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INÍCIO - ACADÊMICOS - ACADÊMICOS TITULARES - CHRISTIANE MICHELIN
CHRISTIANE MICHELIN - CADEIRA 35 - PATRONO: RAUL DE LEONI

Christiane Michelin é formada em Letras pela Universidade Católica de Petrópolis, RJ, e cursou a faculdade de jornalismo na Universidade Gama Filho, no Rio de Janeiro. Lecionou inglês por muitos anos. Foi coreógrafa do Grupo de Sapateado Michelin, por 18 anos e proprietária do Espaço de Arte e Cultura C. M. É jornalista e escritora. Membro da Academia Petropolitana de Letras, assina uma coluna semanal no Jornal de Petrópolis e outra no Diário de Petrópolis, além de prestar serviços como freelancer em revistas da cidade e do Rio de Janeiro. É autora de O Abecedário do Viajante ( 1999), O Abecedário do Casal ( 2000), Guia de Gastronomia, Hospedagem e Lazer de Petrópolis, Itaipava e Arredores, em sua 8a edição, Os Sete Pecados Revisitados, escrito com a psicóloga Sonia da S. Santos ( 2004) , o romance Convite de Casamento ( 2005), O Abecedário de Pais e Filhos ( 2006) e Convergência, escrito com seu pai, Fernando Magno ( 2007).

ARMADURA CEROL E CORES

Às vezes esta roupa que me veste há mais de quarenta anos
me parece justa, suja, amarrotada.
Pequena demais.
Armadura de carne e osso que me tolhe os movimentos,
que me tolhe o pensamento que teima em se expandir
além das fronteiras da fala.
Que não cala.
Por isso busco o papel, a caneta, o palco, os jornais.
Abro todas as gavetas.
Vou aos tribunais.
O sonho já não comporta esta alma inquieta
que busca sua própria verdade.
Rasgo a superfície em busca da essência.
Tiro a armadura em busca de ar.
Quero voar.
Ir além do perfume que embriaga.
Quero o mergulho mais profundo,
o som mais verdadeiro.
Quero romper a barreira das horas
e expor minhas feridas para que sequem ao sol.
Quero sentir o sal e o mel de cada lágrima.
A verdade de cada sentimento
e viver com intensidade a maravilha e o tormento de ser.

A pipa c
a
i
como um Haikai pós-moderno.
No chão
à espreita
espera sua desdita:
ser reerguida e enfrentar os ares
Ou ser
d e
s
f
e
i
t
a
em cerol e cores
Tal qual perdidos amores
DUAS MENINAS FIM DE ATO
A menina que mora aqui dentro,
veste vestido curto, de alcinha,
calcinha rendada e esperança.
Ela pensa no futuro como um bicho distante
daqueles de boca grande
que ladram, mas não mordem.
Ela sente medo do escuro
que por vezes povoa os pensamentos da outra,
aqui de fora
Ela chora e pede colo,
mas a outra nem liga;
anda sem tempo
Vive correndo os dedos pelas teclas da hora
em busca de uma rima perfeita
para aplacar seus anseios.
A menina aqui de dentro sonha,
enquanto a outra realiza.
Uma delas profetiza: eu sou poesia,
ela é a prosa
Uma é pura fantasia,
enquanto a outra goza.
Uma é cor de rosa,
a outra vermelho sangue
Uma é valsa,
a outra é tango.
Vivem a convivência diária
de forma complementar:
enquanto uma busca o romance,
a outra só quer casar
São água e fogo,
dia e noite,
claro e escuro,
carinho e açoite
Mas na hora derradeira
a verdade faz-se inteira,
e as duas, lado a lado,
seguem o curso traçado
desta vida entrelaçada.

Quando paralisada a mente
O corpo pulsa em descompasso
Em busca de ar
O pensamento agoniza
Em espasmos
De escárnio e dor
Subjugada a consciência
Jaz
Algemada sucumbe ao medo
Esse monstro de manto encarnado
Que escarra sangue e verdades
Medusa de águas turvas
Transborda tempestades
Éter e saliva
- veneno a escorrer pelas veias

dilacerando carne e córtex
em prolongada orgia

Muralha e grilhões
Claustro e correntes
Falta de ar
Apaga-se a vela
Hiato
Fim de ato

GRÃO ARÁBICO MOMENTOS

Considerado gostoso,
dizem, até, perfumado,
dele quero distância.
Não sou mulher de preconceito,
mas esse tal sujeito
é sempre muito amargo.
Quando em boa companhia,
dá até pra aguentar.
Mas quando chega sozinho ...
Com toda sua empáfia,
sentido-se o rei do pedaço,
confesso: causa-me certo embaraço.
Desconverso.
Viro de lado.
Desprezo.
De bar em bar é saudado.
De boca em boca, louvado.
Êta pretinho invocado!

Intrometido o tipo marca presença,
mesmo sem ser chamado,
na xícara no copo.

Mas como em nada me agrada,
sempre que indagada - Vai aí um cafezinho?
A resposta é a mesma: - Não! Obrigada!

Há momentos de desatar nós
De soltar a voz
Outros há de desertar
E ficar a sós
Há momentos de renunciar o pranto
E mastigar a dor
Cuidar do casulo
Limpar o limo
Varrer o visgo
Refazer o casco
Há momentos de quebrar lanças
Lançar setas
Rasgar couraças
Outros há de abrir vidraças
E embriagar-se de ar
Há momentos de içar velas
Levantar âncoras
E partir
Salgando a pele
Disvirginando o mar
Mudando o rumo
O Curso
A linha de chegada

Há momentos dialéticos
Em que tese e antítese
Não resultam em perfeita síntese
Outros há, entretanto,
Em que, mesmo sem palavra exposta,
Encontramos a melhor resposta
Este é o momento verdadeiro – derradeiro.

O LIVRO PONTO FINAL

Este ser com vida própria, cara, corpo, verso e reverso,
até orelhas tem.
Tem boca e alma,
mas não tem idade.
Clama pela verdade que muitas vezes se cala na fala do autor.
Tem fôlego de gato.
Mais de sete vidas tem.
Cada um que com ele se envolve
sopra-lhe um novo alento
e ao vento voam letras, palavras, pensamentos.
Seguem o rumo dos rios
dos astros, dos mastros e das velas.
Percorrem ruas, vielas, vales e campos.
São abrigo, ponte e poente.
Têm cheiro de mar, terra, sangue e saudade.
São passado e futuro a um só tempo.
Levam-nos a mergulhar em mar revolto, praias mansas.
A voar por altiplanos e lonjuras
aterrizando em nossa própria fantasia.
São magia e encantamento encadernados.
Por isso, muito cuidado com esses seres de papel e tinta
que imprimem em nós
o reflexo de nossa própria voz.

Pé na lama
Pai na forca
Pão no forno
Pé na jaca
Pai do Céu
Pão e mel
Pé no chão
Padre Eterno
Primavera inverno
Pá de cal
Mão na massa
Fermento e sal
Pá de terra
Mar e sal
Corda e cristal
Homem e fera
Luta e espera
Ponto final.
SEDUÇÃO ZERO HORA
Primeiro tocou-me os lábios com lascívia
depois rompeu espaços
penetrando-me
em sua púrpura robustez –
boca língua garganta.
Porque era uma taça de vinho –
nem cravo nem sangue –
em total subserviência a Baco
permiti-me o desfrute.
O translúcido líquido doou-se
em vibrantes acordes
despindo-se em aromas vários
em matizes únicos de sedução.
O silêncio
navalhava o ar
em fúnebres fatias.
O corpo exposto
imóvel imune
ali jazia.