Com fios de nuvens bordei uma ovelha,
com gotas de orvalho meu pranto verti,
do estrondo do raio tirei a centelha
e a flor que nasceu, a prieira colhi.
Da humana fraqueza tirei suas dores,
da força do vento senti só a brisa,
pintei, no arco-íris, enfim, novas cores
que só um dotado poeta divisa.
Imagens caladas com força no fundo,
num rico preceito, difuso e disperso,
de quem se deteve num sono profundo.
Então, me senti qual senhor do universo
capaz de mudar mesmo a face do mundo,
calcado somente da força do verso. |
Calcado somente na força dos versos,
Pensei ser capaz de fazer as mudanças,
Mudanças profundas sem ter os dispersos
Desvios dos rumos de minhas andanças.
E são tais devaneios dos mais diversos,
Causados por tantas e tais esperanças,
Profundos abismos, caminhos inversos,
Depois de vencidos nem deixam lembranças.
E assim foi chegando ao fim, tristemente,
O sonho sonhado de forma veraz
E cujo lamento maior foi, somente,
A perda de minhas certezas cabais,
De mim arrancadas de forma patente,
O mundo invencível não muda jamais... |