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Cadeira 22
Patrono: Henrique Paixão Jr.

Vera Abad

Vera Lúcia Salamoni Abad nasceu em Petrópolis, RJ em 1943. Fez o Curso Normal no Colégio Santa Isabel e depois, na Universidade Católica de Petrópolis, formou-se em Letras Anglo-Germânicas em 1966. Inicialmente exerceu o magistério primário, como alfabetizadora, e depois dedicou-se ao ensino da língua e literatura inglesa.
Sua obra literária começou a vir a público apenas recentemente, a partir de 2001, com a publicação de “Deliciosa Herança” sobre a colonização germânica em Petrópolis, e “Cartas para Mariana” um romance epistolar sobre a juventude dos anos sessenta.
Recentemente teve o conto “Morrer de Paixão” escolhido entre os finalistas do Concurso Contos do Rio e fez parte da coletânea publicada em 2005.
Sua obra poética vem sendo publicada em periódicos locais, tendo sido bem recebida pela crítica, o que lhe valeu assento na Academia Brasileira de Poesia – Casa de Raul de Leoni. Uma coletânea de poemas tendo como tema “o amor” foi publicada em 2006 com o título “Para Dizer que te Amo”.
Palestrante da Universidade da Mulher da Universidade Cândido Mendes, Membro da Academia Petropolitana de Educação, tem feito palestras em várias instituições culturais, como o Cenáculo Fluminense de História e Letras, em Niterói, o Rotary Club Sul e Itaipava e o “Arte de Poetar” do SESC_Riode Janeiro.
Estão programados para lançamento até o final deste ano: “História e Geografia de Petrópolis para o Ensino Fundamental”, “Postais_Imagens Poéticas de Petrópolis” e o romance “Caixa de Costura”, aguardando o interesse de uma editora.

O OCASO

O ocaso não é um fim.
Quando o sol se põe,
Esconde-se só de mim.
Em outra parte do mundo,
Ele nasce, e resplandece
E lá, outra gente se esquece
Da escuridão da noite
Para viver outro dia.

A terra gira, dá uma volta
E ele volta,
Sempre retorna, sim.
Mesmo por trás de uma nuvem,
Tão escura e espessa
Que sua luz escureça;
Mesmo escondido na névoa
Que seu brilho embaça;
Mesmo seu calor varrido
Pelo frio vento
Que sopra e passa.
Em certo tempo,
Ele volta.

A terra gira
E ele aparece
E de novo aquece
Um novo dia.
Basta a terra girar.
O tempo é circular.

 

FILHA DO LÍBANO

Trago no corpo o calor das areias,
o bronze e o brilho que o sol lhes empresta.
Tenho das dunas tangidas de vento
curvas, recantos, encantos, no entanto...
Não sou filha do deserto.
O deserto fica perto do lugar onde nasci.
Venho de montanhas muito antigas,
embaladas por cantigas de velhos monges em oração.
À sombra da cruz e do crescente, alma inocente,
criança, amiga, amante, esposa, mãe paciente.

Sou filha das montanhas cujos seios o cedro perfuma,
de onde brotam veios de água fresca que espuma
em véus de cascatas cobrindo as encostas
a caminho do mar.
Sobre o mar, faíscam as pedras
que minha fronte adornam
o olhar sobre o horizonte ao longe
à espera dos que nao retornam.
Os véus que me cobrem, encobrem mistérios
que antigos impérios quiseram conquistar.
Guerreiros, peregrinos, aventureiros
julgaram em odores e sabores os desvendar.

Pois tenho em meu corpo o sabor do oriente
fruto e semente, erva e essência,
milenar consciência de prazer sensual.
Do mel, a doçura, forma e textura
de figos, damascos, melões, tâmara madura.
Frescor da menta, tempero de canela.
Dizem que tenho os olhos como os da gazela
e seu gracioso andar.

Por onde passo , fica meu perfume
de almíscar, sândalo e rosa.
Vinho de uva mais preciosa,
inebriante é o meu cantar.

Porém, os que creram na aparência,
perderam-se, sem encontrar a essência
do segredo que escondo.
Fruto da sabedoria de milênios de apuro.
Creiam em mim, eu juro,
não sou um fim, engana-se quem assim pensa.
Nem a paixão, a paz ou a recompensa.
Prêmio da maior ousadia,
castigo da pior covardia.
Céu ou inferno.
Trago em meu ser, para quem procura,
o bálsamo, a resposta, a cura.
Sou o caminho do viajante, o bastão do peregrino
levando-o comigo ao encontro final de seu destino.

A DAMA DAS SOMBRAS

Em noites escuras,
Por estradas inseguras,
Por atalhos e desvios,
Pelos vales sombrios,

Ela vem,
A dama das sombras,
Ela vem só.

Ela anda
À beira do precipício
Entre a alegria de um início
E o desalento do fim.
Ela vem assim,
Na lufada do vento
Que lhe bate a janela,

É ela.
A dama das sombras
E ela vem só.

Esconde-se
Nos anseios secretos
Nos olhares indiscretos
Nos gemidos de prazer.
Nas palavras não ditas
Em infelizes desditas
No adeus impossível de dizer.

Ela é a dama das sombras
Ela vem só.

Caminha
Nos desejos ocultos
Nos sonhos insepultos
No tremor de arrepios
De prazeres fugidios
Nos suspiros da ausência
Na angústia, na impaciência,

Ela vem.
A dama das sombras
Ela vem só.

Rodeia
O abismo das cisões
Das difíceis decisões
Na insatisfação
Da emoção contida
Na lágrima vertida
No amor de ilusão.

É ela,
A dama das sombras
Ela vem só.

Ela vem
No perfume noturno da flor do pecado
No lume soturno do luar velado
No quarto vazio
No toque macio
De sua pele nua.
Mas ela não é sua.

Ela é a dama das sombras
Vestida de estrelas
Desfila nas noites
Na sombra que a traz.

Ela é só
A essência do nada
Para sempre derrotada
Quando a luz se faz
À sua revelia
E tudo se entrega
À fada do dia.

 

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