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INÍCIO - ACADÊMICOS - ACADÊMICOS TITULARES - CAMILO MOTA
CAMILO MOTA - CADEIRA 32 - PATRONO: NAIR DE TEFFÉ

Camilo Mota nasceu em 24/08/1965 em São João Nepomuceno-MG. Estudou Letras na Universidade Federal de Juiz de Fora, cidade em que participou do conselho editorial do folheto literário Abre Alas na década de 1980. Fundador e editor do jornal Poiésis – Literatura, Pensamento & Arte (www.jornalpoiesis.com), em circulação desde 1993. Membro fundador da Academia de Letras e Artes da Região dos Lagos (Aleart). Membro honorífico da International Writers and Artists Association (IWA). Alguns de seus poemas já foram traduzidos para o inglês, francês, espanhol, grego e russo. Publicou os livros de poesia Cântico (1992), Bálsamo (1994), Tríade (1998) e Século Algum (2001). Reside atualmente em Saquarema-RJ. Contatos: Caixa Postal 110912 – Bacaxá – Saquarema/RJ – CEP 28993-970. E-mail: camilo.mota@gmail.com

APARECIDA SENHORA LUAR DE SAQUAREMA

Para minha mãe

Nossa Senhora acode:
é filha e mãe, mulher e vida.
Dela sorve o fiel a centelha extinta,
vigor de quem não tem para onde mais fugir.
Nossa Senhora acode:
minha mãe sofreu dores,
e o pai, os filhos, tios e tias.
Dores, Senhora, como aquela de ver seu filho partir.
Acode, Nossa Senhora,
porque é simples abraçar a terra,
deixá-la passar entre os dedos,
e sentir-lhe arranhando, de leve,
os pedacinhos da alma
que nela vivem.

ao amigo Gerson Valle

A lua tem júbilos de quem a retém
sem a morte pensar.
Breve companheira do céu, onde foram os
namorados?
— Para a noite longa passear,
fazer carícias,
esconder os prantos.
Lua entre ondas de branco desenhada em vago mar,
corre notícia de pescadores assombrados,
de noites sem afago, de prantos sem namorados.
— Noite dessas vou armar rede
à espera de todos os barcos
que sumiram em vagas brancas de meu luar.
Corre, lua, corre, para dizer do outro lado do mundo
que o dia nasceu do lado de cá.
Volta, lua, volta, que eu também quero namorar.

ORAÇÃO PALAVRAS SIMPLES
Deus é óbvio,
mas só enxergamos labirintos.
Quanto a noite assalta o dia,
para casa corremos:
são muitos os lobos que atravessam os jardins.
Os anjos colhem flores em silêncio.
Nossos corações, em sobressalto,
vêem o medo além das cortinas
e temem o abandono e a solidão
dentro da própria casa.
O que fazer, meu Deus, o que fazer?
Onde buscar, meu Deus, onde buscar?
Uma pétala e um cheiro de almíscar
e um raio de sol e um bocado de sândalo
desprendem-se no ar e sobre a fronte se espelham.
A casa está mais segura.
O medo (onde?) perdeu-se
entre os móveis e paredes vazias.
Os anjos colhem esperanças.
Deus permanece.
O que vale são as palavras simples,
os gestos de amor, a canção romântica.
Meu coração contempla
os mistérios da lua e suas fases,
a conjetura dos astros em suas órbitas.
O peito aberto para sorver o sofrimento do mundo
e sua cura ante o toque do olhar de afeto
queimam rancores e mágoas.
O que vale são as palavras singelas,
como saindo desavisadas em língua fraterna
quase silentes, quase não ouvidas
por humanos ouvidos.
A música no rádio fala do amor que espera,
da alma que anseia, do infinito que penetra
cada poro do corpo do amante.
O que vale são as palavras calmas,
o ritmo evidente do toque das mãos
na face em êxtase da amada mulher,
do homem querido, do filho presente.
O que vale são as palavras íntimas,
a confissão do ausente, a melodia nua
dos pássaros em manhãs de sol.
O que vale são as palavras e seus gestos.
POEMA PARA ABRAÇAR O AMIGO VALPARAÍSO

ao Sylvio Adalberto

Digerir o sol a cada manhã.
Repousar os olhos e viver
a sombra que aquece.
Saber que o silêncio silencia
mesmo que o maior ruído seja
o do coração lembrando a infância.
Curtir o canto sertanejo,
a viola caipira, o peixe no anzol,
as árvores que escurecem com a noite.
Pensar nos amigos que foram
: o regresso ficou para até quando.
O verso fere o conforto dos alienados.
Eu te abraço infantil
como o sopro no dente-de-leão.

Meu bairro tem becos aonde nunca fui: escadas
e portais para o velho mundo. Contornos de tardes
alemãs, cheiros portugueses, alianças de Minas e o
mistério de seus habitantes se inserem nos sentidos.
Tão velhas pedras!... Tintas descascam janelas
cansadas onde a luz morna das lâmpadas abriga casais
e sonhos. É Petrópolis ou Lisboa, São João ou Bonn?
A cidade tem idiomas que nunca aprenderei, e
viagens — leve balançar em trilhos de trem, leve
lembrança de fuga para o imaginário, e o caderno
em que desenhei países cujas fronteiras inventavam
geografias da cor. O morro próximo à escola se
insinua: casebres, tijolos, lama, cachorros, e um
pedacinho de verde nas encostas. O avião de papel,
lançado inocente pela janela, custou-nos um curto
castigo. Pensei que os pássaros fossem mais felizes
em seu destino. Quando fiz primeira comunhão,
ganhei terço, vela e outra razão de ser. Compreendi
o corpo como canto órfico de luz e asas. Só então
fui sozinho à padaria e trouxe dez pães e um litro
de leite. Minha mãe me confortava e ria de minha
ingenuidade: ela sabe que sobrevôo nuvens e que as
palavras estão por nascer.
QUANDO MENOS É MUITO MAIS: A POESIA DE CAMILO MOTA

Prof. Dr. Latuf Isaias Mucci“Todo poema se cumpre às custas do poeta”.
Octavio Paz

Às vésperas do Natal de 2007, recebi um envelope coral, com um ramalhete de rosas raras: 14 poemas, sendo dois em prosa, à Baudelaire, à Octavio Paz, à Eduardo Galeano, à Juan Arias. Publicado, em 2007, pela Thesaurus Editora, de Brasília, o opúsculo forja-se pela verve de Camilo Mota, mineiro, virginiano (nasceu no mesmo dia que Antônio Carlos Villaça, o maior memorialista brasileiro) que garimpa palavras e extrai ouro, metamorfoseado em signos poéticos. Paisagens de ambos os mundos expõe, pois, a visão poética do mundo, projetada pelo Autor que, contrariamente à sua origem, não exale traços barrocos, antes, pelo contrário, enxuga palavras, elimina adiposidades retóricas e configura constelações de signos essenciais, em que quanto menos retórica tanto melhor para a significância infinda. No entanto, longe de uma dicção dura, aparentada, por exemplo, a um concretismo mal digerido, o discurso poético de Camilo Mota opera uma sensibilidade à flor da palavra, signo privilegiado no discurso humano.

O libreto inaugura-se com o poema metalingüístico “Palavras simples”, que se inicia com o verso leitmotiv “O que vale são as palavras simples”, que se torna um refrão ressignificado: “o que vale são as palavras singelas”, “o que vale são as palavras calmas”, “o que vale são as palavras íntimas”, “o que vale são as palavras e seus gestos”, estruturando a poética do poeta que abraça, com o verbo, o mundo e a humanidade. “Poema para abraçar o amigo” soa como uma canção, um “canto sertanejo”, um contracanto ao poema-canção “Casa no campo”, de Zé Rodrix, hino entoado por toda uma geração hippie. Poema em prosa, vincado de sedutor lirismo, “Valparaíso”, diário poético, traz lembranças, sonhos e a promessa infantil da poesia por (re)nascer. “Aparecida Senhora” ecoa o sentimento místico mineiro e eleva uma prece, dedicada à mãe, em seu altar. Já, em “Luar de Saquarema”, o poeta celebra, a paixão que todos nós, vindos de Minas e de alhures, cultivamos por esta cidade de lagos, mares e montanhas. Bendita seja Saquarema, enluarada, ensolarada, que abriga poetas do insigne jaez de Camilo Mota, Roseana Murray e Walmir Ayala, pai de todos, e que gerou Nelsinho, pintor de suas paradisíacas paisagens. “Oração” reedita o lado religioso da tradição mineira e se inaugura com um par de versos, que constituem um instigante aforismo: “Deus é óbvio,/ mas só enxergamos labirintos”. No meio do opúsculo, uma obra-prima – “Quatro paisagens de ambos os mundos” - que não posso deixar de transcrever por inteiro: “ O silêncio/ faz simetria/ com os girassóis.// O silêncio é risco, trégua e plano. // Réguas, pipetas, balanças,/ métrica alguma o alcança.// Na rua o menino dorme/ sob rotos jornais:/ não sabe ler os próprios sonhos.// Galos dormem/ o mesmo sonho dos homens:/ guardam sob si os pés de prata e ouro”. Temos aí o “Homem de Vitrúvio” em versão poética: a régua, o compasso e o sentimento solidário do mundo miserável, onde sonhos infantis são roubados; sabedor desse poema lapidar, Leonardo da Vinci terá gozado em seu túmulo marmóreo. Texto hipertextual, o poema seguinte - “Lição infinitiva” – retoma o silêncio geométrico do poema anterior e a criança “que aprende a ver o mundo/ como o melhor dos brinquedos”; insere-se um intertexto com outro poeta-prosador mineiro – Guimarães Rosa -, quando se inscreve “o porém das coisas”; um segundo intertexto - “Inocente como a ave que retorna ao ninho” - remete ao carioca Luís Guimarães Júnior, poeta da minha longínqua infância, cujo poema “Visita à casa paterna”, assim se inicia: “Como a ave que volta ao ninho antigo”. “Aniversário mítico” é poema em prosa ou prosa poética, que poderíamos considerar um texto tirado da Bíblia ou, mais especificamente, um fragmento do Gênesis, dado que fala da origem da poesia e das origens de certa poesia: “De longe, um eco lhe devolve o primeiro suspiro ao ver de súbito a essência da vida num dia de sol”. De novo, tange-se a corda mística com “Mãos de luz”, poema pequeno, súbita iluminação que (des)vela o mistério. O próximo poema – “Verdades” – transtorna o ritmo até então impresso e tem um tom coloquial, prosaico, quase banal, demonstrando que o poeta é um ser humano, demasiadamente humano, “um ser comum,/ que trabalha, sonha, permanece e ama”. Para além da paternidade poética comum, os três derradeiros poemas apresentam significativas semelhanças: “Exílio” é dedicado ao pai – João de Deus (que belo nome) -, ao passo que “Lírica no. 1” é endereçado a Regina (esse nome latino traduz-se, no vernáculo, por “rainha”) Mota, esposa do poeta enamorado; o poema final intitula-se “Canção do exílio”, onde o paradigmático “exílio” é retomado. Em “Exílio”, resgata-se a memória ancestral do pai, retratado em lembranças místicas, rurais e saudosas: “A memória do pai é uma multidão de dias não contados”. Ao contrário da psicanálise mais ortodoxa, que decreta a morte do pai, a Poesia ressuscita o pai, repertório de sonhos, ficções, horizontes. Por seu turno, “Lírica no. 1” me exige, tamanha a beleza, uma inscrição por inteiro nesta minha resenha natalina: “a mulher que me anima/ se aninha a meu lado/ pedindo passagem / ao desejo e ao sonho/ será eva ou ninfa,/ cantora de sortilégios?/ ela se despe/ como um soneto/ ao sol/ mistérios de olhos límpidos”. Aposto que, lá no Olimpo, Walmir Ayala chora cada vez que lê esse sublime poema, metalingüístico, erótico, plástico, arquetípico. Ópera breve, o libreto fecha-se com “Canção do exílio”, título emblemático do poema romântico de Gonçalves Dias, o poema mais glosado de toda a literatura brasileira. Essa releitura pós-moderna estrutura-se, como a poética de Camilo Mota, sob a égide da metalinguagem. Referindo o romantismo, estética inaugural da identidade cultural e literária nacionais, essa canção do exílio saquaremense reassume a poética do jovem poeta e reenvia ao romântico francês Lautréamont, pai de todos os surrealistas, “leitura obrigatória”. Foi esse “conde” da modernidade quem criou o eufórico aforismo: “A poesia deve ser feita por todos, não por um”.

Se o universo é uma linguagem e se Mallarmé, de acordo com Octavio Paz, mostra-nos o reverso da linguagem, Paisagens de ambos os mundos, de Camilo Mota, apresenta florações da linguagem, constituindo uma antologia, com peregrinas rosas para cada Natal, enquanto a Poesia insistir, para o bem de todos, em renascer.