.
Rasgo a superfície em busca da essência.
Tiro a armadura em busca de ar.
Quero voar.
Ir além do perfume que embriaga.
Quero o mergulho mais profundo,
o som mais verdadeiro.
Quero romper a barreira das horas
e expor minhas feridas para que sequem ao sol.
Quero sentir o sal e o mel de cada lágrima.
A verdade de cada sentimento
e viver com intensidade a maravilha e o tormento de ser.

A pipa c
a
i
como um Haikai pós-moderno.
No chão
à espreita
espera sua desdita:
ser reerguida e enfrentar os ares
Ou ser
d e
s
f
e
i
t
a
em cerol e cores
Tal qual perdidos amores
DUAS MENINAS FIM DE ATO
A menina que mora aqui dentro,
veste vestido curto, de alcinha,
calcinha rendada e esperança.
Ela pensa no futuro como um bicho distante
daqueles de boca grande
que ladram, mas não mordem.
Ela sente medo do escuro
que por vezes povoa os pensamentos da outra,
aqui de fora
Ela chora e pede colo,
mas a outra nem liga;
anda sem tempo
Vive correndo os dedos pelas teclas da hora
em busca de uma rima perfeita
para aplacar seus anseios.
A menina aqui de dentro sonha,
enquanto a outra realiza.
Uma delas profetiza: eu sou poesia,
ela é a prosa
Uma é pura fantasia,
enquanto a outra goza.
Uma é cor de rosa,
a outra vermelho sangue
Uma é valsa,
a outra é tango.
Vivem a convivência diária
de forma complementar:
enquanto uma busca o romance,
a outra só quer casar
São água e fogo,
dia e noite,
claro e escuro,
carinho e açoite
Mas na hora derradeira
a verdade faz-se inteira,
e as duas, lado a lado,
seguem o curso traçado
desta vida entrelaçada.

Quando paralisada a mente
O corpo pulsa em descompasso
Em busca de ar
O pensamento agoniza
Em espasmos
De escárnio e dor
Subjugada a consciência
Jaz
Algemada sucumbe ao medo
Esse monstro de manto encarnado
Que escarra sangue e verdades
Medusa de águas turvas
Transborda tempestades
Éter e saliva
- veneno a escorrer pelas veias

dilacerando carne e córtex
em prolongada orgia

Muralha e grilhões
Claustro e correntes
Falta de ar
Apaga-se a vela
Hiato
Fim de ato

GRÃO ARÁBICO MOMENTOS

Considerado gostoso,
dizem, até, perfumado,
dele quero distância.
Não sou mulher de preconceito,
mas esse tal sujeito
é sempre muito amargo.
Quando em boa companhia,
dá até pra aguentar.
Mas quando chega sozinho ...
Com toda sua empáfia,
sentido-se o rei do pedaço,
confesso: causa-me certo embaraço.
Desconverso.
Viro de lado.
Desprezo.
De bar em bar é saudado.
De boca em boca, louvado.
Êta pretinho invocado!

Intrometido o tipo marca presença,
mesmo sem ser chamado,
na xícara no copo.

Mas como em nada me agrada,
sempre que indagada - Vai aí um cafezinho?
A resposta é a mesma: - Não! Obrigada!

Há momentos de desatar nós
De soltar a voz
Outros há de desertar
E ficar a sós
Há momentos de renunciar o pranto
E mastigar a dor
Cuidar do casulo
Limpar o limo
Varrer o visgo
Refazer o casco
Há momentos de quebrar lanças
Lançar setas
Rasgar couraças
Outros há de abrir vidraças
E embriagar-se de ar
Há momentos de içar velas
Levantar âncoras
E partir
Salgando a pele
Disvirginando o mar
Mudando o rumo
O Curso
A linha de chegada

Há momentos dialéticos
Em que tese e antítese
Não resultam em perfeita síntese
Outros há, entretanto,
Em que, mesmo sem palavra exposta,
Encontramos a melhor resposta
Este é o momento verdadeiro – derradeiro.

O LIVRO PONTO FINAL

Este ser com vida própria, cara, corpo, verso e reverso,
até orelhas tem.
Tem boca e alma,
mas não tem idade.
Clama pela verdade que muitas vezes se cala na fala do autor.
Tem fôlego de gato.
Mais de sete vidas tem.
Cada um que com ele se envolve
sopra-lhe um novo alento
e ao vento voam letras, palavras, pensamentos.
Seguem o rumo dos rios
dos astros, dos mastros e das velas.
Percorrem ruas, vielas, vales e campos.
São abrigo, ponte e poente.
Têm cheiro de mar, terra, sangue e saudade.
São passado e futuro a um só tempo.
Levam-nos a mergulhar em mar revolto, praias mansas.
A voar por altiplanos e lonjuras
aterrizando em nossa própria fantasia.
São magia e encantamento encadernados.
Por isso, muito cuidado com esses seres de papel e tinta
que imprimem em nós
o reflexo de nossa própria voz.

Pé na lama
Pai na forca
Pão no forno
Pé na jaca
Pai do Céu
Pão e mel
Pé no chão
Padre Eterno
Primavera inverno
Pá de cal
Mão na massa
Fermento e sal
Pá de terra
Mar e sal
Corda e cristal
Homem e fera
Luta e espera
Ponto final.
SEDUÇÃO ZERO HORA
Primeiro tocou-me os lábios com lascívia
depois rompeu espaços
penetrando-me
em sua púrpura robustez –
boca língua garganta.
Porque era uma taça de vinho –
nem cravo nem sangue –
em total subserviência a Baco
permiti-me o desfrute.
O translúcido líquido doou-se
em vibrantes acordes
despindo-se em aromas vários
em matizes únicos de sedução.
O silêncio
navalhava o ar
em fúnebres fatias.
O corpo exposto
imóvel imune
ali jazia.